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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

18 abril 2011

ALGUMAS POUCAS LINHAS SOBRE A GUITARRA E OS GUITARRISTAS - 01


Inicio com a presente postagem exatamente o que o título da série indica = "algumas poucas notas" sobre, principalmente, os guitarristas no JAZZ, ainda que alguns deles possam ter convivido com outros estilos.

Originalmente essas "poucas notas" foram escritas para o blog do "Hot Club de Piracicaba", com o qual procurei colaborar desde seu início (2009), por meio de textos para encarte de CD, apresentação de espetáculo etc.

Constituindo-se basicamente em instrumento de acompanhamento e de harmonia, ainda assim o JAZZ apresentou-nos ao longo das décadas extraordinários solistas, criadores ou seguidores de “escolas”.


Particularmente no cenário dos U.S.A. a guitarra percorreu sua história a partir do final do século XIX, adotando cordas metálicas sobre traste mais estreito que no modelo europeu, tornando-se o instrumento mais difundido, já então na virada do século XIX para o início do século XX, entre os executantes e cantores de “Blues” como, por exemplos e entre outros grandes nomes, Blind Willy McTell, Blind Lemon Jefferson, Huddie Leadbelly, Big Bill Broonzy e Robert Johnson.


Se entre os executantes e cantores de “Blues” a guitarra foi o instrumento “símbolo”, inicialmente nas bandas de JAZZ o banjo predominou, seja por sua tradição africana, seja pelos timbre e volume sonoro, mais penetrantes e eficazes.


Aos poucos o banjo foi dando lugar à guitarra, já nas formações de Edward “Kid” Ory e Louis Armstrong, integrando a seção rítmica (a “cozinha”) ao lado do piano, do contrabaixo e da bateria.


Iniciou-se com essa transição extensa linha de guitarristas rítmicos, destacando-se como exemplos Eddie Condon, Allan Réus, Danny Barker e, principalmente, Freddie Green, o guitarrista rítmico da notável “big band” de Count Basie, que integrou por décadas a denominada “All American Rhythm Section” (Count Basie / piano, Freddie Green / guitarra, Walter Page / contrabaixo e Jo Jones / bateria).


Nos anos 30 do século passado floresceu a concepção polifônica de execução da guitarra: melodia e acordes simultâneos (“chord melody” ou “chord solos”), tendo como protagonistas Dick McDonough e George Van Eps (inventor da guitarra de 07 cordas).

A partir de 1937 a amplificação passou a ser utilizada por Eddie Durham, como forma de execução semelhante à dos instrumentos de palheta: eram receptores eletromagnéticos sob as cordas e ligados a um amplificador e a um alto-falante.


O guitarrista Charlie Christian foi o maior explorador da amplificação, lamentando-se sua curta existência, que ainda assim deixou-nos um pequeno legado de gravações, consideradas como “clássicas do JAZZ”.


O grande guitarrista cigano Django Reinhardt no final de sua carreira, também converteu-se à amplificação na guitarra.


A partir dos anos 40 do século passado e já diplomada em ritmo, harmonia e melodia, a guitarra no JAZZ passou a presentear-nos com uma série de “mestres” nesse instrumento, muitos deles exímios executantes e alguns muito mais que excelentes executantes, aqueles que denominamos de “chefes-de-escola”, ou seja, os precursores que criaram estilos, técnicas e linhagens com intermináveis seguidores.


Em linhas bem gerais podemos citar como “chefes-de-escola”:


(1) na virada dos séculos XIX / XX os já citados no início deste resumo;


(2) por volta de 1910, entre New Orleans e Chicago, Johnny St. Cyr, Bud Scott, Lonnie Johnson e Eddie Lang;


(3) fora dos U.S.A. destaque para Django Reinhardt;

(4) Johnny St. Cyr e Bud Scott serão sucedidos por Danny Barker, Eddie Condon, Freddie Green, Allan Reuss, Steve Jordan e Marty Grosz;

(5) a genealogia de Django Reinhardt será assumida por nosso patrício Laurindo de Almeida, ao qual se seguiram Charlie Byrd, Bola Sete, Luiz Bonfá e Baden Powell, assim como por uma série de guitarristas dentro do estilo “manouche”, encontrados em todo o mundo, seja em carreiras solo, seja ao abrigo dos “Hot Clubs” existentes em todas as latitudes; importante notar que entre essas latitudes podemos incluir o Brasil, seja com o "Hot Club do Brasil", seja, mais recentemente, com o "Hot Club de Piracicaba";


