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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

20 julho 2012

ALGUMAS POUCAS LINHAS SOBRE A

GUITARRA E OS GUITARRISTAS  -  22

Albert Edwin Condon, artisticamente “EDDIE” CONDON, guitarrista e banjoista americano, nasceu na cidade de Goodland (estado de Indiana) em 16 de novembro de 1905 (alguns biógrafos indicam 16 de julho), vindo a falecer aos 68 anos no dia 04 de agosto de 1973, em New York.
“EDDIE” garantiu seu lugar na história do JAZZ não apenas como guitarrista, mas também como organizador e líder de grupos, empreendedor, apresentador em concertos, em festivais, participação em programas de rádio e de televisão, além de escritor de 03 livros biográficos, no estilo jornalístico, com destaque para sua obra de 1948, “We Called It Music”.
Seu sucesso e popularidade centrou-o como figura exponencial do “dixieland”, do JAZZ tradicional, com destaque para o nascimento e o desenvolvimento da “escola de Chicago” = significativa parcela das gravações dessa escola foram produzidas tendo-o como líder, ou por sua iniciativa, ou com sua participação como “sideman”.

“EDDIE” iniciou-se no banjo ainda adolescente, estreando profissionalmente com a idade de 15 anos, dentro da formação do saxofonista Hollies Peavey; com este participou de extensa temporada por toda a América do Norte, a bordo de um caminhão adaptado como trailer.
Após essa primeira experiência profissional, “EDDIE” radicou-se em Chicago, onde teve oportunidade de tocar com o genial “Bix” Beiderbecke, mantendo com ele forte amizade.
Seguiu-se em 1924 nova temporada com a turma de Chicago, fruto de um contrato com o cabaret “Cascades”, de duvidosa reputação e situado na zona norte da “windy city”, de propriedade do empresário Husk O’Hare. Ali teve a companhia de Bud Freeman e de Jimmy McPartland, entre outros músicos brancos.
Com a ajuda de Red McKenzie “EDDIE” organizou as legendárias sessões de gravação de dezembro de 1927 (perpetuando os temas China Boy” e “Nobody Sweetheart”), marcando o nascimento da “escola Chicago”.
Após a ida de “EDDIE” para New York no verão de 1928, ele seguiu colaborando com McKenzye, integrando o grupo “Mound City Blue Blowers”. Sobre esse grupo destacamos os seguintes fatos:
(a) contou com arranjos de Glenn Miller;
(b) gravou algumas preciosidades, entre as quais “Oner Hour” e “Lola”;
(c) contou com as participações de Coleman Hawkins e de um dos clarinetistas mais representativos da “escola Chicago”, Pee Wee Russell;
(d) foi um grupo que oscilou entre “altos e baixos”, já que também produziu gravações que não foram bem recebidas por público e crítica.
Em New York “EDDIE” foi capaz de reunir diversos músicos brancos com os quais já havia “terçado armas” em Chicago: Frank Teschemacher, Gene Krupa, Milton “Mezz” Mezzrow, Joe Sullivan e Jimmy McPartland, entre outros. A partir desse reencontro e ainda no verão de 1928 “EDDIE” organizou diversas sessões de gravação, buscando reeditar os sucessos de 1927, sem muito sucesso.
Durante o ano de 1929 “EDDIE” atuou e gravou ao lado de Louis Armstrong e de Thomas “Fats” Waller, o que representou uma feliz junção de músicos negros e brancos, em função da admiração que estes nutriam por aqueles.
Ai notava-se a diferença comportamental entre esses oriundos de Chicago, em relação aos músicos de New York, então francamente racistas: “Red” Nichols, Joe Venutti e Miff Mole, entre outros (ainda que no longa metragem “The Five Pennies”, versão cinematográfica sobre a carreira de Loring “Red” Nichols, em português “A Lágrima Que Faltou”, protagonizada por Danny Kaye, tenhamos cenas de Armstrong com “Red” Nichols”). Ainda sobre “Red” Nichols é certo que ele e “EDDIE” atuaram juntos nesse ano de 1929, encontro de certa forma inevitável já que “Red” havia atuado anteriormente com outros músicos da “escola Chicago”.
