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28 junho 2011

RIO DAS OSTRAS JAZZ & BLUES 2011, UMA BREVE RESENHA

Que o festival de Rio das Ostras já é um marco do nosso calendário musical ninguém tem dúvida, o maior festival do pais sempre traz atrações interessantes e a edição deste ano teve novidades e algumas brilhantes apresentações. Estima-se que nesta nona edição cerca de 20.000 pessoas circularam pela cidade durante cada dia do festival. Todos atras de boa música e eu também estava lá !
A noite de abertura do festival, numa noite de céu estranho ameaçando uma garoa que contrariava os informes meteorológicos , marcou pela presença do guitarrista Igor Prado. Sem dúvida um excelente guitarrista acompanhado por Rodrigo Mantovani no baixo, o nome do instrumento na linha blues hoje no país, Yuri Prado bateria e Flavio Naves no Hammond que realmente deu a atmosfera certa para a apresentação. Um show contagiante recheado de muito blues e que ainda teve a participação mais que especial do guitarrista Bryan Lee, que incendiou o publico presente. Um encontro histórico de dois gigantes do instrumento, a mão esquerda de Igor abraçada em sua Les Paul e a mão direita de Bryan, sentado, com sua inseparável SG. Apresentação única de Igor Prado no festival, uma pena, fechando a noite de abertura.

Seguindo na linha blues-rock –
Nuno Mindelis empolgou o publico em suas apresentações na Lagoa de Iriry e em Costazul. Em ambas apresentações um repertório em formato bem blues-rock onde Nuno, com sua strato nos braços, apresentou seu novo trabalho mas deixando a eletrônica de lado, que foi o principal elemento de seu último disco. Na tarde de quinta-feira, tempo bom e um público animado com a apresentação e Flavio Naves novamente no palco nos teclados  em Iriry e no Hammond em Costazul. E como rege a tradição do blues, foi tocar com o público. Alguns problemas no áudio no palco de Iriry mas nada que ofuscasse a agitação do público e em Costazul teve uma corda arrebentada na sua primeira música e a guitarra de Big Joe Manfra segurou a onda até o retorno da sua strato. Na noite de Costazul, Flavio Naves estava inspiradíssimo encenando performance a la Joey de Francesco subindo no Hammond e puxando o público levando-o ao delírio. Espaço para dois bis e encerrou com Hendrix.
Bryan Lee incendiou a noite de quinta-feira. Quem o vê fora do palco não acredita no que este senhor, cego, aos 67 anos é capaz de fazer em cena, se transforma assim como ao público que o assiste.
Manteve-se sentado durante as quase duas horas de apresentação na madrugada de sexta-feira acompanhado pelo sensacional-virtuoso-endiabrado guitarrista Brent Johnson, o incendiário baterista John Perkins e o baixista Slim Louis que segurava, literalmente, a onda para esses gigantes. Bryan Lee em seu traje tradicional com sua cartola e roupa pretos, quase como um mágico e se não o é conseguiu trazer a magia do blues-rock na apresentação.  O guitarrista Brent Johnson realmente roubou o show, chamou a atenção pela energia que colocava nos longos solos e pela interação imediata que teve com o plateia.
O guitarrista Tommy Castro não deixou por menos em suas apresentações na Lagoa de Iriry e em Costazul. Parecia extasiado com o publico na arena de Iriry e fez uma apresentação arrasadora convidando ao palco o guitarrista Big Joe Manfra e a trompetista Saskia Laroo. Colocou o publico para dançar com sua apresentação bem recheada de soul-funk suportada pelos metais de Keith Crossan (tenor) e Tom Poole (trompete) e ainda pelo visual inusitado do baixista Scot Sutherland que toca fazendo coreografias. Show contagiante e mostrou porque é um dos grandes nomes do cenário blues hoje.
Em show único na Praça São Pedro, o Blues Groove formado pelo baterista Beto Werther, o baixo de Ugo Perrota e a guitarra de Otavio Rocha veio liderado pelo guitarrista Cristiano Crochemore que estava em uma manhã inspiradíssima. Mostrou muita personalidade e pegada blues abraçado com sua strato com um ar vintage , trazendo além de clássicos do blues de Johnny Winter, Albert King e Robert Johnson temas de sua autoria que será lançado em CD brevemente. Colocou pressão na manhã ensolarada de sexta-feira e teve como convidado mais que especial o guitarrista Brent Johnson, que empolgou na noite anterior, promovendo no palco um verdadeiro duelo de gigantes.
Rodrigo Nézio e Duocondé também fizeram uma boa apresentação. O power trio de Barbacena (MG) veio com energia mesmo tendo encarado a madrugada na estrada e chegado na cidade na manhã do show. Seu baixista lembra muito Pino Palladino, um pouquinho mais gordo, e o som da banda contagiou o bom público presente com repertório autoral e espaço para alguns clássicos do blues-rock.

