Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Mestre Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Mario Vieira (Manim), Luiz Carlos Antunes (Mestre Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (Mestre MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).


BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

Um ano de jazz de primeiro mundo

29 maio 2004

Neste mês faz um ano que o CJUB lançou no panorama da música instrumental do Rio de Janeiro, a sua visão particular de como levar a arte do jazz de qualidade ao público carioca. Pois foi em maio de 2003 que, no "lounge" do hoje extinto restaurante Epitácio, do boa-praça Claudio Sieira, neófito em jazz mas com grande tino comercial, lançamos a pedra fundamental dos concertos Chivas Jazz Lounge, patrocinados pela Pernod-Ricard do Brasil.

Daquela noite inicial, uma quarta-feira cercada de amigos fiéis e muitas expectativas - inaugurada com uma arrepiante microfonia logo na primeira música, presenciada pelo todo-poderoso presidente da Pernod - até agora, vimos trilhando um caminho de aperfeiçoamento constante no que tange à organização, à divulgação e à produção musical propriamente dita. Fizemos, ao todo, 13 concertos, sendo que o extranumerário foi com os sensacionais expatriados Helinho Alves, Duduka da Fonsaca e Nilson Matta, que abriram o ano de 2004 com seu talento a serviço do CJUB.

Chegamos a um ponto de reconhecimento do nosso trabalho no qual ótimos músicos de jazz do Rio que ainda não se apresentaram para nós, cobram-nos uma participação nas futuras produções. Isso significa não apenas que o boca-a-boca entre eles é eficiente, mas traduz que tocar e ser aplaudido num concerto do CJUB lhes dá o prestígio de atuar para quem de fato lhes valoriza o talento.

Entretanto, não estamos interessados apenas no reconhecimento público desse talento dos músicos cariocas ou aqui radicados, mas também em fazer intercâmbio com outros estados - o que já se iniciou com a vinda de dois paulistas mais um americano radicado em São Paulo para o concerto deste dia 27 passado - aumentando as oportunidades de mostrar que, uma vez captada a atenção dos amantes do bom jazz, há espaço para produzir-se mais e melhores espetáculos inovadores e plenamente capazes de gerar satisfação a nós, principalmente, e em decorrência, ao resto do público que nos vem prestigiando.

Ergo, então, um brinde chivasregaliano a todos os membros-produtores deste grupo de amantes do jazz e a todos aqueles que acreditaram e acreditam na nossa capacidade de produzir noites de jazz dignas da qualificação "espetáculo" e que nos vem acompanhando nas realizações mensais.

A todos, nosso agradecimento. Cheers!

10 Jazz Best-Sellers, pela Tower Records

25 maio 2004

Até 24 de maio, a Tower Records apresentava os seguintes 10 CDs de jazz mais vendidos em suas lojas:

1. DIANA KRALL - THE GIRL IN THE OTHER ROOM (VERVE)
2. JAMIE CULLUM - TWENTY SOMETHING (VERVE)
3. PETER WHITE - CONFIDENTIAL (COLUMBIA)
4. MICHAEL BUBLÉ (REPRISE)
5. JOYCE COOLING - THIS GIRL'S GOT TO PLAY (NARADA)
6. JOHN SCOFIELD TRIO - ENROUTE (VERVE)
7. BOBBY SHORT - SONGS OF NEW YORK (TELARC)
8. DIANA KRALL - LIVE IN PARIS (VERVE)
9. CHRIS BOTTI - A THOUSAND KISSES DEEP(COLUMBIA)
10. ELIANE ELIAS - DREAMER (BLUE BIRD)

Foram por mim desconsiderados os CDs da Norah Jones, Caetano Veloso, Harry Connick, Jr. e Rod Stewart - não cumpriram requisitos mínimos.

BELA CENA

Bela cena: Vai começando o inverno e as temperaturas mais baixas pedem um copo com três, e não mais que três, pedras de gelo. O uísque é o ... que se tiver. Ao fundo, desliza rouco o barítono de Pepper Adams. E à meia-luz, sua fiel companheira mostra-lhe todo o seu charme, justificando ainda uma vez a acertada escolha que você fez tempos atrás. Posted by Hello

CHIVAS JAZZ FESTIVAL 2004 - 8/4/2004 - COTAÇÕES

24 maio 2004

RICHARD GALLIANO & THE FRENCH TOUCH QUARTET - @@@@

Sobrevivendo ao Saara sonoro que fechou a noite anterior, encontramos em Richard Galliano um merecido "oásis", alocado "na medida", na noite de encerramento desta última edicão do Chivas Jazz Festival.

