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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

05 outubro 2007

RETRATOS
06. LEE MORGAN (A)
BREVE HISTÓRIA, LONGA DISCOGRAFIA

INÍCIO - ETIQUETAS SEM FIM
Lee Edward Morgan, “Lee Morgan”, nasceu às 14.30 horas em 10/julho/1938 na cidade de Filadélfia, estado da Pensilvânia e faleceu, assassinado, às 02.45 horas do dia 19/fevereiro/1972 em New York, muito jovem, 34 anos incompletos e, portanto, com curta biografia, mas com carreira meteórica e extensa discografia (946 registros em menos de 16 anos = 04/novembro/1956 a 17/fevereiro/1972, alguns gravados e até hoje não lançados) que marcaram sua trajetória musical plena de inconfundíveis vigor, beleza e sonoridade.
Mesmo tendo sido a maior parte das gravações de Lee Morgan registradas para o selo “Blue Note” (leia-se sempre Alfred Lion fundador do selo e seu sócio Francis Wolff, alemães radicados nos U.S.A.) e nos estúdios do meticuloso, experiente e perfeccionista Rudy Van Gelder, os selos que gravaram e/ou distribuíram registros de Lee Morgan contam-se às dezenas: Alto, Bandstand, Baybridge, Bluebird (RCA), Colpix, DJM, Dragon, Europel, Fanfare, Fontana, Fresh Sound, Impulse, Jazzband, Jazz Hour, Jazzland, Jazz Unilimited, Liberty, Limelight, Mercury, Moon, Mosaic, New Sound, Ozone, Prestige, RCA, Riverside, Roulette, Royal Jazz, Savoy, Session Disc, Somethin’ Else, SPA, JHR, Specialty, TCB, Toshiba-EMI, Trip, United Artist, VAP Vídeo, Vee-Jay e VERVE.

O INSTRUMENTO - AS INFLUÊNCIAS
Voz imediatamente identificável no trumpete é merecidamente eleito e reverenciado como um dos grandes da segunda metade dos anos 50 do século passado ao lado de, mesmo sem comparar estilos, Freddie Hubbard, Blue Mitchell e Donald Byrd. Se ousarmos identificar descendentes de Lee Morgann, provavelmente e nos dias de hoje chegaremos ao excelente Roy Hargrove.
Seu único instrumento, o trumpete, foi por ele adotado a partir dos 14 anos e como presente recebido do pai, um mais que razoável pianista acompanhador de coros de gospel em igrejas.
O aprendizado de Lee Morgan na técnica e na sonoridade do trumpete baseou-se em persistência, entusiasmo e talento próprio, em sua própria cidade e na “Mastbaum Technical School For The Arts” (formou-se em 1956) onde teve como companheiro nada menos que Sonny Stitt (14 anos mais velho), já então um “bopper” que de alguma maneira inspirou Lee Morgan para o Jazz moderno.
Ouvir as interpretações de Lee Morgan é entender perfeitamente suas origens, por ele mesmo traduzidas com simplicidade e modéstia em entrevista durante 1958 (tradução livre):
Ainda não sou original, mas já possuo uma identidade que permite a um ouvinte de Jazz afirmar - este é Lee Morgan; basicamente meu estilo sofre fortes influências de Fats Navarro e de Clifford Brown, assim como de Miles Davis e de Dizzy Gillespie e, evidentemente, sem esquecer as origens de Bud Powell e de Charlie Parker. Penso que meu estilo definitivo se formará vivendo a música, com experiências e viagens, até tocar o que sou, minha própria imagem com o trumpete. Toco hard.bop porque sou extrovertido e essa música é característica de grupos formados por pessoas extrovertidas”.
Mesmo verbalizando todas essas influências, não há dúvida quanto ao fato de que Lee Morgan soube liberar-se dessas ascendências para imprimir-se motivações e aspectos autônomos, originais, em seus solos.
Esse aspecto modesto e reservado, sem descartar-lhe o bom humor, talvez tenha custado a Lee Morgan ao longo de sua carreira menos “marketing” da crítica que o reservado a músicos mais vaidosos.