Em 1932 “EDDIE” uniu-se ao grupo misto de brancos e negros, o “Rhythmakers”, onde atuou o grande trumpetista de Algiers/Louisiana, Henry “Red” Allen; mesmo com a lógica influência no grupo de “Red” Allen, um tradicionalista com sólida origem musical em New Orleans, a “escola Chicago” imperava na sonoridade do grupo.
Em 1933 “EDDIE” gravou sob seu próprio nome ao lado de Floyd O’Brien, Russell Freeman, Joe Sullivan e Max Kaminsky, com destaque para o tema “The Eel”, veículo para o sucesso popular do grande tenorista Bud Freeman. Essa gravação marca a ampliação de perspectivas para os “tenoristas”, com um claro “grito de independência” da influência de Coleman Hawkins, então dominador na técnica e na sonoridade do sax.tenor.
A partir de então e por um período que vai até 1936, “EDDIE” conviveu com a obscuridade, retornando nesse ano ao lado do clarinetista e saxofonista Joe Marsala, para atuar em inúmeros clubes da “big apple”.
No mês de janeiro de 1938 “EDDIE” formou o grupo “Windy City Seven” = “EDDIE” CONDON, Bobby Hackett, Jack Teagarden, George Brunis, Pee Wee Russell, Bud Freeman e Jess Stacy, entre outras “estrelas”, foram destaques no grupo, protagonista das primeiras e históricas gravações do selo “Commodore” do empresário Milt Gabler. “Commodore” era o nome da loja da “Rua 52”, onde se reuniam os músicos de JAZZ residentes em New York. Essas gravações, excelentes, constituem-se em um claro “divisor de águas” para “EDDIE”, que inicia seu afastamento do “dixieland” clássico em direção à linguagem de solistas de exceção, notadamente Pee Wee Russell. Por essa mesma ocasião esse mesmo grupo, sob o comando de Bud Freeman para o selo “Commodore” e sob o comando de Bobby Hackett para a etiqueta “Vocalion”, retornou aos estúdios de gravação.
Em 1939 “EDDIE” foi incorporado ao grupo “Summa Cum Orchestra”, dirigido por Bud Freeman, que participou de sessão promovida pelo empresário George Avakian, reunindo os melhores músicos de Chicago.
Durante o período da IIª Guerra Mundial “EDDIE” organizou e apresentou dezenas de concertos no “Ritz Theatre” e no “Town Hall” de New York, transmitidos via rádio “em direto” para as Forças Armadas Americanas no “front”. Foram concertos com a participação dos então maiores nomes do JAZZ, apoiados por uma banda em que figuraram os trumpetes de Bobby Hackett, Mugsy Spanier, Max Kaminsky e Billy Butterfield, os trombones de Miff Mole e Lou McGarity, os clarinetes de Edmond Hall, Pee Wee Russell, Joe Dixon e Joe Marsala, o sax.barítono de Ernie Cáceres, o pianismo dos grandes Gene Schroeder, Joe Bushkin e Jess Stacy, o contrabaixo de Jack Lesberg e as baterias de Krupa e George Wettling. Esses históricos concertos em muito projetaram a figura de “EDDIE”, vencedor pela revista “Down Beat” das enquetes de 1942 e de 1943, como melhor guitarrista.
No final de 1945 “EDDIE” instalou seu próprio clube de JAZZ, o “Condon’s Club”, em plena “Greenwich Village” (mais tarde, em 1958, mudou-se para o “East Side”), ponto de encontro dos músicos de New York e reduto dos amantes do JAZZ “tradicional”.
Simultaneamente “EDDIE” CONDON seguiu realizando concertos, muitos dos quais via rádio e em seu próprio programa “Condon Floor Show” de 1949, em que as “estrelas” foram ninguém menos que Louis Armstrong, Sidney Bechet, Billie Holiday, Jack Teagarden e Teddy Wilson, entre outros: uma galáxia ! ! !
“EDDIE” seguiu gravando para as etiquetas Columbia (atual Sony) e Decca, contando com os músicos com os quais atuara no “Town Hall” durante a segunda grande guerra. Entre essas gravações merecem especial destaque as prensadas para a Columbia entre 1953 e 1956 (ao lado de Wild Bill Davison, Cutti Cutshall, Edmond Hall, Gene Schroeder, Walter Page e George Wettling = vide indicação discográfica ao final), onde fica evidente o afastamento da “agressividade” inicial dos “chicagoans”, com todos já agora em clima relaxado, com altas doses de “swing” e lembrando a “máquina de fazer swing” de Count Basie = aqui lembramos a presença do contrabaixo de Walter Page e a influência de Freddie Green em “EDDIE”, vale dizer e em certa medida, a quase presença de 50% da “all american rhythm section” de Basie.
