Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Mestre Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Mario Vieira (Manim), Luiz Carlos Antunes (Mestre Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (Mestre MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).


BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

NOTA TÉCNICA

20 março 2007


Meus caros CJUBIANOS, estamos com um problema técnico para hospedar música. O site usado para tal o BOLT, por motivos de direitos autorais não mais permite a divulgação de música. Assim, estão prejudicadas a resenha do MUSEU DE CERA e a série DO OUTRO LADO DO JAZZ, bem como a gostosa RADIOLA. Contudo, nosso blog engineer Gustavo Cunha, o Guzz, está buscando uma alternativa e certamente em breve estaremos no "ar" .

HISTÓRIAS DO JAZZ N° 29

O Programa de Gillespie.

Essa aconteceu em maio de 1986 e integra também a série “Boicotes”.

Estava no "plantão trabalhista” em minha repartição, quase no final do expediente, quando fui procurado por uma senhora muito bem vestida e perfumada.
Perguntei-lhe sobre a consulta que queria fazer e a resposta me surpreendeu. Queria falar comigo em particular. Encerrado o expediente, ela esclareceu o motivo da visita.
Queria me contratar para escrever o texto do programa das apresentações do quinteto de Dizzy Gillespie no teatro do Hotel Nacional, que aconteceria naquele mês de maio. Esclareceu que seria um texto longo, eis que o programa seria uma pequena revista, contendo inclusive espaços publicitários. Para acertarmos melhor os detalhes convidou-me para almoçar no dia seguinte no Restaurante Assyrius, que funcionava no subsolo do Teatro Municipal.
Assim fizemos, só que tive que esperar pela madame cerca de 45 minutos, eis que outros afazeres a prenderam no escritório. Almoçamos e combinamos sobre a forma do texto que, teria que conter uma pequena biografia, detalhes das outras visitas de Dizzy ao Brasil e tudo que interessasse aos cultores do Jazz. Prometi entregar-lhe o trabalho dois dias depois. Na oportunidade, perguntei-lhe se ouvia o meu programa ou me conhecia de outro lugar. Disse que
não mas que tinha “ótimas informações a meu respeito” e nada mais acrescentou.

Confesso que não tive a menor dificuldade em confeccionar o texto. Aproveitei um capítulo que constaria de um livro que pretendia escrever (O Jazz nos palcos do Rio de Janeiro) e as informações do meu arquivo. Corrigi o texto várias vezes e concluí que o trabalho estava bom, com muitas informação e até casos que pouca gente conhecia, como o susto que Gillespie deu em um casal que tentava sair do teatro no meio do espetáculo. Dizzy desceu do palco, pulou uma frisa e interceptou o casal no meio do corredor perguntando se não estavam gostando do espetáculo. Ante a surpresa e as gargalhadas da platéia os dois voltaram para seus lugares.

Dia marcado, a madame apareceu para pegar o texto e perguntou quanto me devia.
Cobrei quinhentos (cruzeiros novos, velhos, cruzados, sei lá) e ela se assustou. Achou caro e ainda veio com o argumento de que pagara o almoço do “Assyrius”. Argumentei que fora convidado e que a época do escambo já terminara. Não ia trocar meu texto por uma refeição. Se quisesse o texto, estava à disposição. Caso contrário, procurasse outra pessoa para a tarefa. Constrangida, fez o pagamento, pegou o texto e se retirou.

Mas a resposta não se fez esperar. Gillespie apresentou-se no Hotel Nacional nos dias 24 e 25 de maio. Não pude assistir aos espetáculos mas não tive dificuldades para arranjar um programa. Bonito, bem diagramado e com meu texto na íntegra. Só que, como não fui adepto do escambo, tive meu nome omitido do programa. Uma vingança perfeita da firma do seu Poladian.

Um colega advogado me propôs entrar com uma ação mas ponderei que não valeria a pena. A não ser que tivessem colocado algum “paraquedista” como autor do texto. Aí sim iamos brigar.

Grupo de Dizzy Gillespie que se apresentou :
Dizzy Gillespie (tp) – Sayd Abdul Al-Khabyyr (sb) - Walter Davis Jr.(p) - John Gregory Lee(b) - Nasyr Al-Khabyyr (dm)

HISTORIAS DO JAZZ N° 28

“Corresponsal” internacional em 1961.

