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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

Are You Going With Me?

04 julho 2004

A discussão acerca do que é ou não jazz ultrapassa as fronteiras mais inusitadas e, invariavelmente, acende opiniões acaloradas. A vida, entretanto, nos leva a considerar “jazz” muitas das suas referências musicais obrigatórias.


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O ano era 1978, e estudávamos, eu e um fraterno amigo, Ricardo Valls (Rico), para o Vestibular, quando fui apresentado a “New Chautauqua”, disco solo de Pat Metheny lançado naquele ano. Não consegui ouvir outro disco durante uns bons dias, e o estudo daquela tarde ficou em quinto plano.

Pouco tempo depois, quando a chegada do CD player ainda era vista com extrema desconfiança, aventurei-me a comprar, antes mesmo de ter o aparelho, uma daquelas simpáticas bolachinhas (que hoje entopem minha casa, carro, escritório ...), e o artista não podia ser outro: achei, na falecida Gramophone da Gávea, o “Pat Metheny Group”, aquele de capa branca, que me acompanhou a dezenas de viagens a Mauá, onde, em perfeita harmonia com as cigarras, corujas e trinados dos mais diversos pássaros, ouvia “Song for Bilbao”, “Phase Dance” e, claro, “San Lorenzo”. Lembro-me das diversas e queridas amizades construídas a partir daquelas audições.

Já na época da PUC, quando estudei engenharia, uma de minhas grandes amigas foi morar nos Estados Unidos e, sabendo do meu profundo apreço por Pat Metheny, me enviou, no dia em que foi lançado, o para mim até hoje inebriante “Travels”. Lembro-me nitidamente que minha vitrola não parava de tocar a linda “Goodbye”, música na qual Naná Vasconcelos vocaliza a ponto de levar qualquer um às lágrimas.

Os anos passam, e os discos “Offramp” (já bombardeado aqui no muro por não me lembro quem, que diferença faz?) e “As Falls Wichita So Falls Wichita Falls” passam a fazer parte inseparável de minha vida. Inicialmente, pela poética “Au Lait”, por “James”, “The Bat part II” e “Are You Going With Me?” do primeiro, mas, especialmente, pelas minhas favoritas desde sempre, “September Fifteenth” (dedicada a Bill Evans) e “It’s For You”, ambas do último, sendo esta última certamente uma das músicas que mais ouvi em toda a vida.

O ano de 1985, entretanto, me reservou a melhor de muitas grandes surpresas da vida; após a inesquecível apresentação do Pat Metheny Group no Hotel Nacional, adentramos o camarim, eu e Sandrinha (querida amiga, também apaixonada por Pat Metheny), e após horas de ótimo papo com ele, Lyle Mays e Pedro Aznar, conseguimos convencê-lo a passarmos o dia seguinte juntos, programa que se iniciou com uma ida à Prainha, e que culminou com minha quase demissão da empresa em que trabalhava à época (por não constar dos anais da Medicina a gripe “bronzeadora” …). Desde então, e enquanto esteve casado com uma modelo brasileira, Shuzy, tive o prazer e o privilégio de conviver com uma figura de rara sensibilidade, modelo de humildade, sem qualquer traço de estrelismo, e que veio a se tornar um apaixonado pelo Rio.

Igualmente apaixonado por Tom Jobim, com quem esteve em diversas ocasiões, certa vez, quando eu voltava de Belo Horizonte, ouvi, dentro do avião, alguém assoviando “Samba do Avião”; ao constatar que era ele, passamos o vôo lembrando aquela ida à Prainha, descrita, segundo ele, como a fagulha que o tornou apaixonado de vez pelo Rio.


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Mas, voltemos à questão original: Pat Metheny toca jazz? Segundo Wayne Shorter, “The word ‘jazz’ means to me no category” e, mesmo Bill Evans, “Jazz is not a ‘what’, it’s a ‘how’, and if you do things according to the ‘how’ of jazz, it’s a jazz”.

A discussão, para a qual já antevejo ecos de diversas procedências, talvez possa partir, como ponto inicial, da resposta à questão fundamental: jazz é sentimento? Nesse caso, se a resposta a esta indagação trouxer à memória de cada um a unânime lembrança de grandes momentos vividos, certamente, para mim, Pat Metheny foi dos mais importantes de todos.

Saudades das madrugadas de Mauá ...


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Assim como nos botequins da vida, a hora menos prazerosa é a da “saideira”. Milhares de compromissos pessoais e profissionais me impedem de seguir nesta nau de nome CJUB, razão pela qual me despeço, com um “até sempre”, das fecundas amizades aqui originadas, e lanço meu mais otimista “Vida longa ao CJUUUUUUUUUUB !”.

Saravá!

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