Catedrático em todos os gêneros onde o acordeon transformou-se em protagonista (tango, chanson française e até o forró e afins nordestinos), Galliano mostrou a classe, a técnica, a paixão e, acima de tudo, a emoção de sua arte instantaneamente apreendida pela audiência, virtude privativa de pouquíssimos músicos.

O French Touch Quartet, formado por Joel Xavier (guitarra), marcantemente influenciado pela música flamenca; Jean Philippe Viret (contrabaixo), o mais afinado de todos os baixistas deste Festival, não a toa o atual líder da L'Orchestre de Contrebasses; e pelo baterista Jean Luc Danna, sideman perfeito para o grupo, brindou-nos, sob a direção do iluminado líder, com temas próprios e de Piazzolla (Libertango), deixando para o fim Bebe, homenagem a Hermeto Paschoal, para a qual assumiu a bateria o brasileiro Boto, numa verdadeira festa para olhos e ouvidos plenamente realizados.


THE SUN RA ARKESTRA - @

Em contrapartida, pena tenha-se encerrado o festival com uma big band de 2ª (?) categoria - não a Sun Ra Arkestra de outrora, bom frisar - mas, certamente, a que aqui esteve, fechando a noite de sábado, sob a liderança de Marshal Allen.

Arranjos requentados, batas e turbantes em profusão, caras pintadas, músicos cantando e dançando no meio da platéia, acrobacias na frente do palco, enfim, alegorias demais para música de menos.

Eles se divertem o tempo todo. Mas, e nós?

A orelinha singela vai para John Ore, legendário baixista que tantos anos acompanhou Monk, e que, mesmo cego (assim ouvi) e apesar da idade (70 anos), mantém pulso e solidez impressionantes.

Um encerramento melancólico, incapaz, porém, de apagar o êxito, por vezes olímpico, que o Chivas Jazz deste ano logrou alcançar, ao menos com a vinda de Louis Hayes, Steve Kuhn, David Galliano, Bud Shank, Raul de Souza, Tom Harrel e Andrew Hill.

XI Chivas Jazz Lounge com o Markos Resende Quarteto:
Tributo a Richard Rodgers

23 maio 2004

No próximo dia 27, quinta-feira, a partir das 21 horas, o Mistura Fina será palco de mais uma edição do projeto Chivas Jazz Lounge, uma produção deste CJUB com patrocínio da Pernod-Ricard do Brasil. Estará em ação o quarteto do pianista Markos Resende, com um "Tributo a Richard Rodgers".

Um dos maiores compositores norte-americanos de todos os tempos, Richard Charles Rodgers, ao lado de Lorenz Hart e Oscar Hammerstein II, publicou mais de 900 canções e 40 musicais. A ligação com o jazz é antiga. Desde Charlie Parker até Chick Corea, a maioria esmagadora dos jazzistas importantes fez versões do songbook de Rodgers, em razão da qualidade melódica e harmônica de seus temas. Somente My Funny Valentine recebeu 1200 gravações.
Em 2002, os americanos comemoraram o seu centenário com muitos eventos. O fato não foi divulgado no Brasil. Assim, o CJUB presta respeitosamente uma homenagem "made in Brasil" a esse gênio da música popular norte-americana. E para isso estará no palco o Markos Resende Quarteto.

MARKOS RESENDE (RJ): Em 1966, viajou para Lisboa com a intenção de estudar medicina. Formou um trio com colegas e passou a excursionar pela Europa. Participou do Newport Jazz Festival, em Cascais, apresentando-se ao lado de Dexter Gordon. Abriu concertos para Cannonball Adderley, Phil Woods, Art Blakey e Stan Getz. Tocou com Don Byas, Ponny Poindexter e Steve Potts, entre outros. De volta ao Brasil, formou o grupo Index. Como compositor, escreveu trilhas para o cinema e para espetáculos de dança. Em 90, retomou sua carreira na Europa. Lançou o CD About Jobim, gravado em trio no Copenhagen Jazz Festival. Em 2000, gravou Abrolhos, com composições próprias. Pianista e arranjador, trará aos temas de Rodgers um sabor todo especial.

