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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

12 maio 2011

SEMANA SANTA EM NOVA YORK

Ainda engatinhando nas manhas da edição do CJUB, nosso PeWham (também conhecido internacionalmente pelo seu nome de guerra, Pedro Wahmann) nos manda e pede para publicar este delicioso relato de suas últimas andanças pela Grande Maçã, ora achocolatada capital jazzística, cidade capaz de fazer um verdadeiro amante da arte, em lá estando, sequer pensar em dormir. Segue a reportagem.

O feriadão da semana Santa em N.Y. teve pra mim um gosto de infância, de muitos ovinhos de chocolate, tal a quantidade e qualidade de grandes músicos a que pude assistir. Diversas também foram as casas que visitei e ao contar para os bloguistas cjubianos um pouco do que vi e ouvi, busco reafirmar a riqueza da capital mundial do jazz.

Vamos lá?

Blue Note – todos sabemos que é uma espécie da ONU da musica, não só pela variedade de gêneros além do jazz que a casa oferece, mas também a diversidade das nacionalidades dos sempre presentes turistas. Claro que pesa nisso a marca Blue Note, também em cidades japonesas, e em Milão.
Apresentava-se o Bad Plus, e como plus Joshua Redman! Conheci o Trio e comecei a ouvi-los e admira-los através de uma crônica do Mestre Luis Orlando ano passado, e vê-los ao vivo foi uma grande oportunidade
No repertório, predominando temas do Trio, duas lindas peças de Reid Anderson, People Like You e Love Is the Answer.
Só não se deve é chegar ao Blue Note em cima da hora mesmo tendo reserva, pois corre-se o risco de uma posição de onde só se consegue ver pouco mais do que as costas do pianista e sua mão esquerda, que foi o que consegui ver do Ethan Iverson, o que aliás já acontecera um ano atrás quando fui assistir a Kenny Werner.
Mas, é bom que se registre, o som como sempre estava impecável e os músicos, não precisa dizer, sensacionais!(vale ler o artigo do O Globo de 9 de maio, 2ª.pag do SEGUNDO CADERNO, do Eduardo Graça, sob o titulo: Saudado por quase todos os medalhões).
Para quem aprecia o Bad Plus, haverá uma boa oportunidade nos dias 26 e 27 de maio, em São Paulo, no SESC- Pompéia no festival Jazz na Fábrica, que contará ainda com a presença, entre outros, do rising Christian Scott em datas anteriores.

Kitano – é o jazz lounge bar do elegante Hotel Kitano na Park Avenue, Midtown. Pequeno, simpático, aconchegante, intitula-se o ambiente de jazz mais intimista de Manhattan. Local também para novos músicos, funciona somente de quarta a sábado, e na noite de quarta e quinta muitas vezes não cobra couvert artístico.
Apresentava-se a pianista nipo-americana Emiko Ohara, acompanhada por Bill Mobley, tp e flg, Carlo de Rosa, bs, e Jerome Jenings, dr.
Desfilaram standards como All of You, Secret Love e Omiko apresentou uma de suas composições Peaceful Moment, como não podia deixar de ser uma calmíssima balada, mas que me deixou uma sensação de dejá-vu.
De toda forma, um agradável local para um primeiro set, esquentando para um segundo com gente mais crescida.

Birdland – a casa de nome mais do que famoso é um local que, à semelhança do Blue Note, acolhe grande numero de turistas e inegavelmente oferece ótima visão de qualquer ponto e espaço bem mais confortável.
Noite admirável quando acontecia um tributo ao grande Joe Henderson. A direção artística estava a cargo do notável baixista George Mraz, contava com o inesgotável Al Foster, dr, o excelente Fred Hersch, p, e o talento do sax tenor de Eli Degibri.
Um repertório de primeiríssima relembrava os grandes temas de Henderson. Degibri abre com uma lindíssima introdução de Isfahan, avançam pelo tempo rápido de Rain Check, o eterno Nigth and Day, depois é a vez de Hersch apresentar uma belíssima introdução de You Know I Care, finalizando o set com a conhecida composição de Henderson, Recorda-me.
De Hersch, Forster e Mraz já tinha grande conhecimento e não há duvida são dos maiores em seus instrumentos e criações, mas fiquei deslumbrado com a versatilidade, a sonoridade e o bom gosto de Degibri que, sem duvida, foi o saxofonista que mais me impressionou nesta minha andança em NY.
Aplausos entusiasmados de toda a plateia aos quais se juntava outro grande Henderson, o trompetista Eddie, que fazia frequentes sinais de aprovação e admiração. Com quarteto de tal quilate não podia ser diferente!

