Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Mestre Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Mario Vieira (Manim), Luiz Carlos Antunes (Mestre Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (Mestre MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).


BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

ÁLBUM DO ANO

11 fevereiro 2008


Foi decepcionante para o público presente, hoje muito mais afeito ao show-business do que propriamente à música de qualidade. O Grammy 2007 (semana passada em Los Angeles) deu a um jazzista o mais cobiçado prêmio da noite, o do álbum do ano. Herbie Hancock, com o CD River :The Joni Letters, um especial tributo à cantora e compositora canadense Joni Mitchell, foi o grande vencedor da festa. De quebra, claro, levou o prêmio de melhor álbum de jazz contemporâneo. Foi surpresa sim, mais para os representantes da música pop e rock. E também porque o CD de Hancock é exageradamente complicado para se ouvir, cheio de harmonias intrincadas e de investigações ousadas até em clássicos do jazz, como Solitude (Ellington) e Nefertiti (Shorter). O Brasil saiu ganhando nessa escolha, já que nossa Luciana Souza participou do disco, com uma versão nada simplista para Amelia, de Joni Mitchell. Wayne Shorter teve ampla presença no projeto, que contou ainda com Vinnie Colaiuta, Dave Holland, Lionel Loueke, além dos vocalistas Leonard Cohen, Norah Jones, Tina Turner, Corinne Bailey Rae e, claro, da própria Joni Mitchell, que em quase nada tornaram o CD mais comercial ou menos arrojado. Pelo sim pelo não, esse prêmio renderá alguns bons frutos para o jazz daqui prá frente.
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Segue a lista completa dos premiados na categoria jazz:

Album Of The Year: Herbie Hancock (River:The Joni Letterrs)
Jazz Abum: Herbie Hancock (River:The Joni Letters)
Instrumental composition: Maria Schneider (Celurean Skies)
Instrumental Arrangement: Vince Mendoza & Joe Zawinul (In A Silent Way)
Instrumental Arrangement For Singer: John Clayton (Queen Latifah)
Jazz Vocal Album : Patti Austin (Avant Gerhswin)
Jazz Instrumental Solo: Michael Brecker (Anagram)
Jazz Instrumental Álbum (Indiviual or Group): Michael Brecker (Pilgrimage)
Large Jazz Ensemble Album: Terence Blanchard (A Requiem For Katrina)
Latin Jazz Album: Paquito D’Rivera Quintet (Funk Tango)

A ILHA DESERTA DOS VISITANTES - FINAL

Os visitantes aqui do blog se interessaram pela proposta que lhes foi lançada este ano e pela primeira vez puderam votar nos discos que levariam para a "sua" ilha deserta comunitária, vizinha à nossa. E o som que passa a emanar dessa sofisticada república insular é de muito boa qualidade, como se notará pelos títulos que despontaram nessa votação absolutamente democrática, que incluiu até um nome impronunciável, no bom sentido.
Abrindo-se uma única exceção para um título, no caso, a compilação do original Ella Fitzgerald Sings the Duke Ellington Songbook, que editado em CD reduziu a 2 volumes os quatro LPs originais, ficou assim a lista de escolhas de nossos leitores:

Kind of Blue - Miles Davis
A Musical Romance - Billie Holiday & Lester Young
Brilliant Corners - Thelonious Monk
Time Out - Dave Brubeck
Stan Getz & J.J. Johnson At the Opera House - StanGetz & J.J.Johnson
Ella Fitzgerald sings the Duke Ellington Songbook - Ella Fitzgerald
Sax Colossus - Sonny Rollins
Astigmatic - Krzysztjof Komeda
Blanton Webster Band - Duke Ellington
Body and Soul - Coleman Hawkins
e Ballads - John Coltrane

Empatando com este último no derradeiro voto, (como bem percebido por BraGil e pelo atento visitante Roberto), entrou na lista como "last, but not least" o Ballads, de John Coltrane, para alegria de frequentadores tão ilustres quanto inconformados com a ausência do craque tenorista na lista CJUBiana. E deixo de promover mais um desempate, apenas entre estes, confesso, por pura falta de tempo. São João Coltrane, portanto, vai figurar assim mesmo, ostentando a posição 10A.

A notar, as três coincidências com a lista do CJUB, com Kind of Blue, Time Out e Brilliant Corners.

Abraços.

ESFORÇO DE REPORTAGEM: A LISTA (A DESEMPATAR) DOS LEITORES

10 fevereiro 2008

Em formidável recuperação, nosso valoroso Guzz acaba de mandar a apuração dos 10 da Ilha Deserta, na versão dos leitores. Por coincidência, assim como ocorreu no caso dos membros, a parada vai ter de passar por um desempate entre 13 títulos com 2 votos apenas.

Portanto, peço que só àqueles que já votaram anteriormente - e encareço aos que não o fizeram que se abstenham, por uma questão de ordem, assim como aos membros do CJUB, pois não lhes será facultado meter a colher nesta lista - que o façam novamente para efeito de desempate, escolhendo dentre os títulos abaixo apenas 5 de modo a encher o tanque.

Blanton Webster Band, The - Duke Ellington;
Charlie Parker with Strings - Charlie Parker;
Body and Soul - Coleman Hawkins;
Jazz Workshop - George Russell;
Ballads - John Coltrane;
Ascension - John Coltrane;
Astigmatic - Krzysztof Komeda;
Round About Midnight - Miles Davis;
Ask Me Now - Pee Wee Russell;
Pepper Adams plays Charles Mingus - Pepper Adams;
Shorty Rogers and His Giants - idem;
Saxophone Colossus - Sonny Rollins;
Ella Sings - the Duke Ellington Songbook - Ella Fitzgerald
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Por outro lado, para que passem seu Carnaval tranquilos, adianto que já estão classificados os seguintes discos:

Kind of Blue - Miles Davis, com 4 votos;
A Musical Romance - Billie Holiday & Lester Young, com 4 votos;
Brilliant Corners - Thelonious Monk, com 3 votos;
Time Out - Dave Brubeck - com 3 votos;
Stan Getz & J.J. Johnson At the Opera House - S.G. & J.J.J., com 3 votos.