DANIEL D'ALCÂNTARA (SP): Trompetista, iniciou seus estudos com o pai, Magno D'Alcântara. Foi integrante da Orquestra Experimental de Repertório. Tocou ao lado de grandes nomes da nossa música, como Ivan Lins, Milton Nascimento, Roberto Menescal e João Donato. Gravou recentemente um CD, Horizonte,com Edu Ribeiro, Sizão Machado, Tiago Costa e Vitor Alcântara. Comenta o baterista Tutty Moreno: "Claudio Roditi já havia me falado do Daniel há muito tempo, impressionado com o seu talento, o que o CD comprova".

BOB WYATT (SP): Norte-americano, é reconhecido e respeitado por todos os bateristas brasileiros. Traz no currículo as suas performances com Maynard Ferguson. De estilo vigoroso, é um dos mais assediados bateristas quando o gênero é jazz. Mantém em São Paulo uma banda chamada Soundscape.

ALBERTO LUCAS(SP): Formado em contrabaixo na UNICAMP, integra a banda Soundscape. Membro permanente do trio do baterista Nenê, (Ex-Hermeto), gravou dois CDs. Segundo os amantes do jazz e críticos de São Paulo, trata-se de uma das maiores revelações no instrumento.

SET LIST:
BEWITCHED (lembrando...brad mehldau)
MY ROMANCE (lembrando ... bill evans)
MY FUNNY VALENTINE (lembrando... miles davis)
I DIDN'T KNOW WHAT TIME IT WAS (lembrando... charlie parker)
IT'S EASY TO REMEMBER (lembrando.... john coltrane)
LOVER (lembrando...dave brubeck)
BLUE MOON (lembrando... chet baker)
THE LADY IS A TRAMP (lembrando... ella fitzgerald)
MY FAVORITE THINGS (lembrando...dori caymmi)
(FINAL SURPRESA QUARTETO)

JoFlavio

ELVIN JONES, NO BLUE NOTE, EM JUNHO? WADDAHELL?

Para o clube novaiorquino Blue Note, Elvin Jones não morreu. Tanto é que, na agenda da casa, está programado para o dia 24 de junho. Ah, se um erro desses ocorresse aqui... Posted by Hello

Lendário Jazzista Silver de Volta ao Palco

22 maio 2004

Sexta 21 de Maio, 2004
Por Dan Ouellette, em transcrição da Billboard (e tradução livre)

New York - Horace Silver está de volta e essa é a notícia do momento.

Nos últimos anos o legendário rei do hard-bop descarrilhou por doença, pela relutância em viajar e pela falta de crédito por parte das gravadoras em sua capacidade de fazer coisas boas.
Mas quando o pianista/compositor de 75 anos acomodou-se no Blue Note em New York, no final de abril e início de maio, a casa lotou em todos os seus sets. O compromisso assumido por uma semana inteira marcou a primeira aparição pública de Silver em mais de quatro anos e ficou óbvio o quanto ele fez falta.
Em 29 de abril, Silver tocou temas intrigantes e efervescentes do album conceitual "Rockin' With Rachmaninoff" que gravou em 1991 mas não havia sido lançado até o final do ano passado, pelo selo Bop City Records. Ele apareceu com um octeto provisório que incluía o trombonista Conrad Herwig e o saxofonista Eric Alexander.
A sua resistência musical prevaleceu quando, sorrindo o tempo todo, Silver liderou seus coortes pelos temas "Rocky Meets the Duke", matizado pela rumba, por "Sunday Mornin' Prayer Meetin'", com uma vibração típica de New Orleans, e pelo caprichoso "Monkeyin' Around With Monk".
O primeiro set fechou com o clássico jazzístico e hit de Horace, "Song for My Father", que o compositor expandiu para um improviso de mexer com as cabeças, com um "groove" funk no qual demonstrou sua capacidade extraordinária ao teclado.
Depois de dar dezenas de autógrafos Silver relaxou no camarim no intervalo e sorriu. "Estou me sentindo muito bem", disse. Perguntado se a receptividade do público o encorajaria a voltar a se apresentar em turnê, respondeu: "Ah, não. Vou tocar um pouco aqui e ali mas estou muito confortável em minha casa".
Quanto ao CD, Silver disse que concebeu a música a partir de um sonho onde Duke Ellington se encontrava com Serge Rachmaninoff no céu e apresentava ao compositor clássico a todos os grandes jazzistas que lá estavam. As composições foram aoresentadas em Junho de 1991 quando um musical estreou com cantores e dançarinos no Barnesdale Theater de Hollywood.
Mas as músicas não foram consideradas, então, pelos selos Columbia, GRP/Impulse e Verve, com quem Silver estava associado nos anos noventa, como boas para um lançamento fonográfico. "São antigas, mas são novas," disse Silver, que continua trabalhando em novas composições. "Não tenho composto tanto ultimamente mas ainda tenho muito material para desenvolver".
Seus fans acham uma vergonha que ele esteja sem nenhum acerto para fazer um disco e tem esperança que algum selo reconheça que Silver ainda vale ouro.

