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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

28 junho 2011

ALGUMAS POUCAS LINHAS SOBRE A
GUITARRA E OS GUITARRISTAS - 08


A figura humana e musical de DJANGO REINHARDT tem sido objeto de inúmeras interrogações, já que sem formação mínima no ensino escolar e em música, além de acidente sofrido aos 18 anos em que todos os prognósticos o davam como “liquidado” para a guitarra, a história de DJANGO foi um ultrapassar de obstáculos em direção ao JAZZ, a “música dos músicos”. Considerando que esse grande guitarrista cigano, o músico europeu que efetivamente absorveu e desenvolveu a linguagem do JAZZ, passando a servir de modelo para tantos outros guitarristas, vale a pena passear por um pouco de sua cronologia.
Como referência para os interessados, destaca-se a biografia da autoria de Charles Delaunay “Django, Mon Frére” (1968).
Em 23 de janeiro de 1910 nasceu JEAN-BAPTISTE REINHARDT, “DJANGO” REINHARDT, em Liverchies / Bélgica, filho do artista Jean e da ama de casa Laurence, ambos ciganos. A certidão de nascimento é datada do dia seguinte, 24/janeiro.
Em 1912 nasceu o irmão de DJANGO, JOSEPH, alcunhado de “Nin-Nin”. A infância dos dois irmãos é uma epopéia de vida nômade, sempre em uma carroça cigana (“roulotte”).
Em 1914 DJANGO e sua mãe sairam de Nice em função da Iª Guerra Mundial, estabelecendo base sucessivamente na Itália / Córsega e no Norte da África.
Terminada a conflagração retornam à França e ficam nos arredores de Paris (“Coisy”), sempre em carroça. DJANGO não foi à escola e viveu analfabeto, conseguindo, a duras penas e já adulto, assinar o nome em “letra de imprensa”. Suas composições musicais foram ditadas para músicos com quem tocou (Grappelli, Rostaing, Levêque e Hodeir).
Em 1922 e com apenas 12 anos já era um gênio musical, tocando de ouvido e considerado um verdadeiro prodígio. Sua “estréia” musical foi como parte de conjuntos locais com acordeonistas: Guerino, Fredo Gardoni, Maurice Alexander e Jean Vaissade.
Em 1924 DJANGO teve a oportunidade de apreciar a banda americana “Novelty Jazz Band” de Billy Arnold, que se apresentava em um clube de Pigalle.
Em 1927 DJANGO casou-se pela primeira vez, com Bella.
Em março de 1928 DJANGO gravou seu primeiro registro fonográfico, a valsa “Ma Réguliére”, participando do conjunto de Jean Vaissade.
A mulher Bella fazia flores artificiais de papel e celulose para viver e a carroça estava sempre repleta de materiais inflamáveis; no dia 02 de novembro de 1928 e chegando de uma apresentação DJANGO derrubou uma vela quando ia para a cama; sua carroça foi incendiada e DJANGO sofreu ferimentos na perna direita e na mão esquerda, tendo 02 dedos praticamente inutilizados.
A previsão dos médicos era de que que ele nunca mais voltaria a tocar guitarra e de que deveria ter uma perna amputada; com tudo isso DJANGO saiu do hospital pouco depois; seu irmão, Joseph Reinhardt (exímio guitarrista que tempos depois e com DJANGO integrou o Quinteto do “HOT CLUB DE FRANCE” sobre o qual escrevemos adiante), lhe presenteou nova guitarra. Meses e meses de recuperação e de suprema força de vontade, levaram DJANGO a andar com auxílio de bengalas e a desenvolver técnica especial para retornar à atividade musical.
Conheceu em Pigalle o grande músico francês Stéphane Mougin, que reconhecendo os dotes de DJANGO ensinou-lhe conhecimentos jazzísticos.
Em 1929 nasceu o filho de DJANGO e Bella, Henry Lousson Baumpartner.
DJANGO separou-se de Bella em 1930 e passou a viver com Sophie Ziegler (“Naguine”), que viria anos depois a ser sua segunda esposa.
No ano seguinte, 1931, o pintor Emile Savitry “descobriu” DJANGO em Toulon e lhe deu a conhecer a música dos grandes “jazzmens” americanos e outros: Louis Armstrong, Lionel Hampton, Duke Ellington, Joe Venuti, Eddie Lang. DJANGO passou a integrar a orquestra de LOUIS VOLA (que viria a ser o criador e o primeiro contrabaixista do quinteto do “HOT CLUB DE FRANCE”), com o qual gravou “Cariñoso”.
Atuou na orquestra de Léon Volterra em Cannes, na “Boite Amatelots”.
De 1931 até 1934 DJANGO atuou em Paris, inclusive no “Croix du Sud” com Alain Romain e André Ekyan, até ser recrutado para acompanhar o grande cantor Jean Sablon no “Boeuf Sur Le Toit”. Em 1934 e com Jean Sablon DJANGO foi até a Inglaterra onde gravou 02 faixas: “Le Jour Ou Te Vi” e “La Meme Coupe”.
