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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

01 maio 2012

OUTRA PRECIOSIDADE DA PENA DO MESTRE RAF

Como já lhes disse aqui, é sempre uma emoção renovada abrir minha caixa de mensagens e lá encontrar um artigo "novo" do Raf. Novo, só porque eu não o conhecia, bem entendido, por falta absoluta de tempo de garimpá-lo nos veículos que o contratam para tê-los. Mas ainda bem que logo depois o nosso grande mentor os disponibiliza para que a eles tenhamos acesso e aqui vai mais um da sua sempre instigante lavra. Abraços.

CLIFFORD BROWN, O GÊNIO DO TROMPETE MODERNO

A carreira meteórica do trompetista Clifford Brown(10/10/1930–26/6/1956)falecido em trágicas circunstâncias, foi de apenas 4 anos. Sua última gravação ocorreu em 26/6/1956, numa Jam session informal na loja de instrumentos musicais de Ellis Tollin, na Filadélfia, documentada no LP Columbia “Clifford Brown – The First and Last Recordings”.

Sua primeira gravação foi com o conjunto de Chris Powell, em 21/3/1952, e a última foi na Jam Session acima mencionada. No final dessa Jam session, em “Donna Lee”, Clifford Brown despede-se dos amigos e músicos que tocaram com ele porque em seguida viajaria de carro para Chicago - onde tocaria na noite seguinte com o quinteto Max Roach-Clifford Brown -, em companhia do pianista Richard Powell e a esposa deste, que dirigiria o carro. Como chovia bastante, Max Roach aconselhou-os a adiarem a viagem para o dia seguinte, não sendo atendido. Após sua despedida, na qual avisou aos amigos músicos que na semana seguinte estaria de volta para outra Jam session, entrou no auto que o esperava e embarcou. Meia hora depois, devido à tempestade, num terrível acidente em que a esposa de Richard Powell perdeu o controle da direção, o carro derrapou e caiu de grande altura no Pensylvania Turnpike (Trevo) na saída da Filadelfia, matando instantaneamente seus ocupantes, causando uma fortíssima comoção nos círculos de jazz.

A tragédia abalou profundamente os amigos e conhecidos das vítimas; Max Roach ficou tão abalado que pensou em dissolver o quinteto e muitos músicos custaram a acreditar que Clifford Brown, a maior revelação do trompete daquelas últimas décadas, perdera a vida de forma tão brutal. Com aquele acidente, após 4 anos de carreira, encerrou-se abruptamente a sua fulgurante trajetória. Apenas 4 anos! O que são 4 anos ? Quase nada. É uma passagem de tempo muito fugaz. O mandato de um Presidente da República é de 4 anos. A Copa do Mundo de Futebol é disputada a cada 4 anos, assim como os Jogos Olímpícos e os Jogos Pan-Americanos. Foram apenas 4 anos, mas nesse curtíssimo espaço de tempo Clifford Brown deixou uma obra das mais significativas e duradouras que permanecerá eternamente entre as maiores realizações do jazz de todos os tempos. Não fosse pela terrível tragédia na Pensylvania Turnpike, ele teria sido um dos maiores trompetistas da história do jazz.

A meu ver, ele alcançou esse status porque suas gravações durante esses quatro anos comprovam que naquele período ninguém fez-lhe sombra, desenvolvendo seu estilo com suprema criatividade e facilidade de execução inspirado em seu grande ídolo e mentor Fats Navarro; nele ouvimos a história do trompete no jazz abrindo novos horizontes, nenhum outro conseguiu igualar sua fenomenal técnica, sua sonoridade límpida e pura, suas ininterruptas idéias de espantosa continuidade e seu absoluto controle instrumental. Clifford Brown influenciou Lee Morgan, Carmell Jones, Freddie Hubbard e outros trompetistas, mas nenhum igualou-o. Sua morte abalou todos seus amigos e admiradores. Um deles foi Dizzy Gillespie, ídolo maior dos trompetistas, que referiu-se a ele como “O Gênio do Trompete Moderno”.

Ao traçar o perfil desse músico fabuloso, não poderia deixar de mencionar suas brilhantes gravações, em ordem cronológica. Após sua primeira gravação, acima mencionada, com o conjunto de Chris Powell, em 21/03/1952, seguiram-se:

Em 09/06/1953, gravação para a Blue Note com Elmo Hope (piano) e Lou Donaldson (sax alto), entre outros, com estupendos solos em “Brownie Speaks”, “Cookin’”, “Bellarosa”, “Cherokee” e “Wail Bait”.

“Clifford Brown Memorial” (Prestige), tem duas sessões de gravação: uma com o excelente conjunto do pianista e compositor Tadd Dameron, em 11/06/1953, no qual atuavam Gigi Gryce, Benny Golson e Philly Joe Jones, com solos fulgurantes de Clifford Brown em “Theme of No Repeat”, “Philly JJ” e “Choose Now”. Completa o CD uma sessão realizada em 15/9/1953 na Suécia, com músicos locais, com um memorável solo de Clifford em “Stockholm Sweetenin’”, de Quincy Joumes. Nessa ocasião, Clifford estava em turnê pela Europa com a orquestra do vibrafonista Lionel Hampton.

Em 22/06/1953, grava com o trombonista J.J. Johnson para a Blue Note com Jimmy Heath (sax tenor), John Lewis (piano) e outros. Clifford empolga a todos nos solos cintilantes de “Turnpike”, “Get Happy” e “Joy Spring”, este de sua autoria.