BOAS COMPANHIAS
Com o aprendizado e já aos 15 anos (!!!...) Lee Morgan era figura habitual nas “jams” locais e organizava e dirigia seus conjuntos em bailes, o primeiro deles com o baixista "Spanky" DeBrest tocando no club "Music City". Por essa época desfrutou da presença de ícones conterrâneos e dos que visitaram a cidade, a saber e entre outros: John Coltrane, Benny Golson (com quem viria a atuar anos depois no grupo de Dizzy Gillespie e nos “Jazz Messengers” de Art Blakey), Clifford Brown, Art Blakey, todos já exaltando-o como um talento emergente e a ser considerado no cenário do “hard.bop” que dominava o Jazz de então, o que causou a difusão de seu nome entre os demais músicos.
Em outubro/1956, Dizzy Gillespie contratou Lee Morgan para sua banda, onde permaneceu até janeiro/1958; ai Lee Morgan atuou ao lado de Benny Golson e deixou registrada sua participação em diversos álbuns.

PRIMEIRA GRAVAÇÃO
Mas antes de gravar com Gillespie e com apenas 18 anos e 04 meses de idade Lee Morgan gravou pela primeira vez, como titular de quinteto e com o “pé direito”: estúdio de Rudy Van Gelder em Hackensack / New Jersey, 04/novembro/1956, selo Blue Note para o álbum “Lee Morgan Indeed !” e acompanhado “apenas” por Clarence Sharpe (sax.alto), Horace Silver (piano), Wilbur Ware (baixo) e Philly Joe Jones (bateria).
No dia seguinte (05/novembro) no mesmo estúdio e para o selo Savoy, Lee Morgan grava com o quinteto de Hank Mobley as 04 faixas (mais “alternate take”) para o álbum “Introducing Lee Morgan With Hank Mobley Quintet”, com ele ao trumpete e mais Hank Mobley (sax.tenor), Hank Jones (piano), Doug Watkins (baixo) e Art Taylor (bateria). A terceira faixa é um “medley” de uma beleza superior com 04 temas já por si lindíssimos: “Softly As In A Morning Sunrise”, “P.S. I Love You”, “Easy Living” e “That's All”.
Em seguida e no dia 07/novembro Lee Morgan grava com o mesmo quinteto e, ainda com a titularidade de Hank Mobley mas com “cozinha” modificada (Horace Silver / piano, Paul Chambers / baixo e Charlie Persip / bateria), Lee retorna em 25/novembro ao estúdio de Rudy Van Gelder para novos registros.
Também no final de novembro/1956 (??? e/ou início de dezembro/1956 ???) é que Lee Morgan grava pela primeira vez com a banda de Gillespie, para o selo “Fanfare” e em apresentação ao vivo no “Birdland”, em formação que conta com a trombonista Melba Liston no naipe de metais. Para o mesmo selo a banda de Gillespie é gravada em transmissão radiofônica tomada diretamente do “Birdland” (Mutual Broadcast "Bandstand USA") no início de dezembro/1956.

HERMOSA BEACH - ART BLAKEY
No início de 1957 Lee Morgan atua e grava (14 e 17/fevereiro) em Hollywood / LA para o selo Liverty no reduto de Howard Rumsey, o “Lighthouse”.
Mesmo ainda participando da banda de Gillespie, em 02/abril/1957 e em New York nos estúdios da RCA Lee Morgan grava pela primeira vez com os “ABJM” (Art Blakey Jazz Messengers), união que se firmará a partir de 1958 com incontáveis apresentações, gravações e diversas excursões à Europa, onde também ficarão registradas gravações antológicas de um Lee Morgan sempre em ascensão técnica, emocional e carismática: em Scheveningen / Holanda (19/novembro/1958), em Paris (22/novembro, 17, 18, 19 e 21/dezembro/1958), em Copenhaguem (05/novembro/1959), novamente em Paris (15/novembro/1959), em Estocolmo (23/novembro/1959), em Berlim (29/novembro/1959), mais uma e pela penúltima vez em Paris (18/dezembro/1959), novamente em Estocolmo em 1960, Lausane (08/dezembro/1960), em Tóquio (02 e 11/novembro/1961), em Manchester (06/maio/1961), pela última vez em Paris (13/maio/1961) e, finalmente e pela derradeira vez no exterior, em Londres (07/março/1965). Essas apresentações com gravações no exterior estão entremeadas na carreira discográfica de Lee Morgan com centenas de gravações nos Estados Unidos, em estúdio e ao vivo, o que está comentado adiante.
Conta Art Blakey que Lee Morgan além de músico superior era habitualmente bem humorado, conforme indicamos anteriormente, e em determinada apresentação no "Club Saint Germain" em Paris após seu solo no tema “Politely” ao invés de agradecer aos aplausos virou-se de costas para o público: no início surpreso, Art Blakey só depois notou que Lee tinha um cartaz nas costas com os dizeres “Thank You”.

