Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Mestre Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Mario Vieira (Manim), Luiz Carlos Antunes (Mestre Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (Mestre MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).


BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

Aniversário de um monstro vivo

31 março 2004

Será entre os dias 13 e 15 de abril, no Iridium Jazz Club em Nova Iorque, a celebração do 66o. aniversário de Freddie Hubbard, figurando nada mais nada menos do que o seguinte dream-team: Joe Chambers, Craig Handy, Myron Walden, David Weiss, Chris Karlic, Steve Davis, Xavier Davis e Dwayne Burno, sendo esse octeto chamado de The New Jazz Composers.

O trompetista (tocava também flugelhorn) Frederick Dewayne (Freddie) Hubbard (nascido em 1938) saiu de Indianapolis no final dos anos 50 quase que para o estrelato absoluto, como parte das novidades do jazz: o hard-bop, e além, a interpretação modal, a liberdade de expressão, o soul jazz e em poucos anos, os primeiros passos do fusion.

Em meio aos anos 60, Hubbard já havia tocado com Sonny Rollins, Eric Dolphy, Ornette Coleman e Oliver Nelson e passado vários anos apresesentando-se com os Art Blakey's Jazz Messengers. Ele figurou em alguns dos mais importantes albuns daquela década (Free Jazz, de Coleman; Out to Lunch de Dolphy; East Broadway Rundown, de Rollins; Blues and the Abstract Truth, de Nelson; Mosaic, Free for All, Ugestsu e Kyoto, de Art Blakey; Ascension, de John Coltrane e Maiden Voyage, de Herbie Hancock.
Suas próprias gravações pelos selos Blue Note, Atlantic e CTI firmaram Freddie Hubbard como um dos GRANDES trompetistas do jazz.

Dedicado à participação coletiva, o New Jazz Composers Octet nutre as capacidades individuais e explora a técnica e a criatividade sempre em expansão de todos os seus componentes. O conjunto foi fundado em 1996, quando o trompetista David Weiss reconheceu a falta de oportunidades para que novos compositores apresentassem composições originais de jazz ditas "sérias". Assim, juntou forças com o pianista Xavier Davis, o saxofonista Myron Walden e o baixista Dwayne Burno. Recrutaram então mais quatro dos músicos mais bem considerados em Nova Iorque e formaram o New Jazz Composers Octet.

A linha de frente com cinco metais provê uma formação ideal para que os compositores consigam realizar plenamente suas aptidões composicionais pois uma gama assim de instrumentos permite um conjunto extremamente versátil.

A apresentação apaixonada, pelo conjunto, de arranjos intrincados e suas firmes raízes na tradição, rapidamente estabeleceram o octeto como "o som da nova corrente do jazz", como os definiu Ben Ratliff, do jornal The New York Times, por sua capacidade de "esticar a formula tipo não-esticável do hard-bop", segundo Jim Macnie, do Village Voice.

Dá tempo de ir festejar esse papa do trompete com o que é considerado um dos melhores conjuntos improvisadores em apresentação no momento. Basta ligar, reservar primeiro, comprar as passagens depois e ser feliz cantando parabéns para Freddie Hubbard em Nova Iorque. Why not?

IRIDIUM JAZZ CLUB
RESERVAS: 212-582-2121
www.iridiumjazzclub.com

Pano rápido

(Excêrto da entrevista do DJ Marky, à Playboy deste mês:)

P: Você não toca instrumento?

R: Não toco porra nenhuma. Um dia vou estudar bateria. Nasci para tocar jazz para 50 tiozinhos velhos e barrigudos, sentados, tomando uísque e fumando charuto. É o meu sonho.

MEUS 10 DISCOS

Aqui vai a minha lista:
1-PAT METHENY GROUP- OFFRAMP
2-HERBIE HANCOCK- MAIDEN VOYAGE
3-CHICK COREA- REMEMBERING BUD POWELL
4-MILTJACKSON & JOHN COLTRANE- BAGS & TRANE
5-STAN GETZ- BLUE SKIES
6-DIZZY/HUBBARD/TERRY/PETERSON- THE TRUMPET SUMMIT MEETS THE OSCAR PETERSON BIG FOUR
7-BILL EVANS- WE WILL MEET AGAIN
8-BILL EVANS- YOU MUST BELIEVE IN SPRING
9-DAVE BRUBECK- TIME OUT
10- MILT JACKSON- SUNFLOWER

Gostaria de sugerir um lista de 10 uísques para acompanhar.
Abs,
Marcelón

JAZZ – Mutatis Mutandis

O JAZZ foi sempre assunto de uma minoria. Ainda na época do swing, nos anos trinta, foram poucos os que reconheciam o valor do jazz dos criativos músicos negros, exceto por uns poucos discos. Não obstante, quem se interessa por jazz e o defende, trabalha em favor de uma maioria, porque o jazz nutre a música popular de nosso século. Todas as músicas que ouvimos nos seriados de televisão, nos lobbies dos hotéis, nos sucessos musicais do dia, nos filmes, nas músicas que dançamos, desde o Charleston até o Rock, o funk e as músicas de discotecas, todos os sons que nos rodeiam na música de consumo de nossa época se originaram no Jazz (porque o beat chegou à música ocidental através do Jazz).

