Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Luiz Carlos Antunes (Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), , Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).

BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

24 fevereiro 2012

DODO MARMAROSA – UM PIANISTA FABULOSO
ESQUECIDO NA POEIRA DO TEMPO

Sigo publicando artigos do Mestre RAF, grandes pérolas do conhecimento da história do jazz onde podemos tomar contato - falo apenas por nós, os não-Mestres - com algumas personagens menos conhecidas mas nem por isso menos relevantes e geniais do universo jazzístico. Curtam!

A Era do Bebop produziu um gigante do jazz: Charlie Parker, um punhado de jazzmen de primeira categoria e uma quantidade de músicos com grande potencial que não viveram além do suficiente como extraordinárias promessas. Um desta última categoria que chegou muito perto foi Dodo Marmarosa. No auge da sua carreira, ele foi um dos mais excitantes pianistas de jazz, considerado o novo astro mais capacitado a vestir o manto real de Art Tatum.

Dodo Marmarosa nasceu em Pittsburgh em 19 de dezembro de 1925 numa família italiana de classe média. Seu nome era Michelle Marmarosa. Ele iniciou as primeiras lições de piano ainda menino sob a direção de professores enraizados na música clássica. Ainda rapazinho era obrigado a praticar muitas horas diariamente sempre vigiado de perto pelos professores. Não sobrava tempo para Dodo praticar esportes ou ter atividades sociais, concentrando-se unicamente nos estudos de piano. A idéia de Dodo mais aproximada do lazer era divertir-se diariamente em tocar a Two-Part Inventions de Bach aumentando gradualmente o andamento até suas escalas alcançarem o dobro da velocidade medida pelo metrônomo.
Na escola, o jovem fanático pelo piano não participava da prática de esportes devido à sua inaptidão e às exigências dos seus professores de piano, que o sobrecarregavam de aulas e estudos. Socialmente sua vida também não era melhor. Sua alienação devia-se ao fato do seu apelido (Dodo, que significa pato) originado devido ao seu pequeno porte e sua enorme cabeça desproporcional ao corpo, além de ter um pronunciado nariz de falcão. O apelido permaneceu para sempre, relegando seu nome Michelle apenas a constar em seus documentos e recibos de pagamentos oficiais.
O jazz tornou-se a válvula de escape dele para deixar seus estudos de piano com os professores de música clássica. Dodo estudou em sua cidade natal com Mary Lou Williams e Earl Hines, dois notáveis pianistas da história do jazz. Mais tarde tornou-se um discípulo de Art Tatum, como aconteceu com virtualmente todos os pianistas que aspiravam tocar jazz. A maestria inigualável de Tatum não estava além das expectativas de Dodo. Poucos foram tão disciplinados como ele em ouvir e absorver os ensinamentos dos solos de Tatum. Aos 15 anos Dodo possuía um formidável domínio da técnica pianística. Seu toque era claro, preciso e fluente. Graças aos exercícios de Two-Part Inventions, sua mão esquerda adquiriu o mesmo desembaraço e mesma independência da mão direita. Ele também lia música à primeira vista com total facilidade. Sua técnica desenvolvida rapidamente aliada à sua segurança e agilidade no teclado permitia-lhe tocar em andamentos tão velozes como somente Tatum conseguia.
No início dos anos 40 as orquestras de dança começavam a sofrer desfalques dos seus músicos devido à convocação militar para a guerra e diariamente apareciam oportunidades para os jovens músicos tocarem. Com sua imensa habilidade em tocar em qualquer andamento e ler música à primeira vista, Dodo tornou-se uma espécie de sonho secreto para qualquer líder de orquestra ter em sua formação. Ele tocou com as orquestras de Charlie Barnet (com um solo memorável em “The Moose”, gravado em outubro de 1943), Tommy Dorsey, Johnny “Scat” Davis e Ted Fio Rito. Finalmente sua categoria de grande músico foi reconhecida na idade em que ele deveria estar se preparando para o colegial.
Dodo atuou na orquestra de Artie Shaw em 1944-45, na qual tocavam Roy Eldridge, Barney Kessel e Herbie Steward. Ele alcançava a uma situação privilegiada na música americana ocupando o piano numa prestigiosa orquestra do swing, que ele descreveu como “bem no meio daquela profusão de grandes sons”. Depois de Shaw, vieram orquestras de igual renome e prestígio como as de Gene Krupa e novamente Tommy Dorsey.Tudo isso aconteceu quando o garoto de Pittsburgh alcançou a maioridade.
Os atrativos da Califórnia e seu crescente interesse no bebop e nos pequenos conjuntos de jazz levaram-no a deixar Dorsey em Los Angeles após uma temporada no Cassino Gardens, de propriedade de Dorsey, Harry James e Woody Herman. Ele empolgou-se com os boppers de Los Angeles e logo integrou a orquestra progressiva de Boyd Raeburn, tornando-se parte ativa e importante da renascença do jazz na Costa Oeste no mesmo período em que Charlie Parker e Lester Young estavam morando lá e em grande evidência.
