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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

01 setembro 2014

ALGUMAS POUCAS LINHAS SOBRE A
GUITARRA E OS GUITARRISTAS  -  29
As notas seguintes foram originalmente  compiladas em 2011, para depois serem ampliadas com base nos  documentos indicados abaixo:
(a)  resenha sobre PAT MARTINO elaborada pelo amigo ÉRICO RENATO SERRA CORDEIRO (autor do livro “Confesso que Ouvi”, Azulejo Editora, 1ª Edição, 2010, Brasil), em seu blog www.ericocordeiro.blogspot.com”, a quem agradecemos a permissão para utilização;   ÉRICO, que nos honra com sua amizade é, como sempre, portador de fidalguia e elegância permanentes;
(b)  recortes de artigos das revistas “Down Beat”, “Jazz Magazine” e “Musica Jazz” mantidos em arquivos próprios;
(c)  livro “THE JAZZ GUITAR” de Maurice J. Summerfield, 3ª Edição, 1980 (a 1ª foi de 1978), Inglaterra;
(d) livro “GRAN  ENCICLOPEDIA  DEL  JAZZ” (04 volumes), Ed. SARPE, 1ª Edição, 1980, Espanha;
(e)  livro “THE  PENGUIN  ENCYCLOPEDIA  OF  POPULAR  MUSIC”,    Donald Clarke, 1ª Edição, 1989, Inglaterra;
(f)   livro “DICCIONARIO  DEL  JAZZ”, Philippe Carles,  André Clergeat   &   Jean-Louis Comolli, 1ª Edição, 1995(tradução de original francês de 1988), Espanha.
Pat Azzara, artisticamente PAT MARTINO, guitarrista norte-americano, nasceu na Filadélfia, estado da Pensilvânia, no dia 25 de agosto de 1944 e no seio de família de origem italiana, sendo que seu pai, Mickey Azzara, alfaiate e amante do JAZZ, cantava, tocava guitarra (foi aluno do grande Eddie Lang) e colecionava discos de JAZZ, principalmente de guitarristas.   Assim, o jovem PAT encontrou no pai a proximidade; o estímulo e o amor pela guitarra, ainda mais porque o acompanhava quando os grandes nomes do JAZZ apresentavam-se nos clubes da Filadélfia:  momentos memoráveis que o “garoto” PAT absorvia.
No lar era habitual ficar escutando as muitas gravações que o pai possuía, principalmente de guitarristas como o citado Eddie Lang, além do cigano Django Reinhardt e de Johnny Smith.
Com 11 anos PAT ganhou sua primeira guitarra e passou a estudar com o professor Dennis Sandhole (grafia do sobrenome conforme “The Jazz Guitar” de Maurice J. Summerfield, Ashley Mark Publishing C., 1978),  sua primeira grande influência no estilo;  Sandhole era figura de proa no cenário da guitarra na Filadélfia, já que  portador de respeitada experiência profissional por ter tocado com Tommy Dorsey, Billie Holiday, Frank Sinatra e Charlie Barnet, além de ter sido professor de Michael Brecker, John Coltrane, James Moody e outros músicos.
Foi o próprio Sandhole que apresentou PAT MARTINO, então com 15 anos, a seu ex-aluno John Coltrane, com quem o rapaz manteve longas conversações sobre a música.    Essas conversações levaram PAT a deixar a escola, a adotar o sobrenome de MARTINO e a tocar profissionalmente, o que fez inicialmente em grupos de “Rhythm & Blues”:   Charles Earland, Lloyd Price e Red Holloway para, já então com 20 anos e em 1964, unir-se ao grupo de Willis Jackson, com quem teve oportunidade de gravar em 1966 sob seu verdadeiro sobrenome, Azzara.    
Some-se a essa experiência o fato de ter atuado entre os 16 e os 19 anos de idade com futuros “ídolos” da juventude, citando-se Frankie Avalon e Bobby Darin, este último e à época cogitado como um “segundo Frank Sinatra”.
