Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Luiz Carlos Antunes (Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), , Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).

BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

02 novembro 2009

TETE MONTOLIU
Superação e Qualidade em JAZZ: da Catalunha para o Mundo ! ! !
(A) BIOGRAFIA - 1ª PARTE
O pianista Vicenç Montoliu y Massana, artisticamente “Tete Montoliu” (pronuncia-se Tetê Montolíu), nasceu em Barcelona (no “Ensanche” / “Eixample”, a parte nova da cidade, na Calle Muntaner), capital da Catalunha, em 28 de março de 1933, vindo a falecer aos 64 anos no dia 24 de agosto de 1997 em sua terra natal.


Cego de nascença, neto e filho de músicos profissionais (o pai, Vicenç Montoliu, formou parte da “Banda Municipal de Barcelona” e da “Orquestra del Gran Teatro del Liceo” , tocava clarinete, saxofones e oboé e tinha a intenção de que seu filho tocasse música clássica) e da aficcionada por JAZZ Ângela Massana (que acostumou Tete a ouvir desde criança “Fats” Waller, Art Tatum, Earl Hines, Duke Ellington e outros expoentes da Arte Popular Maior), Tete já desde os 04 anos demonstrando dotes para o piano foi incentivado a estudar seriamente, o que o levou ao aprendizado inicial em aulas particulares aos 05 anos, com a pianista e professora Petri Palou.


Segundo o próprio Tete Montoliu ele tinha que estudar música: “...o me hacia músico o me ponia a vender cupones.... (na Espanha os deficientes e em particular os cegos possuem uma loteria, “la quiñela”, cujos cupons são vendidos pelos próprios, com extrações diárias).


Ingressou no “Conservatório Superior de Música de Barcelona” em 1946, onde estudou piano, órgão, harmônica, solfejo e composição, graduando-se com brilhante histórico curricular. Seu aprendizado no piano foi extremamente disciplinado, já que tocava com a mão esquerda e utilizava a direita para a leitura em Braille, exigindo-lhe elevado poder de memorização e alta capacidade de persistência.

Dos 13 aos 15 anos participa regularmente nas “jam sessions” do “Hot Club de Barcelona”, local onde foi “descoberto” pelo grande sax.tenorista Don Byas (então residindo em Barcelona, “la ciudad condal”), que reconhecendo seus já grandes talento e desenvolvimento técnico, foi capaz de aconselhá-lo e instruí-lo sobre o Jazz, permitindo a Tete aprofundar o conhecimento do gênero; os dois, Tete e Don Byas, chegaram a tocar juntos em muitas ocasiões, desde então.

A partir dos 15, 16 anos, Tete liderou seus próprios grupos tocando em salões de Barcelona.


Aos 21 anos Tete Montoliu gravou pela primeira vez, entre junho e setembro de 1954. Quando Tete contava 22 anos, em 1955, Lionel Hampton cumpriu 02 concertos em Barcelona, tendo na ocasião a oportunidade de assistir a uma apresentação de Tete, ficando entusiasmado com suas habilidades técnicas e considerou que estava diante de um superdotado; segundo suas palavras, “o melhor pianista de Jazz da Europa”. Convidou Tete a unir-se à sua orquestra para larga temporada na Europa e para gravar com a banda: estava decolando a carreira internacional de Tete Montoliu !

Tete gostava de acompanhar músicos das Américas do Sul e Central, particularmente os ligados ao bolero, além de participar de apresentações na Catalunha (particularmente na capital Barcelona) e no sul da França.


Data desse período o aprofundamento da admiração de Tete pelo pianismo de “Fats” Waller, que havia ouvido ainda criança, mas já agora em outros nível de apreciação e entendimento. Interessou-se então e também pelos trabalhos de John Lewis, Horace Silver e Oscar Peterson o que, de certa forma, influenciou e melhorou de forma substancial sua técnica e seu estilo.


Em 1958 apresentou-se em trio no Festival de Cannes (Doug Watkins / baixo e Art Taylor / bateria), para em seguida tocar com Dizzy Gillespie, Donald Byrd e Kenny Clarke (“Mr. Clock”).
Em 1959 apresentou-se no “1º Festival de Jazz de San Remo” (acompanhado por Pete LaRocca, baterista de New York que depois trabalhou com Art Farmer) e em 1960, sob contrato com a “Blue Note” local, atuou em Berlim e Frankfurt (rádio local) com Albert Mangelsdorff, Chet Baker, Sahib Shihab, Herb Geller e Benny Bailey.

Quando estava na Espanha nesse ano de 1960, era comum encontrar Tete atuando ao lado de Pedro Iturralde em Madrid (“Whiskey Jazz Club”, na “Calle Marqués de Villamagna”, primeiro “Whiskey Jazz” de Madrid e que foi inaugurado por Tete), onde conheceu o baterista Peer Wyboris, um de seus mais fiéis colaboradores desde então.


Tete Montoliu voltou a apresentar-se na Alemanha, em Frankfurt, em 1961, em 1963 em clubes de Copenhague e em 1964 no “Molde Jazz Festival” da Noruega; assim e continuadamente, Tete já era figura permanente no circuito europeu de Jazz, apresentando-se ao lado de Dexter Gordon, Kenny Dorham, Archie Shepp e outros.

Retornando ao ano de 1961 e em Frankfurt, foi montado um dos grupos que mais influenciou a vanguarda do Jazz europeu: ao lado de Tete ao piano, alinhavam Ben Jaedig / sax.tenor, Dick Spencer / sax.alto, Peter Trunk / baixo e Alfons Blesses / bateria; esse grupo dissolveu-se em 1963. Também nesse ano de 1961, assim como no ano seguinte de 1962, Tete Montoliu foi agraciado com o prêmio de “Melhor Pianista Europeu de Jazz”.


