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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

PANORAMA DO JAZZ EM NOVA IORQUE, EM FEVEREIRO

24 fevereiro 2012

Como vem fazendo com uma certa periodicidade, nosso editor-quase-eletrônico, PeWham nos envia este saboroso relato de sua recente estada na Grande Maçã, com as palavras exatas para fazer com que nos sintamos como se ali ao seu lado, na verdadeira maratona que empreendeu. Ave, Pedro, obrigado pela bela reportagem.


Jazz em Manhattan:

Aos companheiros do CJUB registro alguns ótimos momentos que vivi em NY na semana anterior ao Carnaval. Como não deixo de impressionar-me pela diversidade das casas de jazz e por inúmeros novos músicos que disputam seu espaço nesses palcos, produzindo musica da mais alta qualidade e sensibilidade, espero repartir com vocês a memória desses momentos.

Com o justo tempo de deixar a mala no hotel corri para o Jazz Standard e lá chegando já subia ao palco o YES! TRIO.

Três músicos que não poderiam ter visuais mais distintos: a figura do “bom moço” do nosso muito conhecido e admirado Aaron Goldberg, cabelos aparados, camisa branca e paletó escuro, contrastava com Omer Avital, com sua vasta cabeleira encaracolada, espessa barba e seu quase inseparável cachecol, e mais o baterista Ali Muhammad Jackson, cabeça raspada, colete cinza e vistosa gravata borboleta.

Mas essa impressão de desarmonia é, claro, meramente do visual, e não passa do conjunto da imagem dos três, e fica logo desfeita desde as primeiras notas e acordes do rápido e alegre tema “Muhammad Market”, e a integração e harmonia do trio é total e de raro bom gosto!

Com direito a conhecermos a história do porque do titulo dessa peça inicial, oriunda da ultima turnê do Trio pela Europa, seguem numa impecável apresentação, temas na maioria originais de Aaron ou Omer, sempre com o acento da musica da terra, seja na bela “Homeland” de Goldberg ou na linda balada “El Soul” de Avital. “Epistrophy”, de Monk com um clima dramático criado pelos cymbals de Ali e o ostinato de Avital no baixo.

Relembram ainda o grande Coltrane com um tema de Omer, “Flow ,” onde colocam algumas frase de “Giant Steps”, e mal se percebe quando invertem, tocando “Giant Steps” e nesse inserindo citações de “Flow”.

A casa não está lotada mas a intensidade e a integração do trio mantém a plateia ligada em todo o set. Ao final total convencimento de que valeu tanta correria.

Posso afirmar-lhes YES! O TRIO é ótimo!

E não há como sair sem comprar o CD à venda no bar (Sunnyside SSC 1271, já disponível na iTunes brasileira).


No VILLAGE VANGUARD apresenta-se Fred Hersch. O crítico Nate Chinem do “The New York Times”, presente aos sets de abertura na terça feira assim escreveu: “Se tivesse de descrever a musica de Fred Hersch em uma única palavra escolheria refinamento”. E acresceu: "Hersch é um pianista de cultivado bom gosto e erudição. Elegante no que toca e não nos deixa perceber qualquer esforço nisso”.

Durante toda semana os sets seriam gravados para edição de um novo CD, a ser lançado até o final do ano, no que será o terceiro gravado ao vivo por Hersch no templo maior do jazz.

O primeiro foi “Live at the Village Vanguard” de 2003 e no ano passado “Alone at Village Vanguard”.

Nesta semana acompanhando Hersch e à ele perfeitamente integrados (e já haviam gravado em estúdio o álbum “Whirl” em 2010), os excelentes John Hébert, bs e Eric McPherson, dr.

“The Song is You” que abre o set em tempo de balada , já justifica plenamente a assertiva de Nat Chinem do refinamento de Hersch. Logo a seguir, como num contraponto, um alegre e em up-tempo, original seu, “Jackalope” que diz ter se inspirado num bicho, seja lá qual for.

Homenageia em seguida três grandes músicos de sua declarada admiração, todos por três originals seus, “Dream Monk” valorizada com repetidas citações de “Monk’s Dream”; à Tom Jobim dedica “Sad Poet”, e reverencia Paul Motian, recém falecido, em “Tristesse”, e como os títulos já dizem, temas lentos e de muito sentimento, trechos quase sussurrados, como se cada nota fosse entregue flutuando à audiência, e ainda mais valorizadas pela bela moldura que compõe o baixo de Hebert e as suaves escovas de McPherson. Envolventes!

Terminam com outra composição de Monk, “Played Twice”, e a esta altura a platéia já totalmente encantada, retribui ao final com demorados aplausos à maravilhosa apresentação de Hersch e seu trio. Casa cheia de terça a domingo.


Saio do Village e percorro na noite gelada as três quadras que me levam ao Small’s , pois não poderia deixar de visitar esta casa que aqui já registrei como a mais divertida, quente e diversa no que apresenta no cenário jazzístico de NY. Impossível deixar de rever o simpático door-man e sua caixa de charutos/bilheteria e o gordo gato, presença infalível na casa. Muito menos os jovens e excelentes músicos que ali se apresentam, como primeiro estagio de um maior reconhecimento no universo jazzístico.