Nos anos de 1954 a 1956 “EDDIE” atuou em formação “all stars” no festival de Newport, seguindo em 1957 para temporada na Inglaterra.
Em 1961 “EDDIE” CONDON foi organizador e apresentador de programa de televisão inteiramente dedicado ao JAZZ de Chicago, trazendo para a tela todos os antigos músicos do estilo, ainda vivos; esse programa foi gravado pela etiqueta VERVE (leia-se Norman Granz), talvez representando o derradeiro e magno exemplo da “escola Chicago”.
O ano de 1964 vai encontrar “EDDIE” em extensa temporada na Austrália e no Japão, comandando formação, com certeza uma das melhores e mais consistentes formada por CONDON, em que alinharam Buck Clayton, Vic Dickenson, Pee Wee Russell, Bud Freeman, Dick Cary, Jack Lesberg, Cliff Leeman e Jimmy Rushing. Esse grupo foi gravado pelo selo “Chiaroscuro”, deixando-nos o testemunho da emancipação do grupo da polifonia tradicional, para a liberdade dos solistas em um contexto “mainstream”.
“EDDIE” pagou caro tributo à sua dependência alcoólica, tendo que realizar seguidas intervenções cirúrgicas (pâncreas, estômago, fígado), mas conseguiu retornar em 1967, escudado pelo sempre fiel Wild Bill Davison.
Em 1970 “EDDIE” atuou em grupo onde brilhavam Roy “Little Jazz” Eldridge e o grande trombonista Kai Winding, para seguir apresentando-se em duo com o também guitarrista Jim Hall (vide “Algumas Linhas Sobre a Guitarra e os Guitarrista nº 09”).
1971 proporcionou a “EDDIE” CONDON uma longa temporada por todos os U.S.A., com o grupo “Stars Of Jazz”, integrado por ele e Wild Bill Davison, Barney Bigard e Art Hodes.
Participou ainda em várias edições do “Festival de Jazz de Manassas” (Virginia).
A extensa discografia de “EDDIE” inclui gravações para as etiquetas “Chiaroscuro”, “Jazzology” e “Fat Cat Jazz”.
O derradeiro concerto de “EDDIE” CONDON foi realizado no “Carnegie Hall”, em 1972. Isso significa que ele trabalhou até praticamente seus derradeiros dias de vida, mas rendeu-se, em agosto de 1973, ante seu declínio físico progressivo. Legou-nos obra discográfica imortal e da mais alta importância.
Muito valorizado pelos músicos, ainda que pouco valorizado pela mídia como figura seminal entre os “chicagoans”, “EDDIE” teve o grande mérito de modernizar gradativamente e com grandes inteligência e perspicácia o que podemos denominar como a transição “dixieland/chicago”, mantendo o espírito e a integridade dos mesmos até e sem dúvida, o limite de unir-los à “mainstream” do JAZZ. Foi uma “barreira” ante o surgimento do “bebop”, garantindo a perpetuação das raízes.
“EDDIE” foi um dos primeiros guitarristas a utilizar a “guitarra-tenor” de 04 cordas, sendo certo que é o mais característico ilustrador das pulsações rítmicas dos “chicagoans”, esquematizando claramente, e mais que o contrabaixo e a bateria, a base rítmica que marca os 04 compassos. Raramente o ouvimos solando, ficando em segundo plano para o ouvinte, mas tornando-o essencial para os músicos que acompanha, que nele se escoram pela sua pulsação metálica e “doce”. O grande trumpetista e cornetista Bobby Hacket definiu como o “melhor guitarrista rítmico do JAZZ”.
Destaques entre as centenas de gravações de “EDDIE” CONDON, além das já citadas no texto anterior:
- 1927 Sugar
- 1928 I’ve Found A New Baby - “Chicago Rhythm Kings
- 1929 I Can’t Give You Anything But Love - “Louis Armstrong”
- 1929 The Minor Drag - “Fats Waller”
- 1936 That Foolish Things - “Bunny Berigan”
- 1954 Jammin” At Condon’s - “Eddie Condon”
- 1957 The Eddie Condon All-Stars - Dixieland Jam - “Eddie Condon”.
Retornaremos à guitarra e aos guitarristas em próximo artigo.

apostolojazz@uol.com.br

Um comentário:

MaJor disse...

Artigo perfeito, Condon realmente foi um baluarte do jazz de Chicago - DIXIELAND.
Em SUGAR GENE KRUPA pela primeira vez grava com todos os apetrechos de sua bateria para desespero de Tommy Rockell empresário da Okeh Records, porém deu tudo certo. Abração Pedro