Quem fica aficionado pelo Jazz eleva, com sua atitude, o nível dos “sons que nos rodeiam”, é dizer, em nível musical, o que significa – dito de outra maneira não teria sentido falar de nível musical – o nível espiritual, intelectual e humano: o nível da consciência.

Existe uma relação direta e comprovável em todos os seus detalhes, por um lado entre as diferentes classes, formas e estilos de jazz e por outro lado as épocas e as etapas em que foram criados.

Sem contar o seu valor musical, o mais importante no jazz, sem dúvidas, é seu desenvolvimento estilístico.

Estamos plenamente convencidos de que os estilos do jazz são estilos verdadeiros: se encontram na evolução do jazz na mesma posição que ocupam na música de concerto européia, por exemplo: o barroco e o classicismo, o romantismo e o impressionismo; é dizer, pertencem à sua época.

Muitos dos grandes músicos de jazz sentiram a relação entre o estilo que tocam e a época em que vivem. A alegria, livre de toda a preocupação, do Dixieland, corresponde ao período prévio da primeira Guerra Mundial. No estilo de Chicago se percebe a intranquilidade dos “alegres anos vinte”. O Swing materializa a segurança e a massificação da vida pouco antes da segunda Grande Guerra e, conforme palavras de Marshall Stearns, o "love of bigness", tipicamente americano e no fundo, tão humano. O Bebop capta o intranquilo nervosismo dos anos quarenta. O Cool jazz expressa, em boa medida, a resignação dos seres humanos que vivem bem, mesmo sabendo que já se produz a bomba H. O Hard bop está repleto de protestos, que de imediato se converteu ao conformismo pela moda do funk e do soul, conduzindo protestos, livres de compromissos, do Free jazz dos movimentos negros por direitos civis e as revoltas estudantis. Com o jazz dos anos se inicia uma fase nova de consolidação: o bastante para que o jazz-rock coincida com a credulidade que existia naquela época com a tecnologia. Em troca, o jazz dos anos oitenta inclui muito do ceticismo dos homens que vivem com bem estar, mas não ignoram quando lhes foi levado um progresso permanente e não questionado.
Por isso muitos músicos de jazz consideraram com ceticismo a reconstrução de estilos de jazz do passado pois sabem que a historia contradiz o espirito do jazz; o jazz vive e morre com sua vitalidade. O que está vivo muda. Quando a música de Count Basie alcançou exito mundial durante os anos cinquenta, foi pedido a Lester Young – o solista mais destacado da velha orquestra de Basie – para tocar com um grupo de músicos que pertenceram a esta orquestra e reviver o estilo dos anos trinta para a gravação de um álbum. “Não posso faze-lo”, disse Lester, "eu já não toco assim. Toco de outra maneira, vivo de outra maneira. Agora é tarde, isso era então."

Nós mudamos, movemos. Obviamente, o mesmo se pode dizer das reconstruções contemporâneas dos estilos históricos do jazz.

NOTÍCIA SENSACIONAL

30 março 2004

Gostaria de informar aos confrades que os convites feitos a três potenciais musas do CJUB, FORAM ACEITOS!!!


Em breve, portanto, contaremos com a inteligência, graça, beleza e sensibilidade das nossas novas companheiras, BETH MARTINELLI, CLAUDIA FIALHO e LUCIANA PEGORER.


Todas muito mais do que bem-vindas, para, na companhia de nossa inefável Marzita, brindar-nos a todos com suas visões e opiniões, e ainda alegrarem os corações destes empedernidos gladiadores pela sobrevivência do jazz como forma de arte.

O CJUB, em festa, as saúda com fogos de artifício.

10 MARCAS CLASSICAS DE "HABANOS"

27 março 2004

Não é uma tarefa fácil tentar descrever com palavras, algo tão subjetivo quanto o sabor de um "puro".
A melhor maneira de educar seu paladar é desgustando diferentes "puros", até descobrir a sua preferência.

Eis aqui 10 marcas clássicas dentre as várias que existem.

