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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

ELES - SEGUNDA PARTE

01 fevereiro 2008

3) MAX ROACH

Max Roach era um baterista com cabeça de compositor. Compunha peças musicais improvisando.
Roach, para mim, tem uma importancia como solista dentro do jazz que é comparavel a de Louis Armstrong, Charlie Parker, John Coltrane ou Sonny Rollins, por exemplo, como inovador e criador de um vocabulario praticamente obrigatorio para qualquer baterista que queira solar jazzisticamente. Uma tentativa de descrever e analisar a arte de Max Roach sem usar termos tecnicos do jargão musical é um desafio pois sua musica é bastante complexa as vezes quase erudita, mas sempre com muito swing. Vou tentar não complicar.


A primeira vez que ouvi Roach eu tinha uns quinze anos, já gostava muito de jazz, e ouvi um disco de Bud Powell, gravado ao vivo na França com Charlie Mingus e Roach. Na ultima musica, ("Lullabye Of Birdland") ele toca um solo de vassourinhas. Eu nunca tinha ouvido ninguem "contar uma historia" na bateria. É um clichê de linguagem mas é a unica definição que me ocorre.
Para o mundo e especialmente para os Estados Unidos da America a decada de 1940 trazia muitas mudanças. Pujança economica, intensa urbanização, uma nova classe media, vitoriosos na guerra, os EU passavam por rapidas e complexas mudanças e que iriam se aprofundar nos anos que viriam, nada mais seria como antes. Nesse cenario a musica, o jazz, cinema, teatro e literatura, passavam por mudanças semelhantes.

Uma das mudanças que o bebop trouxe foi na condução do ritmo pelos bateristas: o foco deixava de ser o bumbo, como na epoca do swing, e passava para o ride cymbal. Bumbos menores e pratos maiores, o" kit" dos bateristas mudava tambem em função do jazz nessa epoca (aproximadamente metade da decada de 40) ser principalmente tocado em night-clubs, lugares relativamente pequenos, como as casas da rua 52, o berço do bebop.
Max Roach despontou justamente nessa epoca e lugar. O homem certo no lugar certo. Juntamente com Kenny Clarke e Art Blakey foi um dos pais da bateria no bebop. Enquanto esses dois, mais velhos, ja eram musicos ha algum tempo, Roach estava praticamente começando profissionalmente. Os tres tem intensa participação nas gravações que registram o nascimento e apogeu do bebop mas Roach definiu uma nova era para os bateristas assim como Parker, Gillespie, Bud Powell fizeram o mesmo como instrumentistas e compositores. Tendo uma interpretação da condução no prato e uma atitude em relação ao tempo similares às de Art Blakey(on top of the beat) porem com menos drive mas com um refinamento de som que é uma de suas caracteristicas marcantes. Não quero dizer com isso que Roach ficasse a dever em drive mas que não era tão enfatico e assertivo na condução (time keeping) quanto Blakey. Nesse aspecto, drive na condução ritmica, acho que só Tony Willians pode se equiparar a Blakey.
Roach tinha uma condução mais "leve", a mão esquerda já está mais a vontade, mais livre, não repetitiva, tocando uma especie de "comping", como os pianistas, enquanto a mão direita seguia na condução. O bumbo tambem participava dessa conversa com menos atividade que a caixa, mas infelizmente em discos mais antigos é praticamnete impossivel ouvir o bumbo, a não ser em solos de bateria. O que Roach tocava era praticamente polifonico, contrapontistico e era perfeito para acompanhar as inovações melodicas do bebop que exigiam uma nova maneira de acompanhar os solistas. Agora a velocidade de raciocinio tinha que ser muito maior, já que bumbo e caixa participavam colorindo a condução. Era algo analogo ao que acontecia com os outros instrumentos no bebop: as possibilidades aumentavam muito. E Max Roach era um dos principais expoentes dessa nova maneira de tocar.

