Aqui você vai encontrar as novidades sobre o panorama nacional e internacional do Jazz e da Bossa Nova, além de recomendações e críticas sobre o que anda acontecendo, escritas por um time de aficionados por esses estilos musicais. E você também ouve um notável programa de música de jazz e blues através dos PODCASTS.
Apreciando ou discordando, deixem-nos seus comentários.
NOSSO PATRONO: DICK FARNEY (Farnésio Dutra da Silva)
Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Mestre Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Mario Vieira (Manim), Luiz Carlos Antunes (Mestre Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (Mestre MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).
Longe, mas muito longe de querer competir com as Histórias do Jazz de meu amigo LLulla tenho cá também as minhas. Em 1990 tive que ir a trabalho à simpática Aracaju e levei minha esposa aproveitando um fim de semana. Em lá chegando, uma sexta por volta das 21h cansado e com muita fome, dado que comida de avião bem... já sabem. Registro no hotel e pergunto se o restaurante estaria aberto e o boy confirma até as 23h e hoje tem música ao vivo!. Êpa, deve ser um sanfoneiro pensei, pior se for dupla sertaneja, mas vamos lá. Ao chegar perto do hall do restaurante eis que escuto um suingue daqueles bem balançante com o som de vibrafone, sax, piano, baixo acústico e bateria. Entro no salão e lá estava ao vivo um senhor tocando um vibrafone e um rapaz com um sax-tenor ao pescoço e só. Percebí que piano, baixo e bateria estavam gravados e que os 2 faziam sozinhos o espetáculo. Local vazio com mais duas mesas uma com um casal e outra com dois cidadãos já um tanto altos, todos conversando. Sentamos e fiquei atento, uma ensemble e a coda. Batemos palmas timidamente e aí disse para Lúcia minha esposa ― poxa muito bom, o cara parece até com Terry Gibbs. O vibrafonista olhou em nossa direção e veio ao nosso encontro e com sotaque de gringo travou-se o diálogo: Vib – "com licença, bua note, - o sinhor gostar de jazz? MJ - "sim, gosto muito" Vib – " o sinhor falar Terry Gibbs?" MJ – "é... acho que você toca algo parecido com o estilo dele e você? conhece Terry Gibbs? Vib - " bem... vou le dizer, eu ser sobrinho de Terry Gibbs! Yes, e vou tocar pra sinhores" Assim jantamos se não me engano uma ótima moqueca e ao som de um bom Jazz . Depois levantei e fui falar com Steve o vibrafonista que me deu o cartão abaixo e explicou ter vindo dos EUA para a Argentina onde conheceu Alejandro o sax-tenor, também muito bom, depois para o Brasil no Rio e São Paulo mas achou difícil arranjar alguma coisa para sobreviver com música e seguiu para o nordeste, adorou Aracaju, onde casou e abriu um curso de inglês e fazia as apresentações no hotel às sextas e sábados e ainda mais tarde no sábado e domingo em um bar. Também tocava em eventos. Mostrou que possuia mais de 30 fitas K7 com a base das músicas de "JAZZ E BOSSA-NOVAS" e "BOM RITMO É O NOSSO NEGÓCIO" aliás um bom negócio. UMA GRANDE SURPRESA.
Pois é. Quem seria Hyman Arluck na ordem do dia? Ele nasceu em Buffalo (NY). Morreu aos 81 anos (1986) em Nova Iorque. Algum cjubiano se habilita? Se transformado em Harold Arlen a coisa também fica mais fácil, não? Família de judeus, Arlen estudou piano desde garoto e logo já formava uma pequena banda. Mas a partir de 1929 começou a compor e aí tudo mudou. Se fosse possível separar os 10 maiores compositores norte-americanos, Harold Arlen estaria entre eles. Afinal, Over The Rainbow, que lhe deu um Oscar – em parceira com E. Y. Harburg –, foi considerada a música mais bonita do século passado. Arlen escreveu mais de 400 temas, muitos deles constantemente explorados pelos jazzistas. O Londrina Jazz Club (www.uel.br/radio), dentro da filosofia em divulgar os grandes songwriters americanos, cedo ou tarde teria que homenagear esse competente compositor – e também atendendo a uma sugestão do nosso fiel colaborador Edu. Claro, com uma investigação dos seus temas numa abordagem mais jazzística possível. E assim ficou o set-list, a ser executado na próxima semana: ....................................................................................... 01. Over The Rainbow – Carol Welsman 02. One For My Baby – Bill Charlap Trio 03. Come Rain Or Come Shine – Eden Atwood 04. Stormy Weather – Joe Sample 05. That Old Black Magic – Carmen McRae 06. It’s Only A Paper Moon – Stefano Bollani Trio 07. Get Happy – Tierney Sutton Band 08. A Sleeping Bee – Bill Evans Trio ‘64 ……………………………………………………………………... PS. Som na caixa: That Old Black Magic (1942) – Arlen & Mercer – Carmen McRae
(continuação) A platéia simplesmente se inflamava quando Cyrus atacava. Uma curiosidade: a mulher de Frank Wess é uma japonesa cega que estava sentada numa mesa bem diante da nossa, com um grupo de outros nipônicos (na foto, é quem está de costas, de branco). Usava os cabelos trançadinhos à africana e bastava Mr. Chestnut iniciar seus solos suingados que ela imediatamente o acompanhava com palmas animadas que em seguida eram acompanhadas pela platéia. Outra curiosidade foi que, mesmo deficiente visual, foi nela que Wess pendurou o estojo de seu seu saxofone na hora de irem embora, enquanto a guiava por entre as mesas em direção à saída, parando apenas para receberem os efusivos cumprimentos da audiência ao velhinho.