O CASO DO CASE

21 maio 2004

Este "causo" me foi contado pelo guitarrista e compositor Marcos Amorim. Ele estava viajando pelo interior do Brasil numa turnê, como músico da banda de uma cantora. O baixista da banda usava um daqueles contrabaixos elétricos com o braço de acústico, o chamado "electric upright". E em certo momento da operação de transporte do equipamento,o Marcos ficou encarregado de tomar conta do baixo do colega, já embalado no seu case. O case era enorme, uma caixa retangular e oblonga, mais alta que uma pessoa. Pediram então pra ele subir com o case pelo elevador. Ele está lá dentro e entram no elevador dois locais, pessoas simples e humildes. Olham pra ele , observam seu ar de cansado , ao lado daquele caixão preto, e falam, solidários:
- Que chato, hem?
- Morreu de quê?

RayNaldo
* esse Ray aí é uma singela homenagem ao grande Ray Brown.

Moças do CJUB, onde andam vocês, que não as lemos - e menos ainda - as vemos?

CHIVAS JAZZ FESTIVAL 2004 - 7/4/2004 - COTAÇÕES

20 maio 2004

TOM HARREL QUINTET - @@@

Ótimas e originais composições, quase que todo o tempo pontuadas pela influência latin - especialmente a bossa nova - deram o tom geral do concerto de Tom Harrel (trompete), à frente de seu destacado quinteto, trazendo Marcus Strickland, no sax tenor, os irmãos Xavier (piano) e Quincy Davis (bateria) e o baixista Ugonna Okegwo.

Num set exclusivamente composto de originais, todos com arranjos de Harrel também, o trompetista mostrou sua sonoridade atraente, porém um tanto mais "suja" que o habitual, parecidíssima, no timbre do trompete (e nisto apenas), com a do Chet Baker dos anos 70/80.

Os destaques individuais ficaram, justamente, para os irmãos Davis, Xavier como o camaleão de sempre (já tocou "com todo mundo"), apto a brilhar em qualquer contexto, e Quincy, extremamente jovem, porém talentosíssimo.

O combalido estado de sáude de Tom Harrel em nada parece afetar sua instigante relação com a música, que transpira arte verdadeira a cada compasso com que nos vai surpreendendo e emocionando.


RAUL DE SOUZA QUINTETO - @@@

Não há trombonista que domine, com igual maestria e desenvoltura, ambos os idiomas, do be-bop e do samba, como Raul de Souza. Para cada um dos estilos, sem dúvida, fileiras de nomes surgiram e surgirão como expoentes, mas aquele capaz de discursar com idêntica eloquência nos dois, chama-se Raul de Souza.

Desde o "timbraço" vindo de trás do palco, já com a banda devidamente instalada e aquecida, o mestre brasileiro trouxe para o Chivas autêntica música brasileira, "envenenada" (no bom sentido) pela língua do jazz. Samba, samba-canção, gafieira: o Brasil desfilou soberano na 3ª noite do festival, inclusive a partir do jovem grupo de músicos curitibanos arregimentados para a sessão, com amplo destaque para o baixista Glauco Solter e para o guitarrista Mario Conde.

A técnica impressionante de Raul revela-se ainda mais incendiária no Souzabone, trombone especial, com 4 válvulas, por ele idealizado.

Uma apresentação digna do reencontro com a platéia carioca, do sumo pontífice do instrumento, no país.



BOBBY PREVITE´s BUMP THE RENAISSANCE BAND - 1/2

Imaginem um baterista muito mais "pesado" que Dave Weckl. Mais pesado, até, que Dennis Chambers. Aliás, imaginem logo "Bonzo" (John Bonham), do Led Zeppelin.