Aguardaremos os votos dos leitores até o dia 10/02, para finalizar esta compilação e publicá-la “oficialmente”.

Abraços momescos.

BOSSA POLÊMICA

Em 26 de dezembro de 2006 postei no blog uma informação de como havia surgido o termo "bossa nova".

Durante um bate papo na casa de amigos, o jornalista Moysés Fuks prontamente afirmou ter sido ele a primeira pessoa a ter escrito a palavra bossa nova, para anunciar um show no Grupo Universitário Hebráico, se referindo àquele tipo de música.

Levei a história para nosso grupo da Modern Sound, onde se encontram muitos músicos que participaram do advento da bossa nova. O assunto foi motivo de conversa durante vários encontros.

Novamente, em 27 de fevereiro de 2007, postei outra informação de um trecho do livro, ainda não lançado de Carlos Lyra, sobre sua versão do termo bossa nova.

Comentei com o Moysés Fuks sobre o que tinha lido e, junto com o Beltrão, debatemos sobre o tema com o Ruy Castro, João Donato, Miele, Leny Andrade, Bebeto e mais alguns músicos que participaram do movimento, desde o tempo do Beco das Garrafas.

O assunto que levantei gerou polêmica até o dia de hoje, quando saiu um artigo de página inteira no Segundo Caderno do O Globo, escrito por Mauro Ventura, com uma entrevista com o autor do termo bossa nova, o jornalista Moysés Fuks.

Só faltou dizer que foi a primeira vez que Nara Leão cantou em público, na varanda do Grupo Universitário Hebraico.

Abaixo a transcrição da matéria publicada no jornal O Globo, em 10/02/2008.


Polêmica cheia de bossa
O jornalista Moysés Fuks desmente versões e diz como batizou o movimento bossa nova

Mauro Ventura

Na autobiografia que vai lançar este ano, Carlos Lyra diz, a respeito do primeiro show de bossa nova, no Grupo Universitário Hebraico, no fim dos anos 50: "Você sabia que o termo bossa nova foi criado por um judeu de um metro e meio de altura nunca mais visto por ninguém? O diretor da casa, um judeuzinho baixinho, especializado em marketing, bolou o cartaz de apresentação: 'Os bossa nova'. O nome pegou e passamos a usá-lo nos nossos shows." Quando soube que isso estaria no livro, o jornalista Moysés Fuks ficou incomodado. Procurou Lyra e deixou vários recados - "para esclarecer, não para brigar", diz. O assunto passou, ele deixou pra lá, mas, ao começarem as comemorações dos 50 anos da bossa nova, ouviu de conhecidos: "Toma uma atitude". Conversando com o amigo Sérgio Cabral, teve a idéia de elucidar a polêmica que cerca a origem do termo. Ele garante que é o tal "judeuzinho baixinho" - de baixinho Fuks, com 1,78, não tem nada.

- Eu era secretário (cargo hoje equivalente a editor) do "Tablóide UH", da "Última Hora", do Samuel Wainer, casado com a Danuza Leão. A Nara, irmã dela, frequentava o jornal, assim como o Ronaldo Bôscoli e o Chico Fim de Noite - conta Fuks, de 70 anos.

Fuks sugeriu espetáculo pioneiro

Fuks também fazia parte do Grupo Hebráico, no Flamengo (não confundir com Hebráica), e frequentava reuniões caseiras com músicos da época.

Sérgio Cabral escreve em "Nara Leão": "Entusiasmado com o que viu e ouviu, Moysés conversou com Bôscoli sobre as possibilidades de uma apresentação no Grupo." Convite aceito, foram reunidos nomes como Silvinha Teles, Luiz Eça, Lyra, Roberto Menescal, Nara, Luiz Carlos Vinhas, Chico Fim de Noite, Bebeto, João Mário, Bill Horn.

- Era um grupo que juntava músicos de jazz e de samba. Pensei: como rotular essa apresentação que mesclava os dois gêneros? Eu já conhecia a palavra bossa, e na minha cabeça aquilo passou a ser uma bossa nova. Ou seja, criei o termo, como jornalista, na "Última Hora", para batizar esse encontro.

A expressão, diz Fuks, saiu escrita pela primeira vez no programa do show, que ele fez para ser divulgado entre os estudantes. Em seguida, ela foi anotada num quadro-negro que ficava na varanda do Grupo. Era uma forma de reforçar a divulgação. E, logo depois, foi citada pelo Fuks, numa nota em que ele citava a apresentação. Mas a origem da expressão sempre esteve cercada de polêmica.

- Desde a minha adolescência ouço que a primeira vez que foi usada na imprensa foi por Sérgio Porto. Sempre se falou isso na família, com ele ainda vivo - lembra sua prima-irmã, a jornalista Maria Lúcia Rangel.

Segundo Carlos Roquette, que promove passeios guiados pela cidade e desde 1983 pesquisa bossa nova, "Fuks diz que foi ele, mas aceitar isso como verdade histórica é complicado". E Carlos Lyra recorda:

- Era um judeuzinho louro de cabelo escovado, pequenininho, diretor social do Grupo Hebráico. Tenho certeza de que não era o Fuks.

O jornalista estranha a afirmação e diz que num recital de Lyra no Hotel Sheraton ganhou palmas ao ser apresentado pelo próprio músico como o inventor do termo. em sua defesa, Fuks conta com aliados de peso. Sérgio Cabral escreve: "Ao chegar ao local do show, (Roberto) Menescal quis saber 'que grupo bossa nova' seria aquele e Moysés explicou que, não sabendo os nomes deles, achou melhor adotar aquela solução. 'Mas, se vocês quiserem, eu mudo', defendeu-se Fuks. 'Pode deixar assim mesmo', liberou o violonista. O fato é que, a partir dali, a expressão bossa nova passou a identificar a música e os músicos comprometidos com o movimento".

