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XII CHIVAS JAZZ LOUNGE - JOSÉ LOURENÇO SEXTETO - MISTURA FINA, 01/7/2004 - @@@

11 julho 2004

Convocado pelo produtor Mário Vieira, o pianista e arranjador José Lourenço, à frente de seu sexteto (Daniel Garcia, saxes tenor e soprano; Altair Martins, trompete; Gilmar Ferreira, trombone; Augusto Mattoso, contrabaixo; e André Tandeta, bateria) entregou ao bom público da 12ª edição do CJL, um verdadeiro passaporte para o Harlem dos áureos tempos, com uma empolgante homenagem a Billy Strayhorn, compositor, arranjador e a tal ponto soul-mate musical de Duke Ellington, que tornou-se impossível prestar tributo a um deles, sem ao outro render louvor, em igual extensão.

Aos primeiros acordes de Take the A Train surgiu a marca registrada do líder: o carisma que contagia a banda e a assistência, e que perfeitamente dizem, em forma, essência e sentimento, com o universo ellingtoniano, responsável por 50 anos da melhor arte de entreter e emocionar.

Seguiu-se a belíssima Day Dream, com destaque para Daniel Garcia, cujo tenor soa, agora mais do que nunca - timbre e fraseado - como Dexter Gordon, não a toa sendo ele escalado como próxima atração do projeto CJL, em programa todo dedicado àquele genial saxofonista americano.

A irresitível In a Mellow Tone fez com que Tandeta deixasse o swing puro de Krupa e Rich, com cuja fidelidade e precisão metronômica vinha atraindo o combo, para adotar o inconfundível shuffle de Art Blakey, prova da notável versatilidade do baterista. O trombonista Gilmar Ferreira, de sua parte, "atacou" com uma surdina "vazada", com lampejos que chegaram a lembrar Al Grey.

Lourenço, repito, é um showman à parte: toca praticamente todo o tempo "meio de lado", com um perna voltada para o público (como o próprio Duke com frequência fazia), desfilando sempre boa técnica, impregnada de soul.

Ao introduzir a clássica Lush Life, anunciou um arranjo que especialmente fizera para aquela apresentação, restrito, entretanto, à exposição sempre coletiva e harmonizada da composição, que, talvez por isso, acabou incidindo no flagrante equívoco de fundir - tratar como uma coisa só - o intróito (espécie de equivalente, na ópera, ao recitativo): "I used to visit all the very gay places ...", com o tema em si: "Life is lonely again ...". Na versão que ouvimos, não houve qualquer separação, essencial, todavia, para a própria compreensão melódica e lírica da música.

Isfahan instaurou-se por acordes do piano definitivamente a la Ellington, acompanhado, em momento camerístico, tão só pelo sax de Daniel Garcia, coroando - aqui sim - o belo tratamento, com uma coda arrojada, que prenunciava o ápice do 1º set, com Caravan.

O clássico de Duke, todo o tempo equilibrado entre a parte A, de evocação árabe, e a parte B, inteiramente swingada, achou em todos os integrantes do sexteto solos inspirados, como o de Mattoso, nosso Marc Johnson, não só pela semelhança física, mas principalmente pela destreza no capotastro (região aguda do contrabaixo)

A 1ª sessão encerrou-se com Rain Check, com espaço para Altair Martins desfilar sua classe e imaginatividade, e com a conhecidíssima Satin Doll, com acentos deslocados, na dicção do tema, mas novas boas intervenções de Altair e Mattoso, entremeadas por altas doses de histamina coletiva.

O 2º set, mais compacto, abriu com Sophisticated Lady, tratada menos como balada que como swing piece e marcada pela bela citação de I Remember Clifford (Benny Golson), feita por Martins na coda final.

Just a Sittin´and Rockin´ e Upper Manhattan Medical Group vieram a seguir, com os tempos se acelerando, sendo esta última, pérola de Strayhorn, executada de forma justa e precisa.

A não menos famosa Chelsea Bridge deu lugar a um dos carros-chefe das batalhas do Jazz at the Philarmonics, C-Jam Blues (ou, Duke´s Place), com igual destaque para todos, desde a introdução "harlem piano" de Lourenço - que, em seu solo, porém, lembrou claramente o estilo de Basie - até o único solo de Tandeta, em toda a noite, prestígio mais do que merecido para a admirável segurança e solidez do baterista.

Trazidos para o bis pela inevitável aclamação, brindaram-nos com o tour-de-force It Don´t Mean a Thing (If It Ain´t Got That Swing), com direito até a improvisação coletiva à moda do traditional.

Um desfecho ideal, que a tudo resumiu, como de resto todo o jazz está resumido no título daquela canção; uma vez mais provou-se o axioma do gênero, que só mesmo Ellington, seu gênio maior, poderia ter cunhado: it don´t mean a thing if it ain´t got that swing.

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