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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

15 junho 2008

JAZZ EM JUNHO - NEW YORK CITY, FINAL

(continuação) A platéia simplesmente se inflamava quando Cyrus atacava. Uma curiosidade: a mulher de Frank Wess é uma japonesa cega que estava sentada numa mesa bem diante da nossa, com um grupo de outros nipônicos (na foto, é quem está de costas, de branco). Usava os cabelos trançadinhos à africana e bastava Mr. Chestnut iniciar seus solos suingados que ela imediatamente o acompanhava com palmas animadas que em seguida eram acompanhadas pela platéia. Outra curiosidade foi que, mesmo deficiente visual, foi nela que Wess pendurou o estojo de seu seu saxofone na hora de irem embora, enquanto a guiava por entre as mesas em direção à saída, parando apenas para receberem os efusivos cumprimentos da audiência ao velhinho.

Estávamos igualmente de saída quando vi, entrando pelo corredor e também com um estojo às costas, o saxofonista Jaleel Shaw, resenhado aqui há tempos atrás, como um dos jovens que se estavam destacando no cenário jazzístico americano. Havíamos trocado alguns emails por conta de um trecho do Tim Festival de 2004 (em SP), onde ele se apresentara na banda de Dave Holland. No dia seguinte, em que Branford Marsalis se apresentara, este chamou ao palco todos os sopros da banda de Holland (que assistiam da coxia ao seu set) para um gran-finale que registrei e no meu vídeo apareciam Cris Potter, Kevin Eubanks, o próprio Jaleel e Branford por quase um minuto.
Mencionei-lhe o fato e perguntei o que estava fazendo ali. Ele me disse que estaria se apresentando no segundo set - cuja programação eu desconhecia - no quarteto do baterista E. J. Strickland (outro dos resenhados naquele post de 2005junto ao seu irmão saxofonista-tenor Marcus Strickland). Diante do meu espanto com a novidade a garçonete que nos atendera, que passava ao lado e ouviu a conversa, afirmou: "Você pode ficar de graça, pois já pagou!".
Neste ponto preciso fazer um elogio à Silvia, que mesmo gripada e cansada, imediatamente, diante da minha indecisão, endossou o cheque e me disse na hora: "se você quiser, eu fico numa boa. Adorei o primeiro set e iremos embora amanhã, então vamos aproveitar ao máximo!" Espetáculo, não? Mas, aguardem, nem tudo seria tão fácil.
Voltei à mesa, reabri a conta e esperamos uns 10 minutos. Notei então Jaleel apreensivo, com o sax numa mão e o celular em outra. Logo depois, conversava na coxia com Chestnut. Em cinco minutos ele subiu ao palco e com uma sinceridade admirável, confessou que tinha havido um grande mal-entendido, que o resto da banda se havia confundido com as datas e que ele iniciaria o set com seu ídolo e professor Cyrus Chestnut, que tinha se prontificado a acompanhá-lo em um duo improvisadíssimo, em respeito aos presentes.

E sob os aplausos da platéia - que percebeu que teria mais do melhor Cyrus - iniciaram seu set totalmente imprevisto, combinando os temas ali na hora. Desnecessário dizer que Chestnut foi soberbo por todo o tempo, acompanhando a um maduro, fluente e criativo Shaw, por umas quatro músicas.


Em meio à quinta, aparece no fundo da sala um escurinho, magrelo e de bonézinho que dirige-se ao bar, onde se encontravam alguns homens de terno. Cochicha no ouvido de um deles e ambos circundam a sala por trás, tentando se fazer despercebidos. Próximo ao final do tema que rolava, o baterista E. J. Strickland já iniciava o transporte e a montagem de sua bateria no canto próprio do palco, enquanto balançava a cabeça negativamente, como a dizer para si próprio "como fui dar uma mancada dessas"?

À minha esquerda, pude perceber a silhueta, recortada contra a janela do fundo, de um contrabaixo e reconheci Peter Washington como o seu portador.
Depois da tentativa frustrada de Strickland de justificar o rolo nas informações que alijara o quarteto original - sobre o qual não consegui saber quem seriam o pianista e o baixista - formou-se, e tocou uma barbaridade, esse sensacional quarteto que jamais tocara junto (formação, que acredito, não voltará a se repetir nunca mais) e que arrebentou dentro do clima de total informalidade que se criou. Só faltou alguém sugerir que eles tocassem certos temas, durante os segundos em que ficavam discutindo como iriam dar seguimento ao set. Optaram, claro, pelos standards para facilitar tudo mas, não obstante, o jazz que se ouviu ali foi de altíssimo nível, os quatro livres, leves e soltos para "sentar o bambu". Strickland, de quem pouco conhecia o trabalho, impressionou-me vivamente pelo domínio absoluto da bateria, com uma levada "entre" Al Foster e Roy Haynes, em algumas passagens muito brian-bladeanas e cujas cores obtidas nos pratos me lembraram muito a outro favorito meu, Lewis Nash. Sem que em nenhum momento essas influencias denotassem alguma falta de personalidade, pois a sua linguagem tinha uma característica bem marcante, com um belíssimo roll progressivo dos tons mais baixos até os pratos todos, em alta velocidade e ritmo perfeitos que ainda não tivha presenciado antes. Lembrei-me do confrade André Tandeta, que se ali estivesse poderia me ajudar no julgamento da arte de E. J. no sentido técnico, pois no emocional ele já estava tão aprovado quanto perdoado.

Ao final, todos saíram lucrando: a platéia, que pôde rever aos grandes Chestnut e Washington por esse período estendido; os (nem mais tão) jovens Shaw e Strickland, que conseguiram transformar o fiasco de organização (entre si) num set memorável em todos os sentidos. Um inacreditável "deixa que eu deixo" acabou, assim transformando-se numa raridade. O clima estava tão bom e as pessoas tão felizes que o apresentador ainda chamou ao palco um jovem pianista e duas das garçonetes (bem provavelmente, todos alunos de música em NY) para que cantassem e muito razoavelmente por sinal,um tema cada uma, fechando-se assim com chave de ouro a nossa experiência maravilhosa no Jazz at the Lincoln Center, que recomendo a todos em futura visita à cidade.

Nos clips, Jaleel e Cyrus e uma nesga do quarteto.



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