Agora, pensem nele tentando tocar um suposto "free jazz". Ou seria um ... "free rock" ?

Quem assistiu à Bump de Bobby Previte não precisou imaginar. Testemunhou in loco a autêntica catástrofe "musical" que antagonizou todo o festival.

A esperada reunião, em torno do baterista, de "vanguardistas" como Steve Swallow (baixo elétrico), Wayne Horwitz (piano), Curtis Fowlkes (trombone) e Marty Ehrlich (sax tenor), não resultou em nada mais que uma impostura criativa como há muito aqui não se via.

Achar que sob o manto "permissivo" do avant-garde, qualquer combinação ritmo-melódica acaba virando "música", é um engano antigo, já desfeito há mais de quarenta anos.

Pior ainda, é tentar acrescer uma atmosfera "rock", à paisagem desértica daquele absoluto non-sense harmônico.

Barulho e palmas (e bocejos, muitos), foram tudo o que restou da apresentação de Previte, que tentou respirar, no bis (?), em vã tentativa de articular um blues redentor.

Bobby Previte e seus colegas bem poderiam ter atendido à magnífica aula de (verdadeiro) jazz "free" ministrada um dia antes por Andrew Hill. Preferiram não fazer a lição de casa.

RayNaldo estréia no CJUB com o pé direito

Preparem seus passaportes, o Clube está pronto!

19 maio 2004

Transcrevo aqui, em livre tradução, artigo publicado no New York Times sobre o que será o maior templo do mundo para se ouvir, ver, dançar, comer, beber, enfim, provar de uma das maiores sensações que a mente humana pode desfrutar através de todos os seus sentidos: o jazz.

N. do E.: A organização chamada de Jazz at Lincoln Center, mencionada diversas vezes neste artigo, é a maior entidade artística não-lucrativa dedicada ao jazz, do mundo.

SÓ PARA JAZZ: UM LUGAR ÚNICO
por Jon Pareles, do NYT

Nova Iorque - Só mesmo um visionário teria a idéia de comprar uma casa nova com janelas do teto até o chão com vista para o Central Park. Essas janelas, no centro do quinto e sexto andares do Time Warner Center, no Columbus Circle, serão ao mesmo tempo a face pública e o mais sério desafio acústico para o novo lar do Jazz at Lincoln Center, a Sala Frederick P. Rose.

Como o primeiro centro de apresentações construído especificamente para jazz no mundo, a sala representa um marco para o jazz como forma de arte americana. "Todos sabiam que estavamos preparando algo histórico", disse Wynton Marsalis, diretor artístico do Jazz at Lincoln Center, que chama a nova sede da organização de "the House of Swing". A obra deve terminar no final de julho, e a estréia, depois de um verão inteiro de concertos fechados "para afinação e ajustes", está marcada para 18 de outubro.

O projeto comprometeu 128 milhões de dólares e uma área imobiliária "top", para reconhecer a duradoura importância da música que nasceu das ruas. "Não há precedente para isto," disse Rafael Vinoly, o arquiteto do projeto. "Não é facil e não está testado ainda".

Jazz é luxo

Situada bem no centro do Time Warner Center, acima das lojas sofisticadas e restaurantes refinados, a Sala poderia ser considerada como um símbolo de que o jazz é um luxo. Marsalis rejeita essa noção. "Desde que começamos, fizemos tudo para alcançar a comunidade e mostrar que aqui haverá música para o povo", disse. "E que essa será uma Sala do povo. Foi contruída com o seu dinheiro".

A cidade de Nova Iorque proveu 28 milhões dos 128 orçados para a Sala Rose, enquanto que o Estado de New York contribuiu com 3,5 milhões e o governo federal com 2,2 milhões. Jazz at Lincoln Center já conseguiu quase todo o saldo - estão faltando ainda 14 milhões finais - de doadores privados. Através de hábil politicagem, Jazz at Lincoln Center conseguiu o espaço com pouco mais de 30 mil m2(!) com o apoio do então prefeito Giuliani e de seu sucessor, o atual prefeito Bloomberg.

Parte da nova institutição dedicada ao jazz ainda será capaz de abrigar óperas completas, mas foi desenvolvida basicamente para o jazz e para a educação jazzística. Diferente da maioria dos centros de artes performáticas, o complexo também será o supra-sumo em termos de gravação e difusão para áudio e vídeo, ligado a todo e qualquer veículo, do rádio à televisão de alta-definição até o ensino à distância via Internet.

