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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

06 dezembro 2014


ALGUMAS  POUCAS LINHAS SOBRE A
GUITARRA E OS GUITARRISTAS  -  33

Lloyd Tiny Grimes, TINY GRIMES, guitarrista norte-americano, nasceu na cidade de Newport News, estado da Virgínia no leste americano e denominado “Old Dominion" e/ou “Mother of Presidents"(cuja capital é Richmond e abrange mais 134 cidades, entre as quais e mais conhecidas são Gloucester, Madison, Chester, Fairfax, Norfolk, Lexington e Bedford), no dia 07 de julho de 1916, vindo a falecer aos 72 anos, vítima de meningites, em New York e no dia 04 de março de 1989.
Iniciou-se na música pela bateria que tocou nos grupos escolares, mas com 19 anos e em Washington decolou profissionalmente como pianista, até completar 22 anos.
No ano de 1938 passou a residir em New York e a tocar e dançar no “Rhythm Club”.
Aprendeu a guitarra de forma auto-didata para, em 1940, integrar o grupo “Cats And A Fiddle” (Austin Powell / guitarra, George Steinbeck / baixo e Ernie Price / ulelelê), inspirado no grupo “Ink Spots”.
Suas primeiras, posteriores, contínuas e grandes influências foram Oscar Moore (do trio de Nat “King” Cole) e Charlie Christian.
Em 1941 e na Califórnia conheceu o grande Art Tatum em uma “jam-session” e, como nada acontece por acaso, o pianista convidou-o a unir-se a ele e ao baixista Slam Stewart;   impossível para GRIMES melhor oportunidade, tanto que o trio assim formado permaneceu “na estrada” até 1944, tornando-se mais que histórico, emblemático para esse tipo de formação.
As gravações do trio ou acompanhados (durante a permanência do trio Tatum / GRIMES / Slam ou em 1945) passam a somar dezenas de obras primas, sendo válido indicar para os aficcionados o estojo “Memories Of You” do selo “Black Lion”, tendo Art Tatum como líder.   
São 03 CD’s:  (01) “The V-Discs” com 14 faixas, Tatum / GRIMES / Slam este substituído por Oscar Pettiford no contrabaixo em algumas faixas e mais “Big” Sid Catlett à bateria no clássico “Sweet Lorraine”,  (02) “Standards” com 25 faixas em piano-solo de Tatum  e  (03) “Tea For Two” com 20 faixas, Tatum / GRIMES / Slam com acompanhamentos do quilate de Roy Eldridge, Charlie Shavers, Vic Dickenson, Benny Morton, Ben Webster e Edmond Hall.    É item obrigatório para jazzófilos e apreciadores da QUALIDADE.
No final de 1944 GRIMES retornou a New York e montou seu próprio,  grupo, o “Tiny ‘Mac’ Grimes and the Rocking Highlanders”, que rapidamente tornou-se atração importante na “Rua 52” (“a rua que nunca dorme”, como era conhecida e sobre a qual escrevemos mais adiante).
Ainda em 1944 e sob a denominação de “Tiny Grimes Quintet”, GRIMES tem a oportunidade de entrar para a história do JAZZ, ao gravar para a etiqueta “Savoy” em companhia de Charlie Parker, no dia 15 de setembro e ns “Estúdios WOR”, de New York.  Nessa ocasião o quinteto formou com Parker / sax.alto, Clyde Hart / piano, GRIMES / guitarra, Jimmy Butts / baixo e Harold “Doc” West / bateria.    Foi a primeira gravação de Parker em “combo” (anteriormente suas gravações ocorreram no contexto das “big bands” de Jay McShann e de Billy Eckstine).  Foram registradas as faixas “Tiny’s Tempo” (03 tomadas), “I’ll Always Love You Just The Same” (03 tomadas), “Romance Without Finance” (05 tomadas) e “Red Cross” (02 tomadas).
No ano seguinte e em 22 de setembro, GRIMES voltou a atuar ao lado de Parker em uma “Symphony Sid Session And Dance” no “Fraternal ClubHouse”, em show que contou com Buck Clayton, Dexter Gordon, Al Killian, Al Haig, Billy Taylor e Trummy Young, entre outros.    Esse tipo de show era promovido pelo apresentador Symphony Sid.
Em janeiro de 1946 GRIMES integrou as gravações do “Metronome All Stars”, constituído pelos músicos vencedores da enquete de 1945 e promovida pela revista “Metronome”.
Aqui abrimos um parênteses para focar um pouco sobre a “rua que nunca dorme”, a famosa e sempre citada “Rua 52”.
Um pouco distante do Harlem a “Rua 52”, no quarteirão entre as 5ª e 6ª Avenidas, era formada por um conjunto de prédios datados do início do século XX, de 04 pavimentos e com fachadas revestidas de azulejos marrons (esses prédios eram “colados” lateralmente).  Quando de sua  construção cada um desses prédios pertencia a uma das famílias influentes da cidade, mas uma certa deterioração desde o final dos anos 30 era evidente, com problemas permanentes nas instalações elétricas, canalizações de água, de esgoto e demais instalações.   Os prédios passaram a abrigar estúdios fotográficos, agências de detetives particulares, salões de dança, ateliês de cartazistas, escritórios de importação / exportação e outros.   Foi aí que os “clubs” se instalaram imediatamente antes e durante os anos da IIª Guerra Mundial.    De dia a “Rua” parecia sombria, mas as noites eram plenas de JAZZ, reunindo simultaneamente e espalhados nas diversas casas noturnas nomes como Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Coleman Hawkins, Art Tatum, Sidney Bechet, Bobby Hackett,  Zutty Singleton, Max Roach, Kenny  Clarke, TINY GRIMES, Red Norvo, Howard McGhee, Thomas “Fats” Waller e tantos e tantos outros.      Na  “Rua 52” a quantidade e a proximidade relativa das casas noturnas era impressionante e, além do mais e em endereços  praticamente vizinhos (Broadway e Rua 48), outras casas noturnas transformaram a região em roteiro obrigatório para os apreciadores da “Arte Popular Maior” do JAZZ.   Senão, vejamos:    