Estávamos igualmente de saída quando vi, entrando pelo corredor e também com um estojo às costas, o saxofonista Jaleel Shaw, resenhado aqui há tempos atrás, como um dos jovens que se estavam destacando no cenário jazzístico americano. Havíamos trocado alguns emails por conta de um trecho do Tim Festival de 2004 (em SP), onde ele se apresentara na banda de Dave Holland. No dia seguinte, em que Branford Marsalis se apresentara, este chamou ao palco todos os sopros da banda de Holland (que assistiam da coxia ao seu set) para um gran-finale que registrei e no meu vídeo apareciam Cris Potter, Kevin Eubanks, o próprio Jaleel e Branford por quase um minuto. Mencionei-lhe o fato e perguntei o que estava fazendo ali. Ele me disse que estaria se apresentando no segundo set - cuja programação eu desconhecia - no quarteto do baterista E. J. Strickland (outro dos resenhados naquele post de 2005junto ao seu irmão saxofonista-tenor Marcus Strickland). Diante do meu espanto com a novidade a garçonete que nos atendera, que passava ao lado e ouviu a conversa, afirmou: "Você pode ficar de graça, pois já pagou!". Neste ponto preciso fazer um elogio à Silvia, que mesmo gripada e cansada, imediatamente, diante da minha indecisão, endossou o cheque e me disse na hora: "se você quiser, eu fico numa boa. Adorei o primeiro set e iremos embora amanhã, então vamos aproveitar ao máximo!" Espetáculo, não? Mas, aguardem, nem tudo seria tão fácil. Voltei à mesa, reabri a conta e esperamos uns 10 minutos. Notei então Jaleel apreensivo, com o sax numa mão e o celular em outra. Logo depois, conversava na coxia com Chestnut. Em cinco minutos ele subiu ao palco e com uma sinceridade admirável, confessou que tinha havido um grande mal-entendido, que o resto da banda se havia confundido com as datas e que ele iniciaria o set com seu ídolo e professor Cyrus Chestnut, que tinha se prontificado a acompanhá-lo em um duo improvisadíssimo, em respeito aos presentes.
E sob os aplausos da platéia - que percebeu que teria mais do melhor Cyrus - iniciaram seu set totalmente imprevisto, combinando os temas ali na hora. Desnecessário dizer que Chestnut foi soberbo por todo o tempo, acompanhando a um maduro, fluente e criativo Shaw, por umas quatro músicas.
Em meio à quinta, aparece no fundo da sala um escurinho, magrelo e de bonézinho que dirige-se ao bar, onde se encontravam alguns homens de terno. Cochicha no ouvido de um deles e ambos circundam a sala por trás, tentando se fazer despercebidos. Próximo ao final do tema que rolava, o baterista E. J. Strickland já iniciava o transporte e a montagem de sua bateria no canto próprio do palco, enquanto balançava a cabeça negativamente, como a dizer para si próprio "como fui dar uma mancada dessas"?
