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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

04 novembro 2009

RETRATOS
11. TETE MONTOLIU
(A) BIOGRAFIA - 2ª PARTE - FINAL

A temporada de um mês no Japão, em piano.solo, foi o fato internacional mais significativo na carreira de Tete no ano de 1977, além de apresentação ao lado de George Coleman no “Ronnie Scott’s Club” de Londres, de um mês de atuação no “Paull’s Club” de Bruxelas, encerrando o ano com suas apresentações nos clubes “La Cova Del Drac”, “Zeleste”, “Jazz Cava” (de Terrasa), e “Satchmo”, além das atuações em diversas cidades espanholas.

Em 1978 Tete Montoliu foi figura regular no clube “Satchmo”, ao lado do francês Michel Roques, além de atuações em Madrid, Lausanne e na rádio “Suisse Romand”.

Em 1979, Tete realizou uma de suas grandes aspirações: foi o protagonista de concerto no “Palau de la Musica Catalana”. Nesse mesmo ano esteve em Londres, para apresentar-se ao lado do guitarrista Joe Pass no “Ronnie Scott’s Club”, participando em seguida do “Festival Internacional do Mar do Norte” ao lado de Oscar Peterson, Cecil Taylor, Duke Jordan e Dexter Gordon (músico com quem teve oportunidade de gravar em diversas ocasiões).

Ainda em 1979, Tete realizou temporada nos U.S.A. e no Canadá, iniciada no “Festival de Monterrey”, sendo ali aclamado como um dos grandes músicos de Jazz da época. Nessa temporada gravou por duas vezes, uma delas com Chick Corea em Los Angeles (este então não mais como “baterista”). Apresentou-se, também, no “Keystone Corner”.

Retornando dos U.S.A. Tete realizou nova temporada na Europa, acompanhando a Jackie McLean, para em seguida e na primavera de 1980 retornar ao Canadá e aos U.S.A. para novas temporadas, ocasião em que participou do “Boston Concert”, gravado diretamente da “Berkley High School of Music”, em disco largamente elogiado.

Ainda em 1980 Tete Montoliu inicia seus trios com Herbie Lewis / baixo e Billy Higgins / bateria e com John Heard / baixo e Albert “Tootie” Heath / bateria.

Com a morte de Bill Evans (a caminho do “Mount Sinai Hospital” em 15 de setembro de 1980), grande amigo de Tete Montoliu, este realizou em Barcelona uma sucessão de apresentações em homenagem ao grande pianista.

Nos anos 80 do século passado Tete Montoliu realiza diversas temporadas com músicos norte-americanos, em contextos “all stars”: destacam-se nessas formações Johnny Griffin, Joe Henderson, George Coleman, Sonny Stitt, Slide Hampton, Jerome Richardson e Eddie "Lockjaw" Davis.

Em duo com o vibrafonista Bobby Hutcherson e na cumplicidade musical com o então já consagrado Niels-Henning, Tete Montoliu atua com enorme satisfação em diversas ocasiões. Em 1982, é destaque no “Festival de Jazz de San Sebastian”, onde é homenageado.

Temporadas européias com Johnny Griffin marcam as atuações de Tete Montoliu em 1983.
1984 = temporada nos U.S.A. com Bobby Hutcherson em duo, com Jerome Richardson apresentações na Europa e atuação com Eddie "Lockjaw" Davis em Zurique, no “Widder Bar”.

No ano de 1985 Tete apresenta-se no “Carnegie Hall”, com enorme sucesso de crítica e de público, além de ser o “padrinho” do “Festival de Jazz de Andorra” e constituir-se em destaque no “Festival de Jazz de Nice”.

Em 1986 apresenta-se no “Festival de Jazz de Madrid” ao lado de Harold Land, com o qual e em seguida realiza grande temporada por toda a Espanha, para depois participar do “Festival de Jazz de La Habana”(Cuba).

Em 1987 é a vez de com Dizzy Gillespie, em duo, realizar temporada na França. Tete apresenta-se durante tres semanas em Buenos Aires e depois segue para o Canadá: Montreal, Toronto, Edmonton e outras cidades são seus palcos.

Em 1988, Montoliu apresenta-se em 02 de fevereiro no “Teatro Real de Madrid”, em concerto de gala, onde executa em 42’30” sua suíte espetacular “Monkiana”. Em meio a vasto contingente de músicos de ponta, Tete Montoliu participa da temporada da “Orquestra Ecos del Bebop”, para em seguida excursionar com Paquito D’Rivera.