Situamos essa época de PAT com a da plena inserção da guitarra no JAZZ, já que aos primeiros passos dos pioneiros Charlie Christian, Eddie Lang, Oscar Moore, Freddy Green e outros “chefes-de-escola”, somaram-se as contribuições e inovações de “gigantes” da talha de Barney Kessell, Joe Pass, Jimmy Raney, Tal Farlow, Jim Hall, Herb Ellis, Wes Montgomery (com quem PAT manteve amizade e com que estudou) e Charlie Byrd, levando o instrumento ao mesmo patamar de metais e palhetas, instrumentos cujos solistas contavam com lugares e histórias até então já consolidadas para o JAZZ.
Por todo esse cenário de “cultura da guitarra” o jovem PAT conseguiu, a partir de seus primeiros ensinamentos, de suas primeiras influências e experiências profissionais locais, desenvolver estilo e linguagem próprias, simultaneamente com sua decolagem para horizontes mais amplos, nada menos que New York.
Trabalhou em estúdios de gravação, tocou com dezenas de músicos de JAZZ da cena novaiorquina (principalmente com organistas do nivel de Don Patterson, “Brother” Jack McDuff, Trudy Pitts, Jimmy Smith e Jimmy McGriff, mas também com saxofonistas do porte de Charles McPherson, Eric Kloss e Sonny Stitt) e gravou em 1967 seu primeiro álbum de qualidade com o nome de PAT MARTINO, sob o título de “El Hombre” e para o renomado selo Prestige, onde podemos notar todo um painel de conhecimentos musicais já devidamente “vividos” e devidamente impregnados em “standards” (entre os quais o clássico “Just Friends” de Sam Lewis e John Klenner e  “Once I Loved” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes ).  
Seu prestígio e sucesso de público e de crítica aportou em boa parte graças à recomendação de Howard Johnson para que assinasse contrato com o quinteto do saxofonista texano John Handy (nascido em 03 de fevereiro de 1933 e então oriundo dos grupos de Charles Mingus e de Randy Weston, além de já ter liderado grupos próprios contando com Freddie Redd e Bobby Hutcherson), com quem atuou entre 1967 e 1968 pelo período de 08 meses, caminho para a primeira gravação já sob o nome de PAT MARTINO e anteriormente indicada, “El Hombre”,.
É dessa época que PAT MARTINO inicia seu “professorado”, dedicando-se também ao ensino da guitarra.   Com os anos PAT ampliou essa atividade dando cursos e palestras nas mais variadas instituições, latitudes e longitudes:   nos U.S.A. na  “Stanford University”, “Pennsylvania University”, “Washington University”, “Wisconsin Conservatory of Music”,  “North Texas State University”, “University of Washington School of Music”, “Berklee College”, “University of Maryland”  e outros., assim como em centros europeus do nível de Holanda, França e Itália.
PAT já se tornara uma estrela no cenário da “grande maçã”.   Seu estilo destaca-se por uma sonoridade clara e “sensual”, com ataque forte de total nitidez e, ainda que se aproxime de Johnny Smith (até por ser uma de suas primeiras fontes de inspiração), sua articulação é de uma precisão absolutamente pouco usual, com total consciência dos acordes;   nota-se, também, a tessitura de linhas melódicas em oitavas, que domina como Wes Montgomery, que foi como já escrito anteriormente seu amigo e mestre e para quem e mais adiante gravou pelo selo “Cobblestone” o LP “Pat Martino / The Visit !” com a capa indicando textualmente que essa gravação foi “Inspired By And Dedicated To Wes Montgomery”.
Seguiu tendo oportunidade de tocar e gravar com grandes nomes do JAZZ tais como e por exemplos:  Bobby Hutcherson, Sonny Stitt, Chick Corea, Genne Amons, Stanley Clark, Woody Herman, Chuck Israels, Jimmy Heath, Joe Farrell, Cedar Walton, Cyrus Chestnut, Paul Chambers, Christian Mc Bride, Charlie Persip, Joe Lovano, Ben Tucker, Lewis Nash, Gonzalo Rubalcaba e muitos outros.