Dizzy’s Club Coca Cola
– o mais elegante de New York ainda mais pela bela vista do Central Park por trás das grandes vidraças ao fundo do palco.
Joey de Francesco, que não faz muito tempo esteve na Marina da Gloria num Festival Tim cercado por seus fiéis escudeiros Biron Landham, dr, Paul Wollenback, gt, mais Warren Wolt, vibes, este substituindo o escalado Bobby Hutcherson, apresentou-se com a exuberância de costume. De Francesco é um grande musico em todas as dimensões.
A partir do terceiro tema incorpora-se ao grupo o grande George Coleman.
Big George caminha e sobe ao palco com dificuldade, quase arrastando os pés, mas os sinais de debilidade apagam-se quando empunha e sopra o sax, e a sonoridade e a facilidade com que ainda domina todos os registros, os mais graves e mais agudos, ainda é inconfundível, e emociona a plateia numa das suas mais conhecidas interpretações a bela Soul Eyes de Mal Waldron. Uma noite e tanto!

Jazz Standard – essa casa double de “barbecue house” pois no andar térreo funciona o Smoke’s, festejava durante a semana os 50 anos do sêlo IMPULSE, relembrando a cada noite um grande musico gravado pela marca.
Na noite em que fui, o tributo era para a dupla de trombonistas JJ Johnson e Kai Winding, cabendo a curadoria ao excelente Robin Eubanks. Completavam o quinteto o também trombonista Andy Hunter, Lonnie Plaxico, bs, Jim Jackson, dr e do pianista, um jovem inglês, não consegui pegar o nome.
Eubanks sabemos é um musico consagrado, muito sofisticado, atualmente talvez o melhor trombonista, e nas referências aos homenageados não hesitou afirmar que JJJ foi o maior do instrumento em todos os tempos.
Destaques para uma bela apresentação de seu original New Breath e o standard Alone Together que após uma intrincadissima introdução do piano desdobrou-se em belos solos dos dois trombones, que ressaltaram a beleza desse standard, para meu gosto um dos mais lindos de todos os tempos.

Next Door – é um pequeno anexo à casa italiana La Lanterna di Vittorio, mas pequeno mesmo. São pouco mais de 10/12 mesas, um simpático balcão de bar com não mais de cinco lugares e um exíguo palco onde a extremidade mais alta do baixo fica a dois palmos do teto.
No máximo três músicos conseguem se acomodar e na rápida passagem que fiz por lá, chegando já com o segundo set pela metade, o guitarrista Peter Mazza, que sempre está aos domingos, tocava acompanhado por um baixo e um sax alto.
Vale dizer que o Next Door serve o cardápio do La Lanterna, e fim de uma noite fria em NY, embora já primavera, nada como uma boa “pasta” quentinha para revigorar !

