Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Luiz Carlos Antunes (Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), , Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).

BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

(Saborosas) Memórias da CJL XIII

30 julho 2004

Ontem, no Mistura Fina, o jazz rolou solto. Casa cheia, platéia ansiosa para relembrar dos bons "momentos Dexter", que todos que já o ouviram mantém de alguma maneira guardados na memória, e muito, mas muito profissionalismo por parte da banda.

Daniel Garcia, o líder, demonstrou a todos que, quando há envolvimento e interesse, músicos nacionais podem se equiparar a certas atrações internacionais que são trazidas ao Rio ou a São Paulo e que, eventualmente, lotam casas noturnas pelo simples fato de serem "de fora", sem que seu desempenho necessariamente mereça tal prestígio.

Tendo efetuado dois grandes ensaios específicos para o concerto de ontem, Garcia e banda subiram ao palco decididos a não deixar pedra sobre pedra. Assim foi. E a platéia, salpicada de assíduos fãs do que há de melhor no jazz instrumental que se toca no Rio de Janeiro - aqueles que vão em busca do que realmente faz diferença -retribuiu com o calor de suas exclamações e aplausos à afiada performance do quinteto.

Os temas se sucediam e a atenção do público se fixava, reverentemente, nas atuações dos profissionais que, ali, estavam dando seu melhor esforço para não perdê-la. Ontem, a noite transcorreu toda nesse clima caloroso, de parte à parte.

Uma platéia qualificada, como a que temos levado ao Mistura Fina, é coisa bem distinta daquela que vai ao barzinho da esquina tomar um chopp enquanto dois ou três sujeitos "tocam um jazzinho". Atuar para ela requer estar preparado. Felizmente, temos conseguido atingir nossa meta de levar um belo jazz a quem se importa e se interessa por isso. Até temos de nos policiar para não soar grosseiros quando pedimos silêncio a alguns circunstantes menos "engajados", tão ávidos ficamos para aproveitar cada passagem em toda a sua plenitude.

Bons amigos que foram pela primeira vez, soaram unânimes ao elogiar o nível do jazz apresentado, sem que tais afirmações possam ser levadas só na conta de comentários "de amigo". Detalho:

Um deles declarou-se emocionado pelo fato por ter-lhe sido possível relembrar com saudade dos tempos em que, já economista, cursava seu mestrado na gélida Chicago, devorando (e sendo devorado por) livros cabeludérrimos de manhã à noite. Contou mais que, cansado, ele e colegas só relaxavam à noitinha e que seu programa favorito para isso era exatamente ir para um bar de jazz e deliciarem-se com aquelas maravilhas que a noite jazzística de Chicago lhes provia. Essa mera comparação muito nos orgulhou.

Outra pessoa, récem-chegada de Roma, disse que o que mais vinha querendo ultimamente era ouvir um bom jazz, de alto nível. E, bastante empolgada, declarou-me que o havia encontrado ali, ontem. Passou-me seu email, pedindo para que não esquecêssemos de convocá-la para a produção seguinte. Ficou registrado e assim será.

Uma terceira e uma quarta me fizeram sorrir ao final, pois enquanto uma desejava transportar aquele "pacote" musical completo, sem mexer em nada, para sua própria casa, a outra sondava a possibilidade de levá-lo para Belo Horizonte, onde mora, de forma a fazer os amigos acreditarem no que irá relatar lá chegando. E por sua empolgação, que belo relato será.

Tais depoimentos, mesmo descontada a simpatia implícita, são boa recompensa, pois poder apreciar todas as especiarias descritas no título do CJUB ainda dividindo-as com amigos que as apreciam igualmente, não tem preço.

Então, nosso agradecimento aqui, aos músicos pelo seu empenho em brindar-nos com o seu melhor. E à presença de platéia tão interessada.

Aguardemos, pois, a resenha técnica, já adiantando que no mês de agosto teremos uma atração internacional, o trio New York Jazz, complementado por três outros excelentes músicos paulistas, num concerto desta vez mais voltado para o "traditional jazz". Voltem para mais detalhes em breve.

Abração.

Dizzy Gillespie no Brasil, 1956 - Série, por Arlindo Coutinho

continuação

III.

Na véspera da sua ida para São Paulo, Dizzy encontrou o Maestro Cipó após seu concerto de encerramento no Teatro República. Recusando vários convites para jantar, homenagens, etc, me chamou no canto do camarim e sussurrou: "Vamos sair daqui e vamos ao encontro do samba". Apesar de alegar que teria de acordar cedo, e dizer a John (Birks Gillespie, para quem não leu as partes anteriores) que estava cansado e que em meu lugar iriam acompanhá-lo o Lula (Luiz Carlos Antunes) e Pézinho (Antonio Luiz Figueira Barbosa), Gillespie me falou: "Eles podem ir, mas você vai comigo também, e de bonde". Depois soube que Lula e Pézinho foram jantar com Quincy Jones. E essa história, conto depois.

Saímos do República por volta da meia noite, de carona com outro jazzista, o saudoso Alex Kitover, que nos levou até a boate Beguine, onde Cipó atuava com seu quinteto, o Copa 5, onde figuravam ele próprio, no sax tenor, Luiz Marinho ao piano, Julio Barbosa no trompete, Vidal no contrabaixo e Sut Chagas na bateria. Ao chegarmos John se surpreendeu com os arranjos do Cipó e me perguntou: "O que é isso?" Respondi-lhe que Cipó tocava samba-bop (sambop, para alguns).

Aqui, um parenteses. O primeiro disco de bebop gravado no Brasil foi um de 78 rpm, selo Sinter, lançado em 1955 com os músicos que venceram em sua categoria o concurso promovido por Paulo Santos em seu programa "Em tempo de jazz" ma Rádio MEC, "Inetta", de composição, arranjos e regência do Maestro Cipó.

Gillespie ficou doido. Gritava, aplaudia e, para delírio nosso, foi chamado ao palco para uma noite inesquecível. A jam terminou bem tarde, cerca das 4 horas da manhã. Cipó e Gillespie ainda traçaram ali planos futuros, com Cipó comprometendo-se a levar John a um ensaio de escola de samba na próxima vinda deste ao Brasil, o que de fato ocorreu anos mais tarde.

À saída, lembrei-me de perguntar a John a que horas sairia seu vôo para São Paulo, já que ele teria de viajar ainda naquele dia. Para variar, ele de nada sabia. E já se iam uma oito da manhã quando Gillespie resolveu ligar para sua mulher Lorraine e perguntar a que horas seria o vôo. Quando soube que seria às 3 da tarde, disse: "Temos tempo, vamos tomar o café da manhã". Cipó gentilmente recusou o convite, alegando ter compromisso com uma gravação, etc., e se mandou. Adivinhem para quem sobrou o "breakfast"?

A essa altura eu não sentia mais nada, só me lembrava que teria de trabalhar com a mesma roupa pois não havia mais tempo de ir em casa. Dizzy e eu conversamos sobre o que aconteceu naquela noite, ele havia ficado impressionado com a qualidade dos músicos brasileiros pois não podia imaginar que aqui também havia dessas "usinas" musicais, na arte de fabricar swing e disse que até então via nos músicos cubanos uma nova visão musical, em termos de criatividade. E disse que a partir dali iria se aprofundar nos ritmos brasileiros.

