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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

15 agosto 2007

RETRATOS
05. STAN GETZ (B)
Do Retorno aos U.S.A. em Janeiro/1961 ao Final

O Vôo da Fênix, Tom Jobim, Garota de Ipanema
Mas ocorreu uma reviravolta a partir de meados de 1961 com a gravação do álbum “Focus” (extensa suíte de Eddie Sauter com arranjo para cordas) e no início de 1962, pela audição de alguns discos que o guitarrista Charlie Byrd, fascinado pela “Bossa Nova” que conheceu na passagem pelo Brasil, lhe proporcionou, ai incluídas gravações de João Gilberto; Getz foi atraído pela suavidade, o balanço e a descontração do tempo que ouviu, sentindo de alguma maneira traços do “cool” que ele contribuira para criar, assim como o potencial de liberação para seus solos melódicos. Foram gravadas 07 faixas na “All Souls Unitariun Church” (Washington / DC) e editados álbum e compacto sob o título de “Jazz Samba”, incluindo de Tom Jobim “Samba De Uma Nota Só” e “Desafinado”, com vendas que ultrapassaram o meio milhão de cópias, irradiação constante pelas rádios americanas, adesão do público jovem e ascensão às paradas de sucesso. Com Getz dominando inteiramente a Bossa Nova e lotando as casas noturnas e os shows em que antes rareava o público, ocorreu uma procura por seus álbuns anteriores, o que alimentou sua receita. Quanto Getz executava “Desafinado” em suas apresentações, costumava declarar que esse tema pagaria a universidade de seus 05 filhos.
Voltou a gravar Bossa Nova em 27 e 28/Agosto/1962, 08, 09 e 27/Fevereiro/1963 e, finalmente e em 18 e 19/Março/1963 e para o selo VERVE gravou com Jobim, João Gilberto e Astrud Gilberto, com versão em inglês para “Garota de Ipanema”.
Astrud passou a apresentar-se por algum tempo com Getz em seus shows, ainda que este não executasse somente Bossa Nova. Gravou ainda com Laurindo de Almeida, Edson Machado e, para o selo VERVE em 22/Abril e 05 e 06/Maio/1964 com Bill Evans.
Em Maio desse ano Getz voltou a atuar e a gravar com Bob Brokmeyer.
A partir de 1965 Getz rodeou-se de músicos então jovens (Chick Corea, Gary Burton, Steve Swallow e outros) e alcança concepções menos cômodas mas muito mais dinâmicas
Em 02 e 03/Agosto/1966 e com gravação pela RCA Victor em Lenox / Massachusetts no “'Tanglewood Summer Concert” sob o título “Stan Getz Quintet With Boston Pops Orchestra” (Stan Getz / sax.tenor, Gary Burton / vibrafone, Jim Hall / guitarra, Steve Swallow / baixo, Roy Haynes / bateria), Getz volta a encontrar-se com Antonio Carlos Jobim, que participou dos arranjos com Manny Albam, Johnny Mandel, David Ruskin, Eddie Sauter e Alec Wilder.
Em 1967 e 1968 Getz tocou em clubes e em festivais, apresentou-se em rádios e para a televisão, com a prática totalidade de suas gravações para o selo VERVE de Norman Granz (algumas poucas exceções foram para os selos Laselight e Philology).
De Volta à Europa (Málaga = Malibú na Espanha) Com a Família, Regresso Definitivo
Marbella com suas 29 praias (destaque para a de Don Carlos) é considerado o balneário mais elegante, exclusivo e caro da Costa do Sol (Málaga), freqüentado pela realeza e pelas estrelas de cinema, delimitando o extremo oriente da Andaluzia; esse foi o recanto escolhido por Stan Getz para viver com a esposa e filhos em 1969, passando a trabalhar com um grupo de músicos europeus: Eddy Louiss / órgão, René Thomas / guitarra e Bernard Lubat / bateria.
Excursionou e gravou seguidamente pela Europa (França, Inglaterra, Suécia, Alemanha) para, em 1972 e a partir de New York, alcançar novos êxitos: estreou no “Rainbow Grill” e, com o grupo em que figuravam Chick Corea (com o qual Getz havia se encontrado em Londres em 1971 e lhe encomendara temas para quando retornasse aos U.S.A.), Stanley Clarke, Tony Williams e Airto Moreira, gravou em 03/Março/1973 para a VERVE o album “Captain Marvel”, também editado pela Columbia mas somente lançado 02 anos depois.