No ano seguinte integra as apresentações do “Timeless All Stars” por toda a Espanha, simultaneamente com a manutenção em Barcelona de trio com Horacio Fumero e Peer Wyiboris, em apresentações nas quais também se exibe em “piano.solo”, forma na qual pode desfilar seu vasto repertório e sua quase infinita capacidade de improvisação, ademais de permitir-lhe desenvolver projeto de uma série de 13 discos sob a denominação de “The Music I Like To Play”, da qual foram editados os quatro primeiros.

Em 1989 participou na Itália de homenagem a Dizzy Gillespie, ao lado de Milt Jackson, Randy Brecker, Johnny Griffin, Max Roach e do próprio Dizzy.

Os anos 90 do século passado vão encontrar Tete apresentando-se no Japão no “Keinsgton Córner” local durante duas semanas. Grava para as etiquetas “Alfa Records” e “Concord Jazz” (leia-se Carl Jefferson, fundador), em 1992 forma novo trio (Hein Van de Gein / baixo e Idris Muhammad / bateria) para apresentações em festivais, além de protagonizar a abertura dos “Jogos Paraolímpicos Barcelona-92” em memorável concerto com Bobby Hutcherson.

Ainda em 1992 Tete Montoliu é o convidado da “Orquestra Sinfônica de Cadaqués”, para o “Festival Internacional del Castell de Perlada” (Catalunha), onde interpreta a suíte “Porgy and Bess” de George Gershwin.

É homenageado no “Palau de La Musica Catalana” em 1993 no “Festival Internacional de Jazz de Barcelona” pelos seus 60 anos, atuando ao lado de Johnny Griffin e Roy Hargrove. Seguem-se nesse ano temporadas por cidades espanholas e européias com o trio formado em 1992 (Tete, mais Hein Van de Gein / baixo e Idris Muhammad / bateria) e agregando o saxofonista Ralph Moore. Conhece a Cantora de música flamenca Mayte Martin.

1994 é o ano em que Tete Montoliu apresenta-se em piano.solo no Egito (“Palácio da Ópera de El Cairo”), em Amã (Jordânia) e em Damasco e Aleppo (Síria). O êxito dessas apresentações faz com que retorne aos mesmos locais no Oriente, ainda nesse mesmo ano e no ano seguinte. Atua em diversas cidades européias e espanholas a par de, no Natal, formar duo com Joe Henderson no “Festival de Jazz de Terrasa” (Catalunha).

Em 1995 Tete participa em diversos festivais de Jazz: Vitória-Gasteiz (em piano.duo com Chick Corea), Marciac, Genebra (duo com Niels-Henning) e Junas (França, com Horacio Fumero e Peer Wiboris). Para apresentações em Sevilha, Tete incorpora o saxofonista francês Guy Laffite ao seu trio.

Alcança marca superior às 100 (cem) gravações para o mercado fonográfico; entre essas gravações destaca-se uma antologia de puro bom gosto musical quando em 1996, com seu trio, se reúne à cantora Mayte Martin (Barcelona, 1965, cantora originalmente de música flamenca) para gravar o CD “Free Boleros”, em realidade uma coletânea de boleros clássicos interpretados "em JAZZ" por um trio em estado de graça (Tete Montoliu elabora discursos pianísticos de pura beleza, com toques de “blues”), acompanhando uma verdadeira “CANTORA” (dicção, divisão, timbre, extensão, emoção.........). Tive a satisfação de ganhar essa gravação do Mestre “LLULLA” (Luiz Carlos Antunes, produtor e apresentador do programa radiofônico “O Assunto é Jazz”, Rádio Fluminense-FM de Niterói / RJ, líder de audiência em seu horário das terças-feiras das 22.00 às 24.00 horas, que chegou a alcançar a incrível marca de 2.457 edições contadas de 06 de dezembro de 1958 até 27 de setembro de 1994).

Em 1996 Tete é homenageado a nivel nacional pela “Sociedad General de Autores”, por seus “50 Anos de Jazz”, no “Teatro Monumental de Madrid”, em um concerto do qual participam Alvin Queen, Gary Bartz, Pierre Boussaguet e Tom Harrell. Ainda em 1996 Tete comemora seus 63 anos gravando em piano.solo o CD “T’estimo Tant...”.

No ano seguinte os 64 anos de Tete são comemorados no “Palau de La Musica Catalana” em Barcelona, com concerto em piano.solo que foi gravado em CD. Nesse ano de 1996 e em novembro a grande tragédia pessoal: é diagnosticado câncer em Tete Montoliu.

Em 1997 são gravados mais tres CDs com a apresentação de Tete Montoliu em fevereiro no “Festival de Jazz de Terrasa”. Em março e no “Palau de La Música Catalana”, Barcelona, também em piano.solo, Tete tem gravado seu último CD.

Tete Montoliu faleceu como indicado no início desta sua “Biografia”, em 24 de março de 1997.