Em 11/07/1954, em Los Angeles, ele brilha intensamente em suas composições “Daahoud”, “Joy Spring”, “Bones for Jones” e “Tiny Capers”, com arranjos de Jack Montrose. Logo depois, Clifford Brown foi contratado para tocar na orquestra de Lionel Hampton, que fez uma turnê na Europa, onde seus músicos gravaram vários discos com grande sucesso. Entre os integrantes da big band de Hampton figuravam Art Farmer, Quincy Jones, Jimmy Cleveland, Clifford Solomon, Alan Dawson, Monk Montgomery, Gigi Gryce e outros. Os músicos de Hampton gravaram muitos discos em Paris escondidos do seu líder, que os proibira de gravar sem a orquestra. Em 11/10/1953 gravaram o excelente “Big band in Paris” (Prestige), com músicos locais, além de Jimmy Cleveland, Art Farmer e arranjos de Quincy Jones, e dia 15/10/1953 perpetuaram o ótimo “Quartet in Paris” (Prestige) com Clifford em grande forma. De volta aos Estados Unidos, Lionel Hampton dispensou todos seus músicos por tê-lo desobedecido ao gravarem na Europa.

O baterista Art Blakey não perdeu tempo e contratou Clifford Brown para seu conjunto Jazz Messengers, gravando ao vivo, em 21/02/1954, o soberbo CD “Jazz Messengers at Birdland”, com Clifford Brown, Lou Donaldson (sax alto), Horace Silver (piano) e Curley Russell (baixo). Dessa sessão resultaram jóias do quilate de “Split Kick”, “Quick Silver”, “Mayreh”, “We Dot”, “If I Had You”, “Now’s The Time”, “Confirmation” e a suprema e inigualável obra-prima de Clifford: “Once In A While”, na qual destilou toda sua emoção, magia e inventividade ímpar, num triunfo artístico para ser devidamente guardado para a eternidade na cápsula do tempo.

Logo depois, o baterista Max Roach convenceu Clifford a integrar seu conjunto, passando a denominar-se Max Roach-Clifford Brown Quintet, que, contratado pela EmArcy Records gravou inúmeros discos indispensáveis. A caixa “THE COMPLETE EMARCY RECORDINGS OF MAX ROACH-CLIFFORD BROWN”, com 10 CDs, contém a nata dos registros do conjunto, gravados entre 2/08/1954 e 6/08/1954. Dessa safra nasceram, entre outros, “Jordu”, “Sweet Clifford”, “Stomping at the Savoy”, “I Get A Kick Out of You”, “Delilah” e “Daahoud”. Completam o quinteto Harold Land (sax-tenor), Richard Powell (piano) e George Morrow (baixo).

Clifford participa com alguns artistas de outras sessões da EmArcy que ficaram para a história:

Em 14/08/1954, com a cantora Dinah Washington em “Darn That Dream”, “My Funny Valentine”, “Crazy, He Calls Me” e "It Might As Well Be Spring”.

Em 18/12/1954, com Sarah Vaughan em soberba forma, mais Herbie Mann (flauta), Paul Quinichette (sax-tenor), Jimmy Jones (piano), Joe Benjamin (baixo) e Roy Haynes (bateria) em registros definitivos de “Lullaby of Birdland”, “April in Paris”, “September Song” e outras pérolas.

Em 22/12/1954, com Helen Merrill, Danny Bank (sax), Jimmy Jones (piano), Milt Hinton (baixo) e Osie Johnson (bateria), Clifford tem solos primorosos em “Born to Be Blue”, “Portrait of Jenny”, “Laura”, “’S Wonderful” e “What’s New?”, com arranjos de Quincy Jones.

Em 1955, o quinteto Brown-Roach, com Harold Land (sax-tenor), Richie Powell (piano) e George Morrow (baixo) grava ”Land’s End”, “Gerkin’ for Perkin”, George’s Dilemma”, “Blues Walk”, “What Am I Here For?” e “Sandu”, entre outros.

Em 18/01/1955, Clifford Brown grava um magnífico disco acompanhado por uma seção de cordas com arranjos e regência de Neal Hefti, resultando numa série de interpretações de alta musicalidade, bom gosto e sensibilidade em “Portrait of Jenny”, “Smoke Gets in Your Eyes”, “Laura”, “Embraceable You”, “Blue Moon”, “Willow Weep For Me”, “Where or When” e “Memories of You”, deixando a estampa da sua capacidade de tocar belas melodias com naturalidade, emoção e supremo abandono.

Em 22/03/1956, o quinteto Max Roach-Clifford Brown grava o disco SONNY ROLLINS PLUS FOUR para a Prestige. Àquela altura, Rollins substituira Harold Land no grupo, com vibrantes interpretações de “Pent Up House”, “Valse Hot”, “I Feel A Song Coming On” e “Kiss and Run”.

Três meses depois Clifford Brown faleceu naquele desastre na Pensylvania Turnpike que levou para sempre um dos melhores e mais importantes trompetistas da história do jazz.

Um comentário:

Beto Kessel disse...

Mestre Raffaelli e demais confrades,

Ao ler as palavras sobre Clifford Brown, nao tenho como nao deixar de contar a todos minha emocao ao assistir nesta noite de domingo a final do concurso anual do Jazz at the lincoln center, com jovens tocando a musica de Duke Ellington com direito a JALC Orquestra e Wynton Marsalis...Pura emocao...Joy Spring...Se tudo correr bem neste dia 10, irei ouvir Helio Alves e Romero Lubambo .CJUB 10 anos em grande estilo..Abracos a todos...Beto