Estavamos assim conversando quando a doce figura de Lorraine chegou, me cumprimentou e disse, naquele seu tom delicado: "John, acho melhor você descansar um pouco, escolher a roupa que vai usar pois vou fazer compras na cidade e já volto. Vá dormir pois temos muito o que fazer em San Paolo". Isso foi tudo. Despediu-se e saiu. Esse foi o gancho para que eu também decolasse, para tomar um banho, mudar de roupa e talvez ir trabalhar. Ao me despedir, John me disse: "E você não vai ao aeroporto?"
"Claro que vou!", disse eu. Marquei a hora e fui à luta.

Quarenta minutos antes do embarque, cheguei lá e encontrei todos os músicos menos o boss. Falando com Quincy Jones, Benny Golson e Phil Woods, manifestei minha preocupação pois o tempo passava e ele não aparecia. Então Golson me disse: "Se você quer continuar amigo dele, não faça perguntas sobre o atraso do John. É assim mesmo. Quando se fala em aviões, ele é o último a embarcar. Lorraine já tratou de tudo".
Isso dito, nada mais perguntei sobre o assunto e aproveitei para me despedir dos músicos dos quais ficara amigo.

Foi quando vi, no check-in, Melba Liston e Lorraine. Fui até eles, fiz as despedidas de praxe e fiquei aguardando John. Faltavam exatos dez minutos para a partida do vôo quando "ele" surgiu. Ao me ver, gritou: "Hey, Coutino (!), are you ok? You look like shit!". Mais uma vez ele estava certo, ele inteiro e eu um caco, a barba por fazer, o terno amarfanhado e louco de cansado.
Despedimo-nos, com os agradecimentos de lado a lado, eu com a alegria de ter conhecido uma das mais fantásticas e extraordinárias figuras humanas que encontrei em minha vida. Nessa despedida inicial, meus olhos se encheram de lágrimas. Era o início de uma amizade que iria durar quase quarenta anos.

Queria, finalmente, fazer o registro da excepcional banda que veio ao Brasil nessa oportunidade.

Trompetes: John Birks "Dizzy" Gillespie, World Stateman, cidadão do mundo; Quincy Jones; Bama Warwick, Emett V. Perry;
Saxofones Altos: Phil Woods, Jimmy Powell;
Saxofones Tenores: Benny Golson, Billy Mitchel;
Saxofone Barítono: Marty Flax;
Trombones: Melba Liston, Frank Rehack, Rod Levitt;
Piano: Walter "Baby Face" Davis Jr.;
Contrabaixo: Nelson Boyd;
Bateria: Charlie Persip.

Fim da Primeira Série

DEXTER GORDON REVIVE NO MISTURA FINA

29 julho 2004

É, foi ao pé do Cristo Redentor, no estúdio Floresta, o último ensaio do Daniel Garcia Quinteto, antes do concerto de logo mais, onde definitivamente assistiremos a incorporação quase completa do grande Dexter Gordon, principal homenageado da noite, em mais uma produção do CJUB tendo como mestre de cerimônias o nosso sempre entusiasmado Arlindo Coutinho.

Abaixo segue a set-list, para o deleite antecipado de todos, a saber:

1o. Set:

1) For Regulars Only
2) Stick Wicket
3) Fried Bananas
4) Soy Califa
5) The Rainbow People
6) Dexter Digs In

2o Set:

7) Laura (em duo, Daniel Garcia e Dario Galante)
8) Jardim (Daniel Garcia)
9) Montmartre
10) Round Midnight (Thelonious Monk)
11) Tangerine (Victor Schertzinger)
12) LTD

Bis - Domingo (Daniel Garcia)

Last but not least, registro que lá estará sendo lançado extra-oficialmente o CD "Caminho", do Daniel Garcia com os mesmos Dario Galante (piano), Augusto Mattoso (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria), cuja apresentação é de ninguém menos do que dos nossos José Domingos Raffaelli e Arlindo Coutinho.

E BOM CONCERTO A TODOS !!!

BANDA MANTIQUEIRA, 23/07/2004, MISTURA FINA @@@@

28 julho 2004

A Banda Mantiqueira é, simplesmente, uma big band espetacular.

Essa percepção, deixada já em sua passagem por Free Jazz de vários anos atrás e bissextas aparições pelo Rio, ficou ainda mais clara, agora que, após bom tempo, finalmente o público carioca reencontrou-se com o combo paulista.

A orquestra, tão justo é seu entrosamento, dá-se ao luxo até de dispensar a presença de seu band leader e principal arranjador, o excepcional altoist Nailor Proveta (excursionando com Joyce, no Japão), mas ainda assim arrancando a mesma impressão de excelência e tendo como porta-voz ad hoc, na noite da última sexta-feira, Valmir Gil (trompete e flugelhorn), ao lado de Cacá Malaquias (sax-alto e clarinete); Carlos Alberto Alcântara (sax-tenor e flauta); Vitor Alcântara (sax-tenor, sax-soprano e flauta); Ubaldo Versolato (sax-barítono, flauta e piccolo); François de Lima (trombone de válvulas); Valdir Ferreira (trombone de vara); Odésio Jericó e Nahor Gomes (trompete e flugelhorn); Marinho Andreotti (baixo elétrico); Jarbas Barbosa (guitarra); Lelo Izar (bateria); e Fred Pince e Vinícius Barros (percussão).

O enfoque, no repertório, é a música brasileira, porém sempre com discurso jazzístico, abrindo-se espaço para generosos choruses de todos os solistas, pontuados por riffs longe do óbvio, fruto dos arranjos engenhosos e muitas vezes de dífícil execução, que a perfeita interação coletiva parece enfrentar sem maior esforço.

Realmente chamam a atenção, na Mantiqueira, o esmero na construção dos arranjos, com a preferência por determinadas estruturas, como, p. e., exposição dos temas a princípio por dois instrumentos somente (alto/flugel ou alto/trombone) em uníssono ou harmonizados -, como em Airegin (S. Rollins) e Insensatez (Jobim); e o embate entre palhetas (reeds) e metais (brass) travado de modo espetacular no bis, Linha de Passe (Bosco/Blanc/Emílio).

O set, iniciado com outra composição da dupla Bosco/Blanc, Prê-à-Porter de Tafetá, trouxe ainda dois medleys,o primeiro, canções de Dorival Caymmy (Samba da Minha Terra e Saudade da Bahia), outro, com clássicos nordestinos, como Pau-de-Arara (Luiz Gonzaga/Gui de Moraes), Último Pau-de-Arara (Venancio/Corumba) Qui nem giló (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), numa profusão de variações rítmicas e de andamentos, no melhor estilo Mingus de orquestrar, inclusive com um interlúdio exclusivo para o sax alto e a zabumba.

Destacou-se também a imponência do tratamento dado ao tema de Proveta, À Procura, com introdução solene, remetendo a Ogerman, e privilegiando o uso constante das flautas e piccolo.

Feminina (Joyce) trouxe riffs superpostos e cruzados, num verdadeiro puzzle orquestral, perfeitamente encaixado, entretanto, na alegria contagiante do tema, que inspirou solos luminosos, em verdadeiro tour-de-force coletivo.