Conheci Gustavo Souto desde a infância, quando ainda usávamos calças curtas. Era neto do famoso compositor Eduardo Souto. Um menino diferente dos outros pois não saía de casa a não ser acompanhado pela mãe, ilustre professora em Niterói. Já na adolescência, Gustavo “se soltou” e demonstrou uma grande habilidade em tudo aquilo que fazia. Consertava aparelhos, montava aeromodelos e curtia sobretudo o radioamadorismo. Montou uma potente estação em sua casa, de onde se comunicava com todas as partes do mundo. Tinha gavetas cheias dos “radiocards”, cartões enviados pelos radio amadores quando fazem seu primeiro contacto com um colega. Aproximamo-nos quando locutores da Rádio Difusora Fluminense, onde Gustavo foi um dos mais perfeitos, a ponto de, logo logo estar na TV Tupi como locutor de cabine, ao lado de Ronaldo Rosas. Nessa época comecei a freqüentar sua casa e assistir as transmissões que fazia até altas horas da madrugada. Eu estava nas vésperas de uma excursão ao Uruguai e Argentina e certa noite quando Gustava falava com um colega uruguaio, pedi que perguntasse sobre o Festival de Jazz de Punta Del Este, datas, locais etc. A resposta foi imediata e Hugo Gomez Sanpedro, prefixo CX-7CT, informou que mandaria as informações detalhadas pelo correio, o que cumpriu fielmente.
Nossa viagem foi de ônibus e observando as datas, descobri que pelo menos um dia daria para ir ao festival, o que infelizmente não aconteceu. Surpresa maior quando na primeira cidade uruguaia, numa das paradas, encontrei Tião Neto. Ia tocar com Sérgio Mendes e já tinha contacto com a diretoria do Peña de Jazz, excelente clube de Montevidéu e organizador do festival, que visitaria. Marcamos encontro e ao chegar na capital uruguaia partimos para o Peña, onde fomos cordialmente recebidos por seu presidente, Alfredo Silvera Lima, também contrabaixista dos “Swingers”, conjunto que estava ensaiando naquele momento. Instalações magníficas, uma boa discoteca, bar, palco e auditório muito confortáveis e um carinho muito grande de todos os presentes pelas nossas pessoas logo nos cativaram e em instantes já estávamos integrando os “Swingers”, Tião no baixo e eu na bateria(que sempre toquei mal). Esse grupo era constituído por Hector Cardarelo (cl) - Coco Perez (p) - Leandro Mendaro (g) - Silvera Lima (b) e Julio Cesar Cucurrulo (dm).
Visitamos todas as instalações do Peña e, convidados, voltamos à noite para o coquetel de recepção às delegações que participariam do festival (Argentina, Uruguai, Chile e Brasil).
Uma “Jam Session” com todos os participantes encerrou aquela noite inesquecível. Dia seguinte voltamos ao Peña e para nossa surpresa, fomos homenageados por seu presidente, recebendo uma flâmula do clube e o convite para sermos o “corresponsal” de sua revista, que seria lançada dentro de dois meses. Honrados, aceitamos a incumbência e fizemos no primeiro trabalho uma matéria sobre Booker Pittman, que o colega uruguaio transformou em Brook, apenas no título, e amplo noticiário sobre a atividade jazzística no Rio de Janeiro, que naquele tempo era profícua.
E foi com alegria incontida que recebi pelo correio o primeiro e único numero da revista, referente ao bimestre junho/julho de 1961. Lá estavam minhas matérias e o título “corresponsal en Rio de Janeiro”. Valeu!

CHARLIE PARKER NO COPA?

19 março 2007

Alertados por Coutinho, fomos correndo ler a grande novidade na coluna de Joaquim Ferreira dos Santos. Eis o texto: "O Golden Room do Copacabana Palace vai voltar a ter uma programação de shows. Serão quatro por ano, no palco
onde já se apresentaram Ella Fitzgerald e Charlie Parker"....

Quando pensávamos que já estivessemos livres de tais notícias, muito comuns na década de setenta, quando "roqueiros e festivos" vestiram as togas de críticos de Jazz, eis que surge outro, naturalmente mal informado que dispara tal besteira para os incautos. Ah, Rio de Janeiro...

llulla

IDRISS BOUDRIOUA COMEMORA 25 ANOS DE BRASIL

17 março 2007

E tem motivo de sobra para festejar, afinal está lançando seu sétimo CD - BASE & BRASS.

Idriss é um francês de alma brasileira e é um dos nossos grandes instrumentistas.
Gravado entre fevereiro e dezembro de 2006, traz 9 faixas, 5 delas compostas por Idriss, que assina todos os arranjos, exceto "You Got It, por Tom Garling.