Small’s – não tenho mais duvida, é o melhor lugar de jazz de NY na atualidade e o mais autêntico em todos os sentidos. A começar pelo conceito de que se jazz é improviso, no Small’s tudo se improvisa...
Começa na chegada, pois no Small’s não há reservas, e o famoso “stay on the line” numa noite fria como era, pode começar pelo sopé da estreita escada que nos conduz ao porão onde acontecem as apresentações, três sets por noite e em geral com grupos diferentes.
Daí que é fácil concluir que a mesma escada onde espera a fila para entrar é a subida dos que estão indo embora, e admirou-me a habilidade do baixista que saia do set recém findo, de subir com o baixo erguido sobre sua cabeça sem esbarrar em ninguém! E, sentado ao pé da escada, recebendo os 20 doláres da admissão, cuidadosamente colocados numa caixa de charutos, pode-se encontrar o simpático e exótico “door-man” com sua inseparável boina ou o próprio dono do Small’s, o pianista Spike Wilner, que se desdobra improvisando também como apresentador e não raro integrando com competência um dos combos.
Ah!! E na ausência de um ou de outro, um vistoso, gordo e peludo gato que deve ter um raro bom gosto musical, toma conta da cadeira. Desconfio até que foi esse bichano que inspirou a casa próxima e ligada ao Small’s, a FAT CAT.
A plateia divide-se em quatro ou cinco filas de meia dúzia de cadeiras todas diferentes, um longo balcão de bar com cerca de doze lugares e um espaço logo a entrada onde aglomera-se de pé plateia sempre maior do que os sentados e, claro, mais irrequieta e algo barulhenta. Tenho a quase certeza que limite de lotação no Small’s inexiste.
Ao longo das apresentações ou você se dirige ao bar onde uma simpática “barwoman” se desdobra, para colher seu próprio drink ou aguarda que a garçonete, charmosa e simpática, e que circula ativamente entre a plateia venha anotar seu pedido.
Enfim num ambiente de free improviso o Small’s cumpre sua missão de apresentar ótima musica, promover muita gente jovem e boa e reservar lugar para antigos músicos poderem continuar a se apresentar, como era o caso do vocalista Marion Cowings numa das noite em que lá estive.
Da musica que ouvi na casa, um quarteto liderado pelo ótimo trompetista Josh Evans que muito lembrou o mestre Art Farmer nas interpretações de Time On My Hands e I’m Old Fashioned, uma belíssima Peace, de Horace Silver e dois belos originais, East of Village, mais rápida e alegre e At Time, uma linda balada.
Não consegui anotar os nomes da seção rítmica, mas espetáculo a parte foi o veterano baterista com sua poderosa cabeleira grisalha meio estilo black power, e os enormes óculos escuros numa armação azul clara, o que lhe conferia uma figura exótica, mas a competência era total! Desses que conhecem todos os segredos e cada cantinho da sua bateria. Um show!

E se nessa noite, ao menos para mim, os músicos eram desconhecidos, na noite seguinte um quinteto de primeiríssima. Sob a liderança de Gregg Hutchison (vem ao Brasil com Redman no BMW Festival), somaram-se John Ellis, ts e Ron Blake, ts e ss, Joe Sanders, bs, que anda brilhando no grupo de Christian Scott e nosso muito conhecido Aaron Goldberg, p.
Noite brilhante, transbordante de bom gosto, não anotei os temas mas todas as apresentações, nos ensembles e nos solos foram lindíssimas e em especial de Goldberg, mostrando mais uma vez toda a categoria que já pudemos ver em Ouro Preto.
No set seguinte, a apresentação da cantora Cyrille Aimée apresentando seu CD gravado ao vivo no e pelo selo Small’s, composto só por standards e muito bem acompanhada pelos jovens Philip Khuen, bs, Joseph Saylor, dr, e o dono da casa Spike Wilner, muito bom ao piano.
E se Cyrille em nenhum momento chegou a me empolgar, seus outros dois “side man e woman”, Joel Frahm e Anat Cohen brilharam em todas as vezes em que chamados a intervir e exibir sua técnica, seu altíssimo bom gosto e em especial a alegria e o dom de tocar boa música, arrancando entusiasmados aplausos da plateia, à essa hora, mais de uma da manhã, prá lá de animada!

(nota: no CD, Anat não participou. Completava o quinteto o Roy Hargrove).

10 comentários:

Beto Kessel disse...

Estive em NY naquela semana e tambem tive a satisfação de assitir no Birdland ao Tributo a Joe Henderson. Na plateía vi de longe o Helio Alves e o Duduka da Fonseca.

Realmente musicos exclentes no palco.

Tambem gostei do saxofonista Eli Degibri.

