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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

19 agosto 2007

HISTORIAS DO JAZZ n ° 44

O JAZZ NA REPRESSÃO

Essa aconteceu no principio dos anos setenta, quando em pleno regime ditatorial as repartições públicas tiveram seus cargos de chefia e direção até então ocupados por funcionários de carreira, preenchidos por militares.
Coronéis e brigadeiros passaram a condição de “colegas” e na verdade não incomodaram muito, a não ser quando um ou outro resolvia praticar atos administrativos , “dar ordens” sobre assuntos que não estavam familiarizados.
Outra prática eram as chatérrimas fichas de recadastramento que éramos obrigados a preencher a todo o momento . Não se limitavam a vida funcional.
Procuravam escarafunchar os mínimos detalhes, na esperança de quem sabe, encontrar mais um perigoso “comunista”.
Sempre fui irreverente e na terceira ou quarta “inquisição” comecei a inventar coisas . Num dos itens estava a pergunta : Compareceu a algum congresso ? Qual o assunto e onde foi realizado ?
Calmamente preenchi o quesito informando que comparecera aos congressos de Jazz realizados em Mar del Plata ,em Antofogasta e em Palmeira dos Indios. Não me preocupava com as conseqüências, pois era público e notório que tais fichas eram engavetadas e sequer examinadas.
O tempo passou e certo dia, ao me encaminhar para um dos setores da repartição veio ao meu encontro uma senhora,que trabalhava no Gabinete do Diretor e discretamente me passou um bilhete. Seria um torpedo, um número de telefone, um endereço ?
Fui para o lavatório e tive então a grande surpresa.
Dizia o bilhete : “Apresentar-se amanhã as 12 horas no Serviço de Segurança“.
Confesso que não me assustei . Afinal de contas, com mais de vinte anos de carreira, jamais fora sequer advertido por qualquer falta e muito pelo contrário, muito cedo já tinha ocupado cargos de chefia e direção. Participava de todos os cursos para o qual era convocado e mais tarde escalado para, com outros colegas,dar aulas ao pessoal concursado. Nada me pesava na consciência e dentro da minha clássica irreverência comuniquei a alguns colegas sobre a minha “convocação”.
Dia seguinte, doze horas em ponto me apresentei a recepção do Serviço de Segurança. Um funcionário pediu que aguardasse e foi me anunciar. Em seguida me levou até ao Gabinete onde seria interrogado. Por trás de uma mesa estava um senhor a paisana que cordialmente me estendeu a mão e mandou que sentasse. Sempre sorrindo, com minha ficha nas mãos, fez a primeira pergunta:
Luiz Carlos, você compareceu mesmo a esses congressos de Jazz ?
A resposta não se fez esperar :” Claro que não brigadeiro, primeiro porque eles não aconteceram e depois se tivessem acontecido eu não teria ido porque como funcionário público não teria verba suficiente.”
Veio a segunda pergunta : Pelo visto você deve gostar de Jazz . Verdade ?
Respondi – “Claro que sim brigadeiro.” e então dei todo o meu currículo incluindo os órgãos de imprensa em que escrevi e o programa de rádio que apresentava na Rádio Fluminense.
O brigadeiro sempre sorrindo perguntou : Não vai me dizer que você é o Lula de “O Assunto é Jazz”.
Respondi que sim e ele imediatamente entrou no assunto, não sem antes mandar acender a luz vermelha na porta do gabinete. Contou seu lado jazzófilo, as gravações que fizera quando em missão nos Estados Unidos , e perguntou se conhecia um colega que morava em Niterói, Sylvio Monteiro, que por coincidência era amigo nosso e fazia parte do nosso grupo.
Aí a coisa acendeu. Contou sobre as horas de jazz que os dois ouviam na base aérea, sobre os shows que assistiram nos Estados Unidos etc.
Quando o assunto é Jazz a conversa se desenvolve tranqüilamente e a troca de informações é uma constante. Qual o pessoal que gravou aquele disco; quando foi realizado o Concerto de Jazz no Municipal, em que ano morreu Clifford Brown e coisas que tais.
Esgotado o assunto exatamente as 16 horas, o brigadeiro levantou-se, me abraçou e prometeu comparecer as reuniões da AND que na época eram realizadas no restaurante Westfalia na Rua México, o que fez por três vezes consecutivas.
Ao sair do Serviço de Segurança e chegar ao hall dos elevadores encontrei um bando de colegas ”,preocupadíssimos” com a a minha convocação. Queriam saber o que houvera. Se eu sofreria alguma punição etc. etc.
Amarrei a cara e disse baixinho : “Não posso falar nada aqui. Vamos tomar um café que lá fora eu conto. “. Fomos até o Amarelinho, em frente a ABI e alí eu despejei : “È bom vocês tomarem jeito. A coisa está preta. “
Ante a ansiedade deles completei : “Acho bom vocês passarem a ouvir meu programa de rádio . O brigadeiro ouve e por isso me convocou para dar os parabéns.”
Primeiro alguns palavrões saudaram a minha resposta,em seguida suspiros de alivio por parte de alguns e por fim gostosas gargalhadas completaram aquela tarde.
Posso agora dar o nome do brigadeiro que chefiou a Segurança de minha repartição o qual tive a honra de conhecer. Ele faleceu vítima de um acidente de carro – Brigadeiro Armando Tróia, que mais tarde vim a saber ser pai de Eduardo Tróia,também jazzófilo e que teve programa na rádio Estácio.E tem mais, após seu falecimento, Eduardo me deu de presente a coleção de fitas cassete que lhe pertencera.
Só mesmo o Jazz !
llulla

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