E o time que o acompanha é de peso, como base tem Jessé Sadoc trompete, Marcelo Martins tenor, Aldivas Ayres trombone, Dario Galante piano, Sergio Barrozo contrabaixo e Rafael Barata bateria e convidados ilustres como Bruno Santos trompete, Eric Seva barítono, Etienne Mialet tenor, Felipe Poli e Leonardo Amuedo guitarras e Pascoal Meireles bateria.

Neste CD ele faz uma homenagem a Phil Woods, assim ele recorda :
"Ouvi Phil Woods pela primeira vez quando tinha por volta dos meus 15 anos. Aqueles arranjos maravilhos, até então desconhecidos para mim, tocaram-me tão profundamente que por dias não consegui para de ouví-lo."

Sobre o lançamento -
Data : 20 de março, 19hs
Local : Modern Sound, Rua Barata Ribeiro 502 - Copacabana, RJ
Reservas : (21)2548-5005

HISTÓRIAS DO JAZZ nº 27

13 março 2007

“O amigo Phil Woods”

Conheci Phil Woods em 7 de agosto de 1956, durante um coquetel oferecido pela Embaixada Americana, no Clube de Seguradores e Banqueiros, para apresentar a banda de Dizzy Gillespie à imprensa.
Foi um contacto mínimo até porque Gillespie catalisava todas as atenções e todos achavam que não podiam perder nada. Conversei rapidamente com Melba Liston e Billy Mitchell, enquanto solicitava os indispensáveis autógrafos não só na Encyclopedia de Leonard Feather como também no verso do convite. O mesmo sucedeu com os outros músicos, com exceção de Quincy Jones, que contava para um grupo os detalhes do desastre que vitimou Clifford Brown. Alí me demorei mais um pouco. De Phil colhi apenas o autógrafo e o cumprimentei após a estréia da banda na TV TUPI.
Vieram os festivais “São Paulo/Montreux” e no de 1980, Phil veio com o seu quarteto. Hotel Eldorado cheio de músicos, shows nos eventos paralelos e as indispensáveis procuras por novidades. Foi quando Coutinho me encontrou na portaria e informou que Phil Woods queria falar com a gente. "Impossível" respondi, "ele não me conhece!"
"Couto" então explicou que ele queria encontrar com quem o assistiu com a banda de Dizzy em 1956. Partimos para o apartamento do músico. Nos recebeu gentilmente e mostrou sobre a mesa uma série de partituras e explicou que não conseguia “fechar” os arranjos. Precisava de um "aditivo". Esse aditivo era uma espécie de "chá moido", que ele fumava num pequeno cachimbo. Foi convocado o Mooche local e logo, logo, chegava a santa erva para alívio do saxofonista.
Mostrei-lhe então o convite do coquetel autografado pela banda e o seu autógrafo na Encyclopedia, pedindo que ele assinasse mais uma vez. Ele então escreveu o seguinte:
“For Lula once again ! 24 years later not so long next time I hope. Phil”

Ficamos mais um pouco enquanto Phil ordenava as partituras e se preparava para recomeçar o trabalho.
Durante a realização do curso “Introdução ao Jazz”, no Museu do Ingá, em Niterói, conheci Kurt Klauser, um suíço entusiasmadíssimo pelo Jazz. Tão animado que resolveu abrir um clube de Jazz no Rio de Janeiro. Convidou-me para um jantar na Casa da Suíça, onde expôs os seus planos. Ouvi atentamente e expliquei-lhe o seguinte: “Não ia dar certo. Primeiro, porque não havia público para, diariamente sustentar uma casa desse tipo. Teria que ter pelo menos um trio (piano, baixo e bateria) que tocasse para acompanhar solistas que eventualmente aparecessem. Ia encontrar dificuldades. Apareceriam os “bicões”, indefectíveis oportunistas, almejando tirar uma casquinha do projeto, etc., etc.

