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MUSEU DE CERA # 23 – BILLIE HOLIDAY

29 junho 2007

Era uma vez um crítico musical e brasileiro afirmando que Billie Holiday não seria propriamente uma cantora de Jazz. Ora, o que temos a considerar como sendo uma cantora de Jazz? Na verdade até não é muito simples definir ou classificar determinado cantor como sendo de Jazz, inclusive existem uns que nem gostam de assim serem rotulados. Quase sempre se estabelece uma polêmica sobre se tal ou qual cantor seja ou não de Jazz. Bem, para ser um cantor de Jazz em nossa opinião, nem se torna obrigatório o emprego do improviso vocal do tipo scat singing, mas precisa ter algo da "gramática" do Jazz, ou seja, em uma execução ter swing, quando desloca acentos, flutua com os tempos enfim saber usar o beat como uma forma de improviso bem como as inflexões da voz e o fraseado. O repertório deve ser adequado, vez por outra um blues e principalmente, ser acompanhado por músicos de Jazz porque o binômio, voz - instrumentos se complementam em uma atmosfera jazzística. Jazz é puro sentimento e não rótulo!
Posto isto, então o que poderíamos dizer de Eleanor Fagan Gough nascida na Filadelfia em Baltimore a 7/abril de 1915 que adotou o nome artístico de Billie (tirado de uma atriz que admirava - Billie Dove) e Holiday de seu pai o guitarrista Clarence Holiday? Simplesmente uma das mais completas cantoras de Jazz de todos os tempos.
Billie quando nasceu seu pai tinha quinze anos de idade e sua mãe Sara Fagan apenas treze, pode-se imaginar que a começar pela infância teve uma vida bem difícil, o pai logo abandonou a família e não a reconhecia como filha. Aos 10 anos foi violentada, viveu em uma casa de correção para meninas, aos 12 trabalhava lavando assoalhos em um prostíbulo e aos 14 caiu na prostituição. Morando com a mãe em Nova York, quando ameaçada de despejo decide sair à procura de algo melhor para ganhar dinheiro, entrou em uma espelunca do Harlem e se ofereceu como dançarina, fez um teste e não foi aceita. O pianista que a acompanhou no desastre inicial, tentando ajudar, tocou algo e pediu que ela cantasse. Fiat lux! e seu enorme talento para a música ainda subestimado por ela própria acendeu, aflorou, isto em 1930. Ficou pelo Harlem, atuando aqui e alí, até que surgiu a grande oportunidade com o produtor John Hammond que a ouviu no Monette's Club, se encantou naturalmente e conseguiu convencer Benny Goodman (o que não deve ter sido nada fácil) a gravar com ela e assim foi registrado pela Columbia a 27/nov/1933 — Your Mother's Son-In-Law e a 18/dez — Riffin' The Scotch. No entanto o sucesso não veio logo, essas primeiras gravações ficaram meio obscuras.
Em 1935 o pianista Teddy Wilson a contratou para uma série de gravações e o sucesso se iniciou, logo depois em 1937 foi crooner de Count Basie, depois com Artie Shaw tornando-se o primeiro cantor negro a atuar em uma banda branca e com isso Shaw arranjou sérios problemas, tais como: a orquestra entrava pela frente do clube e Billie pela porta dos fundos, a banda se hospedava em um hotel e Billie em outro, por vezes as refeições idem, enfim o forte racismo que desde menina enfrentava agora doía e muito por ser reconhecida como uma grande artista, mas não conseguia vencer a maldita discriminação...
O enfrentamento a tudo isto veio acompanhado do uso intenso de drogas e álcool, vícios que a levaram até a consequência inevitável de uma morte prematura com apenas 44 anos.
Um de seus maiores sucessos Strange Fruit um poema descreve o enforcamento de um negro o qual interpretava soberbamente. Outros vieram como Fine and Mellow (1939), Body and Soul (1940), Gloomy Sunday (1941), Lover Man (1944) e o filme New Orleans com Louis Armstrong e Kid Ory em 1946. Praticamente toda sua apresentação passou a ser um grande sucesso e sua época áurea situa-se até 1950, depois os vícios a foram consumindo com reflexos em sua voz, em seu espírito, ampliando sua inquietude até o infeliz desfecho a 17 de julho de 1959 em New York.
Billie dotava suas canções de imensa expressividade, um tanto de sensualidade com sua voz rouquenha e muita espontaneidade. Era capaz de modificar o material original, recriando o fraseado, adaptando a melodia para enquadrá-la às suas intenções, à sua emoção, à sua arte. Notadamente suas maiores influências foram Bessie Smith e Louis Armstrong. Seu estilo terno, cool na linguagem musical e tudo mais que lhe possamos atribuir está na interpretação de I'll Get By uma das mais consistentes gravações de seu início de carreira com Teddy Wilson. Podemos verificar que Billie fazia parte do grupo com o mesmo destaque de um instrumento, tinha seu chorus de solo e pronto, tal qual os demais músicos.
I'LL GET BY (Roy Turk – Fred Ahlert) – Teddy Wilson and his Orchestra – Teddy Wilson (piano e líder), Buck Clayton (tp), Buster Bailey (cl), Johnny Hodges (sa), Lester Young (st), Allan Reuss (gt), Artie Bernstein (bx), Cozy Cole (bat) e Billie Holiday (vocal).
Gravação original: 11/maio/1937 – Columbia 35926 - New York
Fonte: CD – Billie Holiday - Me Myself And I - Ediciones del Prado JB0 – 1995 – Madri


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