À minha esquerda, pude perceber a silhueta, recortada contra a janela do fundo, de um contrabaixo e reconheci Peter Washington como o seu portador. Depois da tentativa frustrada de Strickland de justificar o rolo nas informações que alijara o quarteto original - sobre o qual não consegui saber quem seriam o pianista e o baixista - formou-se, e tocou uma barbaridade, esse sensacional quarteto que jamais tocara junto (formação, que acredito, não voltará a se repetir nunca mais) e que arrebentou dentro do clima de total informalidade que se criou. Só faltou alguém sugerir que eles tocassem certos temas, durante os segundos em que ficavam discutindo como iriam dar seguimento ao set. Optaram, claro, pelos standards para facilitar tudo mas, não obstante, o jazz que se ouviu ali foi de altíssimo nível, os quatro livres, leves e soltos para "sentar o bambu". Strickland, de quem pouco conhecia o trabalho, impressionou-me vivamente pelo domínio absoluto da bateria, com uma levada "entre" Al Foster e Roy Haynes, em algumas passagens muito brian-bladeanas e cujas cores obtidas nos pratos me lembraram muito a outro favorito meu, Lewis Nash. Sem que em nenhum momento essas influencias denotassem alguma falta de personalidade, pois a sua linguagem tinha uma característica bem marcante, com um belíssimo roll progressivo dos tons mais baixos até os pratos todos, em alta velocidade e ritmo perfeitos que ainda não tivha presenciado antes. Lembrei-me do confrade André Tandeta, que se ali estivesse poderia me ajudar no julgamento da arte de E. J. no sentido técnico, pois no emocional ele já estava tão aprovado quanto perdoado.
Ao final, todos saíram lucrando: a platéia, que pôde rever aos grandes Chestnut e Washington por esse período estendido; os (nem mais tão) jovens Shaw e Strickland, que conseguiram transformar o fiasco de organização (entre si) num set memorável em todos os sentidos. Um inacreditável "deixa que eu deixo" acabou, assim transformando-se numa raridade. O clima estava tão bom e as pessoas tão felizes que o apresentador ainda chamou ao palco um jovem pianista e duas das garçonetes (bem provavelmente, todos alunos de música em NY) para que cantassem e muito razoavelmente por sinal,um tema cada uma, fechando-se assim com chave de ouro a nossa experiência maravilhosa no Jazz at the Lincoln Center, que recomendo a todos em futura visita à cidade.
Nos clips, Jaleel e Cyrus e uma nesga do quarteto.
Morre, aos 44 anos, o pianista sueco Esbjorn Svensson, vítima de um acidente quando praticava mergulho em Estocolmo, Suécia.
Um dos grandes nomes do cenário da música instrumental européia, liderava o E.S.T. Esbjorn Svensson Trio ao lado do contrabaixista Dan Berglund e o baterista Magnus Ostrom.
Eu sou um fã incondicional de sua música, ao mesmo tempo original e inovadora, um dos melhores grupos que surgiram no cenário musical nos últimos tempos.
Era criticado por muitos e cujo nome sempre acolorou muita discussão aqui neste espaço por não caracterizar, de fato, um pianista de jazz. Mas a verdade é que Svensson tinha uma musicalidade impar, sua música se encorpava com elementos de jazz, do rock progressivo e nos levava a uma viagem da introspecção a psicodelia. Juntou-se a sua música os nomens de Pat Metheny, Nils Landgreen, Michael Brecker, entre outros, e Ulf Wakenius, que lançou recentemente um trabalho homenageando a música do E.S.T.
Sempre encontrei muita inspiração na música de Svensson, principalmente nos seus melhores trabalhos From Gagarin Point of View e Seven Days os Falling. Deixa uma discografia com 13 discos, 2 ao vivo e 1 DVD.
RIP Esbjorn Svensson
Round Midnight, EST & Schleswig-Holstein Chamber Orchestra
Quem seria Salvatore Antonio Guaragna? Dificilmente algum cjubiano saberia. Mas transformado em Harry Warren (Brooklyn, 1893/1981), certeza, boa parte conhece. Afinal, Warren pelo menos na minha opinião está entre os grandes compositores norte-americanos de todos os tempos. O curioso é que ele nunca viveu a mesma fama de outros craques como Gershwin, Rodgers, Kern, Van Heusen e etc. Mas uma análise rápida de seus temas mais famosos é suficiente para colocá-lo entre esses craques. Mais ainda pelo fato dos jazzistas sempre terem explorado esses temas. Aliás, Warren possui 2 Oscars da Academia de Hollywood, na categoria de melhor canção original: Lullaby Of Broadway (1935) e You’ll Never Know (1943). O Londrina Jazz Club dessa semana (www.uel.br/radio) vai prestar uma homenagem a Harry Warren.