Quando chego já estão no palco os músicos que compõe o sexteto de Omer Avital. Sim, cabe um sexteto no exíguo palco do Small’s, e se apresentam sob a firme liderança e organização de Omer, tocando por mais 45 minutos uma musica vibrante, intensa, alegre, as vezes modal, e com visível influência da terra natal desse músicos. Não consegui identificar ou registrar qualquer dos títulos e nem precisava, pois esses jovens músicos empolgaram a platéia, arrancando entusiasmados aplausos a cada solo ou intervenção, e uma das que mais festejava a apresentação era nossa conhecida e notável Anat Cohen.

Anotei seus nomes pois são músicos aos quais vale a pena estarmos atentos e buscando conhecer outros trabalhos. Nesse competitivo universo do jazz dos dias atuais, para brilhar e ganhar notoriedade já não há outro caminho que não de muita técnica que vem da prática e dos estudos e muito empenho. Já não basta o dom. Aplica-se aqui a máxima do grande Armando Nogueira: “inspiração e transpiração, a receita do craque”, o que não faltou aos jovens desse sexteto.

Então anotem: Itamar Borochov, tp, Matan Chapnizka, ts, Nadav Remy, gt, Yoni Halevy, dr e o excelente pianista Shai Maestro, que já é mais conhecido e requisitado.


O BMCC Tribeca Performing Arts Center é um espaço que integra o campus do New York College. Impressionante!

Além de outros espaços, dois excelentes teatros, um com capacidade para 240 pessoas na forma de um anfiteatro e acústica impecável, e outro maior, para quase 500 pessoas.

O objetivo desses espaços é proporcionar aos artistas possibilidades de criação e apresentação de seus trabalhos, e a cada temporada homenagear os que no passado brilharam, e por um olhar nos que brilharão no futuro. E nesse segundo viés é que, na fria noite de sábado, fui conhecer Joshua White, ganhador do Concurso Thelonius Monk de 2011. Já haviam se apresentado os segundo e terceiros colocados, em sábados anteriores, Emett Cohen e Cris Bowers. Numa recente coluna Mestre LOC escreveu sobre os três.

White apresenta-se acompanhado pelos já muito bem conceituados Doug Weiss, bs, e Adam Cruz, dr, que já foram sidemen constantes de ninguém menos que Fred Hersch e Danilo Perez respectivamente, além do otimo e versátil Marcus Strickland, ts e ss.

White é um virtuose !! Nunca ouvi Emett ou Bowers mas fica difícil imaginar alguém tão criativo e cheio de vigor como o jovem e tímido White, que quando põe as mãos sobre as teclas do piano transforma-se.

Começa com uma introdução intensa e percussiva, ao melhor estilo McCoy Tyner, aos poucos construindo um belo “Yesterday” que a medida que Weiss e Cruz vão se integrando percebe-se com maior clareza. Apresenta o único original seu, “Amazing”, que faz total jus ao título da composição. Aliás e é uma visão muito pessoal minha que os jovens músicos deveriam seguir essa formula de White, menos originals e mais temas conhecidos. Sei que nessa visão tenho, ao menos, o apoio do Dr. David Bené-X!

Chama Strickland ao palco para interpretar obras dos músicos que diz serem grandes influências, Monk e Shorter. Do primeiro compõe um belo “Ugly Beauty”. Não pude identificar o tema de Shorter, que Strickland em seus solos mostra grande influência do mestre autor.

Climax da apresentação é o numero solo de White. Outra vez uma inspirada e percussiva introdução em que pode improvisar e mostrar todo seu poder de digressão, muito mais por estar só. Percebe-se que uma musica muito linda e conhecida está sendo aos poucos construída, e a medida que vai diminuindo a percussão, baixando o volume, tornando-se aos poucos melodioso, vamos distinguir uma "Skylark" como não podia imaginar. Linda! Final sussurrado. Público em suspense e totalmente envolvido pela enorme qualidade e sensibilidade desse grande pianista Joshua White.

De volta Weiss, Cruz e Strickland, terminam com a bela canção dos Beatles “And I Love Her” que alternam com um tema de Coltrane, que não consigo identificar embora tenha pesquisado (ajudem-me por favor,) e que encaixa-se à perfeição na citação de frases entre um tema e outro.

Do Tribeca fui ao Cornelia Street Café onde queria ver Vijay Iyer, no set de 11 hs, a única frustração da temporada, mas por culpa de minha imprevidência de não ter feito reserva. Depois de quase trinta minutos na fila de espera na calçada, com frio e com alguns leves flocos de neve caindo, não consegui lugar no simpático porão da Cornelia St. Menos mal que no térreo, onde funciona o restaurante, consegui ao menos jantar. Já tive oportunidade de escrever que o Cornélia tem um steak com fritas e molho de manteiga e ervas pra ninguém botar. Reafirmo. Vale a pena.

Finalmente deixo aqui minha sugestão pois me lembro que outros companheiros, o Sazz e o Gustavo, também já postaram no nosso Blog impressões de suas idas a NY. Por que não combinarmos um grupo no futuro ? Que nosso chefe MauNah nos lidere...

Por Pedro Wahmann

Quanto à ultima sugestão do nosso confrade, "me levem", ou seja, peço que estudem e organizem a melhor época para o aproveitamento total - da temporada 2012 - e me informem "quando", pois qual Brancaleone, liderarei nossa valorosa armada. Abs.

Um comentário:

Anônimo disse...

No trecho sobre Joshua White mencionei Doug Weiss como sideman habitual de Hersch,não está correto; na verdade quem gravava e tocava com Hersch era Drew Gress.Faço a correção
Pedro Wahmann