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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

HISTÓRIAS DO JAZZ Nº 35

15 maio 2007


“Sorry Mr. McLaughlin”

Sem dúvida alguma as duas edições do “Festival Internacional de Jazz
S.Paulo/Montreux” foram palco de vários acontecimentos e fatos que , de uma forma ou de outra deram oportunidade ao surgimento de várias histórias . Nessa série já relatei sobre a entrevista coletiva que Stan Getz transformou em diálogo e com o sensacional reencontro com Phil Woods e seu “cachimbo mágico”.Agora vamos nos reportar a edição de 1980 daquele evento, cuja programação, à exemplo do anterior, misturava vários gêneros e por conseqüência jornalistas e críticos multifacetados, especializados,ou não em Jazz e rock.
Entre os artistas convidados estava o guitarrista inglês John McLaughlin, com muita evidência na época em função de lançamentos de seus discos pela CBS com a banda “Mahavishnu”. Apesar de ter recebido todos os Lp’s, não toquei nenhuma faixa no programa até porque nada tinham a ver com o Jazz. Assim ,não me animei muito quando fui avisado que o mesmo daria uma “press conference” e que segundo a divulgadora que me fez o convite “ a minha presença era muito importante “.
Meu objetivo então foi observar o comportamento da “turma do rock” ;
como atuavam nessas ocasiões,que tipo de perguntas faziam ao artista etc.etc.
A entrevista foi de manhã e logo começaram a surgir os interlocutores.
Fáceis de identificar . Os mais jovens andavam quase saltitando, papel e lápis na mão aguardando o grande momento. Os maduros, todos ou quase todos, usando barba e cabelo grande, como se isso demonstrasse um alto grau de intelectualidade.
Começa a entrevista e as primeiras perguntas falam em “Beatles”, “Rolling Stones” e outros grupos menos votados. McLaughlin pacientemente os elogia mas nega alguma influência, pelo menos instrumental . Me senti uma ilha cercada de rock por todos os lados. Falaram em “Mahavishnu” e o guitarrista informou que fora apenas uma experiência com a cultura musical indiana. Já estava com sono e resolvi fazer uma pergunta pelo menos para justificar minha presença ali.
Indaguei se tinha alguma influência do Jazz e o que achava da música de Charlie Parker. A resposta me surpreendeu :
“Esse pessoal é muito antigo, não é do meu tempo .”
A turma do “rock” exultou. Risinhos e olhares debochados tomaram conta do ambiente . O único representante do Jazz na seleta mesa de críticos recebera um torpedo. Como um “boxeur” ,absorvi lentamente o golpe e aguardei pacientemente o término da entrevista. Foi quando McLaughlin falou em Django Reinhardt. Dei um soco na mesa e o interrompi,com o roqueiro Jamari França (justiça seja feita) me ajudando no inglês: “Você disse que Charlie Parker era velho para você, entretanto Django é muito mais velho e ai ?”
Mc Laughlin coçou a cabeça,sorriu meio sem jeito e me elogiou como um “very smart man”. Os risinhos cessaram.
Não sei porque cargas d’água quase no final McLaughlin falou em Bill Evans e quis identificar o baterista do primeiro trio, cujo nome esquecera .
Entrei “de sola” – “The drummer was Paul Motian ! ” .O guitarrista agradeceu e mais uma vez teceu elogios a minha pessoa. Apenas respondi : “It’s my job”.
Meses depois McLaughlin voltou a São Paulo para apresentações no ginásio da Portuguesa de Desportos e ,como convidado da CBS, fui com Arlindo Coutinho. Antes do show, houve um coquetel de boas vindas no Hotel Belmonte ao qual comparecemos e tivemos agradável surpresa. Ao chegar,McLaughlin me reconheceu, me abraçou e lembrou da “press conference”. Tomamos um ”drink” e fomos incorporados para o longínquo ginásio da Portuguesa .
Nada de novo musicalmente e espantoso foi ir aos camarins e verificar
as chamadas “exigências contratuais”. Sobre uma mesa, sete ou oito qualidades de queijos, um balde abarrotado com garrafas de champanhe e cerca de cinqüenta toalhas brancas . Ninguém comeu ou bebeu nada e creio que também as toalhas ficaram intactas. O pessoal da limpeza deve ter passado bem.
Dia seguinte nova surpresa : no vôo de volta para o Rio quem se senta ao meu lado ? John McLaughlin . Caloroso aperto de mão e a gentileza de autografar uma foto para o meu filho . Coisas do Jazz.

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