Com este grau de competência, vale a pena uma ponte aérea semanal às 3ªs, quando a Banda Mantiqueira regularmente se apresenta no Supremo, em São Paulo. Sorte deles.

Uma menção muito honrosa

25 julho 2004

Assim é como fomos mencionados pelo jornalista Tárik de Souza em sua mais do que abrangente coluna semanal das sextas feiras no JB, a tradicional e sempre cheia de novidades "Supersônicas". Valeu, Tárik!

E a propósito, nosso concerto foi mencionado neste domingo nas colunas de Ancelmo Góes, no O Globo, e no Caderno H do JB, como parte da agenda de "coisas a fazer" da próxima semana. Nosso agradecimento, portanto, à colunista Hildegard Angel e sua equipe e ao sempre gentil Ancelmo .


"OUR HEROES"

23 julho 2004

A "Down Beat" na sua edição de Julho, que comemora seu Septuagésimo aniversário ( já brilhantemente divulgado aqui pelo Raf ), traz como matéria única a indicação e comentários de diversos musicos, daqueles que foram suas inspirações ou ídolos, dos quais relaciono alguns (30) sem qualquer ordem de preferencia ou credo, a saber:

1) Sonny Rollins, cuja primeira inspiração foi Louis Jordan, até ouvir Coleman Hawkins tocando "Body and Soul", quando descobriu seu verdadeiro ídolo.
2) Branford Marsalis / Sonny Rollins
3) Wayne Shorter / Charlie Parker
4) Greg Osby / Wayne Shorter
5) Michael Brecker / John Coltrane
6) Jimmy Heath / Dizzy Gillespie
7) Steve Lacy / Duke Ellington
8) Benny Golson / Don Byas
9) Jackie McLean / Dexter Gordon
10) Joshua Redman / Stan Getz
11) Eric Alexander / George Coleman
12) Tom Harrell / Miles Davis
13) Steve Turre / J.J. Johnson
14) Horace Silver / Thelonious Monk
15) Randy Weston / Duke Ellington
16) Cedar Walton / Nat King Cole
17) Marian McPartland / Bill Evans
18) Herbie Hancock / Oscar Peterson & George Shearing
19) Percy Heath / Ray Brown
20) Ron Carter / J.J. Johnson
21) Nasheet Waits / Max Roach
22) Al Foster / Miles Davis
23) Bobby Hutcherson / Milt Jackson
24) Paul Motian / Thelonious Monk
25) Andrew Cyrille / Cecil Taylor
26) Jeff "Tain" Watts / Elvin Jones
27) Bill Frisell / Wes Montgomery
28) Charlie Haden / Johann Sebastian Bach
29) Andy Bey / Sarah Vaughan
30) Cassandra Wilson / Miles Davis

Lembro também que na edição de Agosto da mesma "DB" lançada nos EUA esta semana, tem a escolha dos críticos (52a.) dos musicos, discos etc... do ano de 2003, que elegeu Roy Haynes para o tradicional " Hall of Fame ".

XIII CHIVAS JAZZ LOUNGE - Tributo a Dexter Gordon

20 julho 2004

O grupo de amigos e entusiastas de jazz que forma neste CJUB preparou, para o próximo dia 29 de julho, às 21 horas, no Mistura Fina (Av. Borges de Medeiros 3207 - Lagoa, tel. 2537.2844) um Tributo a Dexter Gordon, dentro da série Chivas Jazz Lounge, patrocinada pela Pernod-Ricard do Brasil, produtora do whisky Chivas Regal.

Com um quinteto liderado pelo saxofonista Daniel Garcia, a perspectiva é a de se trazer aos aficionados o som característico, a força interpretativa, a sensibilidade e a arte de Dexter Gordon, um dos maiores saxofonistas de todos os tempos, cujo sopro firme e constante, aliado ao seu lirismo, além de sua parca preocupação com o virtuosismo, fizeram de sua obra um legado bastante importante dentro do panorama jazzístico. Uma cuidadosa escolha de repertório buscará recuperar alguns dos momentos mais marcantes da sonoridade característica de Dex.

Junto a Daniel estarão: Dario Galante, piano; Altair Martins, trompete; Augusto Mattoso, contrabaixo acústico e Rafael Barata, bateria. Todos esses músicos, em vista de sua excelência no ambiente jazzístico carioca e brasileiro, já tiveram oportunidade de apresentar-se anteriormente dentro da série de concertos promovida pelo CJUB, desde maio de 2003.

Daniel Garcia, saxofone tenor, é bastante atuante na música instrumental brasileira, participando ativamente no mercado de gravações e shows com renomados artistas da MPB tais como Edu Lobo, Caetano Veloso, Gonzaguinha, Marcos Valle, Johnny Alf, Eduardo Dusek, Nélson Gonçalves, Zé Renato, Cláudio Nucci, Maria Bethânia, Alcione, Elba Ramalho, Nana Caymmi, Beth Carvalho, Virginia Rodrigues, Itamara Koorax, Ana Carolina, Alceu Valença, Roberto Carlos, Martinho da Vila, Ed Motta, Titãs, etc. Com artistas internacionais, já acompanhou Stevie Wonder e Michel Legrand e, como convidado da Orquestra Sinfônica Brasileira, tocou como solista ao lado de Arturo Sandoval quando de sua vinda ao Brasil.
Daniel fez parte da Orquestra da Rede Globo de Televisão, acompanhando vários artistas nacionais e internacionais e também gravando diversas trilhas para novelas. Participou de várias edições do Free Jazz Festival, com Marcos Ariel, Túlio Mourão, Stevie Wonder e a Víttor Santos Orquestra. Na área da música instrumental esteve ao lado de nomes como César Camargo Mariano, Luís Eça, Pascoal Meirelles, Toninho Horta, Osmar Milito, Túlio Mourão, Monique Aragão, Ronaldo Cazes, Marcos Ariel e Dôdo Ferreira, entre outros. É fundador do quarteto de saxofones Saxofonia ao lado de Idriss Boudrioua.

Altair Martins, trompete, é um dos músicos que mais se destacaram em gravações e shows nos últimos anos, no Brasil. Estudou com Mark Zauss nos Estados Unidos e, nessa oportunidade, participou da big-band do baterista americano Bob Grauso. Foi o trompetista da banda de Bob Mintzer no Festival de Ouro Preto, tocou no Free Jazz de 1996 ao lado de Paulinho Trompete e atua em shows de artistas como Francis Hime, Emílio Santiago e Alceu Valença, entre outros. Membro de destaque do naipe de trompetes da big-band carioca UFRJazz Ensemble, é considerado por José Domingos Raffaelli um dos melhores improvisadores de jazz do país.