Não obstante, foi em frente e alugou o conhecido “Clube do Taco”. Gastou dinheiro em madeira, móveis de decoração e ao que parece, uma moderníssima aparelhagem eletrônica importada da Suíça. Quando iam começar as obras veio o “torpedo”. O dono da casa fazia uma série de exigências para o seu funcionamento: queria uma mesa para seis pessoas, com despesas grátis, diariamente, queria parte do faturamento da casa, e por aí vai. Klauser não teve outro jeito senão desistir do projeto e comunicar ao senhor Poladian que ficaria no prejuízo de duzentos mil dólares e que o negócio estava cancelado. (Eu avisei !)
Contei tudo isso para chegar ao meu terceiro encontro com Phil Woods . O Kurt, não obstante o prejuízo, resolveu contratar Phil para tocar no Copacabana Palace, fato que ocorreu em 21 de janeiro de 1990. O saxofonista veio sozinho e tocaria com músicos locais. Kurt alugou um Cadillac “rabo de peixe” para buscar Phil no aeroporto e levá-lo até o hotel. Posteriormente, deslocou-se até a Sala Cecília Meirelles, onde seria realizado o ensaio do grupo.
A formação de quinteto seria com Don Harris, americano aqui radicado, no trumpete, Luiz Avellar ao piano, Nico Assumpção ao baixo e Jimmy Duchowny, outro americano, que na época tocava bateria com o Idriss.
Ao chegarmos ao ensaio, Phil nos reconheceu logo e desceu do palco para nos cumprimentar. Elogiou o local e em seguida voltou aos músicos para a escolha do repertório.

Nos reencontramos à noite, após o encerramento do show no Copacabana Palace. Estava irritado. Queixou-se que, apesar das recomendações feitas aos músicos sobre comportamento diante do público, nada foi observado. Queria todos de paletó e gravata e Don Harris além de tirar o paletó, bebeu água mineral pelo gargalo da garrafa em pleno palco. E concluiu: "O Jazz é uma música que exige respeito e para tanto temos que respeitar a quem nos vem assistir. Não abro mão disso!"
Falou!


NOVIDADES NO BLOG

11 março 2007

Alô amigos e visitantes do CJUB

Mais novidades no blog, e em dose dupla.

Como feito anteriormente com o Museu de Cera, agora as histórias do nosso Mestre Lula, que ele vem contando aqui no blog há algum tempo, estão disponíveis em uma única página, visualizadas pelo link "Histórias do Jazz", aí ao lado.
Homenagem mais que justa, nosso Mestre e confrade Lula as viveu e nos dá a oportunidade de vivenciá-las também e imaginar o jazz visto dos bastidores.
É isso Mestre Lula, que venham mais histórias ...
O orgulho é nosso !

Aproveitando o embalo, a palestra "Do outro lado do Jazz", escritas aqui pelo Mestre Major, também ganha destaque.

E para navegar é muito simples, é só clicar nos ícones ao lado.

Divirtam-se !

TROMPETISTA TERENCE BLANCHARD SE APRESENTA NO RJ

Eldee Young: 1936 - 2007

08 março 2007

Navegando pela internet por sites ligados à cena jazzística de Chicago (http://www.chicagojazzmagazine.com/), tive a triste surpresa de ler a notícia sobre o falecimento em 12.02.2007, em Bangkok, do baixista Eldee Young, a quem tive o prazer de assistir num evento em 2003, na mesma Chicago, no qual o baixista acompanhava Marshall Vente, pianista e bandleader local.

Eldee, pessoa de ótimo humor, foi mais conhecido pelo trabalho com o pianista e educador de Chicago Ramsey Lewis, músico de toque refinado.

Buscando mais dados, cheguei a www.allaboutjazz, que trouxe o texto que segue abaixo:

Bassist Eldee Young, best known for his ten year stint in the ‘50s and ‘60s with the (pianist) Ramsey Lewis Trio, died of a heart attack on February 12, 2007, in Bangkok.

Last May I found myself in Saigon, and was both surprised and delighted to learn that the Eldee Young trio was playing in town. The gig was in the lobby of the Sheraton Hotel, a far cry perhaps from Carnegie Hall, and the Montreux or Newport Jazz Festivals, all venues of past glories for the man from the Windy City.

“Eldee, what are you doing in Vietnam?” I asked. “Vietnam? You tell me. I thought I was in Singapore!” And then that infectious laugh.

Although the venues may have changed over the years, what never changed was his cheeky sense of humor, his openness to all people and his enthusiasm for life.

Born in Chicago on January 7, 1936, Eldee Devon Young was already playing bass professionally in a club at the age of thirteen, and was touring in his mid-teens. His first important gig was with King Komax, with whom he played from ’51 to ’54.

In a career spanning nearly sixty years, Eldee Young played with T-Bone Walker, Joe Turner, Chuck Willis, Nancy Wilson, James Moody, Dinah Washington, Sonny Stitt, Jeremy Monteiro and Dizzy Gillespie.

Como dizia João Saldanha, vida que segue...