COHIBA - (SABOR : LINEA CLÁSICA = Mediano a Forte; LINEA 1492 = Mediano)
Foi criada em 1966, como a melhor marca de "Habanos" reservada exclusivamente para uso diplomático.
A partir de 1982 foi oferecida ao público em 3 bitolas: LANCEROS, CORONAS ESPECIALES e PANETELAS. Em 1989 adicionou-se mais 3 bitolas ESPLENDIDOS, ROBUSTOS e EXQUISITOS para complementar a Línea Clásica.
Em 1992 foi lançada a Línea 1492 com 5 bitolas: SIGLO I , II , III , IV e V.

MONTECRISTO - (SABOR = De Mediano a Forte)
Fundada em 1935 pela fábrica H. UPMANN, MONTECRISTO lançou primeiramente 5 bitolas descritas com números em vez de nomes.
As outras bitolas como a "A " e ESPECIALES foram lançadas no início dos anos 70. O sabor diferenciado do MONTECRISTO encantou tanto os apreciadores , que por mais de 20 anos tornou o mais popular dos "Habanos".

ROMEO Y JULIETA - (SABOR = Mediano )
Fundada por Alvarez y Garcia em 1875, ROMEO Y JULIETA só se desenvolveria a partir de 1903, quando foi adquirida por "Pepin" Fernandez Gonzalez.
Ingressou na Europa com seus "puros" produzindo uma vaira seleção de anilhas personalizadas para as celebridades de sua época.

BOLÍVAR - (SABOR = Forte )
Simón Bolívar, uma das figuras mais românticas do século 19, teve forte influência para libertar a América do Sul do domínio espanhol.
Em 1901, 71 anos depois de sua morte, a Companhia Rocha, de Havana, lhe rende uma homenagem ao colocar seu nome em seus "puros".
São feitos com tabacos cuja característica simboliza sua forte personalidade.

PUNCH - (SABOR = Mediano)
Don Manuel López de J. Valle fundou a PUNCH em 1840 visando o mercado britânico. Nesta época, uma revista de humor fazia muito sucesso, e se chamava " O Simpático Sr. Punch" (sempre com um charuto na mão) sendo a figura de destaque nas caixas desse "puro".

HOYO DE MONTERREY - (série HOYO DE MONTERREY - SABOR = Mediano; série LE HOYO - SABOR = Mediano a Forte)
No povoado de San Juan de Martinez, na região de Vuelta Abajo, há uma inscrição "Hoyo de Monterrey, José Gener, 1860 " o que indica que o Sr. Gener esteve alí antes de fundar sua fábrica, em 1865.
A série "LE HOYO" foi lançada nos anos 70 para responder a uma demanda por "puros" de sabor mais acentuado.

H. UPMANN - (SABOR= Suave)
H. Upmann foi um banqueiro. Se apaixonou de tal forma pelos "puros" que recebía de Cuba que resolveu transferir-se para Havana, estabelecendo-se não só como banqueiro mas também como fabricante de "puros".
Seu banco logo encerrou as atividades, porém seus "puros", cujas caixas levam a sua assinatura, permanecem como um exemplo vivo de um "puro' suave e de sabor diferenciado.

PARTAGÁS - (SABOR = Forte)
Em 1845, Don Jaime Partagás abriu pela primeira vez as portas de sua fábrica localizada na Calle Industria, 520, em Havana, atrás do Capitólio. Atualmente, é a única fábrica aberta para visitação. Seus "puros"jamais deixaram de ser fabricados alí, exceto entre 1987 e 1990, quando ficou fechada para restauração. esta poderosa marca de "habanos" conserva uma mescla de tabacos setecionados.

QUINTERO - (SABOR = Suave)
Em meados dos anos 20, Agustin Quintero abre sua pequena fábrica em Cienfuegos, próximo à região de Remédios.
A reputação de seus "puros' permitiu que fundasse, em 1940, a Companhia
Quintero y Hermano, em Havana junto com seu irmão mais velho.
A delicadeza de sua liga de tabacos de Vuelta Abajo o tranforma na marca ideal para aqueles que desejam iniciar-se neste mundo dos "puros".

EL REY DEL MUNDO - (SABOR = Suave a Mediano)
Em 1882, a fábrica de Antonio Allones lança uma nova marca de primeiríssima qualidade e de preços elevados. Com grande confiança no futuro e pouca modéstia, dá-lhe o nome de "EL REY DEL MUNDO".
O êxito não o fez esperar e rapidamente mudou o nme da fábrica para
"EL REY DEL MUNDO CIGAR CO."
Uma mescla delicada de tabacos de fino aroma continua sendo sua principal característica.