C l u b e
E n d e r e ç o
P e r í o d o
Famous Door
35W      52nd  Street
1935-1936
 
66W      52nd  Street
1937-1943
 
201W    52nd  Street
1943-1944
 
56W      52nd  Street
1947-1950
Kelly’s Stable
137W    52nd  Street
1940-1947
Downbeat
66W      52nd  Street
1944-1948
Samoa
62W      52nd  Street
1940-1943
Onix
35W      52nd  Street
1927-1934
 
72W      52nd  Street
1934-1937
 
62W      52nd  Street
1937-1939
 
57W      52nd  Street
1942-1949
Tony’s
59W      52nd  Street
1934-1950
Yacht
38W      52nd  Street
1934-1938
 
150W    52nd  Street
1938-1944
 
66W      52nd  Street
1944
Hickory
144W    52nd  Street
1933-1968
Flamingo
 38W    52nd  Street  (*)
1938-1954
Spotlite
 56W    52nd  Street
1944-1946
Three Deuces
  72W   52nd  Street
1937-1950
21  Club
 21W    52nd  Street  (*)
1932
Leon & Eddie’s
  33W   52nd  Street   (*)
1934-1954
Jimmy Ryan’s
  53W   52nd  Street
1940-1962
Birdland
1678 Broadway
1949-1967
Royal Roost
1574 Broadway
1948-1953
Ebony
1678 Broadway
1944-1948
The Clique
1678 Broadway
1948-1949
Bandbox
1680 Broadway
1953
Bop City
1619 Braodway
1948-1950
Cotton Club DT
200W 48th Street
1936-1940
(*)    Casas   noturnas   não    essencialmente   de  JAZZ

