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MESTRE LOC NO JB - SÁBADO 19 E SÁBADO 26 JUNTAS: MEA CULPA

27 julho 2014

Desculpem a nossa falha mas a presença dos netos para uma semana em casa encurtou todos os horários de funcionamento de trabalho e o das demais atividades prazerosas não-familiares. Não que aqui assim não o sejamos, mas neto é neto. E assim "varei" a coluna do sábado retrasado, logo esta sobre o grande Charlie Haden. Tento recuperar agora, a aí vão duas, empilhadas. Abraços.

A herança de Charlie Haden

Luiz Orlando Carneiro, 19/07/14

"O grande contrabaixista e também compositor Charlie Haden morreu, na última semana, aos 76 anos, em Los Angeles, depois de prolongada luta contra os efeitos degenerativos de síndrome pós-pólio relativa à poliomielite que contraiu na juventude. Ele deixou a mulher, Ruth Cameron, com quem casara há 30 anos, e quatro filhos, todos instrumentistas e vocalistas ligados, de um modo ou de outro, ao jazz e ao country rock típico do Meio-Oeste (Iowa), onde nasceu o pai: Josh (baixo) e as trigêmeas Petra (violinista), Rachel (baixista) e Tanya (violoncelista). A família chegou a produzir, em 2008, o álbum Rambling boy (Decca).

A grande herança de Charlie Haden - “canonizado” como jazz master pela National Endowment for the Arts, em 2012 – é uma extraordinária discografia erigida ao longo de 52 anos. A começar pela sua participação ativa como sideman do saxofonista Ornette Coleman, nos quatro LPs da Atlantic, gravados entre 1958 e 1960, que detonaram o chamado free jazz: The shape of jazz to come,Change of the century, This is our music e Free jazz - este último com aquele incrível double quartet que incluía Don Cherry (pocket trumpet), Freddie Hubbard (trompete), Eric Dolphy (clarone), Scott LaFaro (baixo), Ed Blackwell e Billy Higgins (baterias).

Ao receber o prêmio da NEA, Haden disse, com o seu jeito muito bem articulado e sintético de falar, tocar e compor: “Este prêmio significa que tenho sido reconhecido por meus pares por ter contribuído, de um modo significativo, para essa forma de arte que chamamos 'jazz' e, espero, para este planeta que chamamos 'terra'. É uma grande honra”.

Depois da histórica e frutífera colaboração com Ornette Coleman, o baixista-compositor fundou, em 1969, em associação com a compositora-arranjadora-pianista Carla Bley, a engajada Liberation Music Orchestra, integrada por vanguardistas do calibre de Don Cherry (trompete), Dewey Redman e Gato Barbieri (saxes) e Roswell Rudd (trombone). A orquestra gravou para a Impulse e para a ECM (Ballad of the fallen, 1982).

O dedilhado à la guitarra de Haden no upright bass e a sua profunda musicalidade levaram-no também a dois conjuntos notáveis das décadas de 70 e 80: o American Quartet do pianista Keith Jarrett (com Dewey Redman, sax tenor; Paul Motian, bateria) e o Old and New Dreams – quarteto ainda mais free, com Redman, Don Cherry e o baterista Ed Blackwell, e que fez dois excelentes registros para o selo ECM: Old and new dreams (1979) e Playing (1980, ao vivo, concerto na Áustria).

Em 1986, Charlie Haden formou o seu Quartet West – jazz mais mainstream, na linha do bop, mas sempre com a marca sofisticada do líder – tendo como sidemen Ernie Watts (sax tenor), Alan Broadbent (piano) e Billy Higgins (bateria). Os dois álbuns marcantes do combo, ambos da Verve, foram o primeiro, com o nome do grupo, de dezembro de 1986, e Angel City, de 1988.

Mas o sumário mais relevante e consagrador da arte do lendário baixista (sempre acústico) é a série de oito concertos (tributos) organizados pelo Festival Internacional de Jazz de Montreal, em julho de 1989, documentados em outros tantos CD gravados pela Rádio Canadá e editados pela Verve. O mais impactante é o do trio com Don Cherry e Ed Blackwell, em que os três herois do free jazz reinventam obras-primas de Ornette Coleman (The sphinx, Lonely woman, The blessing) e de Cherry (Art deco).

Charlie Haden ganhou três vezes o Grammy. O seu disco em duo com o incrível guitarrista Pat Metheny, intitulado Beyond theMissouri sky (Verve), foi eleito “The best jazz instrumental performance” de 1997. Seus CDs, também da Verve, com o grande pianista cubano Gonzalo Rubalcaba e o percussionista Ignacio Berroa, mais convidados ilustres (Nocturne, 2001; Land of the sun, 2004), arrebataram os gramofones de ouro do Grammy na categoria “best Latin jazz album”.