É ISSO AÍ.

DEGUSTE COM MODERAÇÃO

Zénrik

9° CHIVAS JAZZ LOUNGE

26 março 2004

Nivaldo Ornelas, Kiko Continentino, Sérgio Barroso, Pascoal Meireles
Cheguei por volta das 8:40 e tinha pouca gente, mas pela agitação do eficiente Mario, previ casa cheia. Encontrei com o nosso Marcelink que me apresentou à Claudia Fialho e seu simpático marido. Ficamos numa gostosa conversa sobre a deliciosa pessoa de Jorginho Guinle quando chegou a estrela da noite, a sempre bonita Marzita que, para dizer o mínimo, estava deslumbrante. Marzita nos deu a única nota triste da noite, a ausência do nosso Raf, que me tranquilizou, por telefone, dizendo ser apenas um mal estar. Nós três, mais Zé Henrique, partimos para o camarim e, logo ao entrar, pelo semblante do Nivaldo, tive a certeza do sucesso. Nivaldo e os demais músicos estavam num clima muito bom.

Quando chegou a hora do show, a casa estava lotada e podía-se sentir o clima de expectativa. E ninguém se decepcionou. Nivaldo, acompanhado de Kiko Continentino, Pascoal Meireles e Sergio Barroso, conduziu um primeiro set que deixou a platéia elétrica. No segundo set, houve o reforço de Marcelo Martins e Idriss Boudrioua num empolgante duelo que levou os demais músicos, destacando-se o Kiko, a se superarem para acompanhar e a platéia ao delírio.
No encerramento, com Nivaldo tocando uma composição sua, via-se muitas pessoas dançando nas suas cadeiras e a nossa Marzita estava com um sorriso de quem sabia que tinha produzido um dos grandes shows do CJL.

Voltamos com todo o gás e aquilo que começou como uma brincadeira de amigos, já é um evento carimbado na noite do Rio. Acho que os nossos horizontes estão se alargando e o céu é de brigadeiro. Parabéns, Marzita.

Os 10 Petardos de Mestre Goltinho

1. Brilliant Corners - Thelonious Monk
2. South America '56 - Dizzie Gillespie
3. Amazing Bud Powell - Bud Powell
4. A Night at Birdland - Art Blakey & The Jazz Messengers
5. Gershwin Live - Sarah Vaughn
6. The Hot Fives and The Hot Sevens - Louis Armstrong
7. Take the A Train - Duke Ellington
8. Jazz at Massey Hall - Charlie Parker
9. Manhattan Symphony - Dexter Gordon
10. Supersax & L.A. Voices

Luiz Orlando Carneiro, no JB de Hoje

25 março 2004

A informação recém-chegada do Mistura Fina dá conta de que todas as mesas estão reservadas para o concerto de hoje à noite.

Nada mais justo, considerando que a produção, "Tributo a John Coltrane", ficou a cargo de Marzita, musa inconteste deste muro, que nos brindará com uma noite inesquecível, com toda a certeza.

Noite, aliás, já abençoada por Mestre Luiz Orlando Carneiro, que nos honrou com a nota abaixo transcrita:

"A confraria CJUB (Charutos, Jazz, Uísque e Blog) promove hoje, às 21h, no Mistura Fina, um Tributo a John Coltrane, com o saxofonista Nivaldo Ornellas à frente de seu quarteto (Kiko Continentino, piano; Sérgio Barrozo, baixo; Pascoal Meirelles, bateria). O expert Mauro Nahoum envia um recado: ''Tendo assistido ao Nivaldo na casa de amigos e posso afirmar que ele está em plena forma, tocando como poucas vezes vi, com um timbre soberbo e uma fluência invejável"

Saravá!

UM PRESENTE RARO

24 março 2004

Mario “Coitado”, grande filósofo contemporâneo de Londrina, costuma dizer entre amigos: ”Não existe mulher feia; existe homem que não bebe”. Diante desta máxima chauvinista, tomei algumas precauções para postar este texto. Faz pelo menos dois meses que venho escutando quase que diariamente um CD do pianista Randy Waldman chamado “Wigged Out”. Confesso que nas primeiras vezes embalado por um Trapiche Medalla e outras por um sempre oportuno Cardhu. Quase uma obra-prima? Para ter certeza da constatação, resolvi ouvi-lo sóbrio. E só não o é por único detalhe. Uma das faixas, “Beethoven’s 5th Symphony”, recebeu um arranjo não muito feliz. Caso contrário, admitiria ser um dos mais fascinantes discos de jazz que ouvi nos últimos tempos. Um comentarista de futebol escalou seu ataque de todos os séculos: Garrincha, Zizinho, Zico, Pelé e Gilson Nunes. A presença do Gilson, claro, causou reação violenta. Mas ele explicou:” Péra aíííí...Mas alguém tem que perder a bola!”. No caso do CD, a tal faixa é precisamente o Gilson Nunes.