Com prestígio crescente e consolidado, PAT MARTINO seguidamente cunhou suas gravações em outros estúdios além dos da Prestige, citando-se:  Warner, Columbia, Savoy, Evidence, Sony, 32 Jazz, High Note, Milestone, Polydor, Concord, Fantasy e Blue Note.
PAT passou a estudar a cultura e a música hindus, assim como toda a instrumentação eletrônica, principalmente os sintetizadores, dominando esse universo sob os aspectos de sonoridade e de ritmo, que passou a explorar com muita originalidade.  
Esse aprendizado permitiu-lhe gravar em 1968 para seu selo original, Prestige, uma experiência em que mistura a música oriental com rock (“Baiyina: The Clear Evidence”, com o sub-título de “A Psychedelic Excursion Through The Magycal Mysteries Of The Koran”, ou é pouco???!!!...), à qual seguiu-se ainda na Prestige um enxerto de “Rhythm & Blues” com “funk” (“Desperado”), prosseguindo em suas buscas com o “fusion” (criou o grupo “Jovous Lake”) e, já em 1972 e para o selo Savoy, gravou o álbum “Footprints” e em 1976 para a Warner o album “Starbright”, essas 02 produções com temas do tenorista Wayne Shorter.
Com a carreira desenvolvendo-se muito bem e diante de perspectivas excelentes, ocorreu a primeira tragédia no ano de 1980, quando recebeu o diagnóstico de um aneurisma cerebral e teve que submeter-se a cirurgia de alto risco, da qual resultou total “apagão” da memória:    PAT não identificava os pais, os médicos, os amigos e esqueceu totalmente sobre “como tocar”.  
Começa o “Vôo da Phenix”:   família ao lado, músicos amigos colaborando (Les Paul e George Benson são visitas constantes), radiola tocando seus próprios discos, recursos de informática, exibição e leitura de publicações que o citam em suas apresentações, fotografias, partituras, enfim todo um batalhão de recursos foi capaz de, paulatinamente, devolver à memória de PAT MARTINO sua integridade, o que lhe presenteia com a recuperação de sua técnica e habilidade originais.
Após quase 04 anos PAT retorna como músico aos poucos e apresenta-se ao grande público, voltando a gravar em 1984 o álbum de título simbólico, “The Return”, coadjuvado por não menos que Steve LaSpina / contrabaixo e Joey Baron / bateria.
Mais 04 anos e a vida volta a surpreender PAT com seguidos fatos desagradáveis: durante quase 02 anos ele tem que dedicar-se aos pais, enfermos, que falecem em 1989 (a mãe) e em 1990 (o pai).
Mais uma vez PAT “alça vôo”, supera a depressão e retorna à música no ano seguinte.
Mais alguns anos e esse sobrevivente é atacado por uma forte pneumonia que o abateu por muitos meses, deixou-o com pouco mais de 40 quilos e quase tendo que submeter-se a cirurgia para transplante de pulmão.   Mais uma vez “alçou vôo” e retornou à música.
Vida que segue e PAT MARTINO realizou longa temporada mundial no ano de 1995, base para a produção do documentário “Open Road” sobre sua vida e sua música.      Na mesma linha lançou seu método, “Creative Force”, em vídeo. 
Em 1997 PAT gravou pela primeira vez para o selo Blue Note, etiqueta para a qual passou a gravar seguidamente;   no LP “All Sides Now” ele contou com o veterano amigo Les Paul, ao lado de músicos da nova geração como Kevin Eubanks, Charlie Hunter, Tuck Andress, Mike Stern e Joe Satriani.     Na Blue Note seguiram-se os albuns “Stone Blue” em 1998, “Live At Yoshi's” em 2001 (indicação ao Grammy de “Melhor Album de Jazz Instrumental” e “Melhor Solo Instrumental” por “All Blues”), “Think Tank” em 2003 (também indicado ao Grammy de “Melhor Album de Jazz Instrumental” e “Melhor Solo Instrumental”) e “Remember: A Tribute to Wes Montgomery” em 2005, mostrando sua fidelidade e respeito às raízes.
