Editores e Colaboradores : Mauro Nahoum (Mau Nah), José Sá Filho (Sazz), Arlindo Coutinho (Goltinho); David Benechis (Bené-X), José Domingos Raffaelli (Mestre Raf) in memoriam, Luciana Pegorer (PegLu), Luiz Carlos Antunes (Llulla) in memoriam, Ivan Monteiro (I-Vans), Mario Jorge Jacques (MaJor), Gustavo Cunha (Guzz), José Flavio Garcia (JoFla), Alberto Kessel (BKessel), , Gilberto Brasil (BraGil), Reinaldo Figueiredo (Raynaldo), Claudia Fialho (LaClaudia), Marcelo Carvalho (Marcelón), Marcelo Siqueira (Marcelink), Pedro Wahmann (PWham), Nelson Reis (Nels), Pedro Cardoso (o Apóstolo) e Carlos Augusto Tibau (Tibau).

BLOG CRIADO em 10 de maio de 2002

25 abril 2005

23 abril 2005

EXCELENTE NOTÍCIA - NESTA QUINTA, NA XIX EDIÇÃO DA CHIVAS LOUNGE - SORTEIO DE PASSAGEM PARA NY !!!

O público presente à próxima versão da Chivas Lounge desta quinta feira, dia 28, no Mistura Fina concorrerá a uma passagem, com direito a acompanhante, para New York, onde rola hoje o melhor jazz do mundo.

A promoção prenuncia o lançamento, pela Fórmula Turismo, promotora do sorteio junto com a American Airlines, o Mistura Fina e o CJUB, de programas de viagens montados com a finalidade de assistir-se ao que há de melhor no panorama jazzístico da Big Apple ou em outras cidades, quando das conjunções de astros imperdíveis para os amantes do estilo, pela indicação e orientação deste CJUB.

Para concorrer bastará preencher o cupom distribuído à entrada pelos representantes da Fórmula Turismo e colocá-los na urna. O sorteio ocorrerá ao final do tributo de Idriss Boudrioua ao incomparável Michel Legrand.

Todos lá, pois como visto, esse concerto promete muitas alegrias.

19 abril 2005

XIX EDIÇÃO DO PROJETO CHIVAS LOUNGE - "LEGRAND PAR IDRISS"

Do alto de seus mais de cinquenta anos de carreira, Michel Legrand, um dos maiores compositores e arranjadores a surgir em todo mundo no século XX, será o foco do XIX Concerto da Série Chivas Lounge, produzida pelo CJUB, com o patrocínio de Chivas Regal/Pernod-Ricard do Brasil.

Após a triunfal apresentação do David Feldman Trio abrindo a temporada de 2005, a direção do segundo concerto, já aberto a reservas para o dia 28 de abril, sempre às 21 hrs., no Mistura Fina, não poderia deixar de ser entregue, em se tratando de um tributo a Legrand, a um de seus colaboradores, que com ele aqui se apresentou recentemente: o fenomenal saxofonista franco-argelino, Idriss Boudrioua, dos mais proeminentes instrumentistas em atividade no país.




LEGRAND PAR IDRISS já se anuncia um espetáculo inesquecível, que brindará o público com as canções universais do gênio francês, tais como THE SUMMER KNOWS ("Verão de 42"), WHAT ARE YOU DOING THE REST OF YOUR LIFE, LA VALSE DES LILAS, WATCH WHAT HAPPENS e THE WINDMILLS OF YOUR MIND (LES MOULINS DE MON COEUR), entre vários outros sucessos do compositor, executados pelo quinteto estelar que Idriss Boudrioua (saxes tenor, alto e soprano e arranjos) escalou, com Alexandre Carvalho (guitarra), Alberto Chimelli (piano), Alex Rocha (contrabaixo) e Xande Figueiredo (bateria), todos músicos do primeiro time do jazz brasileiro.

Garantam seus lugares para este espetáculo, inédito em palcos brasileiros, LEGRAND PAR IDRISS (ingressos diretamente no Mistura Fina, tel. 2537-2844 ou pelo Ticketronics, www.ticketronics.com.br), mais um concerto com a marca de qualidade e excelência que são a razão de ser do CJUB, no limiar de seu terceiro aniversário de fundação.