Dario Galante, piano, é napolitano radicado no Rio de Janeiro desde 1986. Na Itália, tocou com inúmeros grupos de jazz como os de Alessandro di Puccio, Fabbio Morgera, Paolo Fresu, e etc. Chegando ao Brasil, ganhou a admiração e o respeito de músicos com quem tocou como Raul de Souza, Robertinho Silva, Mauro Senise, Carlos Malta, Paulo Russo, Romero Lubambo, Claudio Roditi, Rildo Hora, entre diversos outros. A partir de 1992, permaneceu em cartaz por 2 anos com espetáculo pelo qual celebrava o 10o. aniversário da morte de Thelonious Monk, de quem é admirador, obtendo grande sucesso de crítica e público. Teve seu CD "Harmonia" - gravado em 1996 na companhia de Mauro Senise, Ivan Conti, Idriss Boudrioua e Jorge Helder, no qual constavam seis composições próprias (além de outras três de Monk e outra de Duke Ellington) - incluído no "Guia de Jazz em CD", de Luiz Orlando Carneiro e José Domingos Raffaelli. A esse trabalho seguiram-se, em 1999, "Brasileiro" e "Marakablu". O primeiro explicitou seu envolvimento com o jazz e os ritmos brasileiros do samba, a bossa nova e o chorinho. O segundo, na companhia de Paulo Russo e Andrew Scott Potter, misturava blues, jazz e maracatu e foi indicado ao Grammy Latino em 2001, no que seria a primeira experiência do chamado Rio de Janeiro Jazz Trio. Em 2000, repetiu a dose com Russo e Potter, gravando "Pulso Forte".
Dario é presença constante em diversos dos mais importantes festivais de jazz, no Brasil e no exterior, onde tocou recentemente em Montréal (Canadá) e em Marciac (França). Neste último, apresentou-se com o octeto de Cláudio Roditi, para uma platéia de oito mil pessoas, no espetáculo intitulado "52nd Street in Rio", com amplo sucesso de crítica.

Augusto Mattoso, contrabaixo acústico, é discípulo de um dos maiores mestres do contrabaixo brasileiro, Paulo Russo. Já tocou na Rio Jazz Orquestra, na Orquestra e Coro Brasil Barroco e no grupo Tríade, além de ter-se apresentado com inúmeros músicos importantes no cenário instrumental brasileiro como Hélio Delmiro, Ion Muniz, Délia Fischer, Paulo Moura, Mauro Senise e Nivaldo Ornellas. Atuou durante cinco anos na Orquestra de Camara da Uni-Rio, no período em que lá cursou seu bacharelado(96\01). Tem acompanhado o saxofonista Carlos Malta no Brasil e no exterior. De forma bem constante, participa do trio do pianista Osmar Milito, complementado pelo baterista Rafael Barata. Reputa sua maior influência no contrabaixo como sendo a recebida de Eddie Gomez. É um contrabaixista sólido e técnico, com freqüentes aparições na cena jazzística carioca.

Rafael Barata, bateria, começou a tocar aos 5 anos de idade, depois de se aventurar nas aulas de piano. Em sua infância, dedicou-se à MPB, em especial a aprender a Bossa Nova, com forte influência familiar: seu pai Roberto Mendes e seu irmão Beto, são músicos. Autodidata, estudando sempre com os discos, gravou o seu primeiro aos 14 anos. Aprendeu teoria musical na adolescência e passou a estudar jazz. Venceu dois Festivais de Bateria, sendo o "1º Batuka!" com 15 anos, e o "Batuka! Masters 2000", este último somente para vencedores anteriores.
Já gravou com diversos artistas, dentre eles Rosa Passos, Dario Galante, Idriss Boudrioua, Osmar Milito, Durval Ferreira e Helio Celso. Trabalhou com Zezé Motta e Emílio Santiago e participou de vários festivais de jazz no Brasil, ao lado de nomes internacionais como os saxofonistas Jean-Pierre Zanella, canadense, e o americano Ray Moore. Atualmente com 23 anos, apresenta-se no Dario Galante Trio, no Osmar Milito Trio, no Philippe Baden-Powell Trio (com Philippe Baden-Powell e José Santa Roza). E marcou presença com "JT Meirelles e os Copa 5" (onde figuram, além do mitológico JT, Guilherme Dias Gomes, Rafael Vernet e José Santa Roza) no TIM JAZZ FESTIVAL de 2003, no Rio de Janeiro. Barata vem sendo considerado uma das maiores revelações como baterista, do cenário jazzístico brasileiro, na atualidade.

Recomenda-se a aquisição antecipada de ingressos pelo site da Ticketronicks, seguindo-se este link. Na noite do concerto poderá haver vendas, sujeitas à disponibilidade de lugares.

Jazz Quiz

19 julho 2004

Uma brincadeira sadia
 
1) O que têm estas composições em comum ?
 
Anthropology (Dizzy Gillespie-Charlie Parker)
52nd. Street Theme (Thelonious Monk)
Dee Dee’s Dance (Denzil Best)
Untitled (Gigi Gryce)
Delaunay’s Dilemma (John Lewis)
Oleo (Sonny Rollins)
Lester Leeps In (Lester Young)
 
2) O que têm estas composições em comum ?
 
Sonnymoon for Two (Sonny Rollins)
The Turnaround (Ornette Coleman)
Things Ain’t What They Used To Be (Mercer Ellington)
Israel (Johnny Carisi)
Billie’s Bounce (Charlie Parker)
Batman Theme (Neil Hefti)
Sippin’ at Bells (Miles Davis)  

Um site para quem gosta de ver juntos charutos e modelos: CigarCircle.com

Clique no link e veja por si mesmo. Há até alguns filmetes. Tudo de ótimo gosto, como as demais recomendações do CJUB. Abraços.
CigarCircle.com

Dizzy Gillespie no Brasil, 1956 - Série, por Arlindo Coutinho

(continuação)

II.

O segundo dia começou tranqüilo para os músicos, era a primeira folga desde a chegada. Munidos de suas cameras e outros apetrechos de turistas, lá se foram para os mais variados lugares do Rio. John e Lorraine, Boo Frazier e o Padre John Crowley foram ao Pão de Açúcar e, se desse tempo, iriam ao Corcovado.

Mas Roberto Côrte Real, na época presidente da Columbia no Brasil, havia programado um almoço com John e seus acompanhantes e executivos da gravadora, e a visita ao Corcovado foi de imediato descartada.

Às 19:30 dei uma passada no hotel e encontrei Austin Cromer, Benny Golson, Melba Liston e Phil Woods. Benny me saudou, dizendo aos músicos: "Esse é um dos amigos brasileiros de John, o outro ainda não apareceu". Referia-se a Clélio Ribeiro.

Pouco antes das nove horas encontrei dois saudosos amigos, Sérgio Porto, que me telefonara cedo dizendo que gostaria muito de conhecer a Gillespie; e Silvio Túlio Cardoso, cronista musical de grande prestígio que assinava, no "O GLOBO", a coluna "Discos Populares".

Eu, como sempre, estava sem ingresso para aquela noite e marquei encontro com eles após o concerto, nos camarins. Vi a banda da coxia do teatro e mais uma vez o concerto foi memorável, sendo que o arranjo do trombonista Melba Liston para "Stella by Starlight" me pareceu o ponto alto da noite.

Pouco antes da banda entrar no palco, o pianista Walter Davis Jr. perguntou-me se havia visto a Austin Cromer, o vocalista, cujo timbre era uma mistura de Billy Eckstine com Al Hibbler. Cromer estava escalado para cantar na segunda parte do show os temas "Flamingo" e "Seems Like You Don't Care". Todos procuravam por ele e ninguém parecia saber seu paradeiro. Faltando muito pouco tempo para assumir seu lugar na banda, ei-lo que surge, trôpego, e ao ser perguntado, disse que estava com uns amigos no boteco ao lado, tomando "samba". Boo Frazier quis saber o que era aquilo. Estando perto, expliquei que era uma bebida popular no Brasil àquela época, chamada de "Samba em Berlim", mistura de cachaça com Coca-Cola.