Beto Kessel

UM AUTÊNTICO “MOLDY FIG”

06 março 2007

Relendo a preciosa coleção da “Revista da Música Popular”, em boa hora transformada em livro, fomos encontrar no número 6, correspondente aos meses de março e abril de 1955, uma autêntica preciosidade:

José Sanz, comentando uma discografia do italiano Arrigo Polillo sobre o essencial em Jazz, escreveu o seguinte:
“Deste ponto em diante, o moço italiano escorrega por um plano inclinado de coisas ruins e péssimas, como os “McKenzie & Condon’s Chicagoans”, Frankie Trumbauer, Bix Beiderbecke, Frank Teshmacher, Duke Ellington, Count Basie, Benny Goodman, Ella Fitzgerald, Woody Herman, Dizzy Gillespie e Charlie Parker, Manchito(?), Stan Kenton, Miles Davis, Lennie Tristano, Lee Konitz e toda a raça dos boppers e cools.”

Lembro bem que na época foi instalada uma resistência contra o Jazz moderno, principalmente o bebop, que tinha como cabeças, além de José Sanz (que afirmava possuir um cilindro com uma gravação de Buddy Bolden), Lúcio Rangel e Sérgio Porto. Mas, do outro lado, Sylvio Tullio Cardoso “espanava” os três com aquela categoria que até hoje deixou saudades. E ficamos nisso.

HISTORIAS DO JAZZ – N° 26

“Os Cariocas” – A volta

Tudo começou durante a comemoração de mais um aniversário do programa “O Assunto é Jazz”, em 9 de dezembro de 1986. Como sempre, casa cheia com os estúdios repletos de amigos, ouvintes, músicos e curiosos que sempre apareciam atraídos pela nossa chamada “sala de visitas”. Alguém sempre levava uns salgadinhos e também o “chá escocês” que obviamente alegrava a audição. E tem mais, nosso programa nessa ocasião tinha apenas “QUATRO HORAS DE DURAÇÃO”.

Tocávamos as novidades, entrevistávamos os presentes e o tempo fluía alegre e descontraído. Nesse aniversário, Maurício Einhorn apareceu com Badeco, ainda um dos integrantes dos “Cariocas”. Entrevistei-o e entre as perguntas que fiz estava a clássica: “porque vocês pararam?”. Foram apresentadas algumas razões mas senti que o momento era propício para uma tentativa. Gedir Pimentel estava presente, era e ainda é amigo de Quartera, seu colega de Banco do Brasil. Combinamos então que poderíamos fazer um programa especial com o grupo, reunindo seus integrantes para contar como tinha sido a carreira e obviamente sobre a possibilidade de uma volta.

Assim sendo, em 10 de fevereiro de 1987, fizemos esse especial de duas horas, entrevistando Quartera, Severino Filho, Badeco e Valdir Viviani, que integrou a formação original do grupo no tempo de Ismael Neto. Lamentavelmente, apenas Luiz Roberto, por questão de trabalho, não pode comparecer. Esposas presentes, ambiente descontraído e os antigos sucessos do grupo sendo apresentados com explicações desse ou daquele integrante . Chegando ao final do programa, exortamos o grupo a tentar uma volta, com o apoio inclusive das esposas presentes. Severino ficou de pensar e eu tive a “brilhante idéia” de pedir que eles se despedissem com um acorde. Severino sinalizou e as quatro vozes se juntaram harmonicamente dando um fecho de ouro aquela audição.

Logo depois, Gedir nos informava que o grupo se reunira e começara os ensaios, aprimorando os antigos sucessos e renovando o repertório, E mais, havia um convite para que fossemos a um dos ensaios que seria realizado na casa de Severino. Isso ocorreu em 8 de junho de 1988, quando passamos a tarde na casa do maestro, assistindo o ensaio e aprendendo alguma coisa sobre “distribuição de vozes”.
Entrevistamos Luiz Roberto, já com a saúde comprometida. Ele nos disse que tinha duas saúdes: “a física, que de vez em quando dava um perrengue, e a musical, sempre em alta”.
Meses depois era anunciada a volta oficial dos “Cariocas”, num show a ser realizado no Jazzmania. Tivemos mesa reservada perto do palco mas algumas pessoas que haviam feito reservas foram colocadas na varanda, sem visão do palco, para que seus lugares fossem cedidos aos “globais”. Pedro, o nosso Apóstolo, protestou em altos brados e ameaçou se retirar mas, com jeito tudo se arranjou. Algumas presenças consegui notar, entre elas Gal Costa, Boni, Sérgio Mendes, Milton Nascimento e a filha de Severino, Lúcia Veríssimo.