Ruy Castro, autor de "Chega de Saudade" e "Rio bossa nova", reforça: - A expressão bossa nova já existia há muito tempo para definir qualquer coisa nova. Um dos seus mais constantes usuários era o violonista Zé Carioca, que tocava nos anos 40 e 50 com Carmen Miranda nos Estados Unidos. Tudo que ele via de inusitado por lá chamava de "bossa nova". e a palavra "bossa", exatamente com o sentido de um jeito diferente de fazer alguma coisa, já está no "Memórias de um sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida, em 1852/53 - explica. - O que me parece inegável é que foi o Fuks que pegou a expressão "um grupo bossa nova" e passou a falar em "música bossa nova" ou "música de bossa nova" na "Última Hora".

'Só eu poderia ter escrito os dizeres'

No pioneiro show no Grupo Universitário Hebraico, a expressão "bossa nova" apareceu escrita a giz num quadro-negro que ficava na varanda. Mas quem a escreveu? Os pesquisadores falam em "alguém não identificado" ou "ma secretária", Não se sabe sequer ao certo a data do show, se em 1957 ou 1958 - sabe-se só que foi numa quarta feira, pois era o dia dos eventos no Grupo. Tampouco se tem certeza do texto exato. Ele foi copiado de um programa mimeografado, feito para divulgar o espetáculo entre os estudantes. Fuks conta:

- Não me lembro ao certo do que escrevi no programa. Sei que pus no release "noite de" ou "noite de bossa nova, com a participação de Silvinha Teles".

- Um belo dia, ou noite, Fuks nos trouxe uma novidade de um grupo que estaria fazendo música com uma batida moderna, diferente, um grupo bossa nova! - lembra Zeca Levinson, então presidente do Grupo. - Topamos de imediato e ele foi cuidar de rodar no nosso mimeógrafo o comunicado para o evento. Não costumo contar porque dificilmente alguém acredita que foi lá que tudo começou.

Mas quem é a tal secretária anônima? Dois filhos, sete netos, viúva do jornalista Eliezer Strauch, Lia (foto), de 64 anos, vive em Israel. De lá, por e-mail, ela conta: "Era costume divulgar no quadro-negro todos os acontecimentos importantes do Grupo. Eu era a responsável pela secretaria e só eu poderia ter escrito que na 'quarta feira, dia tal, noite de ou da bossa nova etc'. Mas não poderia ter tirado da minha cabeça os dizeres se não tivesse aparecido em outro lugar. Eu era a secretária, mas não tinha independência de criar títulos para as atividades do Grupo.”

NOVO PIANISTA NA PRAÇA

O jazz, no Rio de Janeiro, está ganhando um novo pianista.

Ele iniciou suas apresentações recentemente, provando que leva jeito para o piano, seu segundo instrumento de coração.

Não que esteja em seus planos trocar o solo pela harmonia, mas expressou uma grande admiração pelo instrumento acústico. Ele faz o dever de casa diariamente com o seu Fender Rhodes e ja tem gabarito para chegar tocando jazz num teclado em qualquer lugar.

Para quem não conhece, Idriss Boudrioua, é francês, mas está no Brasil há 25 anos e é conhecido como um dos melhores sax alto do jazz e da bossa (também tocando um irrepreensível flugel).

Todos os sábados, na Modern Sound, Idriss dá uma aula de jazz. É fácil notar seu empenho e dedicação quando toca, sua concentração no instrumento, na música e, no excelente grupo de músicos que o acompanha, é extraordinária. Mesmo com a agitação das pessoas, dos garçons e das conversas, sua música flui como se estivesse num concerto e todos prestando atenção.

O CJUB ja teve a honra de ter em seus palcos a presença desse músico, que nesses anos todos só faz acrescentar.

Assistir ao Idriss tocando é imperdível, é fácil saber onde vou aos sábados, bem como uma turma de conhecedores de jazz que não perde esse jazz de primeira.

Assim como o Idriss, temos vários outros excelentes músicos no palco: Sergio Barrozo (b), Dario Galante (p), nesse último sábado substituído pelo grande Haroldo Mauro Jr., que, diga-se de passagem, está tocando muito, José Boto (b) e sempre com muitas canjas dos músicos presentes na platéia.

Agora, também temos o Idriss, ainda tímido ao piano, mas mostrando que tem talento.

O VELHO E O NOVO

09 fevereiro 2008

Estamos falando de jazz. Uma linguagem musical, mais que um gênero. Eu vejo como falso o embate entre velho e novo no jazz. Procurarei demonstrar porque.

Todo estudo de musica (instrumento,composição,arranjo) se faz observando o que já foi feito no passado. Se estudamos musica dita clássica nossas fontes serão Bach, Mozart, Beethoven, etc, ate chegar em Stravinsky, por exemplo. Na formação de um musico de jazz, qualquer musico com pretensões de tocar jazz, o passado é onde ele vai aprender a linguagem, os idiomas, sotaques e toda a sintaxe do jazz. O desenvolvimento do estudo é muito semelhante à evolução musical do jazz. Começamos, claro, pelo mais simples. E, em geral esse início soa como jazz antigo, tradicional, se preferem. E quando já mais adiantados então incorporamos ao estudo as técnicas e maneiras cada vez mais próximas de nós temporalmente. Exemplo: primeiro estuda-se blues depois bebop ou aprendemos a tocar na bateria como os bateristas da época do swing para depois incorporarmos as inovações do bebop, de Max Roach e Art Blakey. Na evolução do jazz vemos que os criadores foram transgredindo maneiras já estabelecidas de tocar e/ou compor e o vocabulário se refinando e se sofisticando.
Isso exige que se estude primeiro o mais antigo depois o mais novo. Não por questões históricas, mas por razões didáticas, do aprendizado de um instrumento musical. As escolas e estilos mais antigos soam pra nós inocentes ou simples, mas não se começa pelo final, acho que em qualquer coisa é assim.