Boo perguntou então a Austin quais eram suas condições e ele disse: "As melhores". Efetivamente, chamado ao palco, Austin deu seu recado com extrema competência, sendo muito aplaudido. Terminados os dois números, voltou ao bar e a seus amigos e não mais foi visto aquela noite.

Ao fim do concerto, lá estava a tropa de choque jazzística do Rio de Janeiro, composta de jornalistas e radialistas, além de outros aficionados: Paulo Santos (Em Tempo de Jazz), Waldyr Finotti (Hora da Broadway), Anfilóphio Rocha Mello, José Domingos Raffaelli, Luis Carlos Antunes, Jonas Silva (Lojas Murray), Ary Vasconcellos (O Cruzeiro), Silvio Túlio Cardoso (O Globo), Sérgio Porto (Última Hora). E lá estava também um grupo de músicos, o que havia de melhor no meio musical da cidade, liderado pelo Maestro Cipó (sax tenor), que mais tarde levaria Gillespie para dar uma "canja na boate Beguine, onde se apresentava liderando um sensacional quinteto. Mas essa história ficará mais para a frente.

Palco, camarins e corredores foram invadidos por uma multidão que buscava autógrafos, fotos ou conversar com os músicos, estes já integrados naquela esbórnia que se instalou no Teatro. Falar com o "chefe", no entanto, era praticamente impossível.

No meio do tumulto, surgiram Paulo Santos e Luiz Carlos Antunes com Quincy Jones e Phil Woods a tiracolo, interessados em pegar umas donas. Isso era algo que àquela hora só se encontrava disponível na Rua Julio do Carmo, na popularmente chamada "Zona do Mangue". E lá fomos nós para a "zona". Depois de muito andar e sem beber nada, entramos na casa que parecia ter o melhor aspecto, onde aconteceram várias rodadas de negociação, com nossa intermediação junto à cafetina, uma senhora de péssimo humor.

Phil e Quincy finalmente escolheram suas eleitas e desapareceram pelos corredores mal iluminados da casa. A farra durou mais ou menos uma hora, tendo o pagamento sido feito à senhora de maus bofes que ainda nos olhava de soslaio, ainda muito desconfiada. Sem maiores problemas, voltamos ao hotel.

No lobby, ainda loucos por um drinque, soubemos que "the boss" estava na boate ao lado, dando uma "canja" com o Maestro Cipó.

Sem pensar duas vezes, seguimos todos para a boate Beguine.

(continua - Gillespie encontra Cipó e o assunto é samba)

Arrigoni Neri, ilustrador e pintor

15 julho 2004

Recuperando um pouco da aparência que o blog tinha no começo, quando usei várias ilustrações deste fantástico artista Arrigoni Neri, apreciem esta em sua plenutide, clicando sobre a miniatura.

BODILSEN & BOLLANI (ou vice-versa)

A evolução do jazz na Europa, principalmente na última década, é uma constatação não só agradável como interessante. E é na formação básica de trio que os novos talentos brotam sem parar. Um exemplo é o jovem pianista de Milão (05/12/1972), Stefano Bollani, unanimidade entre os críticos, dono hoje de um estilo próprio e insinuante. Outro talento emergente é o dinamarquês Jesper Bodilsen (05/01/1970), ex-trompetista e agora um dos mais arrojados contrabaixistas europeus, seguindo a tradicional escola de seu país. Os dois, ao lado do também dinamarquês Morten Lund - é um baterista versátil e elegante - acabam de lançar pela Stunt Records um CD de rara categoria chamado “Mi Ritorni In Mente”.

Há uma preocupação crescente entre os europeus na escolha do repertório. Geralmente uma base de “standards”, como atestado para a avaliação do grau de criatividade dos músicos. E, claro, composições próprias. "Mi Ritorni In Mente" não foge à regra. Entre os clássicos, estão “Nature Boy” (Ahbez), “How Deep Is The Ocean” (Berlin), “Someday My Prince Will Come" (Churchill), “Billie’s Bounce” (Parker), “The Summer Knows" (Legrand) e até mesmo uma versão surpreendente para a breguíssima “Se Non Avessi Piu Te” (Migliacci).

Bollani contribui com "Dark Valley Serenade" e o tema título, "Mi Ritorni In Mente", traz a assinatura de Battisti. Bodilsen, por sua vez, monta uma apaixonada versão para um tema tradicional de seu país, “Liten Karin”.

O curioso no lançamento deste CD é que em alguns países da Europa o trio é liderado por Bollani. Em outros, por Bodilsen. Talvez uma estratégia comercial. Mas isso é irrelevante.

O que importa é que o trio consegue passar uma fina e envolvente concepção de jazz. “Mi Ritorni In Mente” é um CD imprescindível para os amantes da formação básica de trio. Bollani, com suas harmonias e improvisos de extremo bom-gosto; Bodilsen, com uma sonoridade consistente; e Lund, dono de uma elegância ímpar, conseguem um resultado no mínimo empolgante. A grata metamorfose em “Se Non Avessi Piu Te” valeria sozinha o CD.

PS. Apenas como curiosidade, o CD de Markos Resende (About Jobim... And Other Greatest Masters), gravado ao vivo em junho de 1996, na Copenhagen Jazz House, trouxe outros dois ótimos instrumentistas dinamarqueses: Mads Vinding (contrabaixo) e Nils Vinding (bateria).

Dizzy Gillespie no Brasil, 1956 - Série, por Arlindo Coutinho

12 julho 2004

I.
Desde que veio ao Brasil pela primeira vez, quando esteve no Rio de Janeiro entre 6 e 12 de agosto e em São Paulo de 13 a 17, Dizzy Gillespie já era um dos meus ídolos e jamais poderia imaginar que a partir de então surgiria uma amizade pessoal entre nós que duraria até sua morte em 1993.

Apresentei-me a Gillespie em um coquetel em sua homenagem, antes de sua apresentação na TV Tupi, que contaria com a participação de todos os ali presentes. Músicos e jazzistas estavam a postos quando, aos primeiros acordes de "The Champ", um músico que estava ao meu lado deu um salto e caiu no chão, dando um susto na platéia. Dizzy deu uma olhada e prosseguiu em seu solo, enquanto juntavamos os cacos emotivos do trompetista Clélio Ribeiro, que também a partir dessa, tornou-se seu grande amigo.

Encerrada a apresentação na TV, fomos conversar com os músicos, Clélio e eu em particular com Dizzy, no nosso primeiro papo informal. Lá pelas tantas estávamos Benny Golson, Gillespie, Clélio e eu falando longamente sobre o Rio e suas belezas quando Dizzy, dispensando a condução disponível, perguntou-me: "O bonde passa por aqui?"

Respondi que sim, que o mais próximo dali era o da Linha 4 - Praia Vermelha e que passava em frente ao Hotel Glória, onde a banda se hospedava. E Gillespie disse: "Então, vamos lá!"

Caminhamos pela Avenida Portugal e pegamos o 4. Gillespie, ao invés de sentar-se, como os demais passageiros, cumpriu todo o percurso pendurado no estribo, tendo antes tido o cuidado de deixar seu instrumento, um Martin, aos cuidados do motorneiro.