Começa o espetáculo. Badeco assume o microfone, fala sobre assuntos diversos e a musica começa. Quase duas horas até o encerramento. Terminado o show, saímos e fomos interrogados por alguns amigos: “Porque nosso programa não fora citado,
porque a Fluminense FM não fora citada, porque Luiz Carlos Antunes não fora citado?”

Não soube responder. Talvez porque seria temeroso falar para a platéia que foi uma rádio de Niterói, através de um programa de Jazz, apresentado por um “desconhecido” que abriu suas portas para “Os Cariocas”, ignorados pela mídia durante vinte anos. Os “globais” poderiam não gostar! E finalmente, a vaidade do maestro Severino Filho, o mentor da omissão. A vida ensina e a gente aprende...

llulla

DO OUTRO LADO DO JAZZ # 10

05 março 2007

HARLEM (I)

A parte de New York conhecida como HARLEM abrange a área norte da ilha de Manhattan, acima do Central Park entre as ruas 110 e 158, juntando-se a uma faixa ao nordeste conhecida como Washington Heights, do lado oeste a Henry Hudson Parkway marginal ao rio Hudson e a leste a Harlem River Drive beirando o próprio rio. A vila original foi estabelecida em 1658 pelo governador holandês da província Peter Stuyvesant que a nomeou de Nieuw Haarlem em homenagem à capital da província de North Holland na Holanda. Ricos fazendeiros por lá se estabeleceram até ocorrer um grande declínio econômico nos anos seguintes a 1830, quando então, fazendas abandonadas foram a leilão público. Com a melhoria dos transportes e o grande crescimento da população de New York após a Guerra Civil transformou o HARLEM em bairro das classes média e média alta. A partir de 1870 foi alvo de extensa exploração imobiliária e por volta de 1904-5 o mercado inflado com preços e aluguéis exorbitantes entrou em colapso. Nesta época, um homem de negócios e de raça negra Philip Payton iniciou a compra dos imóveis e pela primeira vez a população negra passou a dispor de ofertas de imóveis decentes e até mesmo luxuosos, desta forma a área foi se tornando pouco a pouco o centro de uma comunidade afro-americana.
A migração ocupacional continuou pelos anos 20 e acabou por redundar em um centro cultural urbano da América negra, principalmente em torno da rua 135 entre as avenidas Lenox e Seventh. Assim o chamado bairro negro em New York a partir de 1926 foi sendo vivenciado como um centro jazzístico de grande importância devido às grandes casas de espetáculos, salões de dança e cabarés como o Cotton Club, Savoy Ballroom, Connies Inn, Apollo Theater, Nest Club e outros. Entre 1929 e 1933 foi moda o público branco passar as noites de diversão em uma casa do bairro negro. Nos anos 40 o HARLEM começou a se esvaziar como centro musical, mas permaneceu ainda por cerca de duas décadas como centro espiritual do Jazz onde morava a maior parte dos músicos e onde se reencontravam freqüentemente. Atualmente apenas existem alguns pequenos clubes de Jazz de segunda linha.



HARLEM OPERA HOUSE – foi um grande teatro possuíndo 1540 assentos localizado em 207 west 125th street no coração do Harlem, construído em 1888 pelo empresário Oscar Hammerstein (*1847 †1919) avô do famoso compositor letrista Oscar Hammerstein II. Em 1922 foi comprado pelo emigrante austríaco Frank Schiffman e por Leo Brecher, já proprietários do Apollo Theater. Parece que Bardu Ali, o vocalista da banda de Chick Webb descobriu Ella Fitzgerald em um concurso para amadores. Há controvérsia de que o concurso ganho por Ella tenha sido no Harlem Opera House vizinho de quarteirão do Apollo Theater que também patrocinava concurso de calouros, mas sem dúvida foi o Harlem que a promoveu. Apesar do nome Opera House muitos espetáculos além das óperas ali eram realizados já na década de 20 e a partir dos anos 30 passou a abrigar as big bands da era swing, contudo com pouca duração uma vez que a partir de 1935 foi mantido apenas como cinema e o magnífico edifício foi demolido em 1969. Alguns nomes das bandas que ali atuaram foram: Teddy Hill, Don Redman, Charlie Turner, Chick Webb, Benny Carter, Fletcher Henderson, Tiny Bradshaw, dentre outras...