18º CHIVAS LOUNGE - DAVID FELDMAN TRIO - MISTURA FINA, 31/3/2005 - 2º set - @@@@@

Não foram poucos os sustos.

O intervalo, dando lugar à premiação dos melhores no jazz, em 2004, pela votação do CJUB, prestou-se a algumas indagações, muitas comuns aos jazzófilos mais experientes.

De onde teria "saído" aquele garoto - e eu, indo além - aquele "branquelo", com tanto domínio de swings tão diferentes, como o beat afro-americano e a batida afro-brasileira ?

Como, tão jovem - e tendo morado fora do país anos a fio - recita já a obra completa dos mais influentes pianistas do sambop, como Amilton Godoy, Dom Salvador, Luiz Eça, Edson Frederico, Guilherme Vergueiro, e Osmar Milito, entre outros ?

Claro que o convívio, em NY, com os bambas do samba-jazz lá radicados, Duduka, Helinho, Nilson, Paulinho Braga e o próprio Salvador, certamente ajudaram Feldman a a apreender os maneirismos do samba. Se é que já não nasceu, de alguma, forma, os sabendo todos. Tudo é possível para os gênios, quando gênios.

Lembro, por exemplo, de Victor Manga, fenomenal baterista brasileiro, precoce e tragicamente morto, que, gravando com Salvador, ao lado de Edson Lobo, embora sendo um músico essencialmente de jazz, guiado pelas bússolas de Blakey e Elvin Jones, transformou sua amizade e convívio com Edison Machado num permanente workshop das divisões do samba, até dominar completamente o estilo, como relata J. D. Raffaelli no texto de apresentação daquele antológico álbum (Don Salvador Trio, reeditado em LP e CD, pela extinta Imagem).

O fato é: estávamos diante de um pianista pronto. Pronto para o jazz e pronto para o samba. Mas parecia muito cedo para tanto, dizia a prudência.

Sozinho, ele retorna ao palco e, escoltado apenas pelo silêncio, acena, em breve introdução, com a geometria vista no set anterior, porém logo irrompendo na maravilhosa ingenuidade de A Foggy Day (Gershwin), ingenuidade sempre provocada com beliscões de malícia atonal. Foi a Für Elise ou a Sonata de Scarlatti, ou o Prelúdio de Bach, que os pianistas clássicos de outrora tanto usavam para, num jargão a mim repetido desde a infância, "esquentar os dedos".

O Rapaz de Bem (J. Alf), já com trio recomposto, apresentou um Barata impossível, comentando o tempo todo, e isto com o líder virando pelo avesso os mais variados licks do piano, para o que precisou - e teve - em Helder, âncora notável e surpreendente.

Se, no entanto, respondendo a diabólico dilema - a que, mercê divina, jamais precisarei enfrentar - tivesse de trocar toda a música que ouvi naquela noite, por uma única, não pensaria duas vezes. Acho até que poucos dos presentes hesitariam, porque, sem dúvida, foram as inflexões de Inútil Paisagem (Jobim) que pavimentaram nosso caminho até o Nirvana, onde encontramos ninguém menos do que Red Garland, a inventar um de seus hipnóticos blues circulares, só que desta vez - incrível - por sobre a tão famosa slow bossa imortalizada por Maysa e Elis.

Impelido, talvez, pela entrega total de um Helder absolutamente comovido ao solar, Feldman - sublime inspiração - usou do único change possível na harmonia, para verter a Inútil Paisagem jobiniana em campos de algodão do sul dos EUA escravocrata.

Era preciso, então, um choque de realidade, e bem urbano, para fazer cessar o transe, e Tematrio (Don Salvador), com seu parentesco monkiano, serviu de aterrisagem segura para o ouvinte, à custa, todavia, do enfrentamento, pelo trio, das turbulências criadas pela improvisação avant-garde, quase à moda de Cecil Taylor, em perigoso mas sempre atraente outside, domesticado na volta final ao tema.

Tanta aventura só poderia ceder mesmo, diante do amor. Feldman compôs para a mulher, Tereza, uma autêntica Gymnopédie, de fazer inveja a Satie: Tetê, pérola que a versão em piano solo fez reluzir ainda mais, clareou a cena impressionista e recuperou, em nossos corações, a pureza das verdadeiras paixões.