Saindo do mundo blues-rock –
Jose James mostrou porque é um dos grandes cantores na atualidade. Seu jeitão rapper trouxe identificação com o publico, na maioria jovem, e apresentou-se nos palcos da Tartaruga e Costazul. Basicamente o mesmo repertório em ambos os shows, recheado por baladas com algumas passagens mais jazzy e espaço de sobra para o trompetista Takuya Kuroda. Jose fez muito o uso de um scat adequado ao seu tipo de som e um destaque mais que especial para a interpretação de Equinox (Coltrane) e um encerramento sensacional com Moanin (Art Blakey).
Jane Monheit se apresentou mostrando sensualidade em sua forma renascentista, mas fez um show básico destacando Jobim em Dindi, interpretada em sua língua nativa, e um Samba do Avião cheio de turbulência ao cantar em português, mas levou o público ao delírio e é isso que importa. Bom, me retirei e voltei para as interpretações de Cheek to Cheek e Over the Raibow me rendendo até o final da apresentação que ainda teve algumas boas passagens com uma roupagem mais jazz.
Nicholas Payton trouxe o ar fusion para o festival. Alternava colocações vocais sempre com o auxilio da cantora Johnaye Filelle Kendrick e um destaque para o jovem e excelente pianista Lawrence Fields. Fez um show frio com algumas passagens empolgantes mas determinadamente um show na linha jazz-rock, na onda Miles elétrico.
Das duas apresentações do Yellowjackets, Costazul e Praia da Tartaruga, esta última deu um ar mais intimista, talvez pelo atmosfera bucólica do local proporcionado pelo final da tarde. Comemoram os 30 anos do grupo e trouxeram o lançamento de seu último disco intitulado Timeline. Não dá pra não destacar o baterista Willian Fernandes que roubou o show e é sempre bom ver Bob Mintzer em ação, o baixo elétrico de cordas invertidas do canhoto Jimmy Haslip e o piano de Russel Ferrante. Valeu por ser Yellowjackets mas foi um show sem muita empolgação.
A trompetista Saskia Laroo foi só festa, ela é quase uma "George Clinton" de saias. Entrou no palco com uma roupinha de paquita e uma banda com dois cantores de hip-hop, percussão, teclado, baixo e bateria bem eletrizados e ainda seu trompete cheio de efeitos especiais cujos pedais estavam presos na sua cintura, como um verdadeiro cinto de inutilidades. Fez uma “homenagem” a Coltrane com um tema bem disco-music (acho que se o homenageado sabe disso ressucita) e focou a totalidade da apresentação nessa onda. Alguns momentos mostrava que podia fazer muito mais e melhor com o trompete, a moça tem boa digitação e fez algumas pausas no show, dando até um ar de sobriedade, citando standards com o uso da surdina lembrando o registro de Miles, mas foi muito pouco e o que a gente viu mesmo foi um show festa que parece que cansou o público.
Já o trio Medeski, Martin & Wood com o sax de Bill Evans colocaram muita pressão no caldeirão de Costazul. Impressionante como os caras ao vivo são infinitamente mais empolgantes. A interação entre o excelente baterista Billy Martin, o baixo de Cris Wood e os teclados de John Medeski é certeira e pontual e fica representada pela proximidade deles no palco – um de frente para o outro – aqui com o sax de Bill Evans circulando a frente deles. Longos temas e um groove de primeira qualidade em mais de 1 hora de apresentação com Billy Martin empurrando o grupo com uma energia impar, improvisos brilhantes de Cris Wood que mostrou destreza tanto no acústico quanto no elétrico onde fez até uso do slide e de leves efeitos de drive muitíssimos bem colocados e John Medeski endiabrado colocando as camas indispensáveis para os improvisos de Bill Evans. Sobrou até para uma citação bem colocada de Evidence (Monk).
Sensacional apresentação !

O instrumental brasileiro também mostrou força. Ricardo Silveira fez um excelente show e uma banda inspiradíssima com nosso Andre Tandeta bateria, Romulo Gomes contrabaixo e os metais de Marcelo Martins (sax) e Jesse Sadoc (trompete). Resgatou clássicos da nossa música brasileira de raiz em Se acaso você chegasse (Lupiscinio Rodrigues) e Amélia (Mario Lago) em roupagem bem moderna e apresentou seus clássicos temas que compõem seu ultimo trabalho intitulado Até Amanhã incluindo a brilhante Portal da Cor (Milton). Abraçado com sua bela e nova guitarra semi-acústica da fabricante PRS, nos deu um som de guitarra limpo e muito improviso.
Ivan “Mamão” Conti, Bertrami e Alex Malheiros trouxeram o Azymuth recheado com o sax de Leo Gandelman. Com a responsabilidade de manter a agitação do público depois da apresentação-festa da trompetista Saskia Laroo, o Azymuth não deixou por menos e fez uma boa apresentação mostrando porque é um grupo ícone da nossa música instrumental. Destaque para as interpretações de Partido Alto (Bertrami) e Canto de Ossanha (Baden) mas o público queria mesmo ouvir e cantarolar Linha do Horizonte e o grupo voltou no tempo e encerrou a apresentação com muitos aplausos.