01 At Last – Joni Mitchell & Vince Mendoza 02 An Affair To Remember – Lynne Arriale Trio 03 There Will Never Be Another You – Carolyn Leonhart 04 The More I See You – Ray Brown & Ulf Wakenius 05 I Only Have Eyes For You – Jamie Cullum 06 Lulu’s Back In Town – Thelonious Monk 07 I Had A Craziest Dream – George Shearing & Michael Feinstein 08 September In The Rain – Anke Helfrich Trio 09 You’re Getting To Be A Habit With Me – Diana Krall Trio
PS. SOM NA CAIXA – LYNNE ARRIALE TRIO (LIVE MONTREUX) – AN AFFAIR TO REMEMBER
Dia 6 de junho: primeiro set, no Dizzy's Club Coca-Cola, dentro do edifício da Warner. Fila civilizada para os "com reserva". Os demais, afastados da entrada por um gentil segurança de modo a não causarem tumulto aos previdentes. Japas em cachos e a surpreendente presença de muitos, muitos jovens na fila, felizmente. Outros tantos dentro da sala que, acredito, pelo lugar onde ficaram (na lateral do palco) fossem estudantes de música locais. Havia uns 15 a 20 deles. Uma visão de esperança.
Ainda na fila comecei a coletar os folhetos, jornais e outros papeluchos disponíveis em um stand bem destacado e iluminado. O jornal era o All About Jazz mensal, no qual pude dar uma folheada enquanto aguardava o início do set. Que choque! De informação e qualidade de serviço. A quantidade de espetáculos de bom nível num único dia era estonteante! Fiz questão de escanear a página para que se tenha a noção da variedade de possibilidades que contava até com uma sessão late-night que o fecharia à meia-noite, com o meu muito admirado Junior Mance. E o AAJ trazia notícia de pelo menos mais 31outras alternativas, em uma ou mais sessões. o único consolo é que ninguém pode ver todas e nem se pode reclamar do que é abundante, e assim basta seguir o coração. O meu pendeu para o Noneto de Frank Wess, que começaria dali a pouco.
A vista, para o Central Park e a estátua de Colombo, é maravilhosa. A sala, bem menos intimista do que o Village Vanguard, apesar de seu tamanho (cabem 220 pessoas mas limitam a 180 com muito conforto), mostra-se acolhedora. E lotada, com o público ocupando não apenas mesas mas todas as paredes disponíveis, dotadas de bancos altos e uma prateleira, que permitem tanto a visão por sobre as cabeças à frente como o apoio de alguma bebida ou comida. O serviço é contínuo e não interfere em nada com o espetáculo. O único senão foi um empilhar de pratos audível ao fundo, que parou imediatamente depois que o chato aqui fez um comentário com a garçonete (que depois viria a revelar-se cantora).
Mas, ao concerto em si!
Depois do famoso aviso da proibição de gravações, e das apresentações, o escrete subiu ao palco. Por último, a figura frágil, elegante e aplaudidíssima de Wess. Que não perdeu tempo e regendo a banda na introdução, entrou solando seu sax com uma vitalidade inesperada (que foi minguando, diga-se, ao longo do concerto, assim como sua participação, em prol dos demais). Wess, aos oitenta e seis anos, seguiu iniciando grande parte dos temas e entrando nos uníssono mas seus solos foram naturalmente curtos, embora muito inteligentes e nada óbvios, suficientes para recordar a todos estarem diante de um ícone do sax e da flauta no jazz. Flauta que usou em apenas duas passagens, para minha felicidade.
Os arranjos, em sua quase totalidade de Scott Robinson, estavam justos, redondos, totalmente adequados ao tamanho do grupo. Robinson, pilotando lindamente o barítono e o bass-tenor num pedestal, foi pródigo com o ágil e inventivo Ted Nash no tenor, e com Terrel Stafford no trompete, enquanto para Frank Greene no segundo trompete e no flugelhorn reservou uma atuação mais doce nas baladas, com destaque para uma bela The Nearness of You (num dos vídeos). Peter Washington, substituindo a Ray Drummond no contrabaixo, fez misérias nas suas passagens, mostrando um estilo cheio de personalidade. Seu beat é instigante e ele conduziu o ritmo com firmeza junto ao queridinho de Wess, o [diga-se] criativo baterista Winard Harper, com sua indumentária de negão estiloso contrastando com os elegantes ternos do resto da moçada (à exceção de Robinson, à la Minc). Teve um bom destaque/tempo nos arranjos e sua condução foi instigante e balanceada, dentro do gênero de bateras que mais me agrada, "ritmo & firmeza sem barulho". Steve Turre apareceu muito bem nas passagens do trombone, sempre criativo, como músico consagrado que é. Aliás, se houve algum exagero nas palavras de Wess, de que ali estava o que New York tinha de melhor naquela noite, em se falando de músicos de jazz, Turre certamente o era, na categoria trombone.
A "condução" do maestro Wess entremeou temas de todos os tipos, de originais a standards a baladas e blues. Teve de tudo um pouco e para todos os gostos.