Speak Low, ma non troppo, desta vez. O pianista apenas pincela Lullaby of Birdland (G. Shearing), logo após principiar o batido standard de K. Weill, como sinal de que irá respeitosamente "brincar" com toda a chord progression, e, com isso, agregar o frescor do seu jazz às linhas tão conhecidas do grande público: "tomorrow is here/tomorrow is near/and always too soon".

Fecharam a noite com Quintessência (J.T. Meirelles), dos mais legítimos sambas-jazz, em andamento acelerado, e novamente usando da gangorra dinâmica tão bem pontuada por glissandos abruptos da mão esquerda do piano, efeito muito utilizado por Mccoy Tyner e seus seguidores, como Mabern e Calderazzo, culminando com explosiva intervenção do dínamo (apud Raffaelli, de novo) Rafael Barata.

David Feldman mostrou, afinal, que sabe explorar, com perfeição, alto bom gosto e nos momentos certos, os lados percussivo, harmônico e puramente melódico de seu instrumento, alternados ou associdados, e em grau de excelência privativa apenas de grandes mestres da história do jazz.

A verdade de sua música parece inexorável.

Você e Eu (C. Lyra) retornaria, em bis tornado compulsório pelo platéia arrebatada, que mereceu uma versão "novinha em folha", inteiramente diversa da que abriu o concerto, como dez ou cem outras, sempre diferentes, aquele trio tocaria e tocará ainda, porque, é simples, infinito seu talento.

O DIA DO SAZZ

Hoje é dia de Sazz! Nosso confrade e amigo está dando mais uma volta em seu calendário, completando 53 anos de efervescência e bom humor.

Leve como um ponta-de-lança, com a visão de um meia-armador e o conhecimento acumulado de um veterano lateral direito, nosso Sazz continua o ótima praça de sempre, com suas observações diretas e fulminantes, como petardos que quase sempre tomam a direção do gol. Família (grande, enorme), jazz e futebol - acho que a ordem é essa - representando seus bons interesses, o Sazz sempre tem fórmulas diretas para descontrair qualquer ambiente. Quicou, ele chuta, e quem estiver na frente ou se defende ou leva bolada.

Um grande abraço pro confrade, e o desejo de muita saúde e felicidades pela data. E que, como presente maior, seu time consiga um técnico à altura das suas aspirações. Parabéns pra você, ZéSá!!!

17 abril 2005

SEM PALAVRAS

Até porque aqui não cabem, em todos (ou nenhum) os sentidos. Este é um blog dedicado aos outros prazeres de um grupo de amigos, dentre os quais não se inclui o futebol.
No entanto, há nele vários confrades que tem amor à camisa tricolor. Para esses (e para mim mesmo, claro!) vou pedir ao Feldman um arranjo jazzístico do hino do Flu.
Paciência, caros flameguistas, botafoguenses e vascaínos, seu momento há de chegar.
Este é só nosso!

12 abril 2005

NOSSAS BELAS CHARUTEIRAS

Há uma cobrança quase que diária que este blog não prestigia mais as mulheres, só por que no passado postamos fotos de belas criaturas charuteiras, como uma forma de unir o agradável e o belo aos nossos prazeres aqui descritos. Com efeito, nossas mais constantes musas tem sido as cantoras de jazz. Nada muito sugestivo, na realidade, como os "cobradores" desejam. Como as moças que fumam charutos tem de fato alguma coisa extra, indescritível, que nos fala ao coração, atendo aos pedidos com uma ilustração nada menos que gloriosa. No caso, a bela mexicana Salma Hayek, empunhando um Robusto. (clique para ampliar)

HANK JONES

Tendo já escrito aqui sobre alguns pianistas como John Lewis, Gary McFarland, Red Garland e Don Sebesky, resolvi voltar ao instrumento para algumas linhas, desta vez sobre um dos mais veteranos em atividade - Hank Jones -, irmão mais velho de uma família musical (Thad e Elvin), próximo a completar 87 anos, ainda gravando e tendo se apresentado recentemente no Village Vanguard.
Considerado pelos entendidos o mais introvertido dos Jones, é um dos últimos da primeira geração do be-bop, tendo gravado inclusive com Charlie "Bird" Parker.