Deixei por último para falar do pianista cubano Roberto Fonseca. Uma apresentação intensa, densa, enigmática, dramática! Dificil encontrar palavras para descrever a energia da música desta apresentação em um repertório baseado no disco Live in Marciac. Veio em formato de quinteto, todos músicos cubanos -  Javier Zalba nos sopros, o excelente Ramsés Rodríguez bateria, Omar González contrabaixo e Joel Hierrezuelo na percussão. Fez uma homenagem aos também cubanos Ibrahim Ferrer e Cachaito Lopez em uma interpretação de cair o queixo, com Roberto se entregando totalmente ao tema, em baixa dinâmica, deleitando-se em improvisos e contorcendo-se ao piano mostrando um virtuosismo e carisma impressionantes. Deu espaço para improvisação de todos, colocou interjeições vocais em algumas improvisações e não dá para destacar alguém em especial porque foram todos brilhantes. Encerrou a apresentação trazendo o público para ditar o ritmo com ele e foi aplaudido de pé.
O melhor show do festival !

É isso ! Ano que vem tem mais.

15 comentários:

Antônio do Amaral Rocha disse...

Gustavo, texto analítico de categoria. Parabéns!

Andréa Loureiro disse...

Como sempre. Parabéns!

APÓSTOLO disse...

Boa resenha para que todos fiquemos em dia com o Festival.

RENAJAZZ disse...

BEM A NIVEL DE BLUES QUE NÃO É MINHA PRAIA NADA POSSO DIZER MAS A NIVEL JAZZISTICO SO ROBERTO FONSECA MEREÇE ELOGIOS E UM COMENTÁRIO A PARTE:TRATA-SE DE UM EXCELENTE MUSICO,POIS PARA FAZER O QUE ELE FEZ COM O PIANO COM ALGUMAS TECLAS SOLTAS SO SENDO MUITO BOM MESMO. TB GOSTEI MUITO DO SHOW DO RICARDO SILVEIRA A TURMA DOS METAIS MUITO BOA O BATERISTA E MEIO (FRACO) MAS DEU CONTA DO RECADO HAHAHAHAHAHAH.....AGORA O QUE O NICHOLAS PAYTON FEZ......COISA HORROROSA E UMA PENA POIS ELE ESTA MUITO NOVO PARA JA ABANDONAR A LINHA JAZZISCA É PARECE QUE O JAZZ ESTA CADA VEZ SEM ESPAÇO ATE PARA ELES MUSICOS.

figbatera disse...

Bela resenha, Gustavo!
Revivi alguns dos bons momentos dos shows.

Andre Tandeta disse...

Grande Gustavo ! Só uma coisa : o tema "Partido Alto " é de autoria de José Roberto Bertrami.
E no mais , cada um com seu cada qual. Renanjaz, fique atento que com algum esforço voce aprende alguma coisa aqui no CJUB. Excelentes Professores não faltam.

renajazz disse...

ahahahaah andre vc entrou na pilha do (fraco) so falei pois la na hora vi que era vc o baterista do grupo que a meu gosto fez o segundo melhor show do festival. quanto a aprender com certeza estou no lugar certo, e por favor me avise do proximo show do quinteto gostaria muito de ouvi-los outra vez

Anônimo disse...

Guzz, relato de primeira, direto ao caixa, sem passar pra carimbar em balcão nenhum!
Vi esse concerto do Ricardo Silveira no Vizta, uma semana antes e o Jessé disse que estariam lá (só não vi, uma pena, o Marcelo Martins). Ricardinho está mandando muito, como sempre.

E só pra constar, o cubano homenageado é o Cachaito (e não Chacaito).

Abração.

MauNah

Gustavo Cunha disse...

Mauro e Tandeta,
grato pela correções, já feitas. Partido Alto achei que era do Chico mesmo, falta de conhecimento; Cachaito foi erro de digitação.

aos demais,
é só agradecimento, é sempre bom ter um retorno e é o que nos estimula a continuar contando histórias

abs,

Rosany disse...

Excelente resenha, permite recordar cada momento

Rosany disse...

Excelente resenha, permite recordar cada momento

Andre Tandeta disse...

Guzz,
tem umas historias... o melhor é deixa-las morrer no esquecimento.

renajazz disse...

http://www.youtube.com/watch?v=VoB8b_Bk5lM
juntamante com jesse james e roberto fonseca esse quinteto foi uma das boas coisa desse festival

Salsa disse...

Graaaaande, Guzz. Apesar dos tropeços do som, gostei bastante do que ouvi. Os representantes brasilianos mostraram que não estão para brincadeira e, sem dúvida, o cubano foi o melhor.
Ano que vem: Tampa Bay

Andre Tandeta disse...

Valeu ,Renajazz ! Eu ja dei uma olhada e apesar do som distorcido achei bem interessante.
Muito obrigado.