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RENAUD GARCIA-FONS EM ENTREVISTA NO ESTADÃO

06 junho 2011

O Estado de S.Paulo, 06 de junho de 2011
por Jotabê Medeiros

Baixo em alta

Revelação europeia, Renaud García-Fons diz ao "Estado" que não é "prisioneiro de um instrumento" e fala da utopia em reunir Ocidente e Oriente na música.

A música do contrabaixista e compositor francês Renaud García-Fons, de 48 anos, é daquele tipo que é familiar e inesperada ao mesmo tempo, possivelmente por conta da carga de informação múltipla que carrega: jazz, flamenco, música mediterrânea, clássico. Considerado "hipnótico" pelo jornal inglês The Guardian, e como um artista que "move adiante" o jazz, pela revista JazzTimes, ele de fato ocupa lugar especial no jazz moderno. Seu contrabaixo acústico de cinco cordas é uma das preciosidades do BMW Jazz Festival - ele toca com seu quarteto Línea del Sur (David Venitucci, acordeão; Kiko Ruiz, guitarra flamenca; Pascal Rolando, percussão). Será no domingo, dia 12, no Auditório Ibirapuera - uma jornada tripla que terá ainda o Tord Gustavsen Trio e outro monstro do instrumento, Marcus Miller, tocando inteirinho o álbum Tutu, de Miles Davis (1985).

'Na música que componho, há um componente de jazz, de clássico e, eu diria, também do flamenco, dos Bálcãs, da Europa do Leste'

García-Fons falou com exclusividade ao Estado, na semana passada, por telefone, de Paris.
É a primeira vez no Brasil, certo? Que nível de informação o sr. tem sobre o País? Toca alguma coisa de música brasileira?
Sim, é a primeira vez. Diria que tenho um nível de informação mediano sobre o seu País. Da música, eu tenho um interesse que se renova de tempos em tempos, por intermédio das grandes figuras da música brasileira: Villa-Lobos, João Gilberto, Gil, Jobim. É um império da música, o Brasil. Atualmente, eu não toco nada do Brasil. Mas eu toquei muitas coisas ao longo da carreira, standards. Mas agora, o repertório que estamos levando não tem nada de brasileiro, é basicamente o repertório do disco Línea del Sur.

Vi que o sr. nasceu no dia 24 de dezembro, nasceu no Natal. É difícil fazer aniversário no Natal?
Para presentes, é formidável (risos).

O sr. tem uma música que se chama Berimbass. Tem algo a ver com o Brasil?
Sim, totalmente. O título, é claro, vem de uma música que, conforme fazia, formava uma levada de percussão que me lembrava um instrumento de um jogo brasileiro, o berimbau. E imaginei que o baixo, nessa música, agia assim - tinc, tinc, tum, tum, tinc, tinc, tum tum -, como se fosse um berimbau, e batizei assim a composição.

Há outro tema seu, que se chama La Silhouette, que me lembrou o tango argentino. Estou errado?
Tango mesmo, no sentido estrito, é La Línea del Sur, outra música desse disco. La Silhouette é um pouco mais estranha, porque a melodia não evoca nada particularmente.

Há uma tradição muito forte do jazz na Europa, que é diferente da tradição americana. Começa com artistas como Django Reinhardt, e se estabelece em outro caminho. Hoje em dia há muitos europeus fazendo algo muito característico, como Richard Galliano. Ao mesmo tempo, é jazz, certo?
Na música que componho, há um componente de jazz, de música clássica e diria também de música do mundo em geral, do flamenco, dos Bálcãs, da Europa do Leste. Há também um componente latino importante, que vem da minha imaginação, assim como o jazz e o erudito. Meus pais são da Espanha. Meu pai é pintor, Pierre García-Fons, catalão. Ele é bem conhecido, tem quadros em diferentes museus do mundo todo, e continua a pintar, está com 84 anos.

Vi que em seu novo álbum há uma canção que se chama Fortaleza. Sabia que nós temos aqui uma cidade chamada Fortaleza?
Sim, é o nome em espanhol para construção fortificada. É uma música no ritmo do flamenco que se chama La Seguiriya que misturei à música da Europa Central. La Seguiriya é a forma mais antiga do flamenco (data de fins do século 18 e tem seu surgimento estabelecido na região entre Cádiz e Sevilha).

O sr. é um pouco um antropólogo musical, não?
Tive a sorte de encontrar muitos artistas durante minha carreira, e pesquiso muito para meus discos. Há quem aponte ecos da Mahavishnu Orchestra, há quem aponte outras coisas. Não vejo por que estabelecer fronteiras. Claro, cada tradição musical tem seus estilos e especificidades, mas amo que a música se preste a essas misturas, que se molde às diferentes visões dos artistas.

E suas influências como instrumentista, como contrabaixista? Há diversas escolas mais conhecidas do baixo, do elétrico ao acústico.
Escuto muito pouco baixo e contrabaixo, ouço bem mais todos os outros instrumentos. Não sou particularmente ligado ao contrabaixo (risos). É paradoxal, mas ao contrário, não posso dizer que meu mestre foi fulano, foi sicrano. Não posso dizer que fui influenciado por Ray Brown ou Paul Chambers. Nunca fui prisioneiro de um instrumento. Mas é claro que posso apontar um mestre, na pessoa de François Rabbath, porque foi um músico que preconizou uma abertura do seu instrumento. Ouvi muita guitarra, saxofone, flauta, todo tipo de instrumento. A linguagem de Jaco Pastorius, evidentemente, me marcou, ouvi muito.

O sr. fala de uma ligação natural entre Ocidente e Oriente nas notas de seu novo disco Méditerranée?
Segundo historiadores, os movimentos populacionais sempre foram, na maior parte do tempo, do Leste para o Oeste. Por exemplo: da Europa para a América. Penso que meu disco propõe um encontro natural entre Ocidente e Oriente. Claro, predomina o Ocidente, porque é minha origem. Na guitarra, por exemplo. É óbvio que há diferenças, mas eu busco o que há de comum, essencialmente. Adoro procurar isso. Eu creio que o contrabaixo, que eu toco, permite muito bem essa interação. Trata-se de tentar esquecer de um e de outro e tornar tudo simples.

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