Todo o estudo do jazz (e musica em geral) necessita que se ouça e até se copie (como estudo) o que os grandes ou os muito bons do passado faziam. E mesmo com os excelentes livros de todos os instrumentos que existem hoje sobre jazz, os registros gravados, milhares deles, são a verdadeira fonte de conhecimento para o musico de jazz. Essa a razão de muitos livros trazerem ao final uma discografia que ilustrará tudo aquilo que o autor quis transmitir, aplicações praticas da teoria. Ao estudar temos que fazer transcrições de performances e solos e isso é se debruçar sobre o passado e beber da fonte. Ao estudar um determinado musico muitas vezes temos que voltar atrás e ver suas influencias e estudá-las, assim como ele fez, e vamos nessa viagem temporal entendendo e assimilando a musica que esse musico criou de maneira muito mais profunda e completa, pra ir pra frente vamos pra trás primeiro.
Nesse estudo sobre o que já existe ou existiu é que está a possibilidade do novo aparecer. Os estilos pessoais, por mais originais que soem, são frutos dessa formação. Na verdade a maneira de aprender jazz de hoje é uma versão culta e aprimorada da maneira que os músicos do passado aprendiam sua arte. Ouvindo e tentando reproduzir, errando e acertando, até conseguir aquele resultado. Não havia um único livro sobre improvisação jazzística na época de Parker, Coltrane, Bill Evans etc. Era ir aos night-clubs ouvir e tentar assimilar, a tal da tradição oral.

Só pra ilustrar: no trompete dá pra imaginar Roy Hargrove sem Lee Morgan? Morgan sem Clifford Brown e esse sem Dizzy? E antes de Dizzy, Roy Eldridge? E dá pra pensar em tocar jazz no trompete sem ouvir, estudar e entender Louis Armstrong?
Mesma coisa sax tenor : Lester Young, depois Dexter Gordon, Stan Getz, Sonny Rollins, John Coltrane, Wayne Shorter, Joe Henderson até chegar em Michael Brecker e Joe Lovano, nossos contemporâneos. Claro que em algum momento aqueles que são gênios vão apresentar coisas realmente novas. Mas os gênios são muito, muito raros e mesmo eles estudaram os mestres que vieram antes.

OUSADO, BRILHANTE

Aproveitando as inúmeras citações recentes aqui no CJUB do pianista Stefano Bollani, nada mais oportuno do que uma resenha de seu mais novo CD, ainda inédito, e que, se não é jazz de raiz, pelo menos deve despertar a curiosidade de qualquer apreciador da boa música. Bollani dessa vez resolveu prestar uma homenagem à música brasileira, depois da visita ao Rio que fez em Dezembro último, como parte de um intercâmbio entre Itália e Brasil (Umbria Jazz Brasil). O italiano até fez uma apresentação gratuita numa favela em Laranjeiras para lançar o álbum, com a participação dos mesmos músicos brasileiros que atuaram no projeto. Bollani Carioca – é o título do CD – contou com Marco Pereira (violão), Zé Nogueira (sax), Jurim Moreira (bateria), Jorge Helder (contrabaixo) e Armando Marçal (percussion), além dos cantores Zé Renato e Mônica Salmaso. Bollani já havia homenageado Jobim em 2003 com um bonito álbum chamado Falando De Amor. Gravou também temas da Bossa-Nova em duo com Phil Woods. Dessa vez o repertório foi bem mais variado, como um retrato da música brasileira em todas as suas manifestações e épocas.
Aos 35 anos, o pianista de Milão já mostra maturidade e competência suficientes para se arriscar a qualquer projeto mais ousado. Bollani Carioca é uma prova, a partir de alguns clássicos da nossa música não muito familiares aos gringos, passando por Pixinguinha, Nelson Cavaquinho e Chico Buarque. O CD é agradável e criativo do início ao fim, com um momento no mínimo emocionante quando Mônica Salmaso canta Folhas Secas em duo com o italiano. Se Bollani foi eleito o músico do ano na Europa – prêmio Hans Koeller – não foi à toa. Além de jazzista, é um pianista completo. E já para 2008 tem mais de 200 apresentações agendadas.

01. luz negra
02. ao romper da aurora
03. choro sim
04. valsa brasileira
05. a voz do morro
06. a hora da razão
07. segura ele
08. doce de coco
09. folhas secas
10. il domatore di pulci
11. samba e amor
12. tico-tico no fubá
13. caprichos do destino

Repubblica e L’Espresso (2007)
Stefano Bollani – piano, arranger
Zé Nogueira – sax , producer
Jurim Moreira – drums
Marco Pereira – guitar
Jorge Helder – bass
Zé Renato - vocal (*6)
Mônica Salmaso - vocal (*9)
Armando Marçal - percussion
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PS. No Som na Caixa, uma aula de como um tema surrado (Tico-Tico No Fubá) ganha quando o músico sabe a importância da harmonia no jazz moderno. Aqui, um Bollani "monstruoso", expressão benechisniana...
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No estúdio com Stefano Bollani (Antônio Carlos Miguel)
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O tal disco carioca que o pianista italiano comentou na entrevista publicada neste domingo no Segundo Caderno está se material¡zando. Hoje, no fim da tarde, passei quatro horas no estúdio e pude ouvir algo do que eles gravaram ontem e acompanhei Marçalzinho botando sua percussão em algumas das faixas. Produção de Zé Nogueira e Alberto Riva (este um jornalista italiano especializado em música, autor da biografia do trompetista Enrico Rava, e que agora, casado com uma brasileira, trabalha como correspondente de agências italianas aqui no Rio), o repertório passa longe da obviedade, incluindo Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Zé Kéti ("A voz do morro"), um "Tico-tico no fubá" genialmente desconstruí­do e um maxixe do próprio Stefano, que também ouvi. Uma base brasileira, com o baterista Jurim Moreira, o baixista Jorge Helder e o violonista Marco Pereira, garante o balanço local, mas Bollani manja muito da música brasileira - Riva contou que ao conhecê-lo, dez anos atrás, ele já tocava samba. Dois músicos do seu quinteto, que se apresentará domingo, no palco Club do TIM Festival, também participam do "discacarioca": o saxofonista Mirko Ismael Silva que iria gravar em seguida e o clarinetista Nico Gori. Segundo Zé Nogueira, que também participa, num duo de piano e sax soprano, o disco sairá no Brasil pela gravadora MP,B (distribui­da pela Universal), enquanto na Europa ficará por conta de Bollani e Riva o acerto com algum selo.
PS. (em 10 de novembro): acabei de falar com Riva, e ele me corrigiu: "Apenas Stefano que cuidará do lançamento na Europa").


