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COLUNA DO LOC

16 novembro 2008

Steve Turre e o ‘álbum’
Luiz Orlando Carneiro - JB, Caderno B, 16 de novembro

"Fizemos a gravação inteira num só dia, das 12h às 18h30. Quatro das faixas (nove no total) foram primeiros takes; uma foi o terceiro; as outras (precisaram de) apenas dois takes. Quando se está tocando com músicos desse nível, a gente vai lá e toca. Tenho uma comunicação maravilhosa com todo mundo nesse álbum. Todos são mestres, líderes por seus próprios méritos. Sinto que, quando você faz um disco, é para a história, para representar o trabalho de sua vida quando você tiver morrido. Não faço uma gravação apenas pelo dinheiro e para meus amigos. Gravo um disco para produzir a melhor música possível".

A citação é de uma entrevista do trombonista-compositor Steve Turre, 60 anos, à revista Jazz Times, a propósito do CD Rainbow people (Highnote 7181), lançado há poucos meses, sob aplausos esperados e devidos da crítica especializada. Afinal de contas, além de ser considerado o trombonista nº 1 da cena jazzística, um sucessor à altura do grande J.J. Johnson (1924-2001), capaz também de atraentes solos de búzios (conch shells), Turre sabe navegar como poucos nas águas da mainstream em direções melódico-harmônicas surpreendentes e por sobre ondas vindas tanto do Delta do Mississipi quanto do Caribe.

Sob o generoso comando de Turre, o grupo básico de Rainbow people é formado por Mulgrew Miller (piano), Peter Washington (baixo) e Ignacio Berroa (bateria). A eles se juntam o celebrado saxofonista alto Kenny Garrett (na faixa-título, em Groove blues e Midnight in Madrid) e o mais do que emergente trompetista Sean Jones nesta última peça e em Forward vision. Todos juntos, mais o percussionista Pedro Martinez, celebram o fim da sessão em Para el comandante (8m49) – que, a propósito, não é uma homenagem a Fidel Castro, mas a Mario Rivera (1939-2002), figura de proa do Latin jazz nova-iorquino. O trombonista nunca se esquece de Ray Charles – com quem gravou quatro faixas do CD In the spur of the moment (Telarc), de 1999 – e completa sua série de composições com a emotiva Brother Ray (9m04).

O novo álbum contém apenas três temas não escritos por Turre: Segment (Charlie Parker), com realce para Garrett; as baladas A search for peace (McCoy Tyner) e Cleopatra's needle (Steve Kirby) – estas interpretadas pelo líder em confabulações somente com o trio. E voltamos ao primeiro parágrafo destas notas. O CD de Steve Turre é a "fonografia" de um momento único, que deve ser apreciado na moldura apropriada do que nós, jazzófilos, ainda chamamos de álbum. Assim como os outros registros que projetaram o grande músico: o já citado In the spur... – dividido em três partes, com os pianistas Ray Charles (os blues), Stephen Scott (o moderno e modal) e Chucho Valdés (sons afro-cubanos); The spirits up above (HighNote 7130), monumento à obra de Roland Kirk, de 2004; o bem tramado Lotus flower (Verve), de dezembro de 1997, com a inestimável colaboração de sua mulher, Akua Dixon (cello), de Regina Carter (violino), Mulgrew Miller, Buster Williams (baixo), Lewis Nash (bateria).

A morte do CD em futuro próximo já foi decretada pela crescente maioria dos ipodistas, em geral ouvintes de "músicas" (faixas) colhidas ao léu, baixadas em MP3. Mas o "álbum" – num processo cada vez mais seletivo - será certamente preservado pelos aficionados do jazz, cujos registros por excelência serão sempre discos bem-editados, sobretudo de sessões de estúdio ou de apresentações ao vivo, nas quais o todo corresponde mesmo à soma das partes. Como é o caso de Rainbow people.

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