Mais recentemente, o mestre do jazz contemporâneo que nos deixou no último dia 11 registrou quatro memoráveis performances na companhia de outros cultuadíssimos jazzmen: Os dois volumes do reencontro com o pianista Keith Jarrett, em duo, em 2007, só lançados pela ECM em 2010 (Jasmine) e neste ano (Last dance); Live at Birdland (ECM), gravado no clube novaiorquino em dezembro de 2009, em quarteto com Lee Konitz (sax alto), Brad Mehldau (piano) e Paul Motian (bateria); Come Sunday (EmArcy), duo de 2010 com o inesquecível pianista bop Hank Jones, que morreria, aos 91 anos, três meses depois da sessão de gravação.

P.S.- Estes quatro últimos álbuns foram comentados e indicados neste espaço nas seguintes datas: Jasmine em 13/6/2010; Live at Birdland em 4/6/2011; Come Sunday em 4/2/2012; Last dance em 28/6/2014."

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Bonebridge Quartet concilia violoncelo e slide guitar em 'Nighthawks'

Luiz Orlando Carneiro, 26/07/14

"Lá na década de 1950, Harry Babasin (1921-88) introduziu o violoncelo na discografia jazzística, tocando-o em pizzicato, no comando do quinteto The Jazz Pickers, ao lado de gente muito boa da West Coast, como os vibrafonistas Red Norvo e Larry Bunker, o pianista Hampton Hawes e o flautista Budy Colette. O mestre do contrabaixo Oscar Pettiford (1922-60) passou também a usar o cello quando quebrou um braço e, no processo de recuperação, teve de se servir do instrumento de quatro cordas menos “pesado”. Um dos últimos LPs que Pettiford gravou como líder teve como título My little cello.

O violoncelista Erik Friedlander, hoje com 54 anos, notabilizou-se tanto no campo da música erudita como na cena jazzística de vanguarda da Nova York downtown, na companhia do heterodoxo e genial John Zorn (vide Volac: Book of angels, vol. 8, selo Tzadic, 2007). Em homenagem a Oscar Pettiford, Friedlander lançou, em 2008, o CD Broken Arm Trio (Skipstone), com o baixista Trevor Dunn e o baterista Mike Sarin.



Novo CD de Erik Friedlander (primeiro à esquerda) tem clima de film noir

Agora, neste último mês, o violoncelista-compositor enriqueceu a sua obra com a edição do álbum Nighthawks (Skipstone), gravado em maio do ano passado, no leme do seu trio habitual que, com a adição fundamental do guitarrista Doug Wamble, especialista no efeito slide, torna-se o Bonebridge Quartet.

Friedlander explica que a maioria das 10 peças do disco foi por ele escrita em setembro de 2012, durante as cinco escuras noites nas quais o Furacão Sandy mergulhou Nova York: “Minha vizinhança estava sombria e sinistra, sem as luzes dos postes, sem os sinais de trânsito, as lojas e os restaurantes fechados. A cada 10 ou 15 minutos um carro de polícia aparecia, avançando corajosamente pela escuridão, com as luzes de emergência piscando, mas sem sirenes”.

Esse clima de film noir levou o músico – artista de grande sensibilidade - a lembrar-se daquela desolação que habita os quadros do grande pintor Edward Hopper (1882-1967), que retratou, como nenhum outro artista plástico, a solidão do americano comum na cidade vazia, no quarto, no escritório, no posto de gasolina da estrada, ou mesmo no campo.

E é por isso que o novo álbum do quarteto Bonebridge tem o título de Nighthawks (aves noturnas, em tradução livre), que é o mesmo do mais famoso quadro de Hopper – aquele, de 1942, em que um casal, um homem só e o garçom de uma cafeteria barata, numa esquina deserta dadowntown, são “vistos” pelo pintor, do outro lado da rua, através das vidraças do prédio.

Quatro composições de Friedlander – com o seu cello em pizicatto (raramente com arco) interagindo com a slide guitar de Wamble, a bateria (escovinhas no snare e no címbalo) de Sarin e o upright bass de Dunn – são primorosas invenções musicais claramente inspiradas em Hopper: a faixa-título (7m50), Hopper's blue house (5m15), Nostalgia blindside (4m55) e One red candle (5m15).

Mas o CD do quarteto Bonebridge não se limita a uma meditação musical – com base num jazz camerístico – sobre a “Americana” de Hopper. Não é apenas um film noir. É também um road movie, uma viagem às raízes bluesy e sulistas da “Americana”.

Em entrevista à Downbeat (edição de junho último), Erik Friedlander fala de tais raízes:

“Quando criança, eu adorava o rock sulista – os Allman Brothers, os Outlaws, a Charlie Daniels Band, Johnny Winter (…) Quando comecei a conceber a nova banda (o quarteto Bonebridge), eu queria algo que tivesse, na linha de frente, a química do que minha memória guardou daquelas bandas – e pensei na slide guitar”.

Essa “química” inclui, portanto, a acentuação roqueira do backbeat e o sotaque sulista da música caipira (country, bluegrass), como se pode ouvir e curtir em faixas bem movimentadas como Sneaky Pete (5m), Clockwork (5m10), Twenty-six gasoline stations (4m35), Poolhallplayback(4m10) e The river (6m15).

Para o crítico Larry Blumenfeld (Artinfo), a música do CD Nighthawks é “um blend do tanger (twang) e da energia do rock sulista com o desafio e a ambição da Manhattan downtown”."

That's it!

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