Já postei um outro CD do Waldman, “UnReel” (Concord Jazz 2001 - @@@@1/2), também um exercício magnífico de criatividade e competência. “Wigged Out” foi um desafio muito mais instigante e sedutor para este brilhante pianista e arranjador, já que os temas, sem exceção, vieram da música clássica – e todos bastante conhecidos.
Randy Waldman desde os 5 anos estudou piano. Enquanto seus amiguinhos brincavam, ele aproveitava qualquer folga para tocar. Aos 12, como primeiro emprego, testava pianos numa loja especializada para qualquer suposto cliente. Embora apaixonado por jazz, iniciou carreira ao lado de grandes astros da música pop, como Frank Sinatra, The Letterman, Lou Rawls, Minnie Riperton e Paul Anka, entre outros. Mas foi com George Benson, durante 7 anos, que passou a ser conhecido entre os jazzistas, não só como pianista mas como arranjador, quase uma figura carimbada nos estúdios de Los Angeles. Até ser provocado por amigos para um CD próprio. E assim nasceu o então Randy Waldman Trio. E duas absolutas feras ao lado; John Patitucci, baixo, e Vinnie Colaiuta, bateria. E o CD de estréia, “Wigged Out” (Whirly Bird 1998).
Peter And The Wolf” (Prokoviev), “Minuet In G” (Beethoven), “Dance Of The Sugar Plum Fairies" (Tchaikovsky), “Flight Of The Bumble Bee” (Rimsky/Korsakov), “Prelude In C# Minor” (Rachmaninov), “Waltz Of The Flowers/Botanical Intro” (Tchaikovisky), “Ride Of The Valkiries” (Wagner), “Jesu, Joy Of Man’s Desiring” (Bach), “Beethoven 5th Symphony” e “Les Sylphides" (Chopin) são os temas. A criatividade de Waldman para transfomar o repertório em jazz deixaria Monk de barba e queixo caidos. O trio improvisa e balança o tempo inteiro, com algumas participações especialíssimas de Freddie Hubbard (flugel), Michael Brecker (tenor sax), Arturo Sandoval (trumpet) e do saudoso saxofonista tenor Bob Berg. Outros menos cotados ajudaram a compor os arranjos. Waldman deixa passar em seu piano algumas influências nítidas: Monk, Bud Powell, Bill Evans, Chick Corea e Herbie Hancock. Seu estilo mesmo assim é quase único entre os pianistas contemporâneos – a última faixa, em solo, mostra isso.
Coisa complicada é dar presente. Principalmente quando o presenteado, no caso de um jazzófilo, é exigente e qualificado. Não só por não se achar em lojas brasileiras – conferi isso na Modern Sound -, “Wigged Out” seria um desses “mimos” que eu daria a um jazzista com a confiança de que no dia seguinte receberia um telefonema de sinceros agradecimentos – e não mera gentileza.
PS: A cotação no Allmusic Guide é @@@@, só não máxima talvez pelo Gilson Nunes, o que me fez também por pouco não o incluir na lista da ilha. No Penguin não há qualquer referência a Randy Waldman - já esperava por se tratar de um novo músico norte-americano.

PSII: Outro CD imperdível é do romano Stefano Di Battista (alto & soprano sax) chamado "Round About Roma" (Blue Note 2003). Destaque para o cada vez mais surpreendente Vince Mendoza, o mesmo arranjador do apaixonante "Both Sides Now" da Joni Mitchell. Comentarei oportunamente. Para quem não sabe, é o atual CD de cabeceira do Ivan Lins - fonte segura.

O FEEDBACK QUE TODOS BUSCAMOS

Transcrevo, abaixo, a amável mensagem recebida de nosso leitor, Moisés, a qual, penso, representa exatamente a contrapartida que o blog sempre quis e, felizmente, vem obtendo.

Parabéns, Moisés, e continue a nos prestigiar com seus benvindos comentários.

"Olá,

Primeiramente, gostaria de dizer que o Blog é incrível. Não achei nada parecido na Web, quanto mais em sites brasileiros. Esse espaço é uma forma de valorizar, não só a boa música, como os grandes músicos, principalmente os brasileiros.