Desde 1991, quando passou a ser uma partição do Lincoln Center, Jazz at Lincoln Center vem apresentando a maior parte de seus concertos realizados em Manhattan nas Salas Alice Tully e Avery Fisher. Estes auditórios estão longe do ideal para o jazz porque foram construídos para destacar música clássica não-amplificada. A mesma reverberação que faz ali soar cheio a um naipe de violinos, pode embolar o som afiado de um conjunto de jazz e transformar o mais suave desempenho de um baterista num jogo de ping-pong de ecos indesejáveis.

O jazz necessita de salas que reverberem menos do que as preparadas para a música clássica mas não tão absorventes que se faça perder o calor dos instrumentos. Recintos com boa acústica para grupos de jazz foram, por diversas vezes, descobertos acidentalmente: clubes em subsolos, salões lotados de dançarinos, pequenas salas de ópera européias, etc.. Marsalis, que viajou por todo o mundo com conjuntos grandes e pequenos, sempre manteve os olhos e ouvidos atentos para os locais quem melhor lhe soaram. E esses são os modelos para a "Casa do Swing".

Inspiração italiana

A Sala Rose (Rose Hall) incluirá uma sala de concerto, um salão de dança/cabaré e um pequeno clube onde músicos de jazz se apresentarão todas as noites. A sala de concertos, chamada de Rose Theater, foi inspirada nas pequenas casas de ópera italianas. "As pessoas sentavam-se próximas e havia um forte sensação de comunidade nessas casas", disse Marsalis, completando "e nós sabemos como essa sensação nos ajuda".

O teatro foi desenhado pensando-se em flexibilidade pois também será usado para filmes, dança e óperas. Outros grupos de artes performáticas já estão de olho no espaço, que inclui 11 torres móveis com fileiras de assentos - que Marsalis compara a varandas das casas de New Orleans - para que a audiência possa variar de 1.100 a 1.231 lugares. Para os shows de jazz, parte da audiência poderá ficar atrás dos músicos, o setup preferido por Marsalis. Porém para as produções de óperas e para cinema, as torres poderão ser deixadas atrás do palco enquanto os cenários e telas serão baixados do espaço aéreo de cerca de 25 metros ali existente. Um elaborado sistema de abafadores acústicos móveis e cortinas está sendo construído para permitir a variação da ressonância do recinto para diversos tipos de apresentações. Como numa aconchegante casa de ópera ninguém da audiência estará a mais de 30 metros dos executantes. Diz {o arquiteto] Vinoly que "será muito difícil cometer erros numa sala deste tamanho".

Acusticamente isolada

Diferentemente do Carnegie Hall e seu anexo situado no subsolo, a Sala Zankel, que convive com as vibrações do metrô, o Rose Theater está sendo isolado acusticamente do resto do Time Warner Center (e também da estação de metrô que ronca abaixo do Columbus Circle). O ruído de fundo do teatro ficará abaixo do limiar da audição humana, o que é tecnicamente conhecido como um nível de ruído categoria NC-1. Estúdios de gravação são, tipicamente, muito menos isolados, tendo níveis de ruído nas categorias NC-20 a NC-25. "O que é um simples conceito no campo das idéias, transforma-se em algo muito complicado de construir", disse Paul Logan, o arquiteto que dirige o projeto para a Jazz at Lincoln Center. O som viaja facilmente através de material sólido, assim o Rose Theater será uma caixa dentro de outra caixa, flutuando em montagens complexas de aço e enchimentos de neoprene. Cada conexão estrutural, cada vão de porta e cada duto que leva à Sala tem de ser devidamente isolado. "Fica inacreditavelmente caro,"disse Vinoly.

Ao lado do Rose Theater fica o salão com "a vista". É a Sala Allen, com 310 a 550 lugares, um salão de dança/cabaré com sua enorme janela para o Central Park. Levemente ispirada num anfiteatro grego e no Rainbow Room, tem sete fileiras de assentos que podem ser elevadas alternadamente, por meio hidráulico, para dar lugar a apenas quatro fileiras, com largura suficiente para mesas de banquete e para dançar. Festas e eventos deverão dividir a agenda com as performances jazzísticas.