Em 16 de março de 1934 DJANGO gravou o clássico “Presentation Stomp” com Michel Warlop (violino). Nesse mesmo ano gravou com o trombonista Guy Paquinet.
O “QHCF” – Quintette du Hot Club de France foi formado em 02 de dezembro de 1934 pelo contrabaixista Louis Vola, que concedeu audição especial para Charles Delaunay (representando o selo Odeon) e, em apresentações na “Ecole Normal de Musique” e no “Hotel Claridge”, foi aclamado com entusiasmo. Ao longo desse mês de dezembro o “QHCF” gravou seus primeiros discos pelo selo Ultraphone, incluindo “Tiger Rag” e “Dinah”.
Em 23 de fevereiro de 1935 o “QHCF” apresentou-se na “Salle Pleyel”, no mesmo programa do grande sax.tenorista Coleman Hawkins (“Mr. Bean”). Em 02 de março seguinte Coleman Hawkins gravou com DJANGO e Stéphane Grappelli o clássico de Hoagy Carmichael “Stardust” (tema composto por Carmichael para o trumpetista Bix Beiderbecke, interpretado por Kirk Douglas de forma “hollywwodiana” no filme “Êxito Fugaz”, com Carmichael no elenco, além das atrizes Doris Day e de Lauren Bacal).
De 1935 até 1939 o “QHCF” gravou seguidamente com “estrelas” do JAZZ: Barney Bigard, Coleman Hawkins, Benny Carter (que tocou com DJANGO em Barcelona em 1936), Dicke Wells, Rex Stewart, Eddie South, Bill Coleman e outros.
No início de 1938 ocorreram apresentações triunfais do “QHCF” na Inglaterra, assim como em nova turnê em 1939 e imediatamente antes da eclosão da IIª Gerra Mundial, ocasião em que Grappelli permaneceu em Londres, enquanto que DJANGO retornou a Paris sem sua mulher.
Os anos de 1939 e de 1940 foram tempos dificeis para DJANGO como conseqüência da ocupação de Paris pelos nazistas, que executaram muitos e muitos ciganos nos campos de concentração, além de não permitir a execução de JAZZ; nessa época DJANGO foi ajudado por um oficial nazista da Força Aérea, Dietrich Schulz-Köhn (conhecido como “Doktor Jazz”).
Apesar das dificuldades DJANGO tocou em Paris no “Jimmy’s” com Alix Combelle, Chas Lewis e Philippe Brun e remontou em 1940 o “Quinteto”, substituindo o violino de Stéphane Grappelli pelo clarinete de Hubert Rostaing; no mês de outubro/1940 esse novo quinteto gravou o imortal “Nuages”.
Apesar de todas as dificuldades são muito importantes as gravações de DJANGO durante a ocupação nazista, que incluiram “La Cigale et la Formi” (com o excepcional cantor Charles Trenet) e, com o quinteto QHCF, “Manoir De Mes Réves”, “Belleville” e “Sweet Sue”.
Em julho de 1943 DJANGO casou-se pela 2ª vez, agora com uma amiga de infância, Sophie Ziegler (“Naguine”), com quem já vivia há 15 anos. No início de 1944 nasceu o filho do casal, Babik Reinhardt.
Paris foi libertada em 25 de agosto de 1944..
Em 1946 reuniram-se outra vez DJANGO e Stéphane Grappelli: com 02 guitarristas e um contrabaixista inglês gravaram como “Quinteto” o tema “Echoes Of France”.
Em novembro realizaram a primeira etapa de turnê americana, em Cleveland, com Duke Ellington, seguindo para Chicago, Saint Louis, Detroit, Kansas City, Pittsburgh e, finalmente, New York, no “Carnegie Hall” em 23 e 24/novembro.
DJANGO estava habituado e ter seu irmão Joseph Reinhardt carregando e afinando seu violão (um Selmer Maccaferri); aparentemente DJANGO recebeu um instrumento mal afinado para tocar, um novo modelo com amplificador e os resultados não foram muito satifatórios.
No ano de 1947 DJANGO teve seu primeiro contato com a música de Charlie Parker e de Dizzy Gillespie e, com certeza, foi um dos primeiros músicos a entender perfeitamente os conceitos e a gramática do “bebop”.
Retornou a Paris em fevereiro, apresentando-se na “Galerie Constellation” e gravando o clássico “For Sentimental Reasons”.
Em fevereiro de 1948 o “Quinteto” participou do Iº Festival de Jazz de Nice e, em 1949, realizou temporada na Itália, gravando em Roma o tema “Minor Blues”.
No Natal de 1950 e no Théátre des Champs-Elysées, o “Quinteto” foi o sucesso do espetáculo “Expressions du Jazz”.
