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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

17 janeiro 2017

Série   “PIANISTAS  DE  JAZZ
Algumas Poucas Linhas Sobre o Piano e os Pianistas
22ª Parte
(25)(b)  ERROLL GARNER         Excelência sem estudo     (Sequência)

Em 1934 GARNER incorporou-se a uma orquestra de baile dirigida por Art Blakey, este então apresentando-se como pianista e baterista mas que, ante os dotes de GARNER ao teclado, passou a concentrar-se na bateria - o que veio a garantir-lhe celebridade posterior com seu “ABJM – Art Blakey Jazz Messengers”, assim como para nós apreciadores um excepcional baterista e um extraordinário pianista.

Nos anos seguintes GARNER participou de diversas formações até ser engajado pelo saxofonista Leroy Brown, mediante longo e importante contrato.

Durante 1941 e com 20 anos GARNER exibiu-se pela primeira vez e ainda que rapidamente em New York, retornando a Pittsburgh para acompanhar Ann Lewis e outras cantoras em cabarés locais (“Red Door”, “Mercur’s Music Bar” e outros).

Sómente em 1944 ele retornou a New York e exibiu-se no “Spotlite” e no “Famous Door”, até consagrar-se entre os “grandes” com apresentações na “Rua 52”, no “Three Deuces”, então um dos principais “quartéis generais” do “Bebop”. Alí ele teve a oportunidade de suceder a Art Tatum no trio comandado por Slam Stewart, chegando a tocar com Dizzy Gillespie e Don Byas (com quem  mais tarde gravou um disco).

No final de 1944 GARNER estreou em estúdio de gravação e à frente de um trio excelente: John Simmons no baixo e Harold “Doc” West à bateria. A formação de trio viria a ser particularmente feliz para o pianista, que a ela sempre se manteve ligado.