Mundo do jazz de luto: Morreu Elvin Jones

Excepcional e vigoroso baterista, membro do quarteto de John Coltrane, Elvin Ray Jones Elvin Jones em ação morreu ontem, aos 76 anos, de falência cardíaca depois de uma longa enfermidade, num hospital de New York.

Elvin Jones tocou também com Duke Ellington, Charles Mingus, Charlie Parker e Miles Davis, para citar alguns expoentes a quem emprestou seu talento na bateria, em sua bela carreira como jazzista de ponta.

Irmão do pianista Hank Jones e do trompetista Thad Jones, Elvin tocou enfermo - chegava a levar uma bala de oxigênio para o palco - até pouco tempo atrás. Além de sua participação por 6 anos no quarteto de Coltrane, Jones liderou inúmeros conjuntos jazzísticos dignos de nota, por cerca de trinta anos.

Elvin deixa a esposa Keiko, um filho e uma filha.

RIP

Dada a notícia, deixo os comentários para os Mestres Raf, Goltinho e Luiz Orlando (se este assim desejar).

Histórias do Coutinho: 1 - ELLINGTON & BENNETT

18 maio 2004

Todos sabem do respeito e da mútua admiração entre o cantor e pintor Tony Bennett e o pianista, maestro e compositor Duke Ellington, mas seus encontros em concertos ou festas na badalada New York, em freqüência então crescente, acabaram unindo os dois em torno de uma grande amizade, que só terminou com a morte do grande maestro, em maio de 1974.

Relato aqui uma das muitas histórias que ouvi dessa extraordinária figura humana que é Tony Bennett:

No final do ano de 1969, Tony vivia uma grave crise conjugal. Até que nos primeiros dias de dezembro foi morar em uma suite no Waldorf-Astoria. Com a aproximação do Natal, passou a sentir-se cada vez mais solitário e deprimido por estar distante da familia, antevendo que aquele seria um dos piores Natais de sua vida. No dia 24, véspera da grande festa cristã, Tony não conseguia dormir, a despeito de ter recomendado expressamente ao hotel que não permitisse chamadas para seu apartamento.

Pouco antes da meia-noite, sem ânimo para assitir à TV ou ouvir rádio, Tony, sentindo-se cada vez mais triste, iniciou a sua ceia natalina. Na mesa, apenas uma garrafa de vinho tinto e uma taça, suas únicas companhias. A instantes da meia-noite, o silêncio do apartamento foi quebrado por um coro infantil, entoando músicas natalinas. Tony levantou-se para procurar a origem do som, checou o rádio, a TV, abriu a janela do apartamento (fazia frio e nevava), mas lá de fora não ouviu nada, absolutamente nada. Fechou a janela e procurou identificar com mais cuidado a origem daquele som bonito e afinado. Finalmente, abriu a porta da suite e ali estava Duke Ellington com um belíssimo ramo de rosas vermelhas, à frente de um coral infantil que arregimentara em uma igreja do Harlem. Desnecessário dizer quão emocionado Tony ficou quando Ellington lhe disse: "Se você tinha planos para passar o Natal sozinho, está muito enganado. Feliz Natal, querido amigo!"

Esse foi, sem dúvida, segundo Tony, um dos momentos mais bonitos de sua vida.

Até hoje se pode sentir quão emocionado Tony fica ao contar essa história, da qual tomei conhecimento quando jantávamos em um típico restaurante italiano, em São Paulo, durante uma de suas "tournées" pelo Brasil. Quando, inclusive, fomos interrompidos por dois fans italianos que também jantavam na "trattoria". Foi ali que descobri, pasmo, que Tony não falava italiano!

Depois de despachar "gli paesani", Tony retomou a narrativa, lembrando que nos primeiros dias do mês de janeiro seguinte àquele Natal, enviara a Ellington uma aquarela que pintara do maestro e seu ramo de rosas, e na qual agradeceu o momento mágico daquela noite emocionante, escrevendo na margem: "GOD IS LOVE DUKE ELLINGTON".

Essa aquarela figura à pag. 112 do livro "What My Heart Has Seen", de autoria de Bennett, editado pela Rizzoli em 1996.


Goltinho

CHIVAS JAZZ FESTIVAL 2004 - 6/4/2004 - COTAÇÕES

17 maio 2004

ANDREW HILL TRIO - @@@

Há décadas Andrew Hill vem realizando o que parecia impossível: juntar o free jazz ao cool, numa experiência musical única, porém inegavelmente bem sucedida.