A partir de 1951 DJANGO instalou-se na cidade interiorana de Samois-sur-Seine, onde permaneceu residindo até falecer. Levou a vida dedicando-se à pintura e já bem desligado dos padrões comportamentais esperados; em uma ocasião comprou um carro novo e o abandonou na estrada por falta de gasolina; apresentou-se em shows sem levar sua guitarra; em muitas oportunidades recusava-se a levantar da cama ao amanhecer; em outras situações mudava-se para a praia ou o campo sem maiores avisos; enfim, já apresentava um quadro menos que normal.
Em janeiro de 1953 DJANGO reencontrou-se com o grande empresário Norman Granz (criador do “Jazz At The Phillarmonic”), que o contratou para uma turnê no outono seguinte: Estados Unidos, Europa e Japão. Essa turnê não se realizou, já que DJANGO veio a falecer poucos meses depois do encontro com Norman Granz.
No dia 10 de março de 1953 DJANGO gravou com guitarra elétrica “Blues For Ike” (paráfrase de “Nuages”) ao lado de Maurice Vander, Jean Louis-Viale e Pierre Michelot, enquanto que no dia 08 de abril do mesmo ano realizou sua última gravação, o hoje clássico “Deccaphonie”, com Martial Solal (piano), Fats “Sadi” Lallemant (vibrafone), Pierre Michelot (baixo) e Pierre Lemarchand (bateria).
No dia 16 de maio desse ano de 1953 DJANGO retornava de Avon após uma apresentação e desmaiou devido a uma hemorragia cerebral. O médico tardou praticamente todo o dia para chegar e DJANGO faleceu de congestão cerebral no “Hôpital de Fontainebleau”.
Desde 1983 e em cada primavera é celebrado em Samois-sur-Seine o “Festival Django Reinhardt”.
A música de DJANGO é o resultado da herança cigana com o JAZZ dos anos 30 e 40 e, portanto, com raízes em guetos culturais distantes das “culturas oficiais”, dai derivando o “Jazz Manouche” (*). A incapacidade de sua mão esquerda fez com que criasse uma poderosa técnica auto-didata dominando as cordas de forma absolutamente original, com inimitável virtuosismo, inesgotável senso de improvisação com “swing”, tanto nas melodias quanto na percussão dos acordes.
Como compositor deixou obras maiúsculas: “Daphné”, “Nuages”, “Swing 42”, “Swing Guitars”, “Djangology”, “Minor Swing”, “Swing 39” e “Manois De Mes Reves”, para citar apenas as mais conhecidas.
HOT CLUB DE FRANCE
Idealizado por Hughes Panassie (crítico) e Charles Delaunay (discógrafo) o “Hot Club de France” foi fundado em 1932, após muitas idéias de constituição, discussões, reuniões, debates e encontros. Como Presidente de honra foi escolhido (e quem mais ? ? ? ) LOUIS ARMSTRONG.
Em apresentação no dia 02/dezembro/1934 o quinteto de cordas formado por DJANGO REINHARDT (guitarra solo), STÉPHANE GRAPPELLI (violino), ROGER CHAPUT e JOSEPH REINHARDT (guitarras) e LOUIS VOLA (contrabaixo e líder), obteve extraordinário sucesso no “HOT CLUB DE FRANCE” e foi batizado como o “QUINTETO DO HOT CLUB DE FRANCE” (QHCF).
Essa formação terminou em 1939 em função da IIª Guerra Mundial, ocasião em que DJANGO e GRAPPELLI excursionavam em Londres; GRAPPELLI ali permaneceu, enquanto DJANGO retornou a Paris.
Em 1940 DJANGO remontou o “Quinteto”, com o então jovem clarinetista HUBERT ROSTAING substituindo GRAPPELLI; o “Quinteto” gravou o eterno clássico “Nuages” de DJANGO em outubro desse ano.
Não sem boas razões a criação dos “Hot Clubs” (**) tornou-se empreendimento mundial, sempre com bons frutos para desfrutar da música de DJANGO.
(*) O “Jazz Manouche” (expressão francesa que indica o “Jazz Cigano”, cigano como a origem de DJANGO REINHARDT) ou “Gypsy Jazz” é originado exatamente a partir de música de DJANGO.
(**) Os “HOT CLUB” espalham-se pelo mundo, seja como “combos” (pequenos conjuntos), seja como “clubes” onde a clientela desfruta de JAZZ, comida e bebida e espetáculos. Podem ser citados os da Noruega, Detroit, São Francisco, Sandwich e Cowtown, possuindo ainda tradição e longevidade em seus “redutos” geográficos os de Las Vegas, de Montevidéu, de Berlim, da Suécia, da Hungria, os da Argentina (Boedo e Rosário) e, particularmente o de Portugal, fundado em 19/março/1948 e, portanto, já com 63 anos de destaque. No Brasil temos o “Hot Club do Brasil” e o “Hot Club de Piracicaba” fundado em 2008 em Piracicaba, interior de São Paulo, já com lançamento discográfico. As formações musicais dos “Hot Club” variam na quantidade de músicos (quintetos, sextetos), mas seguem a linha da tradição “Manouche”, o “Gypsy Jazz” que tem DJANGO REINHARDT como criador, inspirador.

