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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

09 março 2008

ELES - TERCEIRA PARTE

Aviso : para um melhor entendimento desse post recomendo a leitura de "ELES-segunda parte" sobre Max Roach.

5) Philly Joe Jones

Se eu tivesse que falar de um unico baterista que tenha me influenciado e marcado seria de Philly Joe Jones que eu falaria. Um dos grandes inovadores da bateria no jazz ele é um marco no desenvolvimento do instrumento tendo acrescentado ao vocabulario do bebop uma nova visão ritmica e melodica . Seu swing é contagiante, irresistivel ,um acontecimento. O homem é um verdadeiro monumento ao swing .
A primeira vez que ouvi Philly Joe Jones foi quando eu era bem jovem ,uns 18 anos , e o disco era "Working" com o quinteto de Miles Davis (Miles,Coltrane,Red Garland,Paul Chambers e nosso heroi). Foi uma descoberta fundamental,nenhum outro baterista eu ouvi tanto como ele . Durante muito tempo, anos, eu ouvia diariamente algum disco com ele. Era um ritual: hora de ouvir Philly Joe Jones . Agora que se passaram tantos anos é que posso avaliar o quanto devo a esse super-super-baterista , um musico dos musicos .
Começou a despontar no inicio da decada de 50 e logo se tornou um dos principais bateristas de jazz . Eu considero que uma de suas mais importantes contribuições foi a fusão entre dois estilos(bebop e swing) que seriam,pelo menos até então,antagonicos. E era um mestre no acompanhamento de solistas e conjuntos , possuindo aquela sempre tão almejada e dificil combinação de fluencia com estabilidade.
Numa antiga edição da revista "Down Beat" (aproximadamente 1975) ha uma entrevista com Philly Joe onde ele declara textualmente que seus bateristas preferidos sempre foram Art Blakey,Max Roach e Buddy Rich. Isso ja é uma valiosa chave para entendermos o estilo dele . Em um livro de bateria onde o grande mestre Alan Dawson e o critico Dan Morgestern analisam varios bateristas Sid Cattlet é citado como grande influencia de Philly Joe . Apesar de ter pouco conhecimento de Sid Cattlet sei que foi um dos grandes da epoca pre bebop mas os outros tres citados na "Down Beat" eu ja estudei e escutei muito e isso me deu uma boa ideia da formação do estilo de Philly Joe. Art Blakey com seu maravilhoso groove e suas aplicações na bateria de ritmos afro cubanos,Max Roach com a sua sofisticada concepção musical na construção de solos e Buddy Rich com um vocabulario ,tecnica e drive unicos e que ainda não tinham sido aproveitados pelos bateristas de bebop. Um musico da importancia de Philly Joe Jones não pode ser entendido só por uma analise de suas principais influencias , ha muitos outros fatores que são determinantes e um dos mais importantes foi a epoca em que viveu , para mim a idade de ouro do jazz. Tambem importante é sua variadissima experiencia como sideman , no inicio de sua carreira tocou em bandas de rhythm&blues e ao longo da vida em praticamente todo tipo de formação que existe no jazz(desde trios e todos os tipos de pequenos conjuntos até big bands ). Sem esquecer o principal, é claro: seu enorme e fantastico talento. Um musico marcante e que foi um dos que escreveram o livro do jazz.