DA SERIE "VIOLINO NO JAZZ"

08 fevereiro 2008

Stephanne Grappelli & Diddier Lockwood acompanhados entre outros de simplesmente Michel legrand ao piano no tema "Pent Up House".

Fico por ai...

Beto Kessel

HOJE (E TODOS OS DEMAIS TAMBÉM) É O DIA DE LACLAUDIA

Nossa confreira querida e participante ativa das discussões e votações (colocou nada menos do que três de suas escolhas entre os 10 finalistas da Ilha Deserta), LaClaudia, faz aniversário hoje. Tardiamente, por conta de compromissos profissionais, dou conhecimento desse fato a todos, mas tarde não é nunca e assim segue daqui um abraçaço pela data, com um desejo que é certamente coletivo de que tenha muitas Felicidades nesta data e Saúde por muitos e muitos anos mais.

Assim, PARABÉNS PARA VOCÊ, estimada amiga, em nome deste CJUB, que muito se honra em tê-la como membro(a)?

Abraços (beijos omitidos por conta de possíveis ciúmes por parte do Guilhermão)

MUSEU DE CERA # 36 - BUNK JOHNSON

07 fevereiro 2008

WILLIE GEARY “BUNK” JOHNSON - nasceu em New Orleans possivelmente em 1879 (ou 1889 parece que mentia a idade como sendo 10 anos mais velho), um dos 14 filhos de William Johnson e Thresa Jefferson. Em 1894 concluíu a New Orleans University. Seu primeiro trabalho profissional foi com a Olivier's Orchestra e de 1895 a 96 com a legendária Buddy Bolden's Band a pioneira na execução do jazz. Depois tocou em várias brass bands de New Orleans. Em 1900 tocou no Frankie Spano's Club com Jelly Roll Morton e Jim Parker e com The Superior Orchestra dirigida por Clarence Williams. (foto abaixo).















Em 1915 deixou New Orleans permanentemente atuando em espetáculos de vaudeville e minstrels shows, em orquestras de teatro e até bandas de circo como a Vernon Brothers Circus. Com a Black Eagle Band em 1931 em um dancing na cidade de Rayne, Louisiana aconteceu que o segundo trompete Evan Thomas foi apunhalado em pleno palco vindo a falecer ali mesmo. Iniciou-se então uma luta no recinto e o instrumento de Bunk foi quebrado. Após este incidente continuou a tocar com um trompete emprestado, além deste episódio seus dentes não tratados começaram a dar muitos problemas tendo que extraí-los o que dificultou sua embocadura e Bunk acabou por se retirar do meio musical.
Um movimento de recriação e resgate do Jazz tradicional e de seus músicos veteranos — REVIVAL — ocorreu a partir de 1937 estendendo-se até o final dos anos 40. Foram reencontrados vários músicos como George Lewis (cl), Mutt Carey (tp) e renovadas as forças de outros como Kid Ory (tb), Sidney Bechet (cl, ss), Tommy Ladnier (tp), Albert Nicholas (cl), Jelly Roll Morton (pi) e dos brancos do dixieland como Eddie Condon (gt), Bud Freeman (st), Muggsy Spanier (ct, tp), Eddie Miller (st), Bobby Hackett (tp) e ainda o francês Claude Luter (cl, bldr), o inglês Humphrey Lyttelton (tp, cl) e outros... Bill Russel e Fredric Ramsey Jr. historiadores ao escreverem o primeiro livro sobre a história do Jazz — Jazzmen, feito através de inúmeras entrevistas, incluindo Louis Armstrong, Sidney Bechet e Clarence Williams o nome de Bunk era citado constantemente como um dos pioneiros do Jazz em New Orleans. Resolveram procurar o citado músico encontrando-o em New Iberia, Louisiana onde vivia. Após conseguirem fantásticas histórias sobre o ambiente musical de New Orleans no início do século, os descobridores pagaram o tratamento dentário e compraram um novo sopro para Bunk. Em 1942 começou a gravar tornando-se figura popular do movimento Revival. Sua última gravação foi em New York nas sessões de 23, 24 e 26 de dez/1947. Retornando a New Iberia em 1948 com a Banner Band sofre um AVC e acaba falecendo a 7/julho de 1949.
Bunk possuía a técnica suficiente para transmitir a essência do jazz de raíz, da raíz neo-orleanesa da qual foi um dos ramos fecundos pela tonalidade, perfeição da forma e equilíbrio, além de magnífico beat. Um dos grandes momentos do Jazz Tradicional.
Aqui podemos ouvir uma das primeiras sessões de gravação do Movimento Revival de 1942 com Bunk Johnson’s Original Superior Band tendo Bunk ao trompete e líder, e os “cobras criadas” - Big Jim Robinson (tb), George Lewis (cl), Walter Decou (pi), Lawrence Marrero (bj), Austin Young (bx), Ernest Rogers (bat) no clássico Panama (William H. Tyers) - Vocalion LAG 545, gravado no Grunewald’s Music Store, New Orleans a 11/junho de 1942 (mx MLB 140) e ver algumas fotos interessantes.

