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BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

24 maio 2007

HISTÓRIAS DO JAZZ– n° 37

O "Laura" de Don Byas


Nos bons tempos das “Lojas Murray”, o pessoal de Niterói teve a oportunidade de conhecer Sylvio Tullio Cardoso e logo travar uma boa amizade com o critico de “O Globo”.
Sylvio conversava com todos, esclarecia dúvidas e dava conselhos sobre“ o que ouvir no Jazz “ . Logo logo os laços de amizade se estreitaram e surgiram os convites para que o amigo atravessasse a baia e participasse das nossas reuniões. Embora nessa época o famoso”Clube dos Saúvas” ainda não tivesse sido fundado, as reuniões aconteciam com o objetivo de se tomar conhecimento do que havia sido adquirido nos sebos pelos “atletas”.
Assim, em um sábado , Sylvio pegou a velha barca da Cantareira, atravessou a baía rumo a casa de Danilo Lemos na Alameda São Boaventura, sobraçando um pacote de discos que mostraria aos presentes. Sylvio vendia alguns, sorteava outros para quem acertasse um jazz teste e retornava com as “matérias” que levava só para audição. Foi nesse dia que fui surpreendido por uma gravação do saxofonista Don Byas. Desses discos que quando são tocados , todos param de conversar e prestam atenção a cada detalhe.
O tema era “Laura” , uma gravação com Byas e uma seção rítmica que primava pela beleza da interpretação. Pedi para ver o disco e me lembro que tinha um selo azul da marca Nixa ou Supraphon , europeu sem dúvida alguma, e que à partir daquele momento passou a figurar na minha lista . Esse foi um dos 78 que retornaram com Sylvio . Não estava à venda.
Catar 78 rotações nos sebos da Rua São José era tarefa diária mas, a esperança de encontrar aquela gravação de “Laura” era nenhuma. Encomendar então, nem pensar.
Os anos foram passando, chegaram os elepês e a esperança aumentou. Certo dia encontrei um 10 polegadas de Don Byas da gravadora Prestige, olhei as músicas e mais uma vez desanimei. o “Laura” não constava do repertório.
Quando Sylvio faleceu , fui avisado que o seu acervo estava sendo vendido e com alguns companheiros fomos até ao apartamento de Dona Mirinha (mãe de Sylvio) que ficava na rua do Catete. Lá estavam as preciosidades que o amigo colecionara durante tanto tempo.
Os livros, as revistas encadernadas , os elepês , os 45 rotações e os velhos 78.
Procurei entre as “pastilhas” o “Laura” de Don Byas, em vão. Alguém chegara primeiro ou até quem sabe, Sylvio já teria passado adiante . Nova frustração.
Certa ocasião, indo a São Paulo , conheci na casa de Pedro Cardoso o saxofonista e clarinetista Silvio Fats , então na Traditional Jazz Band. Contei-lhe a história e ele me informou que o problema estava resolvido . Possuía a gravação em CD e tiraria uma cópia para mim. Prometeu e cumpriu, me presenteando com um álbum intitulado “An introduction to Don Byas – his best recordings 1938-1946.”
Voltando para Niterói a primeira coisa que fiz foi colocar o CD na faixa 16, “Laura” e agucei os ouvidos. Belíssima interpretação mas, não era a gravação do velho 78 de Sylvio Tullio . O encarte indicava que a versão era de setembro de 1945, com Johnny Guarnieri, Slam Stewart e J.C.Heard nos acompanhamentos. Ainda asssim, valeu a tentativa.
Resolvi consultar a discografia de Charles Dalaunay e fui encontrar três gravações de”Laura” por Don Byas. A acima descrita, outra de Janeiro de 1947 com Peanuts Holland (tp)- Billy Taylor (p )-J.J.Tilché (g)- Jean Buchetti (b) e Bufford Oliver (dm) e finalmente a gravada em Paris em 17 de março de 1952 com Art Simmons(p)- Joe Benjamin( b) e Bill Clarke (dm). Só podia ser essa última a que procurei durante tanto tempo mas, o entusiasmo pela procura havia arrefecido
Certa ocasião, estava na antiga “Breno & Rossi” examinando algumas novidades quando me deparei com um CD intitulado : “Jazz – Club-Mainstream – Tenor Sax”.
Ao verificar os intérpretes levei um susto : Três pérolas do sax-tenor,da minha preferência constavam da lista : “Tenderly” por Ben Webster, “Port of Rico” com Illinois Jacquet e finalmente o “Laura” com Don Byas , aquele gravado em Paris que eu tanto procurei.
Finalmente poderia ouvi-lo depois de tantos anos. Enquanto soava o “glissandi” da abertura do tema, agradeci aos deuses do Jazz por mais uma graça alcançada.

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