Philly Joe Jones esta entre as principais referencias quando se fala em condução . Tendo uma concepção de tempo super sofisticada que junta duas coisas : aquela sensação de movimento que é tipica do bebop ("on top of the beat") com um "sabor" caracteristico do periodo do swing, influencia de Sid Cattlet e Buddy Rich. Fluencia e estabilidade elevados a enesima potencia. Talvez fique um pouco complicado explicar mas vou tentar. No que chamamos "era do swing" predominavam as formações de big band e os bateristas tocavam no que seria o "centro" do tempo ( pensem em Jo Jones com Count Basie) e era perfeito para o acompanhamento dos solistas, que ainda não tocavam bebop. Com o surgimento do bebop vemos que essa concepção mudou para "um pouco na frente do tempo"(agora pensem em Art Blakey "empurrando" os solistas e o conjunto) e se tornou o padrão pois tambem era perfeita para a nova linguagem . Philly Joe conseguiu unir as duas, amalgama-las em uma unica. Coisa de genio .
Tambem foi um dos que mais desenvolveram os conceitos polifonicos de condução , uma evolução iniciada por Max Roach. Philly Joe com uma sonoridade mais grave na caixa e no bumbo pontuava sua condução de maneira diferente de Roach , talvez menos ativo mas com um sentido de propulsão inigualavel e que dialogava com os solistas enquanto os sustentava. É ilustrativo ver a quantidade e variedade de artistas de jazz com quem ele gravou.
Havia tambem uma certa atitude (termo infelizmente tão banalizado hoje em dia) assertiva, super confiante, podendo ser confundida ,pelos menos atentos,com agressividade . Para mim é mais uma qualidade musical que veio da influencia de Buddy Rich. Pessoalmente acho que os grandes solistas de jazz, especialmente do bebop pra ca , precisam dessa atitude do baterista. Existem tantas possibilidades de fraseado que é necessario um baterista extremamente seguro e atento. Como um timoneiro com mão firme pois navega-se em aguas profundas e mares turbulentos, com ondas grandes,muito vento e algumas tempestades no caminho, navegação oceanica de longo curso(a subliteratura sempre foi um desejo oculto meu , os amigos saberão relevar). Como ilustração sugiro a audição dos discos "Blue Train" de John Coltrane e qualquer um dos quatro albuns , ou melhor ainda todos eles, historicos com o quinteto de Miles Davis pelo selo Prestige ("Steaming", Working", Cooking" e "Relaxin" ) .Esses discos são pra mim como cartas de navegação, mostrando como sair e voltar com segurança ao porto( prometo ser a ultima vez que dou vazão ao meu lado "criativo"). Eu sempre ouço e deveria faze-lo de joelhos , tamanha importancia eles tem pra mim, são como revelações.
Philly Joe Jones foi um dos grandes artistas das vassourinhas (brushes , em ingles) tendo sido um pioneiro e um expoente tanto em termos criativos como tecnicos e musicais nessa arte tão dificil e tão pouco cultivada hoje em dia. Ele aplicou sua concepção de condução ritmica,unica e da qual ja falamos acima, nas vassourinhas e só isso ja o torna especial nesse campo. Philly Joe acrescentou um drive como ninguem havia ouvido até então. Sua maneira de tocar vassourinhas em andamentos rapidos(medium-up e up-tempos) é sem paralelo , ele criou a referencia . Ha inclusive um livro escrito por ele sobre o assunto :"Brush Artistry" um classico . Dois discos, para mim fundamentais, onde podemos comprovar essa absoluta maestria no uso das vassourinhas: "Social Call " de Betty Carter( pra quem se interessa realmente em vassourinhas esse disco é um curso completo) e "Time Waits" de Bud Powell. Tambem no disco "Milestones" com o sexteto de Miles Davis(o quinteto mais Cannonball Adderley) ha uma performance historica:"Billy Boy". Não conheço nada sequer parecido em termos de groove de jazz com vassourinhas , imperdivel.

SOLOS - O mesmo que ele ja tinha feito com a linguagem de condução e acompanhamento tambem fez com a linguagem de solo : uniu o bebop e toda a sua fluencia e velocidade com o drive do swing. Buddy Rich e Max Roach no mesmo baterista , podemos dizer( simplificando bastante).
Seus solos alem de serem peças muito bem construidas musicalmente com começo , meio e fim contem um fraseado super pessoal que trouxe de volta aquela caracteristica "militar",os rudimentos, predominante antes do bebop (ver "ELES-segunda parte -Max Roach") . Os tais rudimentos eram usados por ele de uma nova maneira, incorporando-os a linguagem ritmica do bebop. E usando silencios, espaços ,como respirações. A antiga linguagem se somando com a nova e apontando para a fente, o futuro .
Nas trocas de 4 ou 8 compassos com os outros musicos (os "trades") ele tambem desponta como um dos mais importantes. Nesses trechos de 4 ou 8 compassos encontramos muito mais significado musical do que na maioria dos solos de bateria de maior tamanho. Uma de suas caracteristicas principais era que ele pegava alguma ideia que tinha sido tocada por outro musico durante o trade e a desenvolvia criando uma sensação de fluxo musical ininterrupto. Seus trades são pra mim um dos maiores tesouros do jazz em termos de criatividade.
Sou suspeito pra falar mas na minha opinião, e de gente que considero muito respeitavel,Philly Joe Jones abriu a porta da bateria moderna . O baterista que quiser entender e tocar o jazz que se faz hoje tem que necessariamente ouvir e estudar Philly Joe Jones.

Infelizmente nunca vi Philly Joe Jones ao vivo. Apesar disso tenho a sensação de conhece-lo como um amigo,um musico mais velho que me deu muitos e valiosos conselhos . Até hoje estudo varios licks e trechos de solos dele alem de tocar junto com discos para captar seu fantastico swing. Talvez leve o resto da vida tentando,mas é sempre muito prazeroso. Vassourinhas se eu aprendi alguma coisa foi com ele . E constantemente me surpreendo com ele mesmo hoje mais de 30 anos depois da primeira audição de "Working". "Tio Joe" é e sempre sera o meu heroi da bateria.

Lembro aos amigos que estas são observações pessoais, é só ver a quantidade de adjetivos empregados, não um tratado sobre o assunto. Não tenho a pretensão de esgotar esse assunto, muito pelo contrario. Escrevi para chamar a atenção de voces sobre os bateristas que fizeram e fazem minha cabeça, um convite a uma audição mais atenta desses mestres e com isso cada um pode tirar suas proprias conclusões. Fiquem a vontade para acrescentar a visão de voces nos comentarios. Duvidas tecnicas mais especificas eu peço , por favor, para me mandarem por email pois os esclarecimentos podem ocupar muito espaço nos comentarios. Mas fica a criterio de voces, eu podendo, sabendo, responderei com o maior prazer, seja nos comentarios seja nos emails.

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