A partir de 1975 Stan Getz tornou-se produtor para a Colúmbia da série “Stan Getz Presents.....”, na qual destaca-se o album “The Peacocks” com a participação do pianista Jimmy Rowles,
Passou a contar em suas formações com a colaboração de pianistas mais “elegantes”, entre os quais figuraram JoAnne Brackeen (que o acompanhou no Brasil em 1976), Lou Levy, Jimmy Rowles (citado no “The Peacocks”, mas com quem Getz já havia “terçado armas” em 1946 na banda de Woody Herman e no início da década de 1950), Kenny Barron, Michel Forman (seu pianista na visita de 1980 ao Brasil) e Jim McNeely. É importante ler sobre as apresentações de Stan Getz no Brasil (Rio de Janeiro) e, para isso, consultar aquí no CJUB e na “História do Jazz nº 17” do Mestre LULA o primoroso capítulo “Encontros com Stan Getz”.
Em 1974 volta a gravar com Bill Evans na Holanda e na Bélgica (09 e 16/Agosto, álbum da “Milestone” sob o título “The Bill Evans Trio Featuring Stan Getz - But Beautiful”).
Em 21/Maio/1975 novo encontro com João Gilberto na gravação do álbum para a Columbia “Stan Getz/Joao Gilberto - The Best Of Two Worlds Featuring Joao Gilberto”, que incluiu, entre outros, os temas “Água De Março”, “Ligia”, “Falsa Baiana”, “Retrato Em Branco E Preto”, “Izaura”, “É Preciso Perdoar” e outros.
Novamente a “Big Apple” e JoAnne Brackenn
Em 01/Outubro/1975, em New York e para a Columbia, Getz registra ao lado de Al Dailey / piano, Clint Houston / baixo e Billy Hart / bateria o álbum “The Master”, somente lançado 07 anos depois; nos 04 temas (“Summer Night”, “Raven's Wood”, “Lover Man” e “Invitation”) do álbum Stan Getz completa seu “doutorado” pleno na arte da improvisação melódica, digna de “grau dez com louvor”.
Stan Getz voltou a encontrar-se com JoAnne Brackeen (mais Clint Houston / baixo e Billy Hart / bateria) no 'Ljubljiana Jazz Festival' (antiga Iugoslávia, em 20/Junho/1976) e com a orquestra de Woody Herman em New York no “Carnegie Hall” nesse mesmo ano e em 20/Novembro (presentes como o “New Thundering Herd” Al Cohn, Jimmy Giuffre e Zoot Sims / tenores e Ralph Burns / piano).
Ainda com JoAnne Brackeen e em Copenhaguem / Dinamarca nas datas de 28, 29 e 30/Janeiro/1977, Getz registrou para o selo “SteepleChase” o album “Stan Getz Quartet Live At Montmartre, Volumes I e II”, com as participações do então jovem Niels-Henning Orsted Pedersen ao contrabaixo e de Billy Hart à bateria.
No mesmo dia 29/Janeiro/1977 Getz apresentou-se com a “big band” da rádio dinamarquesa, da qual fazia parte o genial pianista Allan Botschinsky, além de Niels-Henning Orsted Pedersen.
Em Março e Abril/1978 Stan Getz voltou a reunir-se com Bob Brookmeyer em sexteto na Alemanha (“'Jazz Buhne Berlin”) e na Polônia ("Congresshall"), resultando gravações ao vivo.
Em 1979 Getz apresentou-se em Havana (03 e 05/Março no “Karl-Max Theatre”) e em Monterey (“Monterey Jazz Festival”, 15/Setembro) em formações com o trumpetista Woody Shaw.
A Fase “Concord”, Kenny Barron
Em Maio/1981 no “Keystone Córner” (São Francisco / Califórnia) e para o selo “Concord Jazz” (iniciais “C” e “J” do fundador Carl Jefferson), Getz deixa registrado ao lado de Lou Levy / piano, Monty Budwig / baixo e Victor Lewis / bateria os álbuns “The Dolphin” e “Spring is Here”, este incluindo a faixa “Easy Living” (o clássico de Ralph Rainger e Leo Robin), que Getz voltaria a gravar em Janeiro/1982 e também para a “Concord Jazz” no álbum “Blue Skies”, uma obra prima de improvisação lógica, desta vez ao lado de Jim McNeely / piano, Marc Johnson / baixo e Billy Hart / bateria.
