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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

HENRI SALVADOR (por Joyce)

19 fevereiro 2008


Esta é uma foto de 1988, tirada em Paris, no chiquérrimo restaurante Fouquet's (nome impronunciável para nossos amigos americanos...), localizado no Champs Elysées. Ao meu lado, esbanjando charme e elegancia, na flor de seus sessenta e poucos anos, está um dos meus ídolos de infancia, Henri Salvador.Fomos convidados para almoçar com ele depois que um amigo comum lhe contara que eu estava cantando duas músicas suas nos meus shows no New Morning, tradicional clube de jazz parisiense. Henri não estava exatamente em seu melhor momento de carreira - na verdade, vivia a chamada 'entressafra', aquela fase entre um período de sucesso e outro, quando nada acontece, que ocorre com todos nós de quando em quando - mas ainda era, como sempre foi, uma instituição cultural francesa. Já eu estava debutando na França, fazendo uma temporada lá pela primeira vez, e achei que seria divertido incluir alguma coisa sua no repertório, ele que fora um dos artistas prediletos de minha mãe e cujas canções eu conhecia de cor e salteado, ainda em 78 rotações.Fiz portanto um pequeno medley juntando seu grande sucesso, 'Dans Mon Île' (que seria gravada também por Caetano, entre outros) e a menos conhecida 'Chanson Douce'. Isso rendeu alguns comentários, Henri ficou sabendo e acabou gentilmente convidando a mim e ao Tutty para almoçar com ele neste sofisticado local, na época bem acima de nossas posses.(Um artista em entressafra na França ainda podia fazer um convite desses. Já por aqui...)O almoço foi, em todos os sentidos, delicioso. Salmão, vinho branco e a verve do nosso anfitrião, velho conhecido do Brasil desde os tempos em que cá esteve como crooner da orquestra de Ray Ventura, no Cassino da Urca - corria a 2ª Guerra Mundial, e com a França ocupada, a orquestra, com músicos judeus, negros e mulatos como Henri, achou melhor dar um tempo por aqui. Ele nos perguntou muito por seu amigo querido Grande Otelo, e de vez em quando, meio para se mostrar, falava alguma coisa em português, geralmente gírias dos anos 40/50. Foi assim que, quando ofereci a ele um disco meu autografado, com uma caprichada foto minha na capa, feita por Frederico Mendes, ele olhou e comentou, com seu pesado sotaque francês: 'muito boa!' Rimos bastante, e o Tutty, igualmente com sotaque, só que desta vez baiano, mandou em francês: 'c'est ma femme...' Ao que Henri, malicioso, piscando o olho, respondeu: 'malandrrro...'Infelizmente não tornamos a nos ver, mas a notícia de sua morte me pegou de surpresa nas minhas férias, semana passada. Sei que ele nunca se distanciou muito do Brasil e gravou com Rosa Passos e Lisa Ono ainda há poucos anos atrás. Ambas cantoras 100% bossa-novistas, pois Henri tinha em sua música um parentesco estético com a nossa. Não foi, como gostava de pensar, um precursor da bossa: ele está para a bossa-nova assim como Chet Baker, pela leveza. Talvez no caldeirão de influencias estrangeiras da bossa ele possa ser incluído, junto com Chet, com o cool jazz, com os boleros de Manzanero, com Gershwin, Ravel e Debussy (principalmente os dois últimos). Mas foi compositor e cantor genial, de estilo único e totalmente diferente da canção variété francesa tradicional - Henri era da Martinica. Ouçam 'Dans Mon Île', 'Chanson Douce', 'Maladie D'Amour', 'Syracuse', 'J'ai Vu', 'Cendrillon', 'Le Marchand de Sable'... é uma obra deslumbrante de um autor maravilhoso. `A bientôt, Henri.
escrito por joyce.
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