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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

HISTÓRIAS DO JAZZ N° 43

20 julho 2007

Clube dos Saúvas -“Mister Jones”

Seu nome era Raymundo Flores da Cunha e o apelido de Mr. Jones ele já trazia desde os tempos áureos da Rádio Nacional quando integrava o conjunto vocal “Os Trovadores”. Nos conhecemos no inicio da década de cinqüenta,
época em que éramos assíduos freqüentadores das Lojas Murray e dos sebos do Rio de Janeiro, sempre caçando as bolachas de Jazz.
Quando fundamos o Clube dos Saúvas, cuja séde era em sua casa, na Rua Nóbrega, passamos a nos conhecer melhor e verifiquei que a veia artística do Mister tinha vasta extensão. Tocava contrabaixo (de ouvido) e atuou com a Orquestra de Romeu Silva, inclusive numa festa junina no Grupo de Regatas
Gragoatá na qual estive presente. Era compositor e de vez em quando mostrava, acompanhando-se ao violão, algumas de suas peças. Lembro-me bem de duas, “Cidade do Interior” e “Icaraí”, que terminava com o verso:

“Não tens palmeiras frondosas
como lá no Hawai,
mas tens morenas formosas,
Praia de Icaraí

Era um excelente pintor e até teve quadros seus incluídos em exposições na Europa . No Jazz gostava de tudo, desde os primórdios até as manifestações mais modernas da época. Ia de Bix a Shorty Rogers com a maior facilidade, e fazia questão de chamar a atenção dos amigos para os mínimos detalhes de cada gravação . Apaixonado por “som”, fazia verdadeiras estripulias para ter uma máquina azeitada, que pudesse superar a de seu grande amigo e rival Danilo Lemos, sobre o qual já falamos em história anterior. Achava que o ideal era ter acoplados três amplificadores, um para o registro baixo, outro para o médio e outro para os agudos, o que acabou fazendo. Certa ocasião mandou fazer uma caixa de som de incrível tamanho, a ponto de Danilo apelidá-la de sarcófago .
Gostava de excentricidades e certa vez em uma de nossas reuniões resolveu mostrar a última novidade que havia adquirido. Um Lp que era o máximo em alta fidelidade. Colocou o disco na “máquina” e pediu a atenção dos presentes para o que iam ouvir. Ao invés de música, pareceu entrar pela sua pequena sala uma locomotiva. E ele entusiasmado explicava : A próxima faixa mostra a locomotiva em manobras para engatar nos vagões. E seguia: agora uma curva em aclive e a lenta aceleração . E seguia : agora dois trens se cruzando perto da estação. Começaram os protestos, afinal de contas estávamos em um clube de Jazz e não na Central do Brasil. Não gostou dos comentários, tirou a Lp da máquina,guardou carinhosamente na capa e comentou :”Vocês não entenderam. O que quis mostrar foi o crescimento da fidelidade do som. Foram captados todos os ruídos possíveis, é um avanço considerável.
Era um voraz consumidor de discos e disso tive prova quando certa vez ao entrarmos no sebo do Babo (Rua do Carmo,3), fomos surpreendidos com uma mesa de celotex abarrotada de Lp’s de dez polegadas. Exemplares da Prestige e da Savoy eram maioria e Mr. Jones não se fez de rogado. Abraçou as pilhas de discos e decretou : “Esses são meus”. Em seguida foi para traz do balcão cochichar com o Babo e logo saímos sem ele levar nada. Lembro que comprei um Lee Konitz e ele saiu de mãos vazias. Dias depois nos encontramos nas Lojas Murray e quando perguntei pelos discos do Babo ele me confessou : “Lulol” (assim ele me chamava), não comenta com ninguém mas fui buscar os discos no dia seguinte porque para pagá-los tive que empenhar as jóias da patroa.
E teve mais. Nessa época Estevão Herman ,de vez em quando, vendia discos para a turma. Uma ocasião foi em Niterói, na própria casa de Mr. Jones e em outra foi em pleno Restaurante Westfalia . Combinamos o horário de dezessete horas e fui inclusive com Estevão buscar os discos em seu carro,se não me engano um Citroen, que estava no antigo estacionamento frente ao Ministério da Fazenda. Chegando no restaurante os atletas das Lojas Murray já esperavam ansiosos e cada um escolheu o que queria do lote apresentado.
Mr. Jones trabalhava na Caixa Econômica e cumpria horário até as dezoito horas. Assim, ao chegar na Westfalia viu que o “mercado já havia fechado” e ficou desesperado. Reclamou por não o terem esperado. Achou uma desconsideração e de cara amarrada pediu humildemente aos compradores que mostrassem as “matérias” adquiridas. E cada disco que examinava exclamava : “Esse eu levava”.
Gostava de fazer música, tirar um som, como se dizia na época. Comprou um pequeno xilofone e pedia que eu o tacasse para me acompanhar ao violão. Quando um amigo levou um órgão portátil a sua casa , assumiu o xilofone e pediu que eu o acompanhasse . A qualidade era nenhuma mas a gente se divertia muito.
Foi a um baile de carnaval no Gragoatá fantasiado de múmia. Deu azar,levou um tombo e luxou o tornozelo . Os remédios tradicionais não fizeram efeito e um médico determinou infiltrações de cortisona. Tal providência resultou em necróse dos tecidos e lamentavelmente Mr. Jones teve que amputar o pé. Foi quando o irreverente Danilo ao visitá-lo não perdoou :
“Mr. Jones,você agora não está mais em stéreo, você agora é mono.”
Seu desejo era ser sepultado ao som de “I’m coming Virginia” na gravação de Bix Beiderbecke , o que ocorreu conforme contei em história anterior.
Quis aqui recordar e homenagear uma grande amizade , uma pessoa de excelente caráter de ótima formação e que deixou muitas saudades: Raymundo Flores da Cunha.

Reunião na casa de Mr. Jones. Ele assume o xilofone e nós tentamos acompanhá-lo no mini órgão.

Um comentário:

Flávio disse...

Agradeco em nome do Mr.Jones (Raymundo Flôres da Cunha)meu falecido e amado pai. Ao Lula e inúmeros amigos que sempre presente estiveram em nossas vidas. Muito obrigado! Depoimento verdadeiro que para todos que viveram ao lado e puderam desfrutar do melhor que em meu parecer tivemos em termos de musicalidade e extremo bom gosto artistico. Clube dos Saúvas foi para muitos a casa aonde os amantes do Jazz tinham como uma ilha de prazer musical em suas vidas.
Flávio flôres da Cunha.