Em 15/Agosto/1981 Getz integra ao lado de Al Cohn, os dois ao sax.tenor, a banda de Woody Herman no “Concord Jazz Pavilion” no festival da Concord, com 09 faixas devidamente registradas em gravação ao vivo. Em seguida e em 02, 03 e 06/Setembro/1981 no Japão, Getz se apresenta no “Aurex Jazz Festival” ao lado de Freddie Hubbard / trumpete, Bob Brookmeyer / trombone de válvulas, Gerry Mulligan / sax.barítono, Milt Jackson / vibrafone, Roland Hanna / piano, Ray Brown / baixo e Art Blakey / bateria, registro ao vivo lançado pelo selo “East World Jazz”. No 1º dia de apresentação o grupo apresenta “The Girl From Ipanema” com verdadeira e prolongada ovação da platéia. Ainda em 1981 Getz excursiona à França e grava em Paris (04/Novembro/1981) para o selo EmArcy o álbum “Billy Highstreet Samba, Stan Getz '81”, ao lado de Mitchel Forman / teclados, Chuck Loeb / guitarra, Mark Egan / baixo, Victor Lewis / bateria e Bobby Thomas / percussão.
No início de 1982 e para a Concord Jazz, Stan Getz grava de 29/Janeiro até 05/Fevereiro as faixas que integraram os preciosos álbuns “Pure Getz” e “Blue Skies”, contendo gemas do quilate de “Spring At Bell's”, “Tempus Fugit”, “Spring Is Here”, “Easy Living”, “Blue Skies”, “How Long Has This Been Going On?”, “Very Early”, “I Wish I Knew” e “Come Rain Or Come Shine”, todos em companhia de Jim McNeely / piano, Marc Johnson / baixo e Billy Hart / bateria.
Um Tapete Para Diane Schuur
Em 1983 Getz vai à Europa com Chet Baker (Dinamarca, Suécia, Noruega, em combo com Jim McNeely / piano, George Mraz , baixo e Victor Lewis / bateria) e no retorno em 1984 grava em Seattle com Diane Schuur e ao lado de Dave Grusin / piano, Don Grusin / sintetizador, Howard Roberts / guitarra, Dan Dean / baixo e Moyres Lucas / bateria. Volta a gravar no mesmo ano com a cantora em New York, com formação modificada e contando com Dave Grusin / teclado, Larry Williams / sintetizador, Abe Laboriel e Chuck Domanico / baixo, Carlos Vega / bateria e o brasileiro Paulinho Da Costa / percussão. Novamente e agora em 1985, Diane Schuur e Getz registram em New York e para o selo “Timeless” ao lado de Chuck Findley e Warren Luening / trumpetes, Stan Getz, Jack Nimitz, Bill Perkins, Bill Reichenbach e Tom Scott (palhetas), Dave Grusin e Mike Lang / teclados, Lee Ritenour / guitarra, Chuck Domanico / baixo, Steve Schaefer / bateria e Larry Bunker / percussão, além de sessão de cordas, um repertório de clássicos: “How Long Has This Been Going On?”, “Easy To Love”, “Come Rain Or Come Shine”, “Do Nothin' Till You Hear From Me?”, “I Can't Believe That You're In Love With Me” e outros. Esse o único registro discográfico de Stan Getz em 1985.
Também em 1986 Stan Getz deixa registro fonográfico em uma única ocasião, 09/Março, Menlo / Califórnia, acompanhado por Kenny Barron / piano, George / baixo, Victor Lewis / bateria e Babatunde /conga, imortalizando no álbum “Voyage” para o selo “Black Hawk” os clássicos “I Wanted To Say”, “I Thought About You”, “Yesterdays”, “Dreams”, “Falling In Love”, “Voyage” e “Just Friends”: melhor impossível ! ! !
Pois Eu Só O Contrataria Pelo Salário.base ! ! ! . . .