I REMEMBER CLIFFORD
Em 24/março/1957 e pela primeira vez Lee Morgan deixa registrados no álbum “Lee Morgan Volume Three” 07 minutos de pura magia com o clássico de Benny Golson “I Remember Clifford” (tema que voltou a gravar em 14/junho/1957, em 06 e 08/julho desse mesmo ano e em 09/novembro/1958).
Em abril/1957 Lee Morgan grava sob a titularidade de Johnny “Little Giant” Griffin e para o selo Blue Note um álbum antológico (“A Blowing Session / Johnny Griffin”) e com formação de primeira grandeza: Johnny Griffin, John Coltrane e Hank Mobley (saxes.tenor), Wynton Kelly (piano), Paul Chambers (baixo) e Art Blakey (bateria), evidentemente com Lee ao trumpete. Destaque para 02 faixas exuberantes, ambas clássicos de Jerome Kern: “The Way You Look Tonight” (com Dorothy Fields) e “All The Things You Are” (com Oscar Hammerstein II). É um marco para a sonoridade “selvagem” de Lee Morgan.
Ainda em 1957 e em New York grava sessões com Dizzy Gillespie (07 e 08/abril, 14/junho e 08/julho), em seu nome (sexteto em 25/agosto, quinteto em 29/setembro e quarteto em 18/novembro) e, também, com o eterno Jimmy Smith ao órgão (25/agosto) e com o altista Ernie Henry (15/setembro), na mesma data em que grava com Coltrane, em formação que reune o trombone de Curtis Fuller e uma poderosa “cozinha” no estúdio de Rudy Val Gelder: Kenny Drew / piano, Paul Chambers / baixo e Philly Joe Jones / bateria.

COM OS "JAZZ MESSENGERS"
De 30/outubro/1958 no estúdio de Rudy Van Gelder para a Blue Note e até 13/maio/1965 em New York e para o selo Limelight, Lee Morgan participará de 49 sessões de gravação com o ABJM (Art Blakey Jazz Messengers), em estúdio, tomadas de transmissões radiofônicas e ao vivo, já relatadas anteriormente: 15 nos estúdios de Van Gelder, 15 em diferentes estúdios de New York, 07 em Paris, 02 em Estocolmo, 02 em Tóquio e 01 em Hollywood, Newport, Holanda, Copenhaguem, Berlim, Lausane, Manchester e Londres. Entre essa 49 sessões de gravação Lee Morgan participou de diversas outras, como titular e como “sideman”, mas em quantidade bem menor que aquelas registradas sob a titularidade de Art Blakey.
Também entre essas sessões ocorreu um intervalo de pouco mais de 02 anos entre julho/1961 e dezembro/1963, já que Lee Morgan nesse espaço participou apenas de 05 sessões de gravação: () a 24/janeiro/1962 em New York com Clifford Jordan (tenor), Barry Harris (piano), Bob Cranshaw (baixo) e Louis Hayes (bateria), () a 17/novembro/1962 também em New York com Jimmy Heath (tenor), Barry Harris (piano), Spansky DeBrest (baixo) e Al Heath (bateria), () a 02/outubro/1963 no estúdio de Rudy Van Gelder em quinteto com Hank Mobley (sax.tenor), Andrew Hill (piano), John Ore (baixo) e Philly Joe Jones (bateria), () a 21/novembro/1963 novamente no reduto de Van Gelder em sexteto liderado pelo trombonista Grachan Moncur III mais Jackie McLean (sax.alto), Bobby Hutcherson (vibrafone), Bob Cranshaw (baixo) e Tony Williams (bateria) e () com Van Gelder a 21/dezembro/1963 em seu tradicional estúdio de Englewood Cliffs / New Jersey para deixar registrado para a Blue Note, entre outros, o álbum sucesso de vendas com o tema de sua autoria “The Sidewinder”, acompanhado por Joe Henderson (tenor), Barry Harris (piano), Bob Cranshaw (baixo) e Billy Higgins (bateria), em que este é o apoio permanente para o desenvolvimento de Lee Morgan nesse blues de 24 compassos.
Durante esse intervalo Lee Morgan ficou praticamente todo o tempo em sua terra natal afastando-se de problemas com as drogas.