(6) a linha sucessória de Lonnie Johnson aponta inicialmente para Eddie Lang, seguindo-se Charlie Christian e, a partir deste e somando-se a influência de George Van Eps, uma série interminável de seguidores = (a) Tal Farlow que irá inspirar John McLaughlin e Larry Coryell, (b) Johnny Smith que abrirá caminhos para Billy Bauer e Bucky Pizzarelli (seguido por seu filho John, visitante habitual do Brasil), (c) Oscar Moore (o grande acompanhante de Nat “King” Cole) como ponta-de-lança para Grant Green, Wes Montgomery e George Benson (em sua fase de JAZZ, anterior à linha “pop”), (d) Barney Kessel que iluminará os caminhos de Herb Ellis, Jim Hall, Kenny Burrell e Joe Pass, (e) Jimmy Raney.


Claro que apenas indicamos os mais conhecidos, seja por sua discografia, seja pela maior participação em temporadas, shows, festivais e programas de rádio e televisão, além de constituírem-se, claramente, nos expoentes do instrumento.


Mas é evidente que temos que mencionar alguns outros guitarristas na esfera do JAZZ, que tecnicamente ultrapassaram a fronteira do “bom”, para alcançar a divisa do “ótimo”.


Assim temos o guitarrista Chris Flory, que ainda bem jovem se incorporou à “crew” da etiqueta Concord Jazz (leia-se o nome de seu fundador e Presidente, já falecido, Carl Jefferson), atuando e gravando seguidamente com o excepcional sax-tenorista Scott Hamilton.


No Brasil e entre outros é importante salientar o trabalho do guitarrista Alexandre Carvalho, gravando seguidamente com Idriss Boudrioua, o máximo expoente do sax-alto entre nós.


O inglês Derek Bailey, os americanos Dave Barbour, Nappy Lamare, Al Viola, Al Casey, Everett Barsksdale, Barry Galbraith, Arv Garrison, Les Paul, Tiny Grimes, Bill De Arango, Mundell Lowe, Remo Palmieri, Sal Salvador, Les Spann e Cal Collins, o canadense Ed Bickert e o francês Sacha Distel, entre tantos outros e cada um à sua época, marcaram presença nesse belo e prolífico cenário da guitarra no JAZZ.


Ainda assim e na área do “Blues” tivemos a oportunidade de desfrutar da arte e da técnica de dezenas de guitarristas.


Retornaremos focando resumidamente diversos guitarristas.

16 comentários:

Érico Cordeiro disse...

Mestre Apóstolo,
De volta ao batente cjubiano e de maneira magistral.
Suas resenhas são aulas magnas, para serem lidas e guardadas.
Sobre os guitarristas da nova geração, destaco os pouco conhecidos, mas muito bons, Jack Wilkins, Jimmy Bruno e Emily Remler (há outras mulheres guitarristas no jazz?).
Grande abraço e que venham muitas outras postagens!

llulla disse...

Uma bela aula meu caro Apóstolo. Disso é que a nova geração precisa, conhecimento. Parabéns e vamos em frente.
abcs.
llulla

SAZZ disse...

Grande Apóstolo,

Belíssima resenha e já sigo aguardando a continuação...

Abs,

apostolojazz disse...

Estimado ÉRICO CORDEIRO:

Você tocou no meu coração, citando JIMMY BRUNO, um guitarrista que gravou para a Concord Jazz os CD's "Burnin'" (com Craig Thomas / baixo e Steve Holloway / bateria) e "The Jimmy Bruno Trio - Sleight Of Hand" (com Pete Colangelo / baixo e Dr. Bruce Klauber / bateria), além de outras pérolas.
Um mestre da digitação com um senhor "feeling" de quem gosta do que faz. Além das composições próprias cita Ellington, Antonio Maria/Luiz Bonfá, Hammerstein / Kern, Sonny Stitt (na imortal e bela "Eternal Triangle") e, de quebra, a seminal "That's All" de Bob Haynes / Alan Brandt.
Mestre LULA, mais uma vez grato e a idéia é exatamente essa, abrir campo para conhecimento, para a troca de aprendizados (principalmente para mim), enfim, seguir com o "apostolado" da ARTE POPULAR MAIOR, que significa cultura, amizades, melhoria cultural e o prazer do melhor.

apostolojazz disse...