Integrou quarteto com o multi-instumentista Roland Kirk, apresentando-se em temporada por toda a Europa, inclusive com a “European All Stars”, permitindo-lhe contato com o então muito jovem baixista Niels-Henning Orsted Pedersen (17 “aninhos” na época, mas que infeliz e recentemente nos deixou em 19 de abril de 2005).


Esses anos de 1963 e 1964 assinalam também seguidas apresentações de Tete Montoliu no “Montmatre Jazz House” de Copenhague, acompanhando músicos do calibre de Ben Webster, Dexter Gordon, Lucky Thompson, Kenny Dorham, Stephane Grapelli, Niels-Henning e Benny Golson.

Em 1965 e no regresso a Barcelona, Tete formou um trio com Eric Peter / baixo e Billy Brooks / bateria, trio esse que atuou até 1966 no lendário “Club Jamboree de Barcelona” e realizou uma série de gravações para a etiqueta “Concentric”, até hoje consideradas como das mais importantes realizadas na Espanha, além de apresentar-se em diversos festivais de Jazz, entre os quais o de Antibes, Jean-les-Pins (com Anita O’Day), o de Bolonha na Itália e muitos outros.


Também no “Club Jamboree de Barcelona” Tete teve oportunidade de atuar ao lado de músicos do quilate de Art Farmer, Dexter Gordon, Booker Erwin, Donald Bird, Bill Coleman, Pony Poindexter, Lee Konitz, Lucky Thompson, Stephane Grapelli e muitos outros.

Tendo sido dissolvido o trio montado em 1965, a partir de 1966 Tete mudou-se para a Holanda onde atuou para diversas emissoras de rádio e de televisão, além de converter esse pais como seu ponto mais imediato para apresentações por toda a Europa.


A convite da Câmara de Comércio americana, em 1967 Tete apresentou-se nos U.S.A. para alguns concertos, mas o êxito obtido faz com que sua estadia em solo americano se prolongasse por cerca de 03 meses, com atuações em piano.solo e em em trio com Richard Davis e Elvin Jones, no “Up Of The Gate”. O trio Tete / Davis/ Elvin chegou a realizar uma gravação, todavia não lançada no mercado.

Tete Montoliu percorre os anos 70 do século passado com grandes êxitos na Europa, atuando na então Iugoslávia (Lubljana, Zagreb e em Belgrado com Dusko Dojkovic), na Finlândia (em Pori, com Lei Right) onde foi acompanhado à bateria (sim senhor!!!) por um então “jovem” Chick Corea, na Alemanha (em Munique, no “Jazz Domicilie”), na França (Festival de Jazz de Chateau-Valon) e em Londres, Paris e Bruxelas.


Em 1972 na Holanda (maio) e em Barcelona (novembro) Tete gravou com Ben Webster, para em 1974 e por larga temporada de verão acompanhar a Johnny Griffin (“The Little Giant”), em trio, por inúmeras cidades espanholas; ainda em 1974 teve oportunidade de tocar com Joe Henderson.


Em 1975 Tete volta a atuar no “Jazz Domicilie”, realiza temporada na Holanda com Dexter Gordon e participa do “Festival de Jazz de Konsberg” na Noruega, al lado de Niels-Henning e Albert “Tootie” Heath.

Segue em
(A) BIOGRAFIA - 2ª PARTE

7 comentários:

MauNah disse...

Mestre,
ja estava saudoso da sua serie.
Que bom reencontra-la, e logo com o fenomenal Montoliu, cuja arte tanto me encanta - sendo Chano Dominguez o segundo na lista dos espanhois - e cujo talento permitiu-lhe entrar para o pantaeo dos grandes nomes do jazz, sem perder suas origens bascas, que volta e meia apareciam como iluminuras, em meio as suas interpretacoes tao estimulantes.
Bela escolha. Grande abraco,

Érico Cordeiro disse...

Caro Apóstolo,
Parabéns pela belíssima resenha. Um grande pianista (como líder tenho apenas o The Spanish Treasure - com Rufus Reid e Akira Tana, bem legal - e como sideman, destaco o ótimo Kirk in Copenhagen, de Roland Kirk), certamente entre os maiores produzidos pelo Velho Continente.
Que venha logo a segunda parte!!!!
Abraços!

Mario disse...

Conheci Tete Montoliu tocando com Hampton no disco "Jazz Flamenco" onde fazem um excelente dueto em "Tenderly". Tete sola magnificamente no início da música até que Hamptom entra depois de vários minutos na balada impressionante. Acho que é um dos poucos discos de jazz onde se ouve castanholas.

Boa resenha Apóstolo!

llulls@oasuntoejazz.com disse...

Dá-lhe Apóstolo,
Magnífico mais um capítulo da série, que todos aplaudem e aguardam ansiosos a segunda parte. Falar de Montoliu -para vc é fácil, já que desde os tempos do "O Assunto é Jazz" o catalão assinava o ponto. Já gostava dele e me emocionou sua participação no disco de Mayte Martin. Abcs.
llulla

John Lester disse...

Prezado Mestre Apóstolo, creio que nem mesmo Frederico Bravante, nosso correspondente em Mallorca, faria melhor.

Grande abraço, JL.

APÓSTOLO disse...

Mestre LLULLA:

Na 2ª parte você será citado, exatamente pela gravação de Tete com Mayte, uma obra de extremo bom gosto musical, que me foi presenteada por um Mestre.

edú disse...

O retorno da série Retratos pelas páginas do Cjub é sempre motivo de alegria e amparo para os que se dedicam de forma interessada a conhecer com maior profundidade o jazz.