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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

29 maio 2007

HISTÓRIAS DO JAZZ N° 38

A tragédia de Frank Rosolino

Como escrevi antes, os dois festivais de Jazz São Paulo/Montreux realizados em 1978 e 1980 foram o grande cenário para o surgimento de algumas histórias que conto nessa série. Essa, que entristeceu a todos que conheceram de perto Frank Rosolino , será transcrita da matéria que escrevi na “Tribuna da Imprensa” em 27 de dezembro de 1979, na época o único jornal que noticiou o fato.

“A Tragédia de Frank Rosolino “
A notícia é do “Melody Maker”, edição de 2 do corrente, que em apenas treze linhas condensa toda uma tragédia.
“Frank Rosolino , o trombonista de Jazz da West Coast , foi encontrado morto em Los Angeles na segunda feira. A polícia acredita que ele atirou e matou seu filho de onze anos, ferindo de forma grave um outro filho de sete, antes de atirar em si próprio. Rosolino fez seu nome com a orquestra de Stan Kenton,nos anos cinqüenta e participou de inúmeras sessões de gravação na West Coast.”
Fica difícil acreditar que um músico talentoso e com um temperamento alegre e tranqüilo viesse a por termo a vida , de forma trágica,laconicamente descrita pelo jornal inglês.
Conhecemos Frank Rosolino pessoalmente,no Festival de Jazz de São Paulo e com ele travamos ótimas relações de amizade. Estávamos no bar do Hotel Eldorado,quartel-general dos músicos que participavam do evento , conversando com Jimmy Rowles ,Ray Eldridge e Benny Carter. Rowles desenhava “cartoons” a nosso pedido,focalizando suas concepções sobre pianistas de sua preferência. Chega Raul de Souza e diz : “Lula , a fera chegou; você não queria conhece-la ? “
Ao seu lado,elegantemente trajado, com vistoso paletó branco , sorridente e bem humorado, Rosolino estende a mão e cumprimenta a todos. Senta-se ao nosso lado, pede uma cerveja e se interessa vivamente pelos desenhos de Rowles.
O astuto pianista acabava de desenhar uma caricatura de Oscar Peterson ,mostrando um rotundo crioulo,com enorme guardanapo no pescoço,cruzando talheres no ar e olhando avidamente para o piano à sua frente . A marca do instrumento: “Mine all mine.” ! O papel passa de mão em mão provocando gostosas gargalhadas. Rosolino me solicita os outros “cartoons”. Examina atentamente as concepções de Rowles sobre Erroll Garner, Art Tatum e George Shearing. Repetia a cada instante :” It’s lovely Jimmy ! “ . Rowles continua desenhando e sorrindo sorrateiramente. Termina o trabalho e nos estende o papel disparando sonora gargalhada. Era um “cartoon” dos mais picantes , no qual Rowles se retratava como um garçom despido, oferecendo um”soft drink” a uma dama sentada à mesa. Novas gargalhadas. Apresso-me em guardar a caricatura mas Rosolino protesta. Toma o papel das minhas mãos e diz : “Você deve ser um perigoso jornalista. Vai publicar isso e deixar Jimmy em má situação . Deixa que eu fico com esse” , enquanto guardava o desenho no bolso do paletó, piscou o olho e sorriu maliciosamente.
O assuntoapassa a ser Jazz e perguntamos a Frank se haveria possibilidades dele interpretar “Lemon drop” no Festival. Respondeu sempre rindo : “Por mim tudo bem Lula. Depende do “Souzabone” e dos músicos com quem irei tocar. Se eles quiserem,poderemos tentar.”
Nesse mesmo dia iria encontra-lo , já de volta do Anhembi,num desconfortável botequim situado em frente ao hotel. Em pé,junto a um estreito balcão estavam Raulzinho, Milton Banana,o contrabaixista Mathias Mattos e alguns circunstantes. Raulzinho entre generosos goles de caipirinha , relembrava os tempos do “Bottle’s”, as jam sessions do “Little Club”, comentando as dificuldades que os músicos tinham em se apresentar. De vez em quando interrompia a narrativa e dirigia-se a Rosolino em inglês. Frank ria e comentava :”Não adianta Raul,se com tanto tempo de “States”
você não aprendeu inglês ,jamais conseguirá. Não entendo nada do que você diz.” E caia na gargalhada.
No dia de sua apresentação chegamos juntos ao Anhembi. Interessou-se logo pela camisa com o emblema do festival e perguntou se poderia adquirir algumas. Levei-o ao “stand” de vendas e quando começava a escolher as cores e tamanhos , foi interrompido por César Castanho que chegou esbaforido. Pegou-o pelo braço informando que a vesperal estava prestes a se iniciar e os músicos já estavam sendo chamados.
Só no dia de seu embarque fui encontra-lo novamente. Estava no “hall” do hotel aguardando a bagagem e tomando outras providências . Quando me viu , interrompeu a tarefa e sempre sorrindo autografou uma antiga foto que ilustra essa matéria . Agradeceu os elogios e se despediu dizendo : “Foi um grande prazer tocar no Brasil. Um país magnífico com um povo alegre e que adora a música. Voltarei sempre que puder.”
Levei-o ate o carro e presenteei-o com um chaveiro com a Bandeira Brasileira, propaganda da semana da pátria. Agradeceu mais uma vez, sempre sorrindo,apertou-me a mão e se foi, para sempre. “
Resolvi escrever para Raulzinho indagando os motivos que levaram Rosolino a cometer aquela tragédia. Raul me respondeu em carta de 19 de março de 1979, cujo trecho reproduzo :
“Você me perguntou na carta que situação era com respeito do Frank , meu amigo ninguém entendeu, nem tão pouco eu que era ligado com ele as pampas, não sei o que houve, só sei por intermédio da mulher dele que a primeira mulher também se suicidou e as segunda também e ele era muito alegre com as pessoas fora de casa, mas em casa, ele era muito inseguro e também muito frustrado, também com o problema da separação é o que eu pensei no momento, mas ninguém sabe ao certo o que foi que houve na cabeça dele quando chegou em um sábado de madrugada às 4.30 da manhã e fez o que fez. Mas todo o dia eu faço uma oração para o espírito dele ficar descansando em paz. “

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