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TRIBUTO A CHICO HAMILTON, PELO MESTRE LOC NO JB DIGITAL

02 outubro 2011

Chico Hamilton: 90 anos de vida, sete décadas de jazz

Lenda viva do jazz, Forestorn Chico Hamilton chegou aos 90 anos no último dia 20. E está comemorando o feito extraordinário neste sábado, no clube Drom, no East Village, Nova York, com as suas baquetas e bateria, à frente do grupo com o qual gravou, em março, 28 faixas, que foram distribuídas em um CD e dois EPs que o selo Joyous Shout está lançando.

O CD, intitulado Revelation, contém 22 faixas, das quais a maioria da pena de Hamilton, e algumas homenagens a eminências da Era do Swing, como Duke Ellington (It don’t mean a thing) e Jimmy Lunceford (Stompin’ at the Savoy), incluindo vocais coletivos de gosto duvidoso.

A julgar pelos samples que ouvi, o título do disco principal deveria ser Celebration, e não Revelation. Participam da sessão festiva Nick Demopoulos (guitarra), Evan Schwam (saxes, flauta), Maya Saeki (flauta, pícolo), Paul Ramsey (baixo elétrico) e Jeremy Carlstedt (percussão).
Mais importante do que estes registros — que pelo menos um reviewer chamou de “testamento” — é o legado que Chico Hamilton já deixou. Ou seja, as marcas indeléveis de sua presença, como baterista, compositor e líder, na história do jazz moderno. Não foi por acaso que ele recebeu, em 2004, o título de mestre do jazz da National Endowment for the Arts (NEA), na honrosa companhia de Jim Hall, Herbie Hancock, Nat Hentoff (crítico e historiador) e Nancy Wilson.

O baterista começou a aparecer na California, associado ao cool jazz, em 1952, no histórico e primoroso quarteto (sem piano) Gerry Mulligan-Chet Baker — aquele de Line for Lyons, Bernie’s tune e Walkin’ shoes. Mas ficou famoso como líder de um conjunto integrado por Buddy Colette (saxes, clarinete, flauta), Jim Hall (guitarra), Fred Katz (violoncelo) e Carson Smith (baixo), que gravou, em agosto de 1955, o LP The Chico Hamilton quintet featuring Buddy Colette.
Esse quinteto aliava, em suas composições e arranjos, aspectos formais da música erudita à criatividade imprevisível do jazz (A nice day e Blue sands, de Colette; The morning after, de Hamilton; The sage, de Katz). Nat Hentoff escreveu na Downbeat, há 55 anos, quando do lançamento desse LP hoje cult: “O novo quinteto de Chico Hamilton é responsável por um dos mais estimulantes, consistentemente inventivos e únicos discos de jazz deste ou de qualquer ano recente”.
O mesmo quinteto gravou mais um LP para a Pacific Jazz, em janeiro de 1956 (The C.H. Quintet in Hi-Fi) e, em outubro do mesmo ano, o baterista-líder voltou ao estúdio, com Fred Katz e Carson Smith, mas com duas substituições: John Pisano no lugar de Jim Hall e Paul Horn no de Buddy Colette (The C.H. Quintet).
Estes três discos ficaram fora dos catálogos por muito tempo. A Mosaic chegou a editar, em 1997, um box de 6 CDs, incluindo as demais formações do conjunto básico de Hamilton, responsável pela descoberta de jovens músicos que se tornariam, na década de 60, figuras de proa do jazz contemporâneo, como os saxofonistas Eric Dolphy e Charles Lloyd. No ano passado, a gravadora inglesa Avid lançou o CD duplo Three classic albums plus, reunindo os quintetos acima citados, com 10, 11 e 13 faixas, respectivamente, mais cinco registros de 1953 em trio, com Howard Roberts (guitarra) e George Duvivier (baixo).

Os sofisticados quintetos de Chico Hamilton apareceram com destaque em dois filmes: A embriaguez do sucesso (Sweet smell of success), cult noir de Alexander Mackendrick, de 1957, com Burt Lancaster e Tony Curtis; Jazz on a Summer’s day, documentário antológico em que aparece a nata do jazz no Festival de Newport, em 1958.

Em 2001, o então octogenário baterista apresentou-se no Free Jazz Festival (Rio-São Paulo), no leme do seu quinteto Euphoria — com dois saxes (Evan Schwan e Eric Lawrence), guitarra e baixo elétricos — esbanjando vigor e sua arte de notável percussionista. Mas a “euforia” era um tanto apelativa, em termos de concessões a um certo “roquismo” e até ao clima comercial da chamada new wave.

Os jazzófilos mais recentes que procuram ter uma “discoteca” (ou que nome se dê a isso agora) representativa não podem deixar de adquirir faixas dos álbuns da Pacific Jazz/Avid. E também de The original Ellington Suite (Pacific Jazz/Blue Note), rara gravação de uma seleção encadeada de nove temas do Duke, de In a mellowtone a It don’t mean a thing, passando por Day dream e Azure. Esta sessão de agosto de 1958 foi reeditada em CD, há 11 anos, e os comandados de Chico Hamilton eram o incrível Eric Dolphy (sax alto, clarinete, flauta), Nate Gershman (violoncelo), John Pisano (guitarra) e Hal Gaylor (baixo).

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil, 1/10/2011

Um comentário:

APÓSTOLO disse...

Prezado MauNah:

Muito interessante no "Embriaguez do Sucesso" é que Chico participa atuando em determinado momento do filme, ao lado de seus músicos.
Vale a pena conferir, até porque se trata de "filme-denúncia".