No hotel, a conversa se estendeu até tarde. Clélio saiu antes porque tocava no Brasil Danças, mas fez questão de convidar Dizzy para dar uma passada lá, o que não aconteceu.

Seguimos com nosso papo sobre jazz, falamos sobre a era do swing, do bop, bastante descontraídos, quando chegou Quincy Jones, então com pouco mais de 20 anos, querendo saber o horário do ensaio no Teatro República. Já passava de meia-noite e a banda tinha sua estréia oficial marcada para aquele dia. Quincy, alegando estar gripado, subiu para seu quarto.

Estavamos retomando a conversa quando Dizzy perguntou-me, à queima-roupa: "Você joga xadrez?"

Eu lhe disse que jogava muito mal, mas ele insistiu, disse que queria jogar depois do ensaio e que era para que eu levasse um tabuleiro e as peças para que jogássemos em seu camarim. Lá fui eu, mais tarde naquele dia, para o camarim do República com o tabuleiro e tudo o mais, pronto para levar várias surras de Gillespie, o que de fato aconteceu.

O concerto estava marcado para as 20:30 mas começou com meia hora de atraso porque Dizzy e eu estávamos trancados no camarim terminando uma partida, apesar do desespero doss produtores. Finalmente Gillespie levantou-se e me disse: "Termine sempre aquilo que começou, nada pode ficar pelo meio do caminho..."

Quanto ao concerto, foi um dos melhores que já vi em minha vida. O repertório ia de "Groovin' High", "Tin Tin Deo", e "The Champ" aos standards "Beguin the Beguine", "I Can't Get Started", "Stella by Starlight" e uma grata surpresa, "Jessica's Day", de Quincy Jones, sua primeira composição, dedicada à filha de Nat Hentoff.

Quanto à qualidade dos músicos, todos sem exceção eram fantásticos. Mas o que me impressionou mais nessa primeira noite foi o solo, ao sax-barítono, de Marty Flax em "Doodlin'", composição de Horace Silver. Flax, com o timbre de seu instrumento e criatividade ímpar, esteve simplesmente insuperável, foi sem dúvida o número um da noite.

Fim do concerto, rumei aos camarins quando Benny Golson me chamou e disse: "Vejo você e Dizzy sempre juntos e me parece que são amigos de longa data...", ao que lhe respondi: "Que nada, conheci Gillespie aqui no Rio há pouco tempo!" E ele retrucou: "Mas se são grandes amigos, por que você não o chama pelo primeiro nome?"
Desse dia em diante passei a chamar Gillespie simplesmente de John.

Chagando ao camarim de John, uma multidão de fans se acotovelava na porta desejando falar com aquela figura alegre, que, com muita paciência atendeu a todos, durante mais de uma hora, naquele pequeno espaço. Eu podia ouvir, do corredor, as gargalhadas e os gritos de John rodeado de pessoas que não tinham a menor vontade de deixar o camarim. Quando tive uma oportunidade, entrei. Ao me ver, chamou: "Hey you (havia esquecido meu nome), give me a hand: take care of my wife because it's a big mess here."

Foi quando conheci Lorraine Gillespie, companheira de toda a vida daquela notável figura. Passamos a entabular uma boa conversa, e ela me disse que mesmo com o passar dos anos, John continuava cada vez mais irrequieto. Então lhe respondi: "Ms. Gillespie, seu marido é uma usina musical que gera energia por todos os locais por onde passa. Por isso seu apelido é Dizzy!"
Ela concordou mas disse que não sabia se iria resistir até o término da "tournée".

Nisso chegou John com dois amigos, agradeceu meu providencial socorro e gentilmente convidou-me para jantar. Recusei, dizendo que teria de acordar cedo para trabalhar e que tinha de recarregar minhas baterias para o concerto seguinte. Despedi-me e ia saindo quando aquele voz tronitoou novamente: "Hey you, say your name again!" Repeti meu nome todo, Arlindo Carlos Loureiro Coutinho e lhe disse: "Escolha um." Eu já ia pelo final do corredor quando John apertou o passo e me abraçou, dizendo: "I like you very much!"

Foi nesse dia 6 de agosto que tudo começou.

(continua)

XII CHIVAS JAZZ LOUNGE - JOSÉ LOURENÇO SEXTETO - MISTURA FINA, 01/7/2004 - @@@

11 julho 2004

Convocado pelo produtor Mário Vieira, o pianista e arranjador José Lourenço, à frente de seu sexteto (Daniel Garcia, saxes tenor e soprano; Altair Martins, trompete; Gilmar Ferreira, trombone; Augusto Mattoso, contrabaixo; e André Tandeta, bateria) entregou ao bom público da 12ª edição do CJL, um verdadeiro passaporte para o Harlem dos áureos tempos, com uma empolgante homenagem a Billy Strayhorn, compositor, arranjador e a tal ponto soul-mate musical de Duke Ellington, que tornou-se impossível prestar tributo a um deles, sem ao outro render louvor, em igual extensão.

Aos primeiros acordes de Take the A Train surgiu a marca registrada do líder: o carisma que contagia a banda e a assistência, e que perfeitamente dizem, em forma, essência e sentimento, com o universo ellingtoniano, responsável por 50 anos da melhor arte de entreter e emocionar.

Seguiu-se a belíssima Day Dream, com destaque para Daniel Garcia, cujo tenor soa, agora mais do que nunca - timbre e fraseado - como Dexter Gordon, não a toa sendo ele escalado como próxima atração do projeto CJL, em programa todo dedicado àquele genial saxofonista americano.

A irresitível In a Mellow Tone fez com que Tandeta deixasse o swing puro de Krupa e Rich, com cuja fidelidade e precisão metronômica vinha atraindo o combo, para adotar o inconfundível shuffle de Art Blakey, prova da notável versatilidade do baterista. O trombonista Gilmar Ferreira, de sua parte, "atacou" com uma surdina "vazada", com lampejos que chegaram a lembrar Al Grey.

Lourenço, repito, é um showman à parte: toca praticamente todo o tempo "meio de lado", com um perna voltada para o público (como o próprio Duke com frequência fazia), desfilando sempre boa técnica, impregnada de soul.

Ao introduzir a clássica Lush Life, anunciou um arranjo que especialmente fizera para aquela apresentação, restrito, entretanto, à exposição sempre coletiva e harmonizada da composição, que, talvez por isso, acabou incidindo no flagrante equívoco de fundir - tratar como uma coisa só - o intróito (espécie de equivalente, na ópera, ao recitativo): "I used to visit all the very gay places ...", com o tema em si: "Life is lonely again ...". Na versão que ouvimos, não houve qualquer separação, essencial, todavia, para a própria compreensão melódica e lírica da música.

Isfahan instaurou-se por acordes do piano definitivamente a la Ellington, acompanhado, em momento camerístico, tão só pelo sax de Daniel Garcia, coroando - aqui sim - o belo tratamento, com uma coda arrojada, que prenunciava o ápice do 1º set, com Caravan.