Conversando com Fred hersch e Al Foster antes do 2º set de quinta feira (21.04), os dois manifestaram o interesse de tocar no Brasil novamente.

A bola está com a Monique Gardenberg

Beto Kessel

Bene-X disse...

Relato preciso e delicioso de ler. Parabéns ! Ainda bem que inveja não mata ... Só fiquei com uma dúvida: e templo máximo do jazz, no mundo, o Village Vanguard ? Esteve lá, meu caro Pedro ? Abs e continue brindando o blog com suas sempre tão benvindas e acuradas observações.

Beto Kessel disse...

Possivelmente posso ter esbarrao no pedro, ja que naquela semana tambem estava na Big Apple, onde assisti em dias diferentes ao Tributo a Joe Henderson no Birdland.

Muito bom !!! Conversando com Fred Hersch e tambem com Al Foster antes do segundo set de quinta feira (21.04), ambos gostariam de voltar a tocar no Brasil. Com a plavra, Monique Gardenberg....

Obs. Comentei com Fred Hersch sobre a resenha feita pelo Luiz orlando Carneiro sobre o interessante album lancado por ele (hersch) que abordava a obra de Jobim.

Beto Kessel

APÓSTOLO disse...

É......
Fico chupando os dedos, mas com certeza a resenha alivia um pouco a distância desses locais e noites de bom JAZZ.
Parabéns ao xará e que venham outras resenhas.

PWahmann disse...

David: total razão. ! na semana o Village apresentava o trio do Bill Frisel, mas não deu tempo pra tudo.
E foi uma pena não saber da presença do Beto por lá. Foi legal vc. ter falado ao F.Hersch sobre o CD dêle, na verdade música para agradar todos os gostos...Lindo!

PWahmann disse...

aproveito o momento para felicitar a todos que ao longo desses nove anos construiram e consolidaram o CJUB, um espaço alegre, enriquecedor, onde pessoas de (otimo) gosto se aproximam e encontram momentos de relaxamento dentro desse mundo "stressado" que nos envolve!
agradeço a acolhida de vocês e em especial no nosso comandante e meu padrinho (latu-senso) o grande MauNah

MauNah disse...

Pedrão, relaxe, não se preocupe com a dupla "cidadania" (PeWham e PWahmann) convivem assim mesmo, sem galho.
Uma vez criado, fica o que vc. lançou lá na conta do Google e não dá para mudar. Há outros casos...

Agora, "alegre" nos dias de hoje é uma palavra perigosa, em vista da "certificação" que ganharam no STF. Poderias dizer "animado", que ainda, segundo o Mestre Lulla, "não está gerando atestado".

Abs.

Bene-X disse...

Ótima iniciativa não ter ido ao Vanguard em tais circunstâncias. Afinal, quem ainda aguenta o chatíssimo Frisell ? V. não perdeu nada mas o Vanguard, ele sim, perdeu um ilustre "customer" ...

Abs.,

SAZZ disse...

Grande Pedro,

A do Smalls já tinha lhe falado a respeito e é hoje sem duvida o GRANDE BURACO MUSICAL de Manhattan, que o diga o GUZZ...

Forte abraço.

Guzz disse...

mas quanto preconceito com o Bill Frisell !!
é um dos guitarristas mais técnicos da atualidade; é fato que sua sonoridade não costuma agradar aos mais "puristas", ele usa guitarra sólida - Telecaster - de som mais metalizado, e seu som sempre esteve na fronteira da fusão do rock, jazz e elementos da música folk.
eu o assisti aqui no finado TIM Festival, aliás, o único sobrevivente deste grupo na plateia, e gostei do que vi e ouvi. ele sai do tradicional e seu fraseado tem uma forte "linguagem blues"; o assistiria de novo.

agora quanto ao Smalls, é, literalmente, o mais underground clube de NY; o Vanguard tem a mesma "arquitetura" mas o Small tem a uma atmosfera muito particular. Lugar obrigatório pra quem vai em NY e o som começa as 18h e só para na madrugada.

abs,