SOLOS - Aí é onde Roach brilha intensamente. Sua concepção musical começa pelo som. Usava uma afinação mais alta ("aguda") que possibilitava uma articulação mais clara e facilitava a execução de frases mais complexas, com mais notas. A sonoridade de Roach se tornou o padrão daquilo que se convencionou chamar "jazz kit " até os dias de hoje. Uma cuidadosa escolha do som ("nota") de cada tambor e uma técnica muito bem desenvolvida faziam de sua bateria um novo instrumento.
Roach foi dos que fez a bateria se afastar da linguagem "militar" que predominava na epoca do swing. Sua escola de tecnica era mais classica, não era baseada nos chamados Rudimentos, que são um conjunto de tecnicas originalmente usadas pelos percussionistas de bandas marciais, que era de onde vieram muitos bateristas. Isso tambem tornava a sonoridade de Roach mais leve e seu fraseado mais solto, fluente e veloz. Bebop, em uma palavra. A velocidade e as frases com muitas notas não são usadas para impressionar mas na construção de ideias musicais altamente sofisticadas em termos de criação musical. A partir de ideias ritmicas tipicas do bebop e com uma grande variedade de articulações, dinamicas e sonoridades, Roach construiu um vocabulario totalmente novo.
Toda essa tecnica e vocabulario usados por um compositor. Seus solos muitas vezes usam tecnicas de composição classicas tais como tema e variações e desenvolvimentos motivicos e tem sempre um sentido de organização. A "história" será "contada" com começo, meio e fim. Outra criação marcante de Roach foram os solos usando somente o hi-hat (ou "chimbal" ou "contratempo", no Brasil), aqueles dois pratos que são acionados pelo pé esquerdo. Tirava-os do instrumento, levava para a frente do palco e usando tambem a estante de metal fazia solos tão criativos e musicais quanto os que fazia com o instrumento todo. Roach foi o primeiro a gravar composições para bateria solo. Varios de seus discos, o mais conhecido é"Drums Unlimited ", tem composições para bateria solo, exemplos claros e acabados da arte de compor.

Todo baterista interessado em tocar jazz tem que estudar as gravações de Max Roach. Seus solos são a definição perfeita do que é tocar bateria melodicamente e um estudo obrigatorio para aqueles que quiserem se aprofundar na arte do solo.

Há muitos discos que Roach gravou ao longo de sua carreira que são marcantes: suas gravações com Charlie Parker, o quinteto com Clifford Brown (essas gravações, eu considero um dos maiores tesouros do jazz) e seus inúmeros discos como lider (destaque para "Drums Unlimited") e o encontro histórico de "Rich versus Roach", com Buddy Rich. São o legado de um genio.

Tive oportunidade de ve-lo tocar ao vivo uma vez no Free Jazz de 2000, no MAM, ao lado de meu amigo e mestre Pascoal Meireles. Foi uma apresentação memorável onde ele mostrou toda sua genialidade e criatividade no instrumento com muita energia e com 60 anos de carreira. Na época, por coincidencia, eu estava aprofundando meus estudos musicais (harmonia, analise musical e outras matérias) e pra mim foi uma verdadeira aula de musica, num nivel altissimo. O professor era Max Roach.