STRIDE - entre os anos 20 e 30 nascía no Harlem uma escola de Jazz a que se denominou de Harlem stride-piano fundamentada na criatividade dos pianistas James P. Johnson, Luckey Roberts, Eubie Blake e seguidores como Willie "The Lion" Smith e Fats Waller dentre outros. O STRIDE refletia uma modernização do ragtime e consistia em fazer alternar uma nota baixa (grave) sobre um tempo forte (3º) e um acorde sobre os dois tempos fracos (2º e 4º). Empregavam bastante o intervalo de décimas, no entanto, é incontável o número de variações produzidas pelos pianistas dada a riqueza da linguagem do Jazz. A partir dos anos 30 as características do STRIDE foram sendo empregadas também pelas bandas como as de Ellington e Basie. Grandes nomes do piano como Fats Waller, Duke Ellington, Earl Hines, Mary Lou Williams, Pete Johnson, Albert Ammons, Willie Smith, Count Basie, Teddy Wilson, Art Tatum, Errol Garner, Oscar Peterson, Thelonious Monk, Rolland Hanna, Jack Byard, Monty Alexander foram bastante influenciados pelo STRIDE.
Os principais mentores da escola foram os pianistas James P. Johnson (*1894 †1955), Luckey Roberts (*1887 †1968) e Eubie Blake (*1883 †1993, isto mesmo 100 anos!)
Podemos ouvir um dos marcos do STRIDE o tema Carolina Shout de James Price Johnson interpretada pelo próprio em gravação de 1921.



ROMANO MUSSOLINI

Poucos sabem, principalmente os da nova geração que Romano Mussolini, falecido em 3 de fevereiro do ano passado era filho do "Duce" Benito Mussolini, de trágico fim ao término da segunda guerra mundial.

Era um excelente pianista de jazz e um apreciado pintor. Desde cedo estudoou piano, chegando a tocar peças clássicas acompanhando o pai que tocava violino. Por incrível que pareça, o Jazz foi banido da Itália durante o período fascista mas ,Romano desenvolveu um especial afeto pelo gênero logo após o término da guerra.


Era muito discreto quanto a sua vida familiar, (foi casado com uma irmã de Sophia Loren), e, somente em 2004 publicou um livro, "Il Duce mio padre", contendo coletânea de memórias pessoais e confidenciais sobre o pai.


Entre os inúmeros albuns que gravou destacamos :

"JAZZ AT SANTA TECLA", acompanhado por Dino Piana(tb)- Carlo Lofredo(b) e Franco Tonani(dm), em Novembro de 1957.


"MIRAGE" - ao lado de Glauco Masetti(sa)- Emilio Soana(tp)- Piero Montanari(b) e Tulio de Piscopo(dm) (1974), ambos inseridos algumas vezes na programação de "O Assunto é Jazz".


Somente agora soubemos, via Internet, do seu falecimento com a idade de 79 anos, ocorrido há pouco mais de um ano. Lembro ainda que Romano visitou o Rio na década de sessenta mas não se apresentou como pianista de Jazz.


llulla

PERCURSO SINUOSO

02 março 2007

Aos 39 anos, Kurt Elling (Chicago) vem colecionando todos os prêmios da Downbeat, tanto entre os críticos como entre os leitores. Se isso não é atestado de talento, traz prestígio. Elling não é unanimidade, talvez pela escola Mark Murphy, a mais direta influência. Ele esteve no Brasil e dividiu opiniões. Alguém no blog escreveu que a sua versão para “My Foolish Heart” foi arrasadora, tipo antológica. Seja como for, Elling terminou o seu mais recente CD, a ser lançado em 3 de abril. Um amigo canadense – nem sei como conseguiu – me mandou. Trata-se de “Nightmoves”, já com alguma seqüela da temporada brasileira. Como de costume, o álbum é irregular, alternando bons momentos e outros descartáveis. Primeiro trabalho pela Concord Jazz, Elling elaborou dessa vez um repertório menos “complicado”, a começar pela faixa de abertura, “Nightmoves”, assinada por Michael Franks. Seu velho companheiro, o pianista Laurence Hobgood, continua responsável pelos arranjos. E esse é o primeiro problema. As interpretações sempre lineares do vocalista exigem extrema criatividade do arranjador, com harmonias instigantes, ainda mais quando vários temas são verdadeiros standards. Hobgood nem sempre cumpre esse papel. “Change Partnes/ If You Never Come To Me (Inútil Paisagem)” é um exemplo, a partir de uma intervenção não muito oportuna do gaitista Gregoire Maret. Mas há um grande salto de qualidade em “Where Are You, My Love?”, aqui com um Christian McBride inspirado. O CD tem também as participações especiais de Bob Mintzer (sax) e Guilherme Monteiro (guitar). “Luiza” (Jobim) se não é um total primor, derrapa na pronúncia estranhamente lusitana de Elling. E o álbum segue até o fim com curvas perigosas e ultrapassagens, poucas, convincentes. O apelo mais popular pode, sem dúvida, ser decisivo para uma nominação ao Grammy. Geralmente essa fórmula funciona, ainda mais quando há uma estréia em nova gravadora.