Conforme assinalado no início deste “RETRATO”, Stan Getz era reconhecido por pagar baixa remuneração aos seus músicos acompanhantes. Há um episódio ocorrido em Pittsburgh e relatado por Mel Tormé que ilustra bem essa característica; Mel estava contratado para uma temporada no “Copa Club” local e entre o público estava o ator José Ferrer (José Vicente Ferrer Otero Y Citrón, portorriquenho nascido em 1909, foi ator de cinema, teatro e televisão, possuidor de um magnífico timbre vocal, destacando-se no cinema por suas atuações em “Joana D’Arc” de 1948 com Ingrid Bergman, “Cyrano de Bergerac” de 1950 e conquistando o “Oscar” de melhor ator em “Moulin Rouge” em 1952, em que interpretou Toulouse-Lautrec, além de ser excelente pianista e amante do Jazz). Ao final da apresentação rumaram, Mel e Ferrer para outro clube, “Carrossell”, onde Getz se apresentava em quarteto; Getz, após um de seus solos, convidou Mel Tormé para subir ao palco e assumir a bateria e, quando este ia levantar-se, Ferrer pediu que perguntasse a Getz se poderia acompanhá-lo; com a concordância deste, iniciaram um “Indiana” em que Ferrer literalmente “arrazou” com seu solo; muitas palmas ao final, a maior parte em função do novo pianista. Getz perguntou a Mel quem era o “velho” e Mel respondeu-lhe que era o famoso José Ferrer, que então ganhava pelo menos US$ 1,000.00 / semana na Broadway; Getz, muito sério, disse para Mel Tormé que se o “velho” quizesse trabalhar com ele receberia apenas o salário.base do Sindicato. A proposta de Getz foi informada por Mel a Ferrer que, bem humorado, comentou-a com seu agente de publicidade; como resultado no dia seguinte o episódio saiu em toda a imprensa e nos veículos do mundo dos espetáculos.
Com Kenny Barron ficaram registradas mais diversas gravações de Stan Getz: em 21/Junho/1987 no “Avery Fisher Hall” de New York, em 06/Julho/1987 na Dinamarca e no “Cafe Mountmartre” (registrado nos álbuns “Serenity” e “Anniversary!” pelo selo EmArcy), em 09/Julho/1987 na Finlândia e no “Pori Jazz Festival”, em 17/Fevereiro/1988 na Itália / Trieste, em 29/Junho/1989 na Escócia / Glasgow e no “Glasgow International Jazz Festival”, em 27/Julho/1989 novamente na Dinamarca e no “Musickhusit Aarhus” de Copenhaguem (apresentação gravada ao vivo pela “Concord Jazz no álbum “Soul Eyes”), em 13/Setembro/1989 em estúdio de Los Angeles / Califórnia com big.band da qual participaram Oscar Castro Neves e Paulinho da Costa, em 18/Julho/1990 no "Philharmonic Hall" de Munique / Alemanha, em 19/Julho/1990 no "Royal Festival Hall" de Londres / Inglaterra e, finalmente, na derradeira gravação de Stan Getz, em 03 e 06/Março/1991, na Dinamarca e no “Cafe Mountmartre", Jazzhus, Copenhaguem, em duo com Kenny Barron registrado no álbum “People Time” da “EmArcy”.
O Final
Anteriormente (15/Junho/1989) Stan Getz participara do concerto felizmente registrado em vídeo e áudio intitulado “Paris All Stars”, uma homenagem a Charlie Parker no encontro de "La Grande Halle", La Villette, Paris, França. Realmente um senhor “All Stars” com Dizzy Gillespie / trumpete, Jackie McLean e Phil Woods / saxes.alto, Milt Jackson / vibrafone, Hank Jones / piano, Percy Heath / baixo e Max Roach / bateria. Importante documento em vídeo, com a chegada dos músicos para o ensaio, cenas do ensaio, a fraternidade dos músicos recordando “aqueles tempos”, os primorosos solos de Getz, Phil Woods e Jackie McLean, enfim, um espetáculo para a eternidade.
Ainda mais preliminarmente e desde 1988 prosseguindo com sua permanência em apresentações, excursões, festivais e gravações em estúdio, a saúde de Stan Getz já lhe dera “avisos” mais sérios; interrompeu, pelo menos parcialmente, suas apresentações na Europa já que estava declarado um câncer de fígado incurável. Tratamentos e medicamentos prolongaram sua permanência e ele, como se incólume, tocou quase até o último instante, inclusive com divulgação pela imprensa de que estaria curado: ledo engano ! ! ! . . .
A doença o levou ao óbito em 06/Junho/1991 aos 64 anos, em Malibú / Califórnia.
Stan Getz tocou o sax.tenor em toda a sua expressão e técnica, com personalidade artística que dispensa adjetivos relativos a “escolas” ou etiquetas. Mesmo habitualmente suave e aveludado, indolente e terno (jamais “açucarado”), com alguma freqüência, se e quando musicalmente exigido, mostrava registro viril, com alguma “dureza” e mostrando ser um legítimo caudatário das concepções de Charlie Parker, mesmo devendo muito de seu fraseado e sentido rítmico e reflexivo a Lester Young. Pertenceu à maior estirpe de seu instrumento, a nosso juízo o maior do Jazz “moderno”, como indiscutível e lógico improvisador com permanente inspiração e elegância.

Continua em (C) com “Filmografia e Bibliografia

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