Ao longo de sua carreira Tete Montoliu recebeu muitas homenagens e honrarias, destacando-se entre as muitas a “Creu de Sant Jordi de La Generalitat de Catalunya”, a “Medalla de Oro del Ayuntamiento de Barcelona” (bom catalão e fiel à cultura e aos valores de sua terra natal) e, como fá de futebol, “culê” de boa cepa como são os torcedores do "Barça", barcelonista que sempre foi e cultor do F.C.Barcelona (“mes que um club”), a insíginia de “Oro Y Brillantes del Football Club de Barcelona”.

Tete Montoliu sempre foi um ouvinte, admirador e executante de Charlie Parker, Thelonius Monk e John Coltrane, suas bases para altos vôos musicais e pianísticos.

Entenda-se que a idade pesou progressivamente mais para Tete Montoliu (cego de nascença) do que para outros músicos, peso agravado a partir do câncer diagnosticado em novembro de 1996 e dado o esforço necessário para seu pianismo e, particularmente, quando atuando com outros músicos, o que sempre lhe trazia mais dificuldades para interação e equilíbrio musical; o que para muitos exigia um simples olhar, para Tete requeria toda uma aguçada sensibilidade e desenvolvimento de sentidos muito além da visão e, com certeza, bem mais cerebrais.

Mesmo apresentando-se e gravando com outros músicos, esse nível de dificuldade sempre levou Tete a preferir atuar em piano.solo, quando não dispunha de baixo/bateria muito bons, conforme declarou em entrevista para a revista francesa “Jazz Magazine”, por ocasião de apresentação em Châteauvallon:
Jazz Magazine: Em Espagne, Tete Montoliu, vous jouez souvent em trio. Pourquoi, a Châteauvallon, avez-vous joué en solo ?
Tete Montoliu : Oui, pendant de nombreuses années, j’ai joué avec une section rythmique. Mais il est très difficile de trouver un bassiste et un batteur qui se comprennent bien, qui aient les mêmes objectifs musicaux… Aussi, quand je me sens en bonne forme, je préfére jouer en solo – ou avec un très bon bassiste et un três bon batteur.“

Tete foi, sem dúvida, bem influenciado pela arte de Bud Powell e de Al Haig e, de alguma forma por Lennie Tristano, ainda que tivesse desenvolvido ao longo de sua trajetória um estilo e uma “linguagem” muito pessoais, com base em uma pulsação percussiva, com articulação nítida e forte inclinação por toques golpeados com rapidez; em alguns solos nota-se certa descontinuidade, acentuadas “escapadas” da estrutura em desenvolvimento, assim como farto ludismo na exploração de figuras “bluesy”.

Seu apurado sentido de “blues”, com fortes tintas negróides, foi bem explorado por Joachim E. Berendt (“El Jazz – De Nueva Orleans A Los Años Ochenta”, 2002, México, página 509), quando enuncia que:
“...verdadero virtuoso ...como el español (o, como le gusta llamarse a él, catalán) Tete Montoliu, quien dijo una vez - basicamente, nosotros los catalanes somos negros - y así es como toca: quizás el más negro de todos los pianistas europeos, arraigado, sin embargo, em la tradición de su natal Cataluña, a cuyas canciones populares há dado conmovedoras interpretaciones.”

Foi, sempre e isso é perfeitamente ouvido e sentido em suas gravações, um pianista superior, capaz de imprimir perfeito swing ao seu fraseado e citações muito bem encaixadas de “blues”.

Um senhor pianista para quem gosta, verdadeiramente, de JAZZ !!!
Segue em
(B) FILMOGRAFIA, (C) BIBLIOGRAFIA e (D) DISCOGRAFIA

4 comentários:

Érico Cordeiro disse...

Mestre Apóstolo,
De volta, em grande estilo.
Ouso dizer que não se trata de uma simples resenha, mas de uma aula magna, na qual a obra e a vida deste pianista são esmiuçados e trazidos ao leitor de forma minudente, clara e precisa.
Parabéns e, por favor, que venham mais e mais postagens!!!!

MaJor disse...

Pedro, magnífico trabalho, Montoliu além de ótimo pianista foi através dele que me aproximei do Assunto É Jazz, acertando um jazz-teste. Fui ao programa E TUDO COMEÇOU. Alô saudade!!!!
Um abraço e continue nos Retratos, muito bons.
Mario Jorge

edú disse...

Se a camisa do Barça anda pesando para Lionel Messi tornar seu futebol justo à sua altura, Montoliu demonstrou que Catalunia se fez jazz em praticamente todos os continentes.

John Lester disse...

Mestre Apóstolo, não conheço melhor resenha sobre o pianista em nosso vernáculo. Simplesmente perfeita. Aguardamos a sequência.

Grande abraço, JL.