E chegamos a Cyrus Chestnut . Um espetáculo à parte, sem dúvida, um dínamo incansável que entortou os arranjos inapelavelmente, dando-lhes o que uma noite de jazz mais precisa: o molho. Se há um ditado que diz que secos no mundo só tres coisas prestam, "vinho branco, travesseiro e sapato", Cyrus molhou, azeitou, ensaboou, lubrificou o noneto com seu swing de modo tão sensacional que, no primeiro blues a platéia não se segurou e apoiada por Wess, passou a marcar o ritmo envolvente com palmas. Essa integração não forçada é aquilo que transforma um concerto numa noite memorável. E essa o foi, como poucas. (segue...)
O Village Vanguard está situado no coração de Greenwich Village, bairro ainda boêmio da cidade porém longe da agitação que o notabilizou como a vizinhança cool entre as décadas de 60 e 90.
A casa, no nível da rua, é uma droga, desprovida de qualquer luxo, entre um restaurante mexicano e uma drogaria decaídos e só mesmo o toldo vermelho com o nome famoso em letras douradas a distingue e lhe traz alguma dignidade.
Ao descer-se a longa escada, porém, os sons longínquos vão se tornando mais perceptíveis e o beat das freqüencias mais graves começa a incorporar-se a você e, quando a porta enfim se abre, você descortina "o ambiente", perfeito para o jazz.
O tamanho é o suficiente para abrigar uma platéia interessada no que acontece no palco, e mesmo no assento mais distante você está "dentro" do clima. As pesadas cortinas de veludo (vermelhas, também, e com umas duas décadas de idade) são os anteparos necessários para a acústica perfeita. As paredes, recobertas de fotos dos grandes mestres que lá se apresentaram, aperfeiçoam o clima do basement club.
A platéia, acrescida dos parentes/amigos dos músicos (achei ter visto uma duas mãezonas deles lá, pelo menos), vibra intensamente com cada segundo do concerto, percebendo e respondendo com yeahs às mínimas filigranas deste ou daquele solo. Esse calor genuíno, tanto pela proximidade dos músicos como pelo nível de interesse dos presentes - diferentemente do Blue Note, os turistas visíveis no V.V. eram todos, sem exceção, admiradores do bom e verdadeiro jazz, e dava para notar que não estavam ali por mero acaso, em busca de um programa que incluísse um jantar e um "jazzinho"- criou e cria um clima que acredito seja tudo o que artistas desejam quando estão destilando sua arte. O V.V., nesse ponto, é imbatível e merece toda a projeção histórica que tem como um templo para algumas das mais antológicas sessões do jazz - as gravadas ao vivo são vastas. Em NYC, é parada obrigatória.
A programação do templo:
Fui colhendo o material que estava disponível pela mesa e fotografei o que pude. Só o que rolou em maio e o que estava rolando neste mês era suficiente para qualquer aficionado pelo jazz permanecer em estado de graça por um ano inteiro: Frank Wess, Charlie Haden, Paul Motian, Tom Harrell, Al Foster, Eric Reed, Diego Urcola, Miguel Zenón, Brian Blade e Fred Hersch são apenas alguns dos nomes pinçados da programação da casa. Sem contar os escudeiros de altíssimo nivel, cujos nomes se pode ver ampliando a foto ao lado.
Cheguei à cidade de NY bo dia 5 à tarde, com a noite anterior perdida e ainda bem que não tinha programado nenhuma incursão jazzística. A despeito do atraso causado pelo cancelamento do vôo, estava sereno, ansiando pelo concerto daquela noite que imaginava, seria com o trio do pianista Eric Reed, no Village Vanguard. Não tinha idéia da formação que me aguardava, um quinteto, que contou com Jeremy Pelt (tp), Stacy Dillard (as, ts), Rodney Whitaker (b), Willie Jones III(dr). Tirando o Pelt, figurinha conhecida no Brasil e Whitaker, a quem já ouvira antes, não conhecia os demais.
O [pastor] Reed é um músico pleno e a sua sensibilidade musical é temperada por extenso conhecimento do piano. Suas interpretações mesclam uma sensibilidade extrema nos temas de andamento lento e um swing contagiante nos rápidos. Conhece tudo, portanto. Ao longo do set (o segundo), apresentou vários temas originais do seu último álbum Here, entremeados com alguns de seu próximo lançamento a ocorrer em julho, além de alguns standards.
Reed, diga-se, é bem superior aos demais componentes da banda. Embora todos tenham tocado bem, dentro do padrão profissional americano, eu preferia ter visto um show mais intimista (trio).