MARCELINK - FELIZ ANIVERSÁRIO, HOJE

06 fevereiro 2008

Afastado temporariamente de suas escrivinhações e participação no CJUB como um todo em vista de compromissos profissionais e pessoais, embora por sua cordialidade e educação seja lembrado sempre, nosso Marcelink comemora hoje mais um ano. Sem condições de abraçá-lo pessoalmente, mando daqui e em nome de todos, um forte abraço ao nosso jovem confrade, desejando-lhe MUITA SAÚDE E PAZ, além de uma quantidade incontável de anos de vida, ao som do mais melodioso jazz que puder se fazer acompanhar.

Parabéns, MARCELINK!

EVANS À BRASILEIRA

Tributos a pianistas como Duke Ellington, Count Basie, Bud Powell, Thelonious Monk, entre outros, sempre fizeram parte da discografia dos jazzistas de gerações posteriores. Mas nada comparável a Bill Evans. Só o pianista italiano, ótimo por sinal, Stefano Battaglia, dedicou dois CDs a Evans, seu maior ídolo. Agora a homenagem é brasileira, por conta da pianista e cantora (?) paulistana Eliane Elias (47). O fato de ser atualmente casada com o contrabaixista Marc Johnson, um dos últimos parceiros de Evans, teve influência direta no projeto, de novo sob os auspícios da Blue Note – há dois temas inéditos de Evans gravados em K7 e agora revelados por Johnson. Outra curiosidade é que Marc Johnson aparece em uma das faixas (My Foolish Heart) tocando no contrabaixo que pertenceu a Scott LaFaro, talvez o grande inovador de sua geração nesse instrumento, e que tornou-se famoso ao lado de Evans. Something For You (...sings & plays Bill Evans), o título do CD (2008), traz ainda o baterista Joey Baron.
Eliane Elias conseguiu alguma popularidade depois de seu CD Dreamer, lançado pela Bluebird em 2004. Isso porque ela optou pela fórmula muito bem explorada por Diana Krall. Ou seja, algo menos complicado em se tratando de jazz, com um vocal miúdo e tímido. Há até um arranjo para Fotografia (Jobim) nitidamente em cima do que Claus Ogerman fez em Dancing In The Dark para a Krall. Eliane volta a cantar nessa homenagem a Evans, mas a prioridade aqui é para o trio. O CD tem bons momentos sim. Johnson, o produtor, faz também uma montagem com Evans e Elias na inédita Here’s Something For You, a partir da fita K7 guardada pelo contrabaixista e só agora revelada.
Na ânsia de regravar os standards imortalizados por Evans, além das composições do pianista, Elias economizou tempo, ponto questionável do CD. São 17 faixas, sendo que apenas uma chega a 5 minutos. Mas o trio se comporta bem, com Johnson em grande forma. Claro, a paulistana não perdeu a oportunidade de fazer a sua versão para Minha (Francis Hime), como contribuição brasileira ao repertório de Bill Evans, além de um tema próprio chamado After All, dedicado ao já legendário pianista de New Jersey.

01. you and the night and the music 3:17
02. here is something for you 2:58
03. a sleepin’ bee 2:51
04. but not for me 3:51
05. waltz for debby 4:05
06. five 4:59
07. blue in green 4:50
08. detour ahead 4:32
09. minha (all mine) 3:13
10. my foolish heart 5:01
11. but beautiful/here’s that rainy day 4:25
12. I love my wife 2:54
13. for nenette 2:53
14. evanesque 3:23
15. solar 3:11
16. after all 4:29
17. introduction to here is something for you (*) 2:13

Blue Note (2008)
Eliane Elias – piano, vocals, composer
Marc Johnson – bass, producer
Joey Baron – drums
Bill Evans – piano (*), composer
……………………………………………
AMG @@@@1/2
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PS. 18. re: person I knew 3:33 (bonus track edição japonesa)

"ILHA DESERTA" - "PURISTAS" x "CONTEMPORÂNEOS" ? COM A PALAVRA O MESTRE GARY GIDDINS

04 fevereiro 2008


A propósito da controvérsia, em bom tempo levantada pelo confrade BraGil, penso vir a calhar este artigo do Mestre Gary Giddins, pinçado de sua coluna regular na JazzTimes, esta de dezembro de 2005. Vejam, como alertara em comentários anteriores, a alusão a gravações de Buddy Bolden (que praticamente todos os historiadores julgavam inexistentes), quase que unanimemente considerado o "inventor do jazz". Boa leitura (cliquem na imagem para ampliar).

ELES - SEGUNDA PARTE

01 fevereiro 2008

3) MAX ROACH

Max Roach era um baterista com cabeça de compositor. Compunha peças musicais improvisando.
Roach, para mim, tem uma importancia como solista dentro do jazz que é comparavel a de Louis Armstrong, Charlie Parker, John Coltrane ou Sonny Rollins, por exemplo, como inovador e criador de um vocabulario praticamente obrigatorio para qualquer baterista que queira solar jazzisticamente. Uma tentativa de descrever e analisar a arte de Max Roach sem usar termos tecnicos do jargão musical é um desafio pois sua musica é bastante complexa as vezes quase erudita, mas sempre com muito swing. Vou tentar não complicar.


A primeira vez que ouvi Roach eu tinha uns quinze anos, já gostava muito de jazz, e ouvi um disco de Bud Powell, gravado ao vivo na França com Charlie Mingus e Roach. Na ultima musica, ("Lullabye Of Birdland") ele toca um solo de vassourinhas. Eu nunca tinha ouvido ninguem "contar uma historia" na bateria. É um clichê de linguagem mas é a unica definição que me ocorre.
Para o mundo e especialmente para os Estados Unidos da America a decada de 1940 trazia muitas mudanças. Pujança economica, intensa urbanização, uma nova classe media, vitoriosos na guerra, os EU passavam por rapidas e complexas mudanças e que iriam se aprofundar nos anos que viriam, nada mais seria como antes. Nesse cenario a musica, o jazz, cinema, teatro e literatura, passavam por mudanças semelhantes.