Hank Jones, além de uma vasta discografia é também líder do "The Great Jazz Trio" com diversas formações, sendo seus 2 últimos cds com o trio, "Autumn Leaves", de 2003, acompanhado por Elvin Jones (bateria) e Richard Davis (baixo) e "'S Wonderful" do ano passado, com Jack DeJohnette (bateria) e John Patitucci (baixo), com quem se apresentou no Vanguard durante um fim de semana no mês passado.

Ambos cds realizados só com standards e arranjos do próprio Hank, que não cabe aqui falar de cada um dos temas, onde destaco as gravações de "Summertime", "Bye Bye Blackbird" e "Autumn Leaves" do primeiro, bem como "Take Five", "Moanin'" e "Green Sleeves" do 'S Wonderful.

Soube que na temporada do Village Vanguard, Hank Jones chegava em cadeira de rodas, deixando no ar ser aquela sua última apresentação ao vivo...

Como diria um amigo nosso "Saravá Hank Jones!" e felizes daqueles que se emocionam com seu dedilhado elegante e, principalmente, de grande sensibilidade.

11 abril 2005

O "TEAM CJUB" AJUDANDO A HUMANIDADE


Aí está o "extrato" atualizado do trabalho do time do CJUB no processamento de proteínas usando o tempo dos nossos computadores pessoais em prol da humanidade, via Stanford University. Quem quiser saber mais, ver um post mais embaixo. Colaborem e se possível usem o número do time CJUB para isso. A Ciência precisa de cada um de nós.

A gente agradece.

09 abril 2005

A FOTO HISTÓRICA DO JORNALISMO JAZZÍSTICO NO BRASIL

A César o que é de César.

O CJUB se orgulha de ter prestado tributo às quatro lendas vivas do jornalismo jazzístico no país, acima de tudo a eles oferecendo o concerto inesquecível do David Feldman Trio, que, junto aos homenageados, acendeu a noite do último dia 31 de março.

Luiz Orlando Carneiro e Luiz Carlos "Lula" Antunes receberam seus diplomas pela conquista do Prêmio CJUB OS MELHORES DE 2004, o primeiro, na categoria mídia especializada e, o segundo, agraciado com a premiação especial, "contribuição para o desenvolvimento do jazz no Brasil".

José Domingos Raffaelli e Arlindo Coutinho, por sua vez, deram e darão nome vitalício, respectivamente, ao citado prêmio especial e ao de melhor músico brasileiro, no ano.

Foi a primeira vez, em décadas, que, a um só turno, os quatro voltaram a se reunir, dando ao CJUB o orgulho e o privilégio de ter promovido such high summit of jazz scholars.

Por isto, esta talvez seja a foto mais histórica do colunismo jazzístico brasileiro, já carinhosamente apelidada de "a banca examinadora":



(Da esquerda para a direita: Coutinho, L. O. Carneiro, "Lula" e Raffaelli)

07 abril 2005

E ASSIM FALOU LUIZ ORLANDO CARNEIRO (NO JB DE HOJE)

Sigam este link para acessar a matéria do Mestre LOC em sua coluna habitual do Jornal do Brasil (ou cliquem na reprodução abaixo, para ampliá-la).



E vai daqui o nosso agradecimento pela menção, ali, ao trabalho desenvolvido pelos amantes de jazz que compõem este CJUB. É, para nós, excelente estímulo, que nos renova e instiga a produzir concertos ainda mais interessantes, não apenas com o objetivo mais visível, o nosso próprio deliciamento, mas de levar aos demais amantes do estilo a mensagem: "JAZZ IS ALIVE AND KICKING!"

Valeu, Mestre!

05 abril 2005

18º CHIVAS JAZZ LOUNGE - DAVID FELDMAN TRIO - MISTURA FINA, 31/3/2005 - 1º set - @@@@@

Nunca foi tão fácil estar em Nova York, mais especificamente no Village Vanguard. Estar e entrar, aliás, na própria vanguarda do samba e - porque não - também do jazz.

Bastou ir à Lagoa na quinta-feira passada e pronto: a viagem estava completa. E que viagem !

A premissa de homenagear a geração que forjou o samba-jazz no Beco das Garrafas foi só o ponto de partida para o devastador concerto que o trio do pianista David Feldman (Jorge Helder, contra-baixo; Rafael Barata, bateria) ofereceu ao afortunado "turista" que, dirigindo-se ao Mistura Fina, nunca imaginou aterrissar "virtualmente" no mais sagrado templo jazzísitico nova-yorquino, quiçá de todo o mundo.