4) AL FOSTER

Um baterista de jazz completo. Essa seria, para mim, a melhor definição de Al Foster. Versatilidade, criatividade, um vasto vocabulario rítmico e melódico com praticamente tudo que se criou em bateria no jazz e, acima de tudo, uma condução muito especial, com muito swing.
As influências que podemos ouvir são muitas mas acho que Max Roach, Art Blakey, Roy Haynes e Elvin Jones são as mais aparentes.
Sendo escecialmente um sideman( e que sideman !), participou de um enorme numero de gravações e turnes de grandes nomes do jazz: Horace Silver, Mccoy Tyner, Miles Davis, Sonny Rollins, Joe Lovano, Herbie Hancock, entre tantos outros. Com Joe Henderson, durante a década de 90, gravou varios discos e participou de inumeras turnes pelo mundo todo. Sua condução é variada e adaptada a cada situação. Tanto pode ser leve e fluida, como Roy Haynes (escola bebop,"on top of the beat") , quanto densa e mais ativa, como Elvin Jones ("bluesy", "relaxado") alem de tocar vassourinhas magistralmente. Com total dominio de todos os estilos de jazz não é de espantar que tenha sido tão requisitado.
Dois discos de Horace Silver,"Silver'n Brass" e "Silver'n Woods", gravados na metade da decada de 70, contém performances de Foster que eu considero imprescindiveis para quem estuda o desenvolvimento da bateria no jazz e, claro, para todos os bateristas interessados em tocar jazz.
São discos com uma formação maior, com uma seção de sopros acrescida ao quinteto de Silver. Conheço bem esses discos e pra mim eles contem ensinamentos muito importantes na arte de conduzir (time keeping) uma vez que as composições de Silver nesses discos são variadíssimas ritmicamente: jazz em 4/4 tanto com interpretações mais bebop quanto mais modernas, em 3/4, shuffle, bossa nova, latin-jazz , tudo isso tocado com sonoridade, swing e musicalidade do mais alto nivel.
Numa situação musicalmente oposta, digamos, no disco de Joe Henderson "The Art of the Tenor", onde a formação é sax tenor, baixo e bateria, ele tambem se destaca por todas as qualidades ja descritas e mais ainda por um espirito ousado musicalmente, como a situação requisitava, dialogando intensamente com Henderson. Tambem com Henderson, uma performance maravilhosa no disco "So Near, So Far".

SOLOS - Como solista é que a influencia de Max Roach se torna mais evidente. Solos construidos como composições, explorando as sonoridades do instrumento de forma ousada e criativa. Foster, em geral, em seus solos é mais economico ("menos notas") mas em termos de fraseado e estruturação é muito clara a herança de Roach. Outra caracteristica em comum é a sonoridade, Foster tambem usa uma afinação mais alta com destaque para a variedade de articulações.
O seu fraseado vai alem do bebop, mas este está presente sempre, com influencias de Tony Williams, Elvin Jones e Roy Haynes. Foster refina esse vocabulario, simplificando-o. A complexidade da simplicidade. Eu vi Al Foster tocar ao vivo duas vezes. A primeira em 1974 com Miles Davis, no Municipal. Eu gostei muito do som mas não tenho maiores lembranças de Foster. Em 1993, com Joe Henderson no Freejazz, no Hotel Nacional aconteceu o oposto, foi uma das apresentações que vi em toda minha vida que mais me marcaram. Alem da musica como um todo ter sido magica, Foster deu uma apresentação de gala. Sempre fazendo musica de altissimo nivel no instrumento, fosse acompanhando ou solando, com uma sonoridade linda, ideias requintadissimas, um swing danado e o que mais me chamou atenção: cada musica tocada tinha sua propria identidade, não repetiu nada, ate temas mais manjados como "Take The A Train" soaram diferentes com a concepção ritmica de Al Foster. Seus solos foram maravilhosos, verdadeiras composições feitas ali, na frente de todo mundo. Um super-musico de jazz na sua hora de trabalho.

Lembro aos amigos que estas são observações pessoais, é só ver a quantidade de adjetivos empregados, não um tratado sobre o assunto. Não tenho a pretensão de esgotar esse assunto, muito pelo contrario. Escrevi para chamar a atenção de voces sobre os bateristas que fizeram e fazem minha cabeça, um convite a uma audição mais atenta desses mestres e com isso cada um pode tirar suas proprias conclusões. Fiquem a vontade para acrescentar a visão de voces nos comentarios. Duvidas tecnicas mais especificas eu peço , por favor, para me mandarem por email pois os esclarecimentos podem ocupar muito espaço nos comentarios. Mas fica a criterio de voces, eu podendo, sabendo, responderei com o maior prazer, seja nos comentarios seja nos emails.

A seguir : Philly Joe Jones e Louis Hayes.

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