Uma das mudanças que o bebop trouxe foi na condução do ritmo pelos bateristas: o foco deixava de ser o bumbo, como na epoca do swing, e passava para o ride cymbal. Bumbos menores e pratos maiores, o" kit" dos bateristas mudava tambem em função do jazz nessa epoca (aproximadamente metade da decada de 40) ser principalmente tocado em night-clubs, lugares relativamente pequenos, como as casas da rua 52, o berço do bebop.
Max Roach despontou justamente nessa epoca e lugar. O homem certo no lugar certo. Juntamente com Kenny Clarke e Art Blakey foi um dos pais da bateria no bebop. Enquanto esses dois, mais velhos, ja eram musicos ha algum tempo, Roach estava praticamente começando profissionalmente. Os tres tem intensa participação nas gravações que registram o nascimento e apogeu do bebop mas Roach definiu uma nova era para os bateristas assim como Parker, Gillespie, Bud Powell fizeram o mesmo como instrumentistas e compositores. Tendo uma interpretação da condução no prato e uma atitude em relação ao tempo similares às de Art Blakey(on top of the beat) porem com menos drive mas com um refinamento de som que é uma de suas caracteristicas marcantes. Não quero dizer com isso que Roach ficasse a dever em drive mas que não era tão enfatico e assertivo na condução (time keeping) quanto Blakey. Nesse aspecto, drive na condução ritmica, acho que só Tony Willians pode se equiparar a Blakey.
Roach tinha uma condução mais "leve", a mão esquerda já está mais a vontade, mais livre, não repetitiva, tocando uma especie de "comping", como os pianistas, enquanto a mão direita seguia na condução. O bumbo tambem participava dessa conversa com menos atividade que a caixa, mas infelizmente em discos mais antigos é praticamnete impossivel ouvir o bumbo, a não ser em solos de bateria. O que Roach tocava era praticamente polifonico, contrapontistico e era perfeito para acompanhar as inovações melodicas do bebop que exigiam uma nova maneira de acompanhar os solistas. Agora a velocidade de raciocinio tinha que ser muito maior, já que bumbo e caixa participavam colorindo a condução. Era algo analogo ao que acontecia com os outros instrumentos no bebop: as possibilidades aumentavam muito. E Max Roach era um dos principais expoentes dessa nova maneira de tocar.

SOLOS - Aí é onde Roach brilha intensamente. Sua concepção musical começa pelo som. Usava uma afinação mais alta ("aguda") que possibilitava uma articulação mais clara e facilitava a execução de frases mais complexas, com mais notas. A sonoridade de Roach se tornou o padrão daquilo que se convencionou chamar "jazz kit " até os dias de hoje. Uma cuidadosa escolha do som ("nota") de cada tambor e uma técnica muito bem desenvolvida faziam de sua bateria um novo instrumento.
Roach foi dos que fez a bateria se afastar da linguagem "militar" que predominava na epoca do swing. Sua escola de tecnica era mais classica, não era baseada nos chamados Rudimentos, que são um conjunto de tecnicas originalmente usadas pelos percussionistas de bandas marciais, que era de onde vieram muitos bateristas. Isso tambem tornava a sonoridade de Roach mais leve e seu fraseado mais solto, fluente e veloz. Bebop, em uma palavra. A velocidade e as frases com muitas notas não são usadas para impressionar mas na construção de ideias musicais altamente sofisticadas em termos de criação musical. A partir de ideias ritmicas tipicas do bebop e com uma grande variedade de articulações, dinamicas e sonoridades, Roach construiu um vocabulario totalmente novo.
Toda essa tecnica e vocabulario usados por um compositor. Seus solos muitas vezes usam tecnicas de composição classicas tais como tema e variações e desenvolvimentos motivicos e tem sempre um sentido de organização. A "história" será "contada" com começo, meio e fim. Outra criação marcante de Roach foram os solos usando somente o hi-hat (ou "chimbal" ou "contratempo", no Brasil), aqueles dois pratos que são acionados pelo pé esquerdo. Tirava-os do instrumento, levava para a frente do palco e usando tambem a estante de metal fazia solos tão criativos e musicais quanto os que fazia com o instrumento todo. Roach foi o primeiro a gravar composições para bateria solo. Varios de seus discos, o mais conhecido é"Drums Unlimited ", tem composições para bateria solo, exemplos claros e acabados da arte de compor.

Todo baterista interessado em tocar jazz tem que estudar as gravações de Max Roach. Seus solos são a definição perfeita do que é tocar bateria melodicamente e um estudo obrigatorio para aqueles que quiserem se aprofundar na arte do solo.

Há muitos discos que Roach gravou ao longo de sua carreira que são marcantes: suas gravações com Charlie Parker, o quinteto com Clifford Brown (essas gravações, eu considero um dos maiores tesouros do jazz) e seus inúmeros discos como lider (destaque para "Drums Unlimited") e o encontro histórico de "Rich versus Roach", com Buddy Rich. São o legado de um genio.

Tive oportunidade de ve-lo tocar ao vivo uma vez no Free Jazz de 2000, no MAM, ao lado de meu amigo e mestre Pascoal Meireles. Foi uma apresentação memorável onde ele mostrou toda sua genialidade e criatividade no instrumento com muita energia e com 60 anos de carreira. Na época, por coincidencia, eu estava aprofundando meus estudos musicais (harmonia, analise musical e outras matérias) e pra mim foi uma verdadeira aula de musica, num nivel altissimo. O professor era Max Roach.