Se forem observados os endereços anteriores, nota-se que quase na mesma época 08 “clubs”  defrontavam-se na “Rua 52” entre a 5ª e a 6ª Avenidas:  
-        no lado ímpar  21 Club (21W),  Leon & Eddie’s (33W),  Jimmy Rian’s (53W) e   Ônix (57W);
-        na calçada par ladeavam-se o Spotlite (56W), o Samoa (62W), seguindo-se o Downbeat (66W) e o Three Deuces (72W).      
No Norte da ilha (Manhattan, acima do Central Park North, no Harlem e proximidades), localizavam-se os demais endereços de destaque, para o JAZZ e no circuito de espetáculos:   Sugar Hill, Connie’s Inn (ao lado do Lafayette Theater), Savoy Ballroom (no 596 da Lenox Avenue), Lenox Club (na Rua 135, que funcionava das 23.00 às 07.00hs e era ponto regular para  “jam-sessions”), Cotton Club (no 644 da Lenox Avenue), o Apollo Theater (na Rua 125) e, claro, o Minton’s Playhouse (210W 118th Street, entre as 7ª e 8ª Avenidas).
O Minton’s Playhouse abriu suas portas em 1938 (Henry Minton, um ex-saxtenorista era o proprietário), tendo como Gerente a partir de 1940 um ex-bandleader, Teddy Hill.   Era habitual que as estrelas do vizinho Apollo Theater, após o espetáculo, fossem jantar no Minton’s, cujos pontos fortes, além da música, eram a cozinha à base de frango frito com vegetais da estação e a dose gratuita de whiskey.  É ponto histórico pacífico que esse foi o berço e a primeira infância do “Bebop”.
Fechamos esse parênteses, com GRIMES seguindo para Cleveland em 1957, onde se estabeleceu e a partir de onde já havia realizado numerosas temporadas de  1951 e até 1955, para depois radicar-se na Filadélfia.
Em 1959 GRIMES gravou para o selo “Swingville” com Coleman Hawkins, Charlie Shavers, Ray Bryant, George Duvivier e Osie Johnson, com destaque para o tema “Hawk Eyes”, que deu título ao álbum.
No início dos anos de 1960 GRIMES retornou a New York, atuando regularmente em clubes do Harlem e de Greenwich Village.
Realizou temporadas na Europa:  em 1968 com Milt Buckner, com grande êxito de público e de crítica principalmente em Paris, e em 1970 com Jay McShann.
No final dos anos 1970 GRIMES gravou para o selo “Prestige Records” uma série de temas baseados no “blues”, tendo como intérpretes, entre outros, Coleman Hawkins, Illinois Jacquet, Pepper Adams, Roy Eldridge e, em 1977, Earl Hines.
GRIMES foi acompanhante em clubes, em temporadas e em gravações, de vários músicos excelentes, entre os quais podem ser destacados Buck Clayton, Coleman Hawkins, Jerry Valentine, Ike Quebec, Earl Bostic, Cozy Cole e “Lady Day”, claro Billie Holiday.
GRIMES utilizava uma guitarra tenor de 04 cordas, instrumento típico para banjoistas em transição para a guitarra, com muito “swing” e bastante vigor e tal como suas primeiras influências (Charlie Christian e Oscar Moore), com um fraseado muito equilibrado, sóbrio e extremamente musical..  Foi um excepcional acompanhante, como um metrônomo preciso, imutável, ágil e vigoroso. Ainda assim seu estilo nos lembra Lonnie Johnson e Eddie Lang.
Podemos destacar como algumas de suas principais gravações, além das citadas ao longo dessas notas:
-        “Tiny’s Tempo” (com Art Tatum), 1944;
-        “Body And Soul”, 1944;
-        “Flying Home”, 1944;
-        “Marchin’ Along” (com Coleman Hawkins), 1958;
-        “Blues Wail”, 1958;
-        “Frank And Johnny Boogie”, 1970;
-        “Lloyd And Lloyd Boogie” (com Lloyd Glenn), 1974;
-        “Romance Without Finance”, 1977.
O falecimento de GRIMES em 1989 privou-nos de um músico excelente, mas que nos legou discografia de qualidade, seja como líder, seja como “sideman”.
Retornaremos à guitarra e aos guitarristas em próximo artigo.

apostolojazz@uol.com.br

 

Um comentário:

MARIO JORGE JACQUES disse...

Prezado Pedro, excelente a resenha sobre Grimes e principalmente o adendo
sobre a “rua que nunca dorme”. Abração