E, falando em músicos brasileiros, estou muito contente em ver o sucesso do meu ex-professor de bateria - que me fez gostar de jazz - Kiko Freitas. Bem, acompanho a carreira dele desde o início, pois sou gaúcho. Posso dizer que nunca vi um músico como ele aqui no Sul. Os grandes bateristas gaúchos, como Nenê, saíram daqui antes de eu pensar em tocar bateria. Com o Kiko foi diferente: vi ele tocar ao vivo várias vezes. Que bom que o país e o mundo - Michel Legrand que o diga - estão conhecendo o seu talento.

Dificilmente temos bons shows de jazz aqui no sul. Não quero entrar no porquê disto. O que me resta é ficar sabendo dos shows à distância. Você poderia me ajudar? Li a resenha da apresentação do Michel no blog. Mas gostaria de, se possível, ter uma descrição mais detalhada do que foi o show. Falo principalmente da atuação da banda e, especificamente, da atuação do Kiko. Não concordo que ele seja substituto de Duduka da Fonseca, até porque este está em plena atividade! Duduka é o grande baterista brasileiro vivo na minha opinião, mas o que falta para o Kiko chegar até o nível dele? Você que viu o show - e entende de jazz pra caramba - tem alguma observação sobre a maneira do Kiko de acompanhar alguém do naipe de um Legrand.

Bah, tche! Gostaria de ter visto este show... E o Ivan Lins dando uma canja...Deve ter sido sensacional. Se você puder, BeneX, me mande mais detalhes de como foi a apresentação. Houve muito espaço para improvisação? Como foi o Idriss? Como foi o Sérgio? Aguardo ansioso sua resposta. Se eu não pude ficar com os charutos e o Uísque, gostaria de ficar, ao menos, com o Jazz! Mais uma vez, parabéns pelo Blog.

Um grande abraço!

Moisés
"

SET-LIST do 9o. CONCERTO CHIVAS JAZZ LOUNGE, em 25/03/04

22 março 2004

Repetimos aqui parte da nota de divulgação (a completa, postada em 13/3, está em Arquivos), e ao final a set-list enviada pelo Nivaldo, para seu tributo desta quinta feira.
O Concerto está bastante abrangente, com inúmeros dos mais importantes temas que o tributado John Coltrane compôs ou interpretou.

Quem quiser comprar antecipadamente tem agora a possibilidade de fazê-lo pelo site do Ticketronics, bastando escolher "Mistura Fina"e a data do Chivas Jazz Lounge correspondente.

...............................

Dando continuidade à série de Concertos Chivas Jazz Lounge, patrocinada pelo Whisky Chivas Regal, o CJUB retoma suas produções e apresenta seu 9º CONCERTO, com um TRIBUTO A JOHN COLTRANE, a ser realizado em 25 de março às 21:00h no Mistura Fina (Av. Borges de Medeiros, 3207 - Lagoa - fone 2537.2844).

O saxofonista Nivaldo Ornelas será a atração da noite (saxes tenor e soprano), acompanhado de seu grupo integrado por Kiko Continentino no piano, Sérgio Barrozo no baixo acústico e Pascoal Meirelles na bateria. No final do segundo set do concerto, Nivaldo contará ainda com a participação, como convidados especiais, dos músicos Marcelo Martins (sax tenor), Ricardo Leão (piano), Adriano Trindade (bateria) e Marcelo Mariano (baixo).
A produção desta noite é de Marzia Esposito, membro do CJUB. O repertório é baseado na obra do músico John Coltrane, com novos arranjos e também algumas músicas dos últimos dois álbuns de Nivaldo, “Reciclagem ao Vivo” e “Arredores”.

Set-list:

De Coltrane:
Naima; Giant Steps; Syeeda's Song Flute , do disco Giant Steps;
Mr. Day, de Coltrane Plays the Blues;
Central Park West de Heavyweight Champion: The Complete Atlantic Recordings;
Equinox , de The Last Giant: Anthology.

De outros compositores:
My Favorite Things (Rodgers/Hart); Body'N'Soul (B.Green); Nature Boy (Eden Ahbez); Lush Life (Billy Strayhorn); The Look of Love (B.Bacharat); Milestones (Miles Davis); Soul Eyes (Mal Waldron); On the Trail (Ferde Grofe); Laura (J.Mercer/D.Raskin); You Stepped Out of a Dream (G.Kahn/H.Brown)

Composições de Ornelas:
Roque Novo; Renascença; Variações sobre a música de John Coltrane; Rua Genebra.