Ainda mais significativa foi a sessão para a etiqueta “Savoy” em 30 de janeiro de 1945, com quarteto liderado por Slam Stewart ao contrabaixo e completada por Mike Brian (guitarra), “Doc” West (bateria) e, obviamente, ERROLL GARNER ao piano; as faixas “Play Fiddle Play” e “Laff Slam Laff” mostram claramente e em toda a sua evidência o modo característico de acompanhamento da mão esquerda, que marca os 04 tempos com acordes à maneira de Freddie Green (lembrar da “All American Rhythm Section” da banda de Count Basie, com este ao piano mais Freddie Green / guitarra, Walter Page / baixo e Jo Jones / bateria, com grande variedade de nuances).
GARNER nunca fez mistério dessa vocação para guitarrista, nem de sua admiração por Segóvia(a quem dedicou homenagem bem original com o tema “Salud Segovia”, registrado pelo selo "Mercury" em 1955). Tampouco fica menos evidente a sutil defasagem em relação à mão direita, possuidora de grande sentido de “rubato” e impressionante acentuação do “swing”. 
A primeira sessão oficial de gravação de GARNER em 1945 foi para a “Black & White Records”, enquanto que seu primeiro êxito de vendas (ao redor das 500.000 cópias do 78rpm) foi com o clássico “Laura” para a etiqueta "Savoy", já em setembro de 1945 (e que algumas fontes afirmam como sendo de novembro seguinte).
Essa gravação de “Laura” abriu as portas de diversas gravadoras para GARNER: “Dial”, “Signature”, “Jazz Selection”, “Blue Star” e outras.
Lembramos que esse sucesso não elimina, não se contrapõe ou invalida a afirmação de Roger Kay (contra-capa do primeiro LP de GARNER lançado no Brasil (“Passaporte à Fama”), segundo a qual e com ênfase ele aponta a importância de Art Ford e de Robert Sylvester para a decolagem do sucesso de GARNER
Poucos meses após em fevereiro de 1946 GARNER voltou a gravar “Laura”, já então para os “V-Disc” (para ver mais detalhes sobre os “V-Disc”, os “Discos da Vitória” produzidos durante a IIª Guerra Mundial para animar as tropas aliadas, consultar as páginas 484/485 do “Glossário do Jazz” do Cjubiano Mário Jorge Jacques, já em sua 2ª edição, Editora Biblioteca 24x7, 2009, 530 páginas).
Data desse período artigo da revista “Down Beat”, comentando ser GARNER
“......o único pianista com duas mãos desde “Fats” Waller........”.
Em 19 de fevereiro de 1947 e a par de colecionar triunfos nas salas de espetáculo e nos cabarés de Los Angeles, GARNER com seu trio(à época com Red Callender no baixo e “Doc” West na bateria) é levado pelo produtor Ross Russell(mais tarde biógrafo de Parker) a gravar pelo selo Dial, no estúdio "C.P.McGregor" em Hollywood, com Charlie Parker, recém-saido do Hospital de Camarillo. 
Martha Glaser(inicialmente secretaria e mais tarde empresária de ERROLL) dá como versão que isso foi feito para aumentar a venda das gravações de Parker.
Lembra Martha Glaser que, então(final dos anos 40 do século passado), GARNER não recebia menos de US$ 500.00/semana em clubes(outros pianistas ficavam na média dos US$ 150.00/semana), chegando a cobrar US$ 1,500.00 por espetáculo de teatro na Broadway. Em meados dos anos 1950 dificilmente GARNER cobrava menos de US$ 1,000.00/semana para atuar em clubes e cabarés. Nessa sessão de gravação com Parker e talvez pelo tempo alucinante de “Bird’s Nest” (03 “takes”), GARNER parece um pouco “deslocado”, enquanto que no tema “Cool Blues” (04 “takes”, sendo o terceiro com 3’07”, em andamento um pouco mais lento), ele alça vôo como “boper” mas mantendo sua sonoridade própria e, por felicidade e para complementar seu ótimo solo, Parker desfila esplêndida improvisação; ainda na mesma sessão foram gravados os temas “This Is Always” (02 tomadas, a primeira com vocal de Earl Coleman) e “Dark Shadows” (04 tomadas, a última também com vocal de Earl Coleman). 
Sucesso seguido foi o concerto de Passadena, organizado por Gene Norman(produtor e organizador da série e dos espetáculos “Just Jazz”), com um GARNER soberbo no clássico “Blue Lou”, ao lado de Wardell Gray e executando a longa suíte “One-Two-Three-Four-O-Clock Jump”, devidamente assistido por Howard McGhee, Vic Dickenson e Benny Carter. Também magnífico no tema “Lover Man”, GARNER diverte-se em torno da melodia e ressalta as acentuações rítmicas do guitarrista Irving Ashby.
Em New York ERROLL GARNER toca com Oscar Pettiford no “Three Deuces”, assim como integra combo “all-stars” no “Royal Roost”: Red Rodney, Bill Harris, Lucky Thompson e Shelly Manne.
Nessa altura GARNER é vencedor do referendo anual da revista “Esquire”, assim como é o primeiro em dois anos seguidos na enquete da “Down Beat”, podendo afirmar-se que havia atingido sua maturidade de expressão técnica. Isso fica bastante evidente na gravação de julho de 1947(selo “Blue Star”), em piano solo, de seu célebre “Play Piano Play”: defasagem rítmica entre as duas mãos, extraordinária sonoridade “orquestral”, variações harmônicas e timbrísticas, com alta carga de “swing”. Na outra face desse 78 rpm uma longa e exuberante introdução para “Don’t Worry “Bout Me”, seguida de outra melodia sobre o tema, mas com retorno final ao original.
Em maio de 1948 ERROLL GARNER é um dos integrantes da “expedição” de músicos americanos, que participam da “Semana de Jazz” em Paris.
No retorno ele toca na Califórnia e depois fixa-se em New York: “Three Deuces”, “Basin Street”, “Café Society”, “The Ember” e, principalmente, no “Birdland”, onde se torna o “pianista da casa” por seguidos anos(ainda que contratado vez por outra para atuar em Boston, Filadélfia, Chicago etc).
Em 1949 a composição “Play Piano Play” de GARNER é contemplada com o “Grand Prix du Disque” na França.
Em 1952 GARNER em conjunto com Art Tatum, Mead Lux Lewis e Pete Johnson, participa de turnê pelo território americano, sob o título de “Piano Parade”.
A partir do ano seguinte o pianista tem sua carreira gerenciada por Martha Glaser, que se revela competente e hábil negociadora, além de extremamente honesta(o que nem sempre é rótulo próprio no mundo dos “managers”).
A 07 de julho de 1954, em Detroit e para a etiqueta "Mercury", GARNER registra em apenas 03 horas 32 magníficos solos, absolutamente diferenciados e expressivos. No dia seguinte, 08 de julho, ele acompanha o “cantor”(!!!) Woody Herman na gravação do LP “Music For Tired Lovers” (uma variação bem humorada dos temas gravados por Frank Sinatra, coqueluches da época).
No final de julho de 1954 e ainda para o selo "Mercury", GARNER grava em Chicago material suficiente para 02 LP’s, ai incluída a primeira versão de uma balada de sua autoria, que posteriormente recebeu o título de “Misty” = sua composição mais famosa, composta em 1950 durante um vôo entre São Francisco e Denver, também popularizada com a letra de Johnny Burke nas interpretações de Sarah Vaughan e Johnny Mathis. Crepuscular e melancólico, o tema “Misty” revela outra faceta de ERROLL GARNER, a intimista(tão ignorada pela crítica), assim como leva para segundo plano ofuscados pela beleza de “Misty” outros belos temas de sua autoria:
- 1954 = Mambo Garner, Seven-Eleven Jump;
- 1955 = Afternoon Of An Elf, Mambo Carmel, Solitaire;
- 1956 = Dreamy, Mambo 207, Passing Through, Way Back Blues;
- 1958 = Just Blues, Left Bank Swing, Paris Bounce, When Paris Crie;
- 1960 = Moment’s Delight; 
- 1961 = Dreamstreet, El Papa Grande, No More Shadows;
- 1962 = Trio;
- 1964 = Other Voices;
- 1966 = Afinidad, Mambo Erroll, That’s My Kick;
- 1967 = Nervous Waltz, Shake It But Don’t Break;
- 1968 = This Time It’s Real, Up In Erroll’s Room;
- 1970 = Mood Island, Something Happens, You Turn Me Around;
- 1972 = Eldorado, Gemini;
- 1974 = It Gets Better Every Time, Nightwind, One Good Turn;
- .......... e mais “Pastel”, “Cloudburst”, “Gaslight” (tema de filme com Ingrid Bergman).........

Prosseguiremos nos próximos dias com a indicação de Mestre LULA sobre a coletânea de LP's de GARNER lançados no Brasil (Apêndice I)

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