1. Nightmoves
2. Tight
3. Change Partners / If You Never Come To Me
4. Undun
5. Where Are You, My Love?
6. And We Will Fly
7. Luiza
8. The Walking
9. The Sleepers
10. Leaving Again / In The Wee Small Hours
11. A New Body And Soul
12. I Like The Sunrise
13. Well, Did You Evah

Concord Jazz (2007)
Kurt Elling – vocals
Laurence Hobgood – piano, arranger
Rob Amster – bass
Willie Jones III – drums
The Escher String Quartet – performer
Bob Mintzer – sax
Christian McBride – bass
Guilherme Monteiro – guitar
Rob Mounsey – keyboards
Howard Levy – harmonica
Gregoire Maret - harmonica

MUSEU DE CERA # 16

01 março 2007

Venuti foi o primeiro grande violinista do Jazz. Sua parceria com o magnífico guitarrista Eddie Lang seria da maior influência em outra dupla fantástica que foi Django Reinhardt (gt) e Stéphane Grappelli (vi) na França. Giuseppe "Joe" Venuti nasceu a bordo de um navio com emigrantes da Itália em 1903. Inicialmente teve uma formação clássica ao violino até que em 1913 se encontrou, em uma escola na Philadelphia, com Salvatore Massaro filho de emigrantes italianos, nascido em 1902, mas que adotou o nome americano de Eddie Lang, considerado o primeiro guitarrista virtuoso do Jazz, uma vez unidos formaram uma banda local. Estes 2 grandes músicos iriam tocar e gravar juntos até o desaparecimento prematuro de Lang em 1933. Venuti tocou com Red Nichols, Jean Goldkette e em várias orquestras de shows da Broadway. Liderou com Lang uma banda na década de 20 que incluía Jimmy Dorsey, Red Nichols e Frank Signorelli. Venuti manteve-se na ativa até os anos 70 quando veio a falecer em 1978.
Eddie Lang inicialmente estudou violino até os 11 anos e mudando para a guitarra tornou-se profissional em 1924 com os Mound City Blue Blowers liderados por Red McKenzie. Seu estilo de guitarra era sofisticado sendo um magnífico acompanhador dos cantores e músicos solistas, apesar de também solar com maestria. Tocou com os Red Nichols's Five Pennies, Frankie Trumbauer, Bix Beiderbecke, Roger Wolfe Kahn Orchestra e Jean Goldkette. Lang e Venuti pertenceram a Paul Whiteman's Orchestra de 1929 a 30 aparecendo juntos no filme King of Jazz. De 1926 a 30 Lang foi contratado da Okeh Records e usou o pseudônimo de Blind Willie Dunn para se associar a outro guitarista Lonnie Johnson com o qual formou o Gin Bottle Four tendo o grande King Oliver ao cornetim. Sua morte se deveu a uma hemorragia após uma operação de amígdalas e seu grande amigo Bing Crosby com o qual fez dupla no filme The Big Broadcast sofreu enorme depressão por ter sido o maior incentivador para que fizesse a mal sucedida cirurgia.
Venuti possuía uma técnica impecável com estilo elegante e lírico e forte senso rítmico.
Lang aproveitando a nova técnica de gravação elétrica deu maior ênfase à guitarra até então suplantada pelo banjo Apesar de fazer solos sua especialidade era a guitarra-rítmica de acompanhamento.
Podemos, então, ouvir esses dois músicos de grande empatia em Stringin' The Blues (Eddie Lang / Joe Venuti) - Joe Venuti ao violino e Eddie Lang à guitarra.
Gravação original: 19/set/1926 – Columbia 914-D (mx 142697-11) - New York Fonte: CD – Jazz Archives n° 192 – Joe Venuti - Four String Joe 1926-1950 – EPM 160132 – 2002 – França