A MISSA DE JORGE GUINLE

20 março 2004

Terça-feira, sete da noite. Toca meu celular e começo a conversar com a Claudia Fialho, relações públicas do Copacabana Palace. Ela inicia a conversa dizendo que conseguiu meu número com o Arlindo Coutinho, que por estar em São Paulo não poderia ajuda-la neste momento. Ela estava organizando uma missa em memória do Jorginho Guinle que seria realizada na quinta-feira, ou seja apenas dois dias depois do seu telefonema. Como Jorge Guinle era ateu, alguém sugeriu que na missa, ao invés de se tocar músicas sacras, tocasse jazz. Por isso a Claudia estava me telefonando, ela queria que eu encontrasse músicos e montasse um repertório para a missa. A tarefa estava destinada ao Coutinho, amigo de longa data da Claudia, mas lá de São Paulo seria impossível. Aceitei a tarefa, até porque além de ser um pedido do Couto e do modo gentil como a Claudia me pediu, poderia dizer um dia aos meus netos que eu fiz a produção musical da missa do Jorge Guinle (!).
Porém tinha apenas dois dias para encontrar e contratar dois bons músicos, um pianista e um saxofonista, montar um repertório condizente com o momento, que fosse de agrado do finado Jorginho, que fosse ainda conhecido pelos músicos, pelo público e que fosse aceito pelo padre. Não teria tempo para ensaios e só na hora os músicos saberiam em qual local iriam tocar na igreja.
Quando cheguei em casa liguei para o Bene-X para conseguir algumas sugestões, ele por sua vez ligou para o Mau Nah e no dia seguinte liguei para o mestre Raffaelli. Como o tempo era curtíssimo e normalmente os músicos tocam as quintas, estava difícil montar a dupla. Para piorar meu dia estava repleto de compromissos e passei o dia todo ao celular. Meu amigo Dôdo me passou o telefone do saxofonista Daniel Garcia que por sua vez conseguiu localizar o pianista Dario Gallante. Na quarta à noite a dupla estava formada. Na quinta pela manhã, depois de ouvir diversas sugestões do Bene-X e do Raffaelli decidi montar o repertório com “Body And Soul” na entrada, “Solitude” no ofertório, “In a Sentimental Mood” na comunhão e “When the Saints Go Marchin In’” na saída.
Quando cheguei na Igreja já estavam o Dário e o Daniel que conversavam com a Claudia. Passei as instruções aos músicos, conversamos com o padre e na hora da missa o que ouvimos foi divino. A música se encaixou perfeitamente no clima da missa e os presentes se emocionaram com a surpresa feita pela Claudia, já que ninguém sabia que iria ter jazz naquele momento. No final da missa os músicos tocaram por quase dez minutos “When The Saints Go Marchin In’” com vários improvisos e citações, enquanto os presentes se abraçavam, se despediam e se emocionavam. Muitos vieram parabenizar os músicos. Foi, sem dúvida, uma grande homenagem e fiquei muito feliz em poder ter participado dela.

Abraços,

Marcelink

N.do E.: Peço desculpas pela intromissão no post do Marcelink, mas o motivo é nobre. Saiu hoje uma nota na Coluna Gente Boa - de Joaquim Ferreira dos Santos, no segundo caderno do O Globo - a respeito da bela produção de nosso "faz-tudo". E a despeito de não citarem o autor do feito, considerado "emocionante", aqui está o link para a mesma, para quem quiser ler. Basta rolar a coluna até quase o final e lá está, realçado em vermelho. Bravo, Marceliiiiink!

JAZZ BEST-SELLERS

Aqui está a lista, segundo a Tower Records, dos 20 CDs de jazz mais vendidos atualmente em sua lojas.
1. THE MAGIC HOUR - WYNTON MARSALIS (BLUE NOTE 2004)
2. KIND OF BLUE (REMASTER) - MILES DAVIS (LEGACY 1997)
3. UP FRONT - PAUL BROWN (GRP 2004)
4. ANYTHING GOES - BRAD MEHLDAU (WARNER 2004)
5. COSITAS BUENAS - PACO DE LUCIA (BLUE THUMB 2004)
6. SKETCHES OF SPAIN (REMASTER) - MILES DAVIS (LEGACY 97)
7. SAPPHIRE BLUE - LARRY CARLTON (BLUEBIRD 2004)
8. TIME OUT (REMASTER) - DAVE BRUBECK QUARTET (COLUMBIA 94)
9. MICHAEL BUBLÉ (REPRISE 2003)
10. A THOUSAND KISSES DEEP - CHRIS BOTTI (COLUMBIA 2003)
11. SAXOPHONIC - DAVE KOZ (EMI 2003)
12. LIVE IN PARIS - DIANA KRALL (VERVE 2002)
13. JAZZ AFTER DARK - PLAYBOY JAZZ (PLAYBOY JAZZ 2003)
14. THE ESSENTIAL MILES DAVIS (LEGACY 2001)
15. THE ESSENTIAL DAVE BRUBECK (LEGACY 2003)
16. THE GREATEST HITS - NAT KING COLE (EMI 94)
17. BUENA VISTA SOCIAL CLUB (NOVESUCH 97)
18. DANCING IN THE DARK - TIERNEY SUTTON (TELARC 2004)
19. 20TH CENTURY MASTERS - ETTA JAMES (MCA 99)
20. JACO PASTORIUS (REMASTER) - (EPIC 2000)