4) AL FOSTER

Um baterista de jazz completo. Essa seria, para mim, a melhor definição de Al Foster. Versatilidade, criatividade, um vasto vocabulario rítmico e melódico com praticamente tudo que se criou em bateria no jazz e, acima de tudo, uma condução muito especial, com muito swing.
As influências que podemos ouvir são muitas mas acho que Max Roach, Art Blakey, Roy Haynes e Elvin Jones são as mais aparentes.
Sendo escecialmente um sideman( e que sideman !), participou de um enorme numero de gravações e turnes de grandes nomes do jazz: Horace Silver, Mccoy Tyner, Miles Davis, Sonny Rollins, Joe Lovano, Herbie Hancock, entre tantos outros. Com Joe Henderson, durante a década de 90, gravou varios discos e participou de inumeras turnes pelo mundo todo. Sua condução é variada e adaptada a cada situação. Tanto pode ser leve e fluida, como Roy Haynes (escola bebop,"on top of the beat") , quanto densa e mais ativa, como Elvin Jones ("bluesy", "relaxado") alem de tocar vassourinhas magistralmente. Com total dominio de todos os estilos de jazz não é de espantar que tenha sido tão requisitado.
Dois discos de Horace Silver,"Silver'n Brass" e "Silver'n Woods", gravados na metade da decada de 70, contém performances de Foster que eu considero imprescindiveis para quem estuda o desenvolvimento da bateria no jazz e, claro, para todos os bateristas interessados em tocar jazz.
São discos com uma formação maior, com uma seção de sopros acrescida ao quinteto de Silver. Conheço bem esses discos e pra mim eles contem ensinamentos muito importantes na arte de conduzir (time keeping) uma vez que as composições de Silver nesses discos são variadíssimas ritmicamente: jazz em 4/4 tanto com interpretações mais bebop quanto mais modernas, em 3/4, shuffle, bossa nova, latin-jazz , tudo isso tocado com sonoridade, swing e musicalidade do mais alto nivel.
Numa situação musicalmente oposta, digamos, no disco de Joe Henderson "The Art of the Tenor", onde a formação é sax tenor, baixo e bateria, ele tambem se destaca por todas as qualidades ja descritas e mais ainda por um espirito ousado musicalmente, como a situação requisitava, dialogando intensamente com Henderson. Tambem com Henderson, uma performance maravilhosa no disco "So Near, So Far".

SOLOS - Como solista é que a influencia de Max Roach se torna mais evidente. Solos construidos como composições, explorando as sonoridades do instrumento de forma ousada e criativa. Foster, em geral, em seus solos é mais economico ("menos notas") mas em termos de fraseado e estruturação é muito clara a herança de Roach. Outra caracteristica em comum é a sonoridade, Foster tambem usa uma afinação mais alta com destaque para a variedade de articulações.
O seu fraseado vai alem do bebop, mas este está presente sempre, com influencias de Tony Williams, Elvin Jones e Roy Haynes. Foster refina esse vocabulario, simplificando-o. A complexidade da simplicidade. Eu vi Al Foster tocar ao vivo duas vezes. A primeira em 1974 com Miles Davis, no Municipal. Eu gostei muito do som mas não tenho maiores lembranças de Foster. Em 1993, com Joe Henderson no Freejazz, no Hotel Nacional aconteceu o oposto, foi uma das apresentações que vi em toda minha vida que mais me marcaram. Alem da musica como um todo ter sido magica, Foster deu uma apresentação de gala. Sempre fazendo musica de altissimo nivel no instrumento, fosse acompanhando ou solando, com uma sonoridade linda, ideias requintadissimas, um swing danado e o que mais me chamou atenção: cada musica tocada tinha sua propria identidade, não repetiu nada, ate temas mais manjados como "Take The A Train" soaram diferentes com a concepção ritmica de Al Foster. Seus solos foram maravilhosos, verdadeiras composições feitas ali, na frente de todo mundo. Um super-musico de jazz na sua hora de trabalho.

Lembro aos amigos que estas são observações pessoais, é só ver a quantidade de adjetivos empregados, não um tratado sobre o assunto. Não tenho a pretensão de esgotar esse assunto, muito pelo contrario. Escrevi para chamar a atenção de voces sobre os bateristas que fizeram e fazem minha cabeça, um convite a uma audição mais atenta desses mestres e com isso cada um pode tirar suas proprias conclusões. Fiquem a vontade para acrescentar a visão de voces nos comentarios. Duvidas tecnicas mais especificas eu peço , por favor, para me mandarem por email pois os esclarecimentos podem ocupar muito espaço nos comentarios. Mas fica a criterio de voces, eu podendo, sabendo, responderei com o maior prazer, seja nos comentarios seja nos emails.

A seguir : Philly Joe Jones e Louis Hayes.

INVITATION

Nascido em Varsóvia (1902/1983), aos 6 anos Bronislaw Kaper já estava pendurado no piano. Depois de um período no conservatório de sua cidade, foi obrigado a fazer direito por imposição do pai, apesar de talentoso pianista. Acabou em Berlim, na época uma cidade cheia de casas noturnas, onde muitos músicos europeus tentavam uma sorte maior. Com a guerra, mudou-se para Paris, já focado em trabalhar para o cinema. Só em 1935 recebeu convite da MGM, Hollywood. Fez várias trilhas, até mesmo para os irmãos Marx. A partir daí virou membro de uma comunidade de exilados alemães. Kaper participou de mais de 150 filmes e levou o Oscar pela trilha de “Lili”. Mal sabia que dois de seus temas mais famosos, Green Dolphin Street e Invitation, iriam virar clássicos do jazz. Até mesmo Hi Lili Hi Lo receberia versão memorável de Bill Evans e Eddie Gomez. Mais um exemplo de que o jazz sempre esteve na cola do cinema.

PS. No som na caixa, o standard do jazz Invitation (Kaper & Webster) – mais de 400 gravações -. numa versão pra lá de inspirada da ótima cantora e pianista Patrícia Barber (Chicago, 1956).