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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

26 julho 2016

A REPÚBLICA PAULISTANA E O JAZZ



Em Sampa neste fim de semana apenas para ver os netos, recebi da minha querida filha o convite para, na manhã de domingo, ir ouvir jazz com eles. Combinação divina, netos e jazz! Sem saber o que exatamente seria, fui informado apenas que deveria dirigir-me ao Museu da Casa Brasileira, na Av. Faria Lima e estar lá às 11 da manhã. Ah, e como estaria de carro, que havia estacionamento.


Macaco velho, cheguei em torno das 10:40 para não haver atropelos. Surpreendi-me logo de cara com a organização descomplicada: serviço de valete para o carro, entrada franca e num pátio nos fundos da bela construção, fileiras de cadeiras sob um toldo amplo e bem alto, o que me pareceu adequado pois permitiria não apenas uma boa ventilação do espaço como certamente ajudaria muito na acústica.


Circulando ali na platéia, Bob Wyatt, famoso baterista radicado na cidade e que eu havia conhecido numa apresentação no Rio, numa das noites de jazz do <b>CJUB</b>, produzida pelo <b>JoFla</b>.


No palco, uma organização para muita gente e só então fixei a visão nos apoios para pautas e lá vi a palavra <i>SOUNDSCAPE BIG BAND</i> e comecei a me beliscar (e coçar), pela oportunidade de ver uma banda paulistana e sua acuidade. Na realidade, a banda foi fundada por Wyatt e se mantém desde então firme, mesmo tocando às vezes DE GRAÇA, como explicado pela apresentadora, às 11 horas em ponto. Sem patrocínio no momento para os domingos musicais, em seu famoso e tradicional Música no Museu, ela agradeceu à Soundscape por apresentar-se ali graciosamente.


E então, a bela e grata surpresa. Um som jazzístico para americano nenhum botar defeito, músicos de primeira categoria interpretando uma maioria de temas deles próprios, arranjados por eles mesmos e com uma coesão extraordinária. Se fechasse os olhos poderia me sentir em NYC.


Na platéia, uns 30 assentos estavam ocupados por jovens nitidamente trazidos de alguma comunidade carente, que assistiram ao concerto entre interessados e extasiados com a profusão de nuances entre madeiras e metais, graves e agudos, rapidez e lentidão, em suma pela diversidade sonora ali tão bem construída e apresentada.


À direita dos assentos, um parque verde onde ao ar livre, crianças e adultos confraternizavam em toalhas sobre o gramado, gente querendo pegar um pouco de sol e viver um pouco ouvindo música boa. Muito boa.


Depois de um único set, com oito temas - dentre os quais 3 compostos por estrangeiros, a saber, Noogaloo, de Tim Hagans, 81, de Davis/Carter e Marie Antoinette, de Shorter -, uma sensação mista de euforia e de melancolia apossou-se de mim.


A euforia, por saber que nesse país tão próximo de nós chamado São Paulo o jazz resiste e com tanta qualidade, o que leva inclusive a vários músicos a comporem (e arranjarem) temas jazzísticos. A melancolia advém de morar num país contíguo, onde essa arte está - apesar da luta de alguns poucos bravos -, em vias de desaparecer.

Acima, um trecho da composição de Fernando Correia, Pés.

3 comentários:

pedrocardoso@grupolet.com disse...

Prezado MauNah:

O espaço já foi da TV-Cultura e segue sendo muito bom para apresentações.
Tive oportunidade de conhecer Bob Wyatt, que foi o baterista de nosso grande IDRISS BOUDRIOUA em seu primeiro LP, "Esperança".
Foi também, há mais de 15 anos, professor de inglês de meu filho mais velho.
A banda"Soundscape" foi há 04 anos tema de documentário produzido como tese ("Big Bands") para turma de jornalismo da Fundação Casper Líbero; participei desse documentário, assim como o Maestro Nelson Aires, Nailor Proveta (leia-se banda "Mantiqueira") e muitos outros entrevistados.
Fazer JAZZ e música instrumental no BRASIL é, sempre, gesto de amor.

PEDRO CARDOS

MauNah disse...

Mestre Apóstolo, teria sido um grande prazer poder ir ver uma apresentação dessas ao seu lado, coisa que precisamos engendrar de algum modo. Contra isso ocorre que vou aí sempre aos sábados de manhã, voltando no fim do domingo e esse intervalo é dedicado aos dois trombadinhas mais deliciosos do mundo. Foi bom estar aí neste fim de semana e ter calhado poder ver esse programa excepcional, como narrei.
O Wyatt foi chamado ao palco e à bateria no bis, pelo titular (não tenho certeza mas parece que é seu filho) do instrumento. Esbanjou classe e técnica.
Deu tudo certo, padrão paulista. Invejável.
Aliás, vem se repetindo o padrão de jazzistas de fora só irem a Sampa, fugindo do Rio.
Mas vai acontecer de podermos nos conhecer "presencialmente", como se diz hoje em dia! Grande abraço.

pedrocardoso@grupolet.com disse...

Prezado MauNah:

Chegaremos ao "presencial", cedo ou tarde, com certeza e o prazer será meu.

PEDRO CARDOSO