Foi assim que me senti, sentado ao lado "apenas" da História viva do jazz no Brasil: José Domingos Raffaelli, Luiz Carlos "Lula" Antunes, Luiz Orlando Carneiro e Arlindo Coutinho, reunidos pela primeira vez, em décadas, e como que formando uma "banca examinadora" que normalmente faria tremer qualquer músico, ainda mais o jovem Feldman, praticamente debutando, como líder, em terra natal.

Mas esse não era o espírito de nossos "Feather", "Hentoff", "Gitler" e "Schuller". Afinal fomos todos para uma noite de festa, de premiação, de samba-jazz.

O "problema" é que a música sublime, todo o tempo paradoxalmente intuitiva e cerebral, que o gênio de Feldman engendrou, acabou arrebatando a cada um dos presentes, provocando e evocando as emoções mais diversas e puras que cada um tinha a compartilhar.

Nem o próprio CJUB tinha a noção do autêntico tsunami que elegeu (mérito maior para Mauro Nahoum e Marcelo Carvalho) para abrir a temporada de 2005.

Sua técnica límpida, que censura até pequenos "esbarrões" (como a de um Michelangeli, ou, modernamente, Pogorelich e Sokolov, todos pianistas clássicos), desafia o fato de nunca haver frequentado conservatórios.

- Nunca estudei ou toquei música clássica. Sou um pianista de jazz, sempre fui; o que não significa não tenha aprendido os "rudimentos" do piano - David insiste.

Mas as notas pinçadas em paciente stacatto serialista, e que levaram à exposição de Você e Eu (C. Lyra) sugeriram já que aquele "menino abusado" realmente não estava ali para brincadeiras.

Fiel aos preceitos do "talmud torah" monkiano, o estilo do pianista alinha com alguns dos mais talentosos discípulos do "alto sacerdote do bebop", em especial os da geração projetada nos anos 80/90, como Uri Caine, David Kikoski, Jean-Michel Pilc, Danilo Perez e Stephen Scott, entre outros.

Como eles, Feldman não veio para ser mais um. Nasceu para fazer História.

Por isso, acertou não só no conceito do espetáculo (pois o jazz-bossa foi, sem dúvida, o que de mais sofisticado a música brasileira produziu até hoje) mas também na escolha do precioso repertório - quase todos, temas conhecidos - a que deu tratamento sempre original e personalíssimo, como, p.e., na jóia de Baden, Só Por Amor, de harmonias tornadas parelhas as do clássico I Fall in Love Too Easily (Cahn-Styne), semelhança que Feldman fez questão de ressaltar em sucessivos choruses de extrema beleza.

Sambou ... Sambou (Donato) perfilou os fast fingers do líder ao gênio de Rafael Barata, aqui explicitamente rendendo tributo a Edison Machado, em brilhante arranjo de variada dinâmica.

O largo em que se transformou Lígia (Jobim), com narrativa espraiada e contemplativa de início, revelou, após, um dos trunfos do trio, qual seja a constante superposição de climas e clímaxes, ladeira acima e abaixo em sentimentos, recurso muito utilizado exatamente pelas grandes seções rítmicas que fizeram história no beco, como o Zimbo e o Tamba. Permeando a melodia, constantes citações de I Remember Clifford (B. Golson) e no fade out, gotas de uma Garota de Ipanema (Jobim) expressionista, voltando para o mar.

Surgiu então, o maior desafio da noite, para o conjunto: domesticar a geométrica Evidence (Monk) para o samba. Feldman ignorou as dificuldades inerentes a - no mínimo sui generis - transição e, discorrido o tema, logo atacou um solo furioso, no que, aí sim, coube a Barata e Helder, com maestria, manter o trilho do heróico - e bem sucedido - arranjo, até o final.

Ousaram mais uma vez ao por de lado o ostinato característico da "levada" de Estate (tornada um clássico por João Gilberto no LP Amoroso e sacralizada por Shirley Horn e Johnny Mandel no álbum Here's to Life), preferindo remoer as entranhas da comovente melodia, toda apoiada em modulações. Jorge Helder, empunhando extraordinário instrumento, dele tirou as profundezas da alma em inspirado improviso, tendo ao fundo, entretanto, um piano de intenção sempre bossa, abandonada só no fim, para uma inesperada visita a Debussy.