O clássico de Duke, todo o tempo equilibrado entre a parte A, de evocação árabe, e a parte B, inteiramente swingada, achou em todos os integrantes do sexteto solos inspirados, como o de Mattoso, nosso Marc Johnson, não só pela semelhança física, mas principalmente pela destreza no capotastro (região aguda do contrabaixo)

A 1ª sessão encerrou-se com Rain Check, com espaço para Altair Martins desfilar sua classe e imaginatividade, e com a conhecidíssima Satin Doll, com acentos deslocados, na dicção do tema, mas novas boas intervenções de Altair e Mattoso, entremeadas por altas doses de histamina coletiva.

O 2º set, mais compacto, abriu com Sophisticated Lady, tratada menos como balada que como swing piece e marcada pela bela citação de I Remember Clifford (Benny Golson), feita por Martins na coda final.

Just a Sittin´and Rockin´ e Upper Manhattan Medical Group vieram a seguir, com os tempos se acelerando, sendo esta última, pérola de Strayhorn, executada de forma justa e precisa.

A não menos famosa Chelsea Bridge deu lugar a um dos carros-chefe das batalhas do Jazz at the Philarmonics, C-Jam Blues (ou, Duke´s Place), com igual destaque para todos, desde a introdução "harlem piano" de Lourenço - que, em seu solo, porém, lembrou claramente o estilo de Basie - até o único solo de Tandeta, em toda a noite, prestígio mais do que merecido para a admirável segurança e solidez do baterista.

Trazidos para o bis pela inevitável aclamação, brindaram-nos com o tour-de-force It Don´t Mean a Thing (If It Ain´t Got That Swing), com direito até a improvisação coletiva à moda do traditional.

Um desfecho ideal, que a tudo resumiu, como de resto todo o jazz está resumido no título daquela canção; uma vez mais provou-se o axioma do gênero, que só mesmo Ellington, seu gênio maior, poderia ter cunhado: it don´t mean a thing if it ain´t got that swing.

O MAESTRO E SUA BANDA

Foi na primeira quinta-feira de julho que vi, durante o 12o. Concerto Chivas Jazz Lounge, no "Tributo a Billy Strayhorn", uma das melhores demonstrações de vontade, garra e interesse em cativar uma platéia desde que comecei a acompanhar espetáculos de música ao vivo. Não vou comentar aqui o lado técnico, que disporá de uma resenha "comme-il-faut", mas o lado humano do espetáculo posto em ação pelo energético Maestro José Lourenço e seu time naquela noite, no palco do Mistura Fina.
José Lourenço, André Tandeta, Augusto Mattoso, Daniel Garcia, Altair Martins e Gilmar Ferreira
Ao entrar no camarim pré-espetáculo, encontrei cinco largos sorrisos saudando-me em faces emolduradas por indumentárias elegantes, com destaque para os suspensórios e o chapéu de feltro do trombonista Gilmar Ferreira (que fez questão de mantê-lo durante todo o concerto). A acrescentar a isso, a animada discussão sobre os temas da set-list, que enchiam o recinto.

Sob a batuta do Zé Lourenço - que inclusive fez um arranjo original para "Lush Life", tema da preferência absoluta do Mestre Raf, coisa que poucos os que se apresentaram nas CJL ousaram -, os músicos conseguiram passar à audiência uma empolgação que emanava de seus instrumentos e percorria a todos na platéia. A escolha eficiente do repertório, recheado de temas tão conhecidos como a carreira e a obra de Duke e seu fiel escudeiro e homenageado da noite, Strayhorn, definitivamente contribuiram para isso.

O fato é que a banda estava em ponto de bala, trocando alguns mínimos desacertos por compensadores momentos, frutos do empenho a todo momento incentivado e cobrado pelo líder. O desempenho geral, deixou nos presentes a sensação de prazer advindo das noites em que o jazz verdadeiramente flui pelos corações e mentes.

A mencionar também o trabalho de David Hadjes, que muito ajudou na concepção e na escolha do repertório em conjunto com Zé Lourenço, dando condições plenas para que Daniel Garcia, Altair Martins, Gilmar Ferreira, Augusto Mattoso e André Tandeta, além do líder, pudessem mostrar sua arte aos aficionados que prestigiaram a noite.

Quando, mais que um show meticuloso e frio como às vezes ocorre com músicos de elevada estatura jazzística, o que nos foi entregue pelo sexteto do Zé Lourenço foi um exemplo de alegria e calor. Um presente que o Manim deu não apenas aos seus numerosos amigos e familiares mas a todos os presentes. Em resumo, uma bela noite.

LUIZ AVELLAR e RICARDO SILVEIRA no MISTURA FINA

09 julho 2004

LUIZ AVELLAR e RICARDO SILVEIRA TOCAM MILTON NASCIMENTO

O pianista LUIZ AVELLAR e o guitarrista RICARDO SILVEIRA fazem duo instrumental nos dias 16 e 17 de julho (sexta e sábado) no Mistura Fina.

O show terá no repertório músicas de Milton Nascimento, já gravadas no CD "Ricardo Silveira e Luiz Avellar tocam Milton ao vivo" e composições próprias dos instrumentistas, como "Rabo de Foguete", "Tango Carioca" de Ricardo e "Pierrot no Frevo" de Luiz.
O CD, que foi lançado no Brasil em novembro do ano passado, vai ser relançado nos Estados Unidos pela gravadora Adventure Music.

A ideia de tocar Milton Nascimento surgiu enquanto os dois musicos participavam do projeto "Grandes Encontros", idealizado pelo violonista Marco Pereira. Avellar e Silveira, que ja haviam trabalhado com Milton, tiveram um dos períodos de maior desenvolvimento de sua musica enquanto acompanhavam o cantor mineiro em suas longas excursões à Europa e aos Estados Unidos. Por isso resolveram celebrar o encontro com uma homenagem ao compositor. O rendimento no palco foi tão satisfatorio que logo surgiu a ideia de gravar um disco.

Gravado num clima descontraído, o CD traz canções que fizeram e continuam a fazer da vida desses musicos. Entre elas:
"Para Lennon e McCartney", "Cravo e Canela", "Travessia" e "Maria Maria".

Zé Henrique

VERÃO ITALIANO

08 julho 2004

Caros confrades,
Amanhã, 09 de julho, se inicia o UMBRIA JAZZ 04, um dos mais importantes festivais de jazz. Para se ter uma idéia, é o UMBRIA JAZZ #31.
A abertura oficial é hoje, dia 08, com um show exclusivo para convidados de PATTI LaBELLE no Teatro Morlacchi.
O UMBRIA JAZZ vai de 09/07 até 18/07 e tem shows desde o meio-dia até depois da meia-noite espalhados por praças, teatros e restaurantes.
Para voces verem a dimensão do evento eu vou relacionar as principais atrações (Vários músicos tocam mais de uma vez e, algumas vezes, com formações diferentes):