Os dois primeiros solos de Dodo gravados como líder foram “Deep Purple” e “Tea for Two”, que mostram claramente a influência de Art Tatum em seu estilo. Estas faixas foram gravadas de uma transmissão radiofônica da AFRS Broadcast pouco antes de Dodo e o saxofonista Lucky Thompson deixarem a orquestra de Boyd Raeburn para formarem seu conjunto. Foi também quando ele chamou a atenção de Charlie Parker. Após quatro semanas tocando com Dizzy Gillespie no clube Berg’s, Charlie Parker convidou-o a ocupar o lugar de Joe Albany no piano na banda que fora contratada para tocar no Finale Club. Com sua atuação, Dodo foi chamado para gravar na primeira sessão de Parker para a Dial, que originou a famosa gravação de “Ornithology”.
Marmarosa também participou da primeira sessão do trompetista Howard McGhee para a Dial. As faixas desta sessão foram editadas no CD “Howard McGhee – Trumpet at Tempo, The Complete Dial Sessions – 1946-1947”. Os takes alternativos de “Dilated Pupils” e “Up in Dodo’s Room” são altamente relevantes devido às intervenções de Dodo. Na época, McGhee liderou um sexteto do qual faziam parte Marmarosa, Teddy Edwards e Bob “Dingbod” Kesterson, entre outros.
Os anos 1946 e 1947 foram dourados na carreira de Dodo Marmarosa, e, em 1947, ele foi eleito “New Star of Piano” no concurso de críticos promovido pela revista Esquire.
As faixas “Tone Paintings I” e “Tone Paintings II” foram gravadas sem intenção de serem editadas comercialmente. Ambas antecipam as mudanças que logo ocorreriam no jazz. São explorações de improvisações em série sugerindo a extinção das formas de 12 e 32 compassos de duração das composições desenvolvidas por Ornette Coleman que levaram ao free jazz de John Coltrane e Cecil Taylor.
Às vésperas da segunda greve geral de gravações decretada pela Federação Americana de Músicos, em 1948, Dodo gravou pela última vez para a Dial, acompanhado por Jackie Mills, seu baterista favorito, e Harry Babasin no violoncelo. Esta sessão com cinco temas exibe Dodo no auge da sua grande forma: “Bopmatism”, “Dodo’s Dance”, “Trade Winds”, “Dary Departs” e “Cosmo Street”. Os acompanhamentos e solos de Babasin no violoncelo documentam a primeira sessão de gravação desse instrumento na história do jazz. A longa sessão resultou em 26 gravações entre takes masters e alternativos.
Como estilo de piano, Dodo foi um descendente direto da escola brilhante de Art Tatum. Ele possuía a clareza de Tatum, imensa facilidade de digitação e o mesmo comando autoritário das escalas e arpejos pulsantes. Ele utilizava acordes originais na mão esquerda. Por outro lado, era menos complexo e polirrítmico do que seu mestre Tatum, preferindo tocar com uma seção rítmica. Seu intuitivo instinto jazzístico, o perfeito senso do fraseado e suas texturas pessoais são marcas indeléveis do seu estilo.
A vida de Marmarosa foi conturbada, repleta de altos-e-baixos, com problemas pessoais e psíquicos, internações em instituições especializadas em recuperação de pessoas com problemas mentais, teve um divórcio tumultuado em que ficou proibido de ver as duas filhas, enfim, uma série de atribulações que o afastaram da música.
Em 1961 gravou um disco excepcional (Dodo’s Back!), com baixo e bateria, tocando um repertório eclético em que mesclou canções antigas (“Me and My Shadow”, “We Call it Madness”, “A Cottage for Sale”, April Played the Fiddle”, “The Very Thought of You” e “Just Friends”), além de suas composições originais. Sua execução manteve a forma excepcional de quando surgiu nos anos 40, especialmente marcantes em “Relaxin’ at Camarillo”, “Yardbird Suite”, “Ornithology” e “A Night in Tunisia” com Charlie Parker. Ele estava em absoluta posse das suas faculdades criativas, com improvisações notáveis, a cada chorus renovando suas idéias articuladas com a facilidade de expressão que o consagrou entre os músicos. No ano seguinte, gravou sua última sessão em estúdio para a Prestige, em trio e quarteto (esta com a saxofonista-tenor Gene Ammons), resultando num álbum duplo em que, mais uma vez, sobressaiu seu talento e musicalidade. Depois disso, desapareceu da cena musical quando seus problemas se avolumaram. Gravou uma sessão para a Savoy com alguns standards, músicas batidas e, visivelmente, ele não se sentia confortável, cumprindo apenas sua obrigação.
As coisas pioraram quando divorciou-se de sua esposa, perdendo o gosto pela vida, passando dias e noites sem sair de casa. Nem quando alguns músicos seus amigos insistiram para juntar-se a eles a fim de tocar surtiu efeito. Solitário e sem qualquer perspectiva de vida, Dodo Marmarosa foi internado num sanatório onde faleceu longe de todos e sem amigos, restando a lembrança da sua música e seus maravilhosos discos.

Por José Domingos Raffaelli

Um comentário:

Mario disse...

Maravilhosa resenha que me fez correr atrás das gravações de Dodo.