Fechando o set, uma justíssima homenagem a Milton Banana, com a derivação bossada de Now´s the Time (Parker): São Salvador, de Durval Ferreira, ainda mais febril que no andamento original, traduziu todo o virtuosismo do trio, Feldman diabólico em oitavas super rápidas e escalas descendentes a la M. Tyner, culminando com uma bridge antológica, inventiva como há muito não se via (miniclip aqui).

No intervalo, confesso, não conseguia parar de sorrir. O prodígio, descansando no camarim, nem de longe suspeitava que, pelo menos eu, por sua causa, resgatara o orgulho de ser brasileiro.

(continua)

Jornal do Brasil, 2 de abril de 2005, Caderno B, pág. 3

CLIQUE NA ILUSTRAÇÃO PARA AMPLIAR


03 abril 2005

NOTA NO JB: NOITE DE JAZZ

O Jornal do Brasil, que mantém a excelente coluna sobre jazz escrita pelo Mestre (e CJUBiano Honorário) Luiz Orlando Carneiro, repercutiu assim a estrondosa noite da última quinta-feira, no Mistura Fina.
Daqui o nosso agradecimento ao jornal, por ter possibilitado a presença do Luiz Orlando, para receber o para lá de merecido prêmio que lhe concedemos.

©CJUB Melhor do que isso, apenas, foi poder ter conseguido reunir no mesmo palco os maiores conhecedores do jazz no país, nas pessoas do Luiz Orlando, dos nossos José Domingos Raffaelli e Arlindo Coutinho e ainda o Luiz Carlos Antunes - o verdadeiro Lula. Sem contar que, na platéia, havia a presença de Estêvão Hermann, outro grande conhecedor e entusiasta do jazz nas terras brasileiras.

David Feldman e seus ótimos colaboradores, Jorginho Hélder e Rafael Barata, puderam valorizar plenamente a 18a.edição dos concertos produzidos pelo CJUB com uma apresentação excepcional, à altura desses nossos incentivadores e pontos de referência. O mais curioso é que Feldman nunca soube, antes do espetáculo, que haveria ali "banca examinadora" tão poderosa quanto exigente, o que valoriza ainda mais o seu trabalho - todos os arranjos ali apresentados tiveram o seu dedo - e o de suas valorosas companhias no palco.

Agradecemos ainda e especialmente à Teresa Sequerra-Feldman por seu esforço e dedicação contínua para que o concerto tivesse o brilho que teve. E ainda às presenças inspiradoras de Leo Gandelman, Osmar Milito e de Sheila Zagury, estes dois últimos músicos que também já se apresentaram em concertos produzidos pelo CJUB.

02 abril 2005

UOL, OU A DESINFORMAÇÃO

Minha página principal é a UOL, de quem sou assinante. Mas vou rever essa preferência pelo mal – pior, a desinformação - que o site presta à música brasileira. Via Ziriguidum (uol fotoblog...) - o mesmo daquela matéria enganosa sobre a Ithamara Koorax na Down Beat - um tal Beto Feitosa é quase porta-voz oficial das nossas maiores gravadoras, hoje interessadas em promover o que há de mais medíocre. Consegue adiantar que o novo CD da insuportável Maria Bethânia, em homenagem a Vinícius de Moraes, será o “disco do ano”. Ainda promove com entusiasmo um "show" da Simone (Baiana da Gema), grande brincadeira de mau gosto. E, para completar, através de seu editor musical, Antonio Farinaci, estampa Tom Zé em seu último CD como um resgate da vanguarda da música paulistana - tem a enfeitada Zelia Duncan como aliada no Rio.
Tom Zé, ao lado de alguns oportunistas como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, músicos de ocasião e primários, não podem representar o que há de melhor na música paulistana. Uma enorme injustiça aos craques maravilhosos que lá existem. Feitosa define TZ como uma "inteligência anárquica", eufemismo plástico de enganador. E diz mais:"Já reparou que a vanguarda sempre vem de São Paulo? Desde a Tropicália, passando pela Lira Paulistana até hoje. Parece que a grande cidade tem um carinho maior com quem é diferente e inova".
Miele entrevistando Tom Zé. Vem a pergunta básica: “Quando percebeu que seria um músico profissional?” Resposta:”Eu nem tinha idéia. Não sabia nada ( e ainda não sabe) de música..."Miele, claro, sem graça, encerrou o papo. E agora o tal CD. Vejam a pérola dita por Tom Zé:”O pagode e a mulher têm em comum o fato de serem dois excluídos, e eles vêm reivindicar seus direitos nessa opereta. Tanto o gênero musical quanto as mulheres são segregados. Um, culturalmente, as outras política e sexualmente”.
O que irrita é que a internet dá espaço a bajuladores comprometidos e imbecis de plantão que acham – e devem ter certeza – que estão lidando sempre com idiotas.
Ao lado de Miles Davis, nosso Hermeto disse aos americanos:"Para mim, o pai da música é a harmonia; a mãe, o ritmo". Pela mesma ótica, essa pseudo vanguarda paulistana está irremediavelmente órfã.

