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04 março 2008

HISTÓRIAS DO JAZZ n° 56


Saudades de Max


Uma das grandes amizades que fiz através do meu programa foi a do inglês Maxwell Johnstone. Nosso primeiro contato veio através de uma carta que nos enviou dando esclarecimentos sobre músicas que rodamos de uma “amostra” da Verve, levada por Tião Neto, a qual só dava o nome da faixa e do líder do conjunto. Em outra audição rodei faixas de um álbum de Rob McConnell para mim uma novidade na época. Confessei que nada sabia sobre a banda canadense. Max enviou nova carta dando dados biográficos do maestro e uma relação de discos gravados pela banda. Foi nessa ocasião que surgiu a expressão Audiência Nota Dez, que pronunciei ao ler as cartas de Max e logo seria o titulo da nossa confraria, a AND.
Nosso primeiro encontro ocorreu quando atendendo a um convite, fui ao seu apartamento cumprimentá-lo pelo seu aniversário. Morava numa cobertura na Travessa Angrense e seu apartamento era um encanto. Tinha um bar onde ele se instalava e servia aos amigos o generoso chá escocês e também controlava o som das diversas caixas espalhadas pelo local. Em seu escritório estavam os CD’s, Fitas VHS, cassetes e sofisticada aparelhagem de som. No quarto dos fundos algumas centenas de Lp’s enfileirados no chão, obedecendo a rigorosa ordem alfabética. Morava sozinho e de vez em quando me ligava convidando para ir a sua casa. Saia do trabalho, pegava um frescão para Copacabana e passava o resto da tarde ouvindo e vendo as últimas novidades que o mister recebera. E muita coisa aprendi alí. Na AND sempre prestava esclarecimentos e tirava dúvidas dos amigos. Certa ocasião, comprei um CD de Count Basie no qual uma das faixas destacava o clarinete de Artie Shaw. Nunca tinha ouvido falar sobre isso e indaguei a Max se o músico atuara como convidado ou realmente integrara a banda. E ele com a calma que o caracterizava informou: “Naquela época Artie Shaw tinha deixado a Navy Band ao mesmo tempo em que Lester Young fora preso pelo exército. Basie tinha que cumprir uma “tournée” e precisava de um solista de ponta e convidou Artie ao mesmo tempo em que Tommy Dorsey cedia, por empréstimo, o baterista Buddy Rich , já que Jo Jones também estava no exército". O velho fazia jús ao apelido de PHD que era como eu o anunciava na rádio.
E era sempre assim.. Contava também passagens da sua vida, as mais interessantes. Quando trabalhou no transatlântico “Queen Mary”, ao chegar a New York, consultando a programação artística descobriu que a banda de Woody Herman tocaria em um cinema nos intervalos de um filme chamado “Gentleman’s Agreement”, estrelado por Gregory Peck. Entrou no cinema as 12 horas e só saiu as 22.
Disse que assistiu a três sets fantásticos da orquestra de Herman mas, o filme era horrível, um dos mais chatos que já assistira.
Dias depois encontrei na casa de uma amiga um livro que mostrava “posters” de filmes. Lá estava o do “Gentlemans agreement”. Consegui tirar um xerox reduzido e enviei a Max com uma carta ,( alguém me auxiliou no inglês) com os seguintes dizeres :
"Querido Max,
Soube por um amigo brasileiro que você assistiu quatro vezes em seguida o filme “Gentleman’s agreement”, apesar de nos intervalos ter que aturar uma orquestra chatíssima. Emocionado resolvi lhe enviar a presente para que guarde como recordação.
With love,
Greg"
Dia seguinte o telefone tilintou e a voz do inglês surgiu dizendo que eu era muito esperto. Mas, gostou da brincadeira. Conversávamos muito e entre generosos goles do chá escocês fui ouvindo suas histórias. Uma delas é que certa manhã, escutou em seu navio, então atracado no cais, o som de uma banda que lhe pareceu familiar. Desceu as escadas e caminhou em direção ao estaleiro de onde vinha o som. E não deu outra :
“Glenn Miller e sua orquestra militar tocando para os soldados”. E Max balançava a cabeça,” nesse tempo eu não tinha máquina fotográfica”.
Não gostava de falar sobre a guerra mas, de vez em quando achava que tinha que desabafar com alguém e esse alguém fui eu algumas vezes.
Uma narrativa impressionante era sobre as bombas V2 que a Alemanha lançava com freqüência. Eram quase silenciosas e quando menos se esperava explodia uma em pleno centro de Londres. Muitas famílias foram para o interior fugindo da tragédia. Mas a mais impressionante foi quando Max servia num contratorpedeiro inglês . Contou que foi contatado um submarino alemão e cargas de profundidade foram lançadas avariando seriamente o alvo. O submarino veio a tona mostrando as avarias e muitos tripulantes se atiravam ao mar e nadavam em direção ao barco inglês . A tripulação preparava-se para recolher os sobreviventes quando veio a ordem. “Afastem-se das bordas do convés” e em seguida o contratorpedeiro deu meia volta e soltou mais cargas de profundidade. Aí Max abaixando a cabeça narrou a pior cena que presenciou em sua vida. Com o impacto das bombas os sobreviventes foram lançados a grandes alturas enquanto o submarino afundava . E dizia o inglês : “Nunca me conformei com isso.”
Quando ia lá em casa, como bom inglês, chegava pontualmente na hora marcada e só se sentava quando alguém lhe pedia. Levava sempre um litro de whisky e um vidro de HP Sauce, um molho inglês de qualidade superior que podíamos usar nos queijos ou em qualquer salgadinho. Eu dizia que ele não precisava trazer o whisky mas ele, com o velho humor britânico respondia que não queria me dar prejuízo.
Certo dia soubemos que Max estava seriamente doente e tinha pouco tempo de vida. A quimioterapia não adiantara e sua saúde se debilitava rapidamente. Sua última participação na AND foi trágica. Não conseguiu beber o chope que pedira e em seguida retirou-se pedindo desculpas.
Ainda assim, me ligava nos fins de semana para comentar os resultados do futebol, principalmente do Botafogo e do Liverpool, times de sua preferência.
Quando veio a notícia de seu falecimento tomei um táxi rumo ao hospital onde jazia o amigo. Encontrei-o já vestido, com os olhos entreabertos e o sinal da amputação que sofrera no têrço inferior da perna direita.
Ajudei a colocá-lo no caixão ao mesmo tempo em que silenciosamente agradecia a sua amizade e os seus ensinamentos.
Durante o velório uma amiga informou que o apartamento de Max tinha que ser entregue até o fim do mês e que precisávamos ir lá pegar discos, livros e tudo o mais. E foi com tristeza que eu e alguns companheiros da AND fomos para a Travessa Angrense nos apossar daquele belo acervo que Max construira durante toda sua vida.
Além de discos , livros e bebidas pegamos algumas coisas pessoais do mister. Sua caneta, uma jarra de água que usava no bar, a flâmula do Liverpool, um quadro de um cavalo chamado “Filho da Puta”, Winner of the GREAT ST.LEGER AT LANCASTER, 1815 e uma caixa de sapatos contendo as fitas do “Beco das Big-Bands”. Ronald, o irmão de Max que viera da Inglaterra lhe fazer companhia disse para levarmos o que pudéssemos pois essa fora a vontade de Max.
Esse foi Maxwell Johnstone, quarenta anos de Brasil, aposentado da Varig e “amigo do peito” que deixou muitas saudades. Que Deus o tenha.

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