Nos temas em que Pelt teve maior destaque, soube segurar sua habitual estridência, surpreendendo-me, até, com a delicadeza que empregou no flugelhorn numa das raras baladas do encontro. O saxofonista Dillard, que deu preferência ao soprano em conjunto com o trompete, alternando-o com o sax alto às vezes numa mesma música, foi correto e seguro mas não teve criatividade suficiente a empolgar a platéia. O batera Jones manteve-se comportado, mantendo a máquina nos trilhos com uma marcação segura e limpa, sem maiores espasmos criativos mesmo nos poucos momentos em solo. Whitaker, no contrabaixo, manteve a pulsação densa e firme como se espera de um bom profissional do instrumento. Não chegou a ter espaço ali para demonstrar suas habilidades, que as tem em larga escala, pelo que me lembro de uma apresentação anterior.
Reed foi, ao vivo e a cores, a confirmação do que já imaginava dele nos CDs de que disponho. Um criativo compositor e um excepcional músico, digno de figurar entre os expoentes do jazz.
A platéia foi bastante receptiva às suas criações e mexeu-se bastante nas cadeiras durante os temas em uptempo. Inclusive os membros do numeroso time de japoneses, habituais frequentadores da cena jazzística americana.
Havia diversas advertências alertando para que não se gravasse, fotografasse ou filmasse nada no V.V. e por isso, pude registrar pouquíssima coisa - e na maior parte do tempo, com a máquina virada de lado, quando não filmando o teto - para trazer e mostrar. Na quarta tentativa, recebi cartão amarelo da garçonete e desisti do métier de repórter, recostei-me e curti estar ali na capital do jazz mundial ouvindo música de muito boa qualidade.
Para o quarteto: @@@ e meia; Eric Reed leva as @@@@@, integralmente.
Amigos, embora ainda sem tempo para preparar os posts sobre o que presenciei em NYC, boto aqui os dois pianistas a quem pude assistir lá, Eric Reed e Cyrus Chestnut. Neste clip do YouTube (não é meu), atuam juntos no mesmo palco, antiga idéia fixa minha desde os tempos dos concertos do CJUB.
Depois vem o resto, com os detalhes saborosos. Só lhes adianto que foi muito bom. Abraços.
Thomas J. ”Tommy” Ladnier nasceu a 28/maio/1900 em Florenceville, Lousiana e ainda muito jovem, aos 10 anos, se transferiu para New Orleans onde iniciou executando o cornet sob influência dos mestres Bunk Johnson e Joe "King" Oliver. Em 1917 foi para Chicago com sua mãe vendendo licores caseiros. Ali iniciou profissionalmente em 1921 atuando em espetáculos de vaudeville, depois na orquestra de Milton Vasseur e finalmente com King Oliver onde fez as primeiras gravações em 1924. Em 1925 juntou-se à orquestra de Sam Wooding empreendendo grande tournée pela Europa, atuando na Dinamarca, Alemanha, Suécia, Russia, Espanha e França. Ao retornar aos EUA ingressa na orquestra de Fletcher Henderson e em 1930 na Noble Sissle Orchestra. Em 1932 fez magníficas gravações junto a Sidney Bechet nos New Orleans Feetwarmers atuando também no Savoy do Harlem. Devido à Depressão Ladnier e Bechet tiveram que mudar de profissão abrindo a loja Southern Tailor nos anos de 1934 e 35 em New York. Em 1938 o crítico de jazz francês Hughes Panassié o resgatou para a música e inicia as gravações chamadas de Panassié Sessions com Bechet e o clarinetista Mezz Mezzrow. Quando tudo corria de bom a melhor Tommy Ladnier morre repentinamente de um ataque cardíaco a 17/maio/1939 em New York City. Incomparável intérprete dos blues foi muito solicitado a acompanhar as cantoras nos anos 20 principalmente na banda da pianista Lovie Austin tendo adquirido a alcunha de “rei dos blues”. Seu estilo lembra muito o de King Oliver possuidor de força e expressividade dada por uma pureza e simplicidade na invenção melódica, além de magnífica sonoridade. Assim podemos ouví-lo em uma de suas primeiras gravações e depois com grande maturidade em uma das últimas sessões em estúdio.