Prezado SAZZ:

Seguiremos com Barney Kessel, Herb Ellis, Charlie Byrd, Kenny Burrell, Joe Pass, Wes Montgomery, Jim Hall, Charles Christian e mais 20 que estão no "forno".
E assim iremos abrindo campo para a troca de informações.

Guzz disse...

bem lembrado o Jimmy Bruno, que quase teve que parar de tocar por causa de um problema sério em suas mãos, e ainda complemento com seus dois excelentes discos ao vivo no Birldand acompanhados em cada por Bobby Watson (vol.1) e Scott Hamilton (vol.2) além do estupendo Take That com o organista Joey de Francesco;

outro nome que provavelmente vai ser assunto da sua matéria e que hoje é um verdadeiro guitarrista de jazz é Pat Martino, digitação e técnica fenomenais; e só de pensar que ele teve que "reaprender" a tocar até anima a tirar minha "hollow body" da parede

os guitarristas de jazz hoje se utilizam muito da eletrônica, vide a nova geração com Mike Moreno, Kurt Rosenwinkel, Lage Lund e Johnnatan Kreisberg, por exemplo.

abs,

apostolojazz disse...

Prezado GUZZ:

O duplo renascimento de PAT MARTINO é objeto do número 26 da série.
Músico que mostra a capacidade de um ser humano ímpar, PAT é figura obrigatória que transitou pelo JAZZ e outros limites.
Felizmente segue em ação, casado com a japonesa Ayako Asahi, vivendo entre sua Filadélfia natal e a “grande maçã”, não dispensando a companhia da “Gibson” fabricada especialmente para ele, lecionando (professor adjunto na “University Of The Arts In Philadelfia”), compondo e apresentando-se em momentos especiais.

llulla disse...

Alô Pedro,
Claro que vc abordará as mulheres guitarristas, começando pela admirável Mary Osborne. Estou certo ?
abcs.
llulla

apostolojazz disse...

Estimado Mestre e "my personal teacher":

Disse um venerando sábio em determinada conferência o que seria do universo sem as mulheres, interrogado que foi por uma senhora da platéia = "seria um imenso e total deserto, minha senhora".
Mesmo com toda a admiração, respeito e amor pelas mulheres que ambos nutrimos, nossa magnífica Mary Osborne (Minot / Dakota do Norte em 17/julho/1921 a Bakersfield / Califórnia em 04/março/1992) será objeto do número 32 dessa série.
Enquanto aguardamos, vamos ouvindo suas gravações "Low Flame" de 1946 com "Mr. Bean", "Conversation" também de 1946 com a espetacular Mary Lou Williams e por aí vamos.

MaJor disse...

Grande Apóstolo, excelente retorno
e com o brilhantismo de sempre, que já vira no HCP sobre guitarristas. Deu idéia de fazermos um podcast só com eles,ok?

apostolojazz disse...

Estimado Major:

Será um brilhante "pod", assim como o já produzido por você sómente com pianistas e com aqueles que produzirá só com palhetas, só com trumpetes e...............
Será que na próxima 6ª feira, da Paixão, teremos "pod" (com a "paixão" de sempre) ? ? ? ! ! ! . . .

Beto Kessel disse...

Maravilha a resenha..No aguardo de mais informacoes sobre a meu trio predileto de guitarristas (Wes Montgomery, Joe Pass e Barney Kessel).

Aproveito para lembrar de mais um guitarrista (assisti o show num dos ultimos Free Jazz no MAM) que e o MARK WHITFIELD, que segue a linha do Wes Montgomery.

Fica a questao...Por onde anda o som do Stanley Jordan que encantou e surpreendeu no MAGIC TOUCH

Abracos,

Beto Kessel

coimbra disse...

Gostei das citações de Emily Remler, Ed Bickert e Sacha Distel e Bola Sete.

E os húngaros Elek Bacsik e Gabor Szabo ?

coimbra disse...

Permitam-me apenas mais uma intervenção:

Toninho Horta, que abriu um mundo sonoro novo e seguido por muitos "estrangeiros". Assim como Van eps inivou solando com acordes, Toninho Horta inova com suas harmonias e sonoridade.

pedrocardoso@grupolet.com disse...

Prezado COIMBRA:

Jé tenho programado os primeiros 40 guitarristas a serem comentados, entre os quais Ed Bickert.
Sacha, Bola Sete e Van Eps são excelentes referências e anotei-as para o prosseguimento da série.
Grato.

pedrocardoso@grupolet.com disse...

Prezado COIMBRA:

Onde se lia "apóstolo", doravante leia-se "grupolet".