PS. Tom Zé nem faz a diferença entre o pagode original e o pagode paulistano (Negritude Jr. e aberrações do gênero).
PS II. Sobre Arrigo e Itamar (recentemente falecido), falo com total conhecimento de causa. Os dois sairam de Londrina e se incorporaram ao "underground" paulistano, aliás pródigo em acolher supostos "gênios".
PS III. Enquanto isso, Zé Luiz Mazziotti, um dos maiores cantores criados em São Paulo - que o diga Raffaelli - não conseguiu até hoje lançar oficialmente o seu lindo CD em homenagem ao Chico Buarque, aliás com um tempêro jazzístico raro e valorização dos músicos participantes.
PS IV. Mil perdões adiantados. Afinal, o assunto musical do blog é jazz. Mas estava indignado com tantos absurdos.

01 abril 2005

A NOITE DE ONTEM NO MISTURA, COM O DAVID FELDMAN TRIO

Como de hábito, vou deixar os comentários sobre a parte técnica para os cognoscenti. Só vou falar aqui da emoção que permeou a noite de ontem no Mistura, na apresentação do David Feldman Trio.

David e seus dois companheiros, Jorge Hélder e Rafael Barata, conseguiram produzir e entregar à numerosa e eclética platéia presente, um milagroso remédio em forma de música, panacéia que considero, seria capaz de curar grande parte dos males de que a humanidade vem padecendo.

Ouviu-se, sob a forma dos acordes do piano de Feldman, das cordas do baixo de Hélder e pela pontuação delicada e precisa de Barata, uma saraivada de benesses: generosidade, simpatia, entrega, doação, alegria e amor, só coisas muito boas, enfim, saídas da vasta cornucópia de idéias instigadas pelo e instigadoras do bem. Foi uma verdadeira recauchutagem de valores positivos a encherem nossas cabeças tão atingidas pelas más notícias diárias, não só do Brasil mas do mundo todo.

Quem estava ali pode provar um gostinho do Paraíso, musicalmente falando. Poucas vezes uma platéia se deixou conduzir com tanta facilidade e felicidade pelos caminhos do esplendoroso parque que o Trio escolheu para levar-nos a passeio. Fato talvez explicado pela boa familiaridade do público com os temas que Feldman pesquisou e selecionou para mostrar seu trabalho - em sua maior parte de compositores brasileiros de extenso valor musical, depurados por anos de execuções diferentes nos tempos do Beco (e nos discos que registraram o movimento ali desenvolvido) -, o fato é que todos puderam acompanhar e perceber, e diga-se de passagem, com visível interesse, as ricas nuances dos improvisos jazzísticos apresentados com maestria por Feldman, Hélder e Barata.

Com a venerável presença na platéia do "dream-team" dos críticos de jazz do país, além de diversos dos mais empedernidos, veteranos e exigentes jazzófilos do Rio de Janeiro (faltaram vocês, Jo Flavio, Pedro e Felipe) os sorrisos de satisfação e contentamento presentes às faces de todos, deram-nos o tom das "curas" ali propiciadas pelo Doutor David e seus assistentes.

Se fossem Pajés, teriam feito chover. Como músicos, fizeram-nos sorrir. E como dizem que rir é melhor remédio, saímos de lá plenamente recuperados e leves e alegres, prontos para vários anos de vida a mais.