A seguir algumas das principais gravações de PAT MARTINO, como líder, ao longo dos anos:
-        1966                    Pat Azzara                    Selo Vanguard
-        1967                    El Hombre                    Selo Prestige
                                     Strings !                        Selo Prestige
-        1968                    East !                            Selo Prestige
                                     Baivina                         Selo Prestige
-        1970                    Desperado                    Selo Prestige
-        1972                    Live !                            Selo Muse
-        1974                    Consciousmess             Selo Muse
-        1984                    The Return                   Selo Muse
-        1994                    Interchange                   Selo Muse
-        1995                    The Maler                     Selo Evidence     
-        1996                    Nightwings                   Selo Muse
-        1997                    All Sides Now              Selo Blue Note
-        1998                    Stone Blue                    Selo Blue Note
-        2001                    Live At Yoshi’s            Selo Blue Note
-        2003                    Think Tank                    Selo Blue Note
-        2006                    Remember                     Selo Blue Note
Como co-líder PAT MARTINO também gravou diversos álbuns, citando-se:
-        em 1999 e pelo selo “1201Music” o álbum “70’s Jazz Pioneers Live At Town Hall” ao lado de Randy Brecker, Buster Williams, Joanne Brackeen, Dave liebman e Al Foster;
-        ainda em 1999 o álbum “Fire Dance”, com Peter Block, Habib Khan, Ilya Rayanan e Zakir Hussah, pelo selo “Mythos”;
-        no ano de 2000 o álbum “Tribute To Charles Earland”, pelo selo “High Note” e ao lado de Joey DeFrancesco e Eric Alexander;
-        também em 2000 o clássico “Conversation” com Michael Sagmeister, pelo selo “Acoustic Music”.
Como “sideman” PAT MARTINO é encontrado em mais de 40 albuns, em “coletâneas” contabiliza duas dezenas de álbuns e como “músico convidado” em cerca de uma dezena de outros.
PAT MARTINO prossegue com sua atividade musical, casado com uma oriental (a japonesa Ayako Asahi), vive entre sua terra natal, Filadélfia, e a “grande maçã”, não dispensando a companhia da “Gibson” fabricada especialmente para ele, leciona (professor adjunto na “University Of The Arts In Philadelfia”), compõe e  apresenta-se em momentos especiais.  
Em sua agenda para o mês de junho de 2011 (época em que inicialmente redigimos o presente texto) constavam apresentações de 09 a 12 no “Jazz Showcase” em Chicago / Illinois, no dia 18 no “The Loft” em Atlanta / Geórgia, de 25 a 26 no “Yoshi’s Jazz House” em Oakland / Califórnia e  no dia 29 do mês no “National Guitar Workshop” em Sandy Spring / Maryland.
Entre as muitas e mais recentes homenagens já recebidas por PAT MARTINO, destacam-se:
-1995    Medalha de Honra no “Mellon Jazz Festival”;
-1996    Inscrição pela “Philadelphia Alliance” no “Walk Of Fame Award”;
-1997    Inscrição de seu trabalho pela “National Academy Of Recordings Arts &  Sciences” nas “Songs From The Heart Award”;
-2002    Eleição pela “National Academy Of Recordings Arts & Sciences” como “2nd Annual Heroes Award";
-2002/2003   Indicações para o Grammy (álbuns “Live At Yoshi's” “Think Tank”);
-2004     “Guitarrista do Ano” entre os leitores (“Reader’s Poll”).
Agradecendo uma vez mais ao amigo ÉRICO RENATO SERRA CORDEIRO, sempre fidalgo e prestativo, dispomo-nos a retornar à guitarra e aos guitarristas em próximo artigo.
            apostolojazz@uol.com.br

 

Um comentário:

MauNah disse...

Caro Mestre Pedro Apóstolo, não bastasse a de ter você como um dos entronizados aqui no CJUB, tenho também a renovada alegria de encontrar um post dessa qualidade e com tal profundidade de detalhes, e mais, atualizado através de adendos de publicações que só um "homem-santo" teria a capacidade de compilar, redigir e manter pronto para a leitura de qualquer aficionado pela arte maior.
Mais uma vez, é um prazer e uma honra tê-lo colaborando com o blog nesse nível. Muito obrigado.
Grande abraço.