ÊNFASE NA CARREIRA SOLO - CARACTERÍSTICAS
Após desligar-se de Art Blakey (ainda que este posteriormente participasse de gravações de Lee como líder) e seguindo sua carreira solo, Lee Morgan gravou diversos outros álbuns para o selo Blue Note sempre com sucesso de público, crítica e vendas: sem esgotar esses “milestones”, podemos citar “Leeway” de abril/1960 (Jackie McLean, Bobby Timmons, Paul Chambers e Art Blakey), “Search For The New Land” de fevereiro/1964 (Wayne Shorter, Grant Green, Herbie Hancock, Butch Warren e Billy Higgins), “Cornbread” de setembro/1965 (Hank Mobley, Herbie Hancock, Larry Ridley e Billy Higgins), “Standards” de janeiro/1967 (James Spaulding, Wayne Shorter, Pepper Adams, Herbie Hancock, Ron Carter e Mickey Roker) e “The Procrastinator” em julho/1967 (Wayne Shorter, Bobby Hutcherson, Herbie Hancock, Ron Carter e Billy Higgins).
Nesses albuns temos faixas com solos absolutamente perfeitos de Lee Morgan: técnica no mais alto nível, entusiasmo e garra sem esquecer o lirismo quando necessário, domínio absoluto da digitação, efeitos de meios pistões, glissandos, controle do vibrato, intensa e perfeitamente timbrada sonoridade até nos agudos mais extremos, inventividade lógica nas improvisações com ataques sempre bem colocados, sucessão de frases curtas e em outros momentos em “legato”, mas com swing latente; enfim um “senhor músico”.

RELACIONAMENTO - PROTESTO
Em 1967 Lee Morgan inicia seu relacionamento com Helen Moore, ele com 29 anos e ela com 42 anos.
Entrando na década de 70 do século passado, Lee Morgan une-se ao multi-instrumentista Roland Kirk em apoio à luta pela melhoria das condições de trabalho dos músicos americanos, na associação “Jazz And People Movement”, que culmina na promoção de um “antifestival” em protesto à baixa remuneração e às leoninas cláusulas contratuais do festival de Newport.

ÚLTIMAS GRAVAÇÕES - ÚLTIMA GRAVAÇÃO
Em 1971 e 1972 Lee Morgan participou de 06 sessões de gravação: 17/setembro/1971, 18/setembro/1971, 30/setembro/1971, 01/outubro/1971, 28/janeiro/1972 e, finalmente e em sua derradeira sessão de gravação, em 17/fevereiro/1972 no estúdio de Rudy Van Gelder tantas e tantas vezes freqüentado, com a “Charles Earland Orchestra” e cordas nos temas “Morgan” e “Speedball”, que foram lançados pelo selo Prestige e Fantasy.
Lee Morgan faleceu com 33 anos, assassinado no dia 19/fevereiro/1972 por sua ex-companheira Helen Moore, com a qual havia vivido por praticamente 05 anos e com quem havia rompido o relacionamento. Lee apresentava-se na ocasião com seu quinteto no “Slugs Club”, em Manhattan e, entre 02 “sets” discutiu seguidamente com Helen no balcão do bar, tudo presenciado por testemunhas entre as quais e em especial pelo baterista Billy Hart; ela decidida a reatar o relacionamento e ele decidido à não reconciliação; ela saiu do clube e ele subiu ao palco para o “set” final, onde tocando o último tema da noite foi surpreendido com o retorno de Helen que retirou um revolver calibre 32 da bolsa e disparou seguidamente em Lee, ferindo-o de morte.
Foi-se, tão jovem, um músico de exceção, sucessor de uma pequena dinastia de grandes no trumpete (e no flugehorn), deixando, felizmente para todos os amantes da boa música, alentada discografia.

Continua em (B), Filmografia e Bibliografia

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