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26 fevereiro 2013

WAYNE SHORTER: ACROBACIAS MUSICAIS SEM REDE DE PROTEÇÃO

Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
JB, 23 de fevereiro


Em junho de 2011, o quarteto do magnífico saxofonista-compositor Wayne Shorter eletrizou os jazzófilos que tiveram o privilégio de ouvi-lo no Festival BMW, realizado no eixo São Paulo-Rio. Escrevi então, neste JB, que “no mais requintado e criativo 'jazz combo' dos últimos 10 anos melodia, ritmo e harmonia se entrelaçam em linhas ao mesmo tempo distintas e convergentes, num inusitado processo de sístoles e diástoles”. E que se a voz do líder é preponderante, mestres Danilo Perez (piano), John Patitucci (baixo) e Brian Blade (bateria) são chamados a intervir no processo criativo com bravura, de maneira totalmente franca.
Reescrevo estas observações porque elas me voltam à mente depois de repetidas audições do recém-lançado CD Without a Net (Blue Note), que contém oito faixas gravadas durante aquele mesmo ano, numa tournée europeia, por esse grupo que se nivela, em termos de inventividade e de livre arbítrio, aos quartetos de Ornette Coleman e de John Coltrane do início da década de 1960. A nona faixa do disco, a mais longa, de 23 minutos, é uma peça na linha da Third Stream Music (vide Günther Schuller), com a participação do quinteto de sopros Imani Winds, tipicamente camerístico, nas partes escritas ou arranjadas “de cabeça”. Ou seja, o quarteto vira noneto em quase 2/3 da duração da peça, mas o sound of surprise que caracteriza o bom jazz e, em especial, a música de Shorter, é tão mágico que, a certa altura (7m18), um dos músicos não consegue se conter, e exclama: “Oh my God!”.

O novo álbum do quarteto de Shorter é o quarto, depois de Footprints Live! (2002), Alegria (2003) e Beyond the Sound Barrier (2005), estes três editados pela Verve. E o título Without a Net, ou seja, “sem rede de proteção”, é muito apropriado, pois os quatro jazzmen assumem todos os desafios e riscos inerentes à criação de uma música sem a habitual lógica das chords changes e da divisão de solos ou choruses a partir de um determinado tema, em geral na forma AAB (ponte)A. Aliás, o próprio ícone do jazz, que comemora 80 anos em agosto, disse em recente entrevista: “I'm not a composer, I'm a decomposer”.

Desde a primeira action playing de Without a Net, que é Orbits (4m45), tema escrito para o LP Miles Smiles (1967), daquele célebre quinteto modal de Miles Davis, as “decomposições” do saxofonista (mais no sax soprano do que no sax tenor) vão surgindo de maneira fragmentária. Às vezes, a partir de ostinatos sombrios do piano ou do baixo, em crescendos que chegam a cumes vertiginosos. Starry Night (8m45) abre com o piano de Perez, até os 2m30, insinuando-se então, em murmúrios, o contemplativo sax tenor do líder, que se torna mais e mais incisivo, num clima polirrítmico, até o zênite da faixa (lá pelos 6m), quando a bateria e o sax soprano promovem um exuberante final.

Wayne Shorter escreveu Plaza Real para o álbum Procession (1983), do grupo fusionista Weather Report, de Joe Zawinul. No novo disco, a melodia é inicialmente “decomposta” pelo tandem sax soprano-piano, e o quarteto é lava fervente em constante ebulição. S.S. Golden Mean (5m15) é outro momento fascinante dessa gravação ao vivo, na base do aqui e agora, com citações de Manteca (o tema Latin-bop de Dizzy Gillespie) e evoluções acrobáticas de Shorter no soprano. Myrrh (3m05) é a faixa mais curta do álbum, mas nem por isso menos hipnótica. Flying Down to Rio (12m45), tema de um filme de 1933 (!) da dupla Fred Astaire-Ginger Rogers, começa com um simples assovio de Shorter, mas logo depois o seu sax soprano “voa” por sobre a batucada de Blade e o piano percussivo de Perez.

Um comentário:

RENAJAZZ disse...

COISA HORROROSA DETESTEI ESTE DISCO ELE JA NÃO PRECISA ENTRA NO ESTUDIO DE GRAVAÇÃO PARA FAZER UMA GROSSA PORCARIA ... LAMENTAVEL.. DESDE DE JA RESPEITO A OPINIÃO DE TODOS POS GOSTO REALMENTE NÃO SE DISCUTE