DONALD HARRISON QUINTET + MARDI GRAS INDIANS
MITCH WOODS & HIS ROCKET 88'S
NORBOTTEN BIG BAND
RENATO SELLANI TRIO
PAT MARTINO QUINTET
KIM PREVOST & BILL SOLLEY
JOHN SCOFIELD TRIO feat. STEVE SWALLOW & BILL STEWART
IVAN LINS & GROUP
HARRY ALLEN QUARTET feat. JOE COHN
GABRIELE MIRABASSI - GUINGA DUO
JASON MORAN BANDWAGON TRIO
KEITH JARRET / GARY PEACOCK / JACK DeJOHNETE
"A RAINHA DA BOSSA NOVA" ROSA PASSOS QUINTET
CHARLIE HADEN & THE LIBERATION MUSIC ORQUESTRA feat. CARLA BLEY
THE MENHATTAN TRANSFER
THE COUNT BASIE ORQUESTRA
MICHEL CAMILO TRIO
MICHEL PORTAL QUINTET feat. PAOLO FRESU
DEE DEE BRIDGEWATER feat. DAVID SANCHEZ
JACKIE McLEAN QUINTET
ALICIA KEYS
AHMAD JAMAL
DAMS JAZZ ORQUESTRA
RICHARD GALLIANO - MICHEL PORTAL DUO
MICHEL BUBLÉ
BURT BACHARACH
JOE LOVANO QUARTET feat. HANK JONES
STANFORD UNIVERSITY JAZZ BAND feat. JON FADDIS
JAMES BROWN
KURT ROSENWINKEL GROUP feat. BRAD MEHLDAU & JOSHUA REDMAN
Dr. JOHN
B.B. KING
ENRICO RAVA QUINTETTO
MICHEL CAMILO TRIO
ENRICO PIERANUNZI STRING PROJECT
PAOLO FRESU - URI CAINE DUO
HIROMI
HANCOCK, SHORTER, HOLLAND, BLADE
PAOLO FRESU QUINTET.

Que tal? Não é para encher os olhos? Pois os meus ficaram cheios de lágrimas por não estar lá.
Pra quem puder, haverá o UMBRIA JAZZ WINTER #12 de 29/12/04 até 02/01/05.

Marcelon

OUTRA CHARGE DO RAYNALDO

07 julho 2004

Outra peça de nosso "charzzista" predileto, cujo original foi publicado este mês na edição número 5 revista Jazz+, do Vinícius Mesquita e sua turma de craques.

Fica muito boa essa complementação da capacidade de fazer graça com temas de jazz - dentre todos os outros, claro - do RayNaldo, com a seriedade com que a revista aborda os mais atuais, diversos e interessantes aspectos do universo jazzístico. A matéria com Dave Brubeck, por exemplo e entre outras, está um primor.

Fazem uma excelente combinação. E assim a gente prestigia a ambos.

Site do Pascoal Meirelles

04 julho 2004

Olá amigos
Repasso aqui o site do nosso amigo Pascoal Meirelles.
Como ainda está em fase inicial, as idéias e sugestões serão benvindas.
www.pascoalmeirelles.mus.br
Sucesso p/ o nosso amigo Pascoal

Zé Henrique

Are You Going With Me?

A discussão acerca do que é ou não jazz ultrapassa as fronteiras mais inusitadas e, invariavelmente, acende opiniões acaloradas. A vida, entretanto, nos leva a considerar “jazz” muitas das suas referências musicais obrigatórias.


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O ano era 1978, e estudávamos, eu e um fraterno amigo, Ricardo Valls (Rico), para o Vestibular, quando fui apresentado a “New Chautauqua”, disco solo de Pat Metheny lançado naquele ano. Não consegui ouvir outro disco durante uns bons dias, e o estudo daquela tarde ficou em quinto plano.

Pouco tempo depois, quando a chegada do CD player ainda era vista com extrema desconfiança, aventurei-me a comprar, antes mesmo de ter o aparelho, uma daquelas simpáticas bolachinhas (que hoje entopem minha casa, carro, escritório ...), e o artista não podia ser outro: achei, na falecida Gramophone da Gávea, o “Pat Metheny Group”, aquele de capa branca, que me acompanhou a dezenas de viagens a Mauá, onde, em perfeita harmonia com as cigarras, corujas e trinados dos mais diversos pássaros, ouvia “Song for Bilbao”, “Phase Dance” e, claro, “San Lorenzo”. Lembro-me das diversas e queridas amizades construídas a partir daquelas audições.

Já na época da PUC, quando estudei engenharia, uma de minhas grandes amigas foi morar nos Estados Unidos e, sabendo do meu profundo apreço por Pat Metheny, me enviou, no dia em que foi lançado, o para mim até hoje inebriante “Travels”. Lembro-me nitidamente que minha vitrola não parava de tocar a linda “Goodbye”, música na qual Naná Vasconcelos vocaliza a ponto de levar qualquer um às lágrimas.

Os anos passam, e os discos “Offramp” (já bombardeado aqui no muro por não me lembro quem, que diferença faz?) e “As Falls Wichita So Falls Wichita Falls” passam a fazer parte inseparável de minha vida. Inicialmente, pela poética “Au Lait”, por “James”, “The Bat part II” e “Are You Going With Me?” do primeiro, mas, especialmente, pelas minhas favoritas desde sempre, “September Fifteenth” (dedicada a Bill Evans) e “It’s For You”, ambas do último, sendo esta última certamente uma das músicas que mais ouvi em toda a vida.

O ano de 1985, entretanto, me reservou a melhor de muitas grandes surpresas da vida; após a inesquecível apresentação do Pat Metheny Group no Hotel Nacional, adentramos o camarim, eu e Sandrinha (querida amiga, também apaixonada por Pat Metheny), e após horas de ótimo papo com ele, Lyle Mays e Pedro Aznar, conseguimos convencê-lo a passarmos o dia seguinte juntos, programa que se iniciou com uma ida à Prainha, e que culminou com minha quase demissão da empresa em que trabalhava à época (por não constar dos anais da Medicina a gripe “bronzeadora” …). Desde então, e enquanto esteve casado com uma modelo brasileira, Shuzy, tive o prazer e o privilégio de conviver com uma figura de rara sensibilidade, modelo de humildade, sem qualquer traço de estrelismo, e que veio a se tornar um apaixonado pelo Rio.

Igualmente apaixonado por Tom Jobim, com quem esteve em diversas ocasiões, certa vez, quando eu voltava de Belo Horizonte, ouvi, dentro do avião, alguém assoviando “Samba do Avião”; ao constatar que era ele, passamos o vôo lembrando aquela ida à Prainha, descrita, segundo ele, como a fagulha que o tornou apaixonado de vez pelo Rio.


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Mas, voltemos à questão original: Pat Metheny toca jazz? Segundo Wayne Shorter, “The word ‘jazz’ means to me no category” e, mesmo Bill Evans, “Jazz is not a ‘what’, it’s a ‘how’, and if you do things according to the ‘how’ of jazz, it’s a jazz”.

A discussão, para a qual já antevejo ecos de diversas procedências, talvez possa partir, como ponto inicial, da resposta à questão fundamental: jazz é sentimento? Nesse caso, se a resposta a esta indagação trouxer à memória de cada um a unânime lembrança de grandes momentos vividos, certamente, para mim, Pat Metheny foi dos mais importantes de todos.

Saudades das madrugadas de Mauá ...


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Assim como nos botequins da vida, a hora menos prazerosa é a da “saideira”. Milhares de compromissos pessoais e profissionais me impedem de seguir nesta nau de nome CJUB, razão pela qual me despeço, com um “até sempre”, das fecundas amizades aqui originadas, e lanço meu mais otimista “Vida longa ao CJUUUUUUUUUUB !”.

Saravá!