Foram desconsiderados (por mim) os CDs da Norah Jones, Rod Stewart e do atual Harry Connick Jr por motivos óbvios, embora carimbados como discos de jazz pela famosa loja.

MICHEL LEGRAND, 18/3/2004, 1o. SET, MISTURA FINA - @@


Michel Legrand, o songwriter, está acima do bem e do mal. Legrand, o cantor, abaixo da crítica. E o Legrand pianista, ontem pelo menos, passou por média, mas "raspando".

Difícil começar assim, porque, afinal, everybody loves Legrand.

A própria persona do compositor, carismático e sempre bem humorado, parece suficiente para conquistar a audiência. Na verdade, ele já entra com a platéia conquistada.

E não é para menos. Se já é uma glória para qualquer um, conseguir compor um único tema que perdure no inconsciente coletivo por mais de dez anos, imaginem aquele que emplaca 10, 20 canções por cinco décadas ! Canções que se provaram verdadeiras "cúmplices", às quais a gente recorre a todo momento, geralmente sem se dar conta, cantando ou assobiando.

No panteão dos songwiters, Legrand estará ao lado dos americanos clássicos - Gershwin, Porter, Rodgers, Berlin, Mercer, Kern, Ellington - além de Jobim, entre nós, e, mais modernamente, Stevie Wonder, McCartney e outros "contados nos dedos".

Todos donos não de uma, mas de uma série de melodias simples, mas de trama genial, capazes de resistir ao tempo e aos modismos, seduzindo ouvintes de ontem, hoje e amanhã.

Mas nem só de carisma vive um músico, muito menos um show, principalmente quando a carreira de Legrand quase sempre esteve associada também ao mister de pianista de jazz, embora nisto evidentemente ofuscada por sua excelência como compositor e arranjador.

O Legrand pianista a que assistimos, no mesmo Mistura, na década passada, estava em boa forma, preocupado em manter sempre criativas suas intervenções e sabendo usar dos resquícios da ótima técnica que outrora demonstrou, advinda de suas origens no piano clássico.

Aos 72 anos, o Legrand do 1o. set de ontem, entretanto, não parecia disposto a oferecer mais que uma costura de clichês jazzísticos, mal apoiados nos discretos Sérgio Barrozo (contra-baixo) e Kiko Freitas (bateria).

Até Idriss Boudrioua (sax alto), destaque habitual em qualquer contexto, viu-se "amarrado" a um ou dois choruses que os "arranjos" lhe destinaram. Quando, afinal, ganhou maior espaço, em Dingo Rock - na verdade um funk - o show perigou mudar de dono, ao menos para quem a música era o que realmente importava.

Além daquele, outros temas menos conhecidos integraram o set-list, como Dingo Lament, também da trilha sonora co-assinada por Miles Davis e acertadamente exposto em andamento mais lento; a fraquíssima Ray Blues; e Family Fugue, anunciada como Fuga em Ré menor e que, embora produto da já batida fusão do Jazz com o Barroco, serviu para provar a atração do compositor pelo cromatismo, principal ingrediente em inúmeros de seus sucessos.

E as "cúmplices" ? Vieram, claro, desde a abertura, com Watch What Happens, passando por La Valse des Lilas (com direito até a scat singing); What Are You Doing the Rest of Your Life; Summer of 42 ( L'été 42); terminando com Windmills of Your Mind (Le Moulins de Mon Coeur) no bis; ou seja, simplesmente quatro das baladas mais lindas já feitas até hoje.

Exatamente para elas - e só para elas - vão as duas "orelhas" (@@). O capricho da verdadeira arte é que a obra, por sua grandeza, acaba se independendo do criador. No caso do Legrand de hoje, a música resiste - em ambos os sentidos - ao performer.

Um tanto frustrado e já no carro, fui logo apertando o play e McCoy Tyner - apenas seis anos mais jovem que o colega francês, mas tocando como nunca (v. Tim Festival) - tratou de discorrer majestoso no idioma em que Michel Legrand um dia tão bem se exercitou.