STEPPIN’ ON THE BLUES (Lovie Austin / Jimmy O'Bryant / Tommy Ladnier) – Lovie Austin And her Blues Serenaders – Lovie Austin (piano), Tommy Ladnier (cornet) e Jimmy O’Bryant (clarinete). Gravação original: novembro de 1924, Chicago – selo Paramount 12255 (mx 10004-2) ROYAL GARDEN BLUES - (Spencer Williams / Clarence Williams) - Tommy Ladnier (trompete); Teddy Bunn (guitarra); Pops Foster (baixo); Manzie Johnson (bateria); e Mezz Mezzrow (clarinete). Gravação original: 19/dezembro de 1938, New York – selo Bluebird B-10087-A (mx 030450-1) Fonte: CD - Tommy Ladnier - Steppin' On The Blues (Centenary Issue/25 Original Mono Recordings 1923-1939) (Living Era - 2000) – junho/2000 - USA
Desde o fenômeno Diana Krall, pelo menos no aspecto comercial, a beleza física das cantoras rotuladas como jazzistas ganhou importância maior. O caso Norah Jones, que de jazzista não tem nada, é outro exemplo. Até mesmo nossa Eliane Elias tem assumido um sex appeal meio tardio, até ostensivo. Mas de todas, Eden Atwood (Memphis, Jan/1969) é quem mais chama a atenção pela beleza. E talvez, nessa praia, é quase imbatível – será que todas as fotos mentem? Ela estudou arte dramática, embora desde muito jovem tenha se concentrado em cantar. Há na intenção uma mistura de jazz com um estilo próximo ao “cabaret”. Assim gravou alguns CDs pela Condord Jazz. E ainda divide sua carreira como modelo e atriz. Desde 2002, quando assinou contrato com a Groove Note, foram apenas mais 2 CDs, um deles dedicado à Bossa-Nova, ambos embalados pelo competente pianista Bill Cunliffe. Aliás, Mrs. Atwood sempre fez questão de estar acompanhada por bons músicos. Dos 7 CDs até hoje lançados, apenas 1 não atingiu cotação superior a 4 estrelas ou mais no AMG. Se essa referência não é totalmente confiável, não pode ser desprezada. A propósito, dei a letra da moça ao nosso Pedro Paulo do Mistura. Se bem que desde 2004 não se tem notícia de algum show. Ela nasceu com AIS (Síndrome de insensibilidade aos andrógenos). Uma anomalia que, no caso das mulheres, em grande parte dos casos, provoca sérias alterações na sexualidade, estimulando até o lesbianismo. Algumas mulheres famosas portadoras do mal omitem o fato. Eden é reverenciada por assumir a doença e tentar acabar com esse preconceito.
................................................................................................................................ 1992 No One Ever Tells You (Concord @@@@) 1992 Today! (Southport @@@@) 1993 Cat On A Hot Tin Rood (Concord Jazz @@@@) 1994 There Again (Concord @@) 1996 A Night In The Life (Concord Jazz @@@@1/2) 2002 Waves: The Bossa Nova Session (Groove Note @@@@) 2004 This Is Always: Ballad Session (Groove Note @@@@1/2)
Fernando Beltrão me ligou dizendo que JT Meirelles havia falecido. Não faz muito tempo conversava conosco, em nossa mesa na Modern Sound.
Eu apenas estou avisando, mas gostaria que nossos mestres postassem algo mais sobre ele. José Domingos Raffaelli tem um grande conhecimento deste músico e poderia postar uma lauda.
Meirelles deixa saudades. Sua última gravação foi em 2005, com seu disco "Esquema Novo".
Prezados confrades, A mancada que dei trocando Herbie Hancock por McCoy Tyner foi realmente ridícula. Só a idade pode permitir esse autêntico "frango", resultante de um choque de neuronios ou coisa parecida. Assim, desculpando-me mais uma vez, retirei a besteira postada. E o pior é que anotei em meus arquivos a vinda de Hancock, constituição do quarteto data e local da apresentação. Como dizia Afonso Soares: "As calças cairam". llulla
A última reunião da AND, realizada em 29 de maio, coincidiu com o aniversário de Maurício Einhorn, como todos sabem um dos nossos “atletas”. Para comemorar o fato, Mauricio convidou alguns amigos de Petrópolis para a reunião que obteve assim quase um record de freqüência. Muita animação, mesa aumentada a cada instante com a chegada de mais gente, vídeo de Jazz nas TV e as habituais conversas entre os confrades. Tivemos também uma pequena “jam”, reunindo Maurício, Gabriel Grossi e Otávio Castro. Houve um solo de Gabriel, um trio em “Folhas secas” de Nelson Cavaquinho e um “ happy end” com “ Stella by Starlight “.Muita alegria e animação entre os diversos grupos que se formaram, com os assuntos sempre ligados a música e ao Jazz. Conversamos muito com o violonista Danilo “Bossa Nova”, que contou suas aventuras no saudoso projeto Humberto Teixeira, detalhando as apresentações de cada integrante do programa durante as viagens nacionais e internacionais. Os petropolitanos tem também a sua confraria que só se reúne durante os aniversários de seus membros. Aí veio o inesperado. Um deles se aproximou de mim e disse que iria me fazer uma surpresa mas, impaciente logo revelou do que se tratava. Enquanto morou no Rio foi assíduo ouvinte de “O Assunto é Jazz”, tendo gravado muitos programas. Então me disse que tinha passado para CD um programa em que entrevistei Maurício , em dezembro de 1986, num dos aniversários da audição, que naquela ocasião tocou acompanhado por Alberto Chimelli ao violão. Queria agora fazer uma foto minha com Maurício para que a mesma fosse a capa do CD que em seguida me remeteria. Fiquei surpreso e realmente me emocionei com esse gesto, demonstrando que o velho programa da “Fluminense FM” lançou sementes que ainda florescem aqui e ali. Confesso que não esperava que há mais de quinze anos fora da mídia ainda viesse a ser lembrado através daquela audição . Mas, como dizem alguns amigos, “O Assunto é Jazz” foi o programa Fita Azul.
