por David Benechis
Que
José Sá - uma vida inteira de amor à música, já a começar da linhagem ilustre - proporcionaria ao afortunado público de ontem à noite, no
Epitácio, um concerto magnífico, disto ninguém duvidaria.
Pois a eletricidade correu já desde os primeiros acordes de
I Remeber You (
Mercer/Schertzinger), quando, superadas as microfonias,
Edson Lobo e seu quinteto enfim arrancaram para o triunfo, obtido, em grande parte, graças à
fase iluminada por que o líder e, em especial,
Paulinho Trompete (
flugelhorn), provaram estar vivendo.
Associados aos também luminosos
Ricardo Pontes (sax alto),
Fernando Moraes (piano) e
Wallace Cardoso (bateria), além das convidadas especiais,
Tita Lobo (nos temas brasileiros) e
Wandá Sá (no apoteótico
bis final), todos conduziram a audiência a uma rara experiência de exponencial felicidade.
Após décadas a serviço do
Jazz e da Bossa Nova,
Lobo - de presença bissexta em nossos palcos -
ostenta domínio tal do contrabaixo, que se dá ao luxo de tocar de modo perturbadoramente relaxado,
"estalando" as cordas abaixo do espelho (parte frontal do braço do instrumento) e praticando ignorando o polegar como alavanca para a mão esquerda, numa heterodoxa técnica, cujo resultado, entretanto, continua a impressionar pelo som cheio e pronunciado, o mesmo desde seus tempos com
Dom Salvador, nos anos 60.
Brilharam sempre a consistência de seu
walking e a imaginatividade dos solos, como no clássico maior de
Oliver Nelson,
Stolen Moments, cuja inesperada citação de
Summertime (
Gershwin) pareceu contagiar o grupo, quase pondo a perder a atmosfera
cool original do tema.
Mas a
estrela indiscutível da noite foi o flugel de Paulinho Trompete, em tamanha forma que hoje rivaliza, no Brasil, unicamente com
Cláudio Roditi, nada pouco em se tratando, este último, de um dos 20, talvez 10 maiores do
Jazz, hoje, no instrumento.
Estavam lá não só efeitos como a "respiração circular" e o "
reverbe", mas a velocidade e os
riffs de
Freddie Hubbard, assim como o som
distinctive dos grandes mestres do primo aveludado do trompete,
Art Farmer e
Clark Terry, notadamente na emblemática
My Funny Valentine (
Rodgers/Hart), cujo solo pareceu evocar, a princípio,
Miles Davis com seu famoso sexteto de 1958 (
58 Sessions Featuring Stella by Starlight,
Columbia). Em poucas palavras:
Paulinho assombrou a todos com a paixão e fluência privativos de um artista superior.
A seu lado no
front line,
Ricardo Pontes, embora sempre em 1ª pessoa, também rendeu homenagem aos gigantes do alto, como
Charlie Parker, em
Like Someone in Love (
Burke/VanHeusen), 2º
bis da noite;
Jackie Maclean, em
Yesterdays (
Kern/Harbach); e
Phil Woods, na acelerada
On Green Dolphin Street (
Kaper/Washington), esta merecendo solo destacado do jovem e promissor baterista,
Wallace Cardoso.
Dignas de nota, entre as demais composições contempladas,
Chovendo na Roseira (
Jobim), com belo arranjo e
levada constante e crescente, e,
Emily (
Mandel/Mercer), dando espaço a
Fernando Moraes, que o tempo todo lutou contra o volume baixo do piano.
Até ali, a inclusão de "
bossas", como
Vivo Sonhando (
Jobim), aparentava quebrar, de certo modo, o formidável
punch de
blowing session que pontuou a noite. Impressão imediatamente desfeita com a subida ao palco de
Wanda Sá, que, no compasso
swingado de
Tita Lobo (violão), deu, em
Água de Beber (
Jobim/Vinícius), a
pressão que faltava, pondo abaixo a casa, num encerramento glorioso.
Certamente, uma última quarta-feira para tornar inesquecível, de vez, o
Epitácio, berço do
Chivas Jazz Lounge.
[outras fotos do Concerto: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7]