Um piano cristalino, alforriado do establishment tonal, que convida, o tempo todo, o ouvinte, a uma experiência musical diferenciada. É preciso desconstruir a ansiedade natural por consonâncias ou pirotecnias, para entender Hill. Entender não; dividir, comungar com ele uma nova proposta melódica, que, na música clássica, teria paralelo na obra do francês Olivier Messiaen, tão contemporânea quanto, porém absolutamente distinta da Escola de Viena (Serialismo).

Nisto, aliás, há uma ponto curioso: impressiona a insistência de alguns em dizer que jazzistas como Ornette Coleman, Don Cherry, o próprio Andrew Hill e, mais recentemente, Wayne Horvitz (que também esteve neste Chivas), fizeram, ou fazem, música "de vanguarda". Considerando que a chamada música contemporânea - que rompeu, em definitivo, com a harmonia tradicional, data da primeira metade do século XX (Schoemberg, Berg, Webern, Stockhausen, Hindemith, entre outros) e que esta ruptura, na verdade, iniciou-se desde o ocaso do Romantismo (fim do século XIX), quando emergiram compositores como Debussy, Ravel, Satie e Poulenc (Impressionistas), nada há de vanguarda, ao menos sob a perspectiva puramente musical, no free que tanto chocou "puristas", nos anos 60. É claro que Ornette inovou esteticamente ao reinventar a improvisação coletiva - presente no jazz deste o dixieland - só que, agora, sem parâmetros harmônicos aparentes, deixando seguidores, com maior ou menor êxito.

Andrew Hill, porém, prescinde de rótulos como avant-garde ou free.

Os cinco originais oferecidos pelo trio (John Herbert, baixo, e Nasheet Waits, bateria) de modo contemplativo, à platéia surpresa, e de início despreparada, tiveram, entretanto, força suficiente - tal a verdade em que estão apoiados - para encantar e fazer sonhar tivesse o espetáculo recebido uma casa mais apropriada (a Sala Cecília Meireles ou outro palco de câmara), já que a Marina da Glória, lugar agradabilíssimo, mostrou-se dispersiva, todavia, para tão contrita experiência.


SHEILA JORDAN - @@
STEVE KUHN TRIO - @@@@1/2

Sheila Jordan é a cantora mais afortunada do mundo, por ter consigo, nada mais nada menos, que o melhor supporting trio em atividade.

A mesma sorte, contudo, não se pode atribuir a Steve Kuhn, ao menos quanto ao resultado, para o ouvinte, da reunião dos dois nomes, que remonta, aliás, aos anos 60.

Em que pese a enorme simpatia e, admita-se, domínio do estilo, Sheila Jordan está a léguas de distância de figurar entre as referência do jazz vocal.

Um extensão aquém de exígua e o desgaste da idade, algo mascaradas pela inegável categoria, Jordan serviu como dispensável contraponto à superlativa performance do pianista único que é Steve Kuhn.

Daí a decomposição nas cotações: Sheila Jordan com o Steve Kunh trio foi uma apresentação; o trio, sozinho, outra, inteiramente diferente.

A primeira, contemplando jazz originais e standards, como If I Should Loose You, Evything Happens to Me e Slow Boat to China, ressaltou as limitações da cantora, cujo carisma, entretanto, foi o suficiente para agradar boa parte do público.

Já os dois números com que nos presentou Steve Kuhn, estes sim permanecerão na memória do Festival e na de quem a ele teve o privilégio de atender. The Jitterbug Waltz (F. Waller) e Ladies in Mercedes (S. Swallow) formaram iguaria finíssima, preparada com maestria pela espetacular seção rítmica, completado pelo baixista David Finck e por Billy Drummond, na bateria. Não há estilo que Kuhn não sabia ou possa tocar, e, acima de tudo, reinventar com sua arte peculiar e genial.

Voltando ao palco, Sheila Jordan instou o pianista a entoar seu tema emblemático, The Meaning of Love, que arrepiou e fez marejar os olhos, no único momento digno de nota - e que nota - da associação entre a cantora e o trio.

A meia orelhinha a mais deve-se, exatamente, a este mágico instante, enquanto a metade faltante (para a cotação máxima) resume-se à falta de maior espaço só para o trio.

Um noite, afinal, absolutamente particular e distintiva, eco perfeito das intenções dos organizadores.