Dezembro, 1986 - Mauricio Einhorn & Alberto Chimelli se apresentando na audição de aniverário de "O Assunto é Jazz"
Luiz Orlando Carneiro Jornal do Brasil, Caderno B, 1 de junho
Trio da PazDuduka, Lubambo e Matta, `jazzmen' brasileiros respeitados nos Estados Unidos
O TRIO DA PAZ foi formado em 1990 por Duduka da Fonseca (bateria), Romero Lubambo (violão, guitarra elétrica) e Nilson Matta (baixo) três grandes jazzmen brasileiros, radicados há muitos anos nos Estados Unidos, onde são respeitados por seus pares e admirados pelos fãs como integrantes da Primeira Liga dos músicos de Nova York. Não apenas na condição de especialistas no chamado samba-jazz, mas também na qualidade de jazzmen completos. O feérico Duduka já provou sua intimidade (pessoal e musical) com grandes figuras do jazz no CD Samba Jazz Fantasia (Art Music/Sony), por ele produzido e gravado em 2000, no qual desfilam, em faixas e formações diversas, Joe Lovano, Tom Harrell, John Scofield, David Sanchez e Kenny Werner, além de outros poucos instrumentistas brasileiros de renome internacional, do quilate do trompetista Claudio Roditi e do pianista Hélio Alves. Em 1º de julho do ano passado, o Trio da Paz foi um dos conjuntos mais aplaudidos no festival JazzBaltica, em Salzau, na Alemanha, num set em que virou quarteto, na maioria dos temas interpretados, com um convidado muito especial o versátil e tecnicamente impecável vibrafonista Joe Locke. Aos 48 anos, Locke está no auge de sua carreira. No último ranking dos críticos da revista Downbeat, foi o quarto mais votado na categoria vibes, depois de Bobby Hutcherson, Stefon Harris e Gary Burton. Essa apresentação no importante festival europeu do consagrado trio brasileiro foi gravada e lançada pelo selo MaxJazz, no CD Trio da Paz & Joe Locke Live at JazzBaltica. É o primeiro álbum da Band series da etiqueta de St. Louis (Missouri), cujo catálogo de muito bom gosto tem pri- vilegiado pianistas da classe de Mulgrew Miller, Denny Zeitlin e Geoffrey Keezer, entre outros. O novo disco do Trio da Paz contém oito faixas, em cinco das quais brilha o vibrafone de Locke, em solos ou em expressivas combinações melódico-harmônicas com Lubambo. São elas: Dona Maria (7m55), marca registrada de Duduka, com baticum brasileiro e intenso swing; Copacabana (4m44), tema bem bossa nova do notável Nilson Matta; Sword of whispers (6m48), romântica composição do vibrafonista; Bachião (9m23), a irresistível peça de Lubambo em que a arte do contraponto e o groove do baião coexistem tão bem como o guitarrista e Locke, sob os splashes dos címbalos de Duduka; um All the things you are (8m31) em tempo muito rápido, com destaque para o intrincado fraseado do vibrafonista. O trio (sem Locke) interpreta Pro Flávio (8m39), de Lubambo, obra de viés nordestino devidamente sofisticada pelo virtuosismo do violonista; Wave (6m) e Look to the sky (5m49), ou seja, Vou te contar e Olha pro céu, de Tom Jobim.
Trio da Paz & Joe Locke live at JazzBaltica foi recebido calorosamente pela crítica especializada americana. Para Owen McNally, "misturando música brasileira e jazz americano, o Trio da Paz e Locke falam juntos uma linguagem bela e fluente, seja espreguiçando-se ao sabor dos sons sensuais do samba, seja voando em tempos supersônicos, numa interação brilhante, ágil e espirituosa". Michael J. West (Jazz Times) comenta que o álbum "é o som de quatro virtuoses que se divertem intensamente, ainda que tentem roubar a cena uns dos outros".
Divulgação TRIO Nilson Matta, Romero Lubambo e Duduka da Fonseca