Retornaremos à guitarra e aos guitarristas em próximo artigo

5 comentários:

Érico Cordeiro disse...

Assim não vale, Mestrte!
Agora vou ter que refazer a resenha que pus lá no barzinho sobre o Django :-)
Der qualquer forma, a base foi o seu texto pro disco do Hot Club de Piracicaba (falando nisso, por favor, me mande o endereço do Fernando, pois gostaria de mandar para ele um exemplar do Confesso que ouvi).
No mais é desejar tudo o que de melhor houver no mundo para você e toda a família Apostólica - como um solo de Parker bem debaixo de sua janela!!!!
Abração, meu caro Mestre!!!!!

Beto Kessel disse...

Interessante a difícil vida de Django.

Num dos filmes de Woody \Allen, Sean Pean interpreta um guitarrista que sempre diz resignado que é o segundo melhor guitarrista.. (o primeiro é Django, diz o personagem).

Beto Kessel

APÓSTOLO disse...

Prezado BETO:

O filme recebeu no Brasil o título de "Poucas e Boas".
O guitarrista do filme (Sean) considera-se o 2º melhor guitarista do mundo e tem 02 hábitos: o 1º é matar ratos em depósitos de lixo e o 2º é roubar por compulsão.
Uma pérola de Woody Allen.

Estimado ÉRICO:
Anote o telefone do FERNANDO, já que mesmo tendo frequentado a casa dele não possuo o endereço; celular (19) 8195-6083 e residência (19) 3421-9003.
Nosso bom juiz FERENANDO é uma verdadeira jóia de pessoa e iria adorar receber o "Confesso Que Ouví".

MaJor disse...

Prezado Apóstolo fiz ontem um comentário mas estou vendo que não saiu. Bem, Django é sensacional, sua música, sua vida sua personalidade e depois desta postagem nada mais a acrescentar!!
Abç
Mario Jorge

Beto Kessel disse